terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Um Passeio por Alenquer



Judiaria da Vila de Alenquer


Vila portuguesa pertencente à região da Estremadura,
com cerca de 10.800 habitantes.


Em 1212 Alenquer é entregue a D. Sancha, filha d'el-rei D. Sancho, que no mesmo ano lhe atribui foral. D. Dinis concederá novo foral em 1302, reformado em 1510 por D. Manuel.

Durante a Idade Média viu assentar a primeira comunidade judaica. Esta enraizou-se numa zona do centro histórico que ainda hoje preserva os nomes de Rua, Travessa e Beco da Judiaria.




O topónimo Alenquer poderá derivar do árabe Al Ain Kair, já a tradição popular aponta este termo para um tipo de cão alano, conhecido pela sua agressividade, e que na época da reconquista, os mouros teriam com eles para dar o alerta em caso de ataque, (D. Afonso Henriques deparou-se com uma cidade fortemente defendida pelos mouros e decidiu conquista-la. Diz-se que na manhã em que o rei decidiu tomar o castelo, indo ele com o seu séquito tomar banho no rio e fazer as suas correrias, viram que um cão grande e pardo, que vigiava as muralhas do castelo e se chamava Alão, calou-se e que lhe fez muitas festas. El rei, tomando isso por bom presságio, decidiu começar o ataque ao castelo dizendo o "Alão Quer". Estas palavras teriam servido para o futuro apelido da vila).

Lenda ou não, esta localidade sob controlo muçulmano acabou por cair às mãos de D. Afonso Henriques, recebeu foral em 1212 da infanta D.Sancha, filha do rei D.Sancho I, cognominado o Povoador.

Pouco se sabe desde quando os judeus começaram a viver em Alenquer, sabe-se sim, que a Judiaria se manteve até aos nossos dias como espaço físico, e é perfeitamente possível que esta comuna seja bem antiga, remontando aos alvores da independência nacional.



Rua da Judiaria de Alenquer



Travessa da Judiaria de Alenquer



Beco da Judiaria de Alenquer


Segundo um historiador local, Guilherme Henriques, este refere-se sobre a questão da seguinte forma:

"...No fim da rua dos muros, próximo da Porta da Senhora da Conceição, existem alguns quintais /casas arruinadas, denominadas de Judiaria".

Terá sido nesta área que a gente laboriosa da "Nação" fez a sua vida e desenvolveu os seus negócios, ali criaram os seus filhos e seguiram as suas ancestrais tradições.

Porém, eram um grupo proscrito, e por isso viviam acantonados nestes reduzidos quintais, aliás, o próprio Guilherme Henriques foca o facto de os cristãos de Alenquer sentirem uma profunda aversão em relação aos filhos de Israel.



Judiaria


Tem-se conhecimento que no ano de 1442, 54 anos antes do famigerado édito de expulsão, haveria 18 judeus na vila, número ligado aos chefes de família.

João Pedro Ferro, autor de "Alenquer Medieval", escreve que o real número de judeus neste século XV rondaria aproximadamente as 70 a 90 almas, identificando-os como mesteirais, ferreiros, sapateiros e alfaiates.

De referir que durante a Idade Média, Alenquer era cabeça administrativa de um território que hoje abrange os concelhos de Loures e Sintra, e talvez por isso mesmo, este estudioso defende que esta comuna era bastante abastada, isto porque a documentação que chegou aos nossos dias, revela-nos que os judeus de Alenquer, pagavam mais impostos que os seus irmãos de Santarém, Leiria, Torres Novas, Abrantes, Lamego, Porto, Ponte de Lima, Tomar, Setúbal e Coimbra, sendo apenas suplantados pelas comunas de Lisboa, Beja, Guarda e Moncorvo, o que nos diz muito sobre a importância desta comunidade no tecido económico desta região.

Nas investigações levadas a efeito pela historiadora Maria José Pimenta Ferro Tavares, já em finais do século XIV e em pleno séc. XV, existiam os seguintes judeus em Alenquer:

1383 - Abraão – rendeiro

1383 - Fraire Nambram – rendeiro

1383 - Fraire Guedelha

1383 – Judas

1387 - David de Beja – ferreiro

1441 - David Natan – tosador

1442 - Abraão Cavaleiro – ferreiro

1442 - Abraão Cohen – alfaiate

1442 – Cinfa

1442 - Elias Sofer – alfaiate

1442 - Guedelha Cohen – ferreiro

1442 - Jacob Mardoqueu – ferreiro

1442 - José Ambram – alfaiate
  
1442 - Judas Carminato

1442 - Judas Mancharra – ferreiro

1442 - Judas Recas (ou Rocas) – alfaiate

1442 - Moisés Abibe – alfaiate

1442 - Moisése – sapateiro

1442 - Salomão Vivaz

1442 - Samuel Franco

1481 - Salomão Trigo (ou Torigo) – sapateiro


Considerados como os responsáveis do incêndio da igreja da Várzea, os judeus foram expulsos da vila no final do século XV, sem contudo antes terem sido condenados a reedificar o templo cristão.



Igreja da Várzea foto Ziva David tirada por  Carlos Baptista


Alenquer possuía cemitério hebraico, hoje, a sua localização está sob a antiga Real Fábrica de Papel, às portas da vila.

João Pedro Ferro também em "Alenquer Medieval" refere-se ao "Adro dos Judeus" como o local de enterramento dos mortos da comuna judaica.



Antigo cemitério – actual edifício da Fábrica de Papel em Alenquer - Adro dos Judeus
Foto tirada por Rafael Baptista


Por este passado de comunidades judaicas na zona histórica da vila, o município de Alenquer aderiu à Rede de Judiarias de Portugal – Rota Sefarad, com o objetivo de reabilitar o património relacionado com a herança judaica e de estabelecer políticas de promoção turística e cultural entre as entidades aderentes.




Fontes:

http://questomjudaica.blogspot.pt/2013/11/alenquer.html
http://arquivomuseualenquer.blogspot.pt/2011/10/judiaria-de-alenquer.html
http://www.panoramio.com/photo/1082045
A maioria das fotos: Google maps
Outras fotos de Ziva David - Tiradas por Rafael e Carlos Baptista

8 comentários:

  1. Cara Ziva:
    Alenquer quererá dizer Alani+Ker, ou pedras/templo dos Alanos e o nome será do séc. V dC/EA. Quanto à tradição dos cães alãos, vulgares no Portugal medievo, eram cães pastores-guardas dos Arianos das estepes. Daí a sua presença no local, onde estacionaram estes nómadas. Há mais casos em outros locais da Europa ocidental.

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  2. Cara Inês:

    Gostei muito do seu esclarecimento e acrescento a este artigo. Os vossos comentários enriquecem-nos a todos. Muito obrigada. :) Ziva David

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  3. Cara Ziva: agradeço-lhe por este site. Tenho aprendido muito. A história dos judeus em Portugal interessa-me: por ser parte do país; e porque 'todos' somos mais ou menos descendentes dos «escondidos».

    Já agora sabe algo sobre a aldeia de mineiros judeus que existiu entre Arganil e Côja? (Coimbra). Para além de umas menções medievais vagas, na zona não há memória, mas na zona foi moda deitar-se fora a história.
    Obrigada

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  4. Olá Inês, Obrigada pelas suas amaveis palavras. Andei à procura antes de lhe responder, mas ainda não encontrei nada, vou continuar a pesquisar, entretanto fica aqui publicada a sua questão, pode ser que alguém conheça e nos mande um link com alguma informação. Também tenho uma amiga em Coimbra muito querida (Dora Caeiro) e vou perguntar-lhe, se ela souber vai de certeza ajudar-nos. :)

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  5. Respostas
    1. A casa onde nasci parece-me que ainda pertencia ao bairro da judiaria. Tenho antepassados Silva, Oliveira, Soares, Ferreira, mas não sei se têm origem judia.

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  6. É bem provável que tenha Luísa, mas isso requer um extenso estudo. Por vezes o nome inicialmente diz-nos que sim, mas nem sempre é uma realidade. Muitos dos nomes eram dados ou adquiridos por motivos diferentes, por este motivo, sem o estudo nunca saberemos ao certo. O mesmo acontece com os meus apelidos. Existem famílias judias com os meus dois apelidos, ou seja tanto o materno como o paterno, mas não sei se é o meu caso, só o poderei afirmar se um dia conseguir reunir todas as provas, o que é muito complicado, no meu caso pelo menos. :)

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