terça-feira, 7 de março de 2023

Gregos e Judeus - ParteIV

 



Gregos e Judeus

 

Parte IV

 

A Europa e a Civilização Ocidental



Peter Paul Rubens, retrato do médico português Ludovicus Nonnius, 1627, National Gallery, Londres

 

(Luís Nunes, médico português cristão-novo de Antuérpia (1553-1645). Autor de vários livros, dos quais se destaca “Diaeteticon” (que provavelmente está a segurar); um estudo sobre a importância da dieta como factor de boa saúde, baseado nos hábitos alimentares dos antigos Gregos e Romanos. De realçar a presença do busto de Hipócrates, o médico grego considerado o fundador da medicina)


     Quando pensamos Europa, pensamos civilização ocidental. A Europa, uma península da Euro-Ásia, emergiu como entidade autónoma da Ásia. A ideia de Europa emergiu de uma conversação entre várias vozes de diferentes tradições (por vezes com muita gritaria) que, mercê de uma lenta evolução que se perde no tempo, resultou na partilha de um conjunto de valores. Desses valores, intelectuais, espirituais e culturais e da maneira como os guardámos e combinámos, resultou a identidade europeia. Uma identidade definida, essencialmente, pelas tradições greco-romana e judaico-cristã.

 

     Tanto na cultura judaica, quanto na grega, pulsavam valores e ideais ligados à liberdade individual, todavia indissociáveis do respeito pela comunidade e pela família. É no encontro destes dois mundos — o Hebraico e o Helenístico — que se situam as fundações da civilização ocidental. E foi precisamente isto que a Cristandade fez, a começar por Paulo. Mediando entre a Grécia e Israel, a Cristandade deu-nos a Cultura Ocidental.


Al-Andaluz e a sabedoria dos clássicos



Contos de Bayad e Riyad (Bayad toca alaúde para uma senhora), século XII, manuscrito árabe, Biblioteca Apostolica Vaticana, Roma



     Com a queda do Império Romano, a sabedoria dos clássicos gregos e latinos foi abandonada. Seria recuperada para a sociedade europeia pelos eruditos muçulmanos da Península Ibérica. Após as suas incursões em França terem sido frustradas por Charles Martel, os muçulmanos de Espanha decidiram focar a sua atenção no território conquistado a sul da Península — al-Andaluz, que viria a atingir um elevado grau cultural e tecnológico. Depois da Reconquista cristã, muito do conhecimento científico desenvolvido pelos muçulmanos passou para a Europa ocidental através de Espanha, como testemunha a Escola de Tradutores de Toledo.


Córdova, a cidade mais civilizada da Europa

 

     Em 929 o emir Abd-al-Rahman III (890-961), da dinastia omíada, assumiu o título de califa de Córdova, tornando-se independente do califado de Bagdade. Naquela época, enquanto a população de Paris rondava as 38 000 almas, a de Córdova atingia as 500 000. De acordo com crónicas coevas, havia 700 mesquitas na cidade, uns 60 000 palácios, 70 bibliotecas, uma delas chegando a albergar 500 000 manuscritos, uma Escola de Medicina, uma Escola de Tradutores e 900 banhos públicos. Córdova dispunha de ruas pavimentadas e iluminação pública, convertendo-se na cidade mais civilizada da Europa. Num clima que favorecia a convivência abraâmica, a comunidade judia prosperou e teve um verdadeiro renascimento a nível das ciências e das humanidades. A partir do século XI, Córdova desempenhou um papel fulcral na história do Judaísmo, eclipsando gradualmente as academias da Babilónia.



Maimónides [Moshe ben Maimon] (Córdova, 1135-Cairo (Fustat), 1204)

 

Maimónides representa a maior figura intelectual do judaísmo medieval. O seu pensamento assenta na afirmação da concordância entre fé e razão.



https://www.youtube.com/watch?v=r_Aj9vvvOSo

“Yigdal” (Credo de Maimónides) · Eduardo Paniagua · Jorge Rozemblum 

Canto, shofar, quanum, viola, alaúde, darbuka e tar 

(“Yigdal” – “Deus é Grande”. Hino religioso que partilha com “Adon Olam”, de Shelomo ibn Gabirol (Málaga, 1020-1059), um lugar de honra no início do ofício da manhã e no final do ofício da tarde. Baseia-se nos treze artigos de fé (13 Credos) formulados por Maimónides. Nesta interpretação, os primeiros três credos são cantados seguindo uma melodia tradicional dos judeus de Tânger (norte de Marrocos); os restantes credos seguem a melodia tradicional dos judeus marroquinos.)


  Grande admirador de Aristóteles, Maimónides dominava disciplinas tão diversas como a filosofia e as ciências, em particular as matemáticas, a astronomia e a medicina. Autor prolífico, escreveu em árabe. As suas obras foram posteriormente traduzidas para o hebraico e o latim.

 

     Quando em 1148 o Sul de Espanha foi conquistado pelos Almóadas, o ambiente de tolerância da sua cidade chegaria ao fim, obrigando judeus e cristãos a emigrar, sob pena de serem forçados a converter-se ao Islão, ou a morrerem pela sua fé. Já adulto, no exílio, Maimónides estabeleceu-se no Cairo em 1166, onde viveu até ao fim da sua vida. Lá foi rabino-mor da comunidade judaica e médico respeitado. Na sua qualidade de médico, assistiu pessoalmente a al-Fadil, grão-vizir de Salahudin [Saladino] e respectiva corte. Interessando-se pelos mistérios do corpo humano e da medicina, investigou a relação da alma com o mal-estar físico.



Mishneh Torah, Introdução, fol. 11v-12, Escola de Iluminuras de Lisboa, 1472,

 British Library, Londres



     A obra magna de Maimónides — “Mishneh Torah” (um código da Lei Judaica e a única que escreveu em hebraico) — é uma síntese magistral dos dois Talmudes. Introduzindo ordem nas compilações talmúdicas, protestando contra a interpretação literal da Lei e conciliando a religião judaica com a filosofia, Maimónides operou uma profunda revolução intelectual no seio da sociedade judaica. Estudioso da obra de eruditos muçulmanos, como al-Farabi, Ibn Sina [Avicena] ou Ibn Rushd [Averróis], o seu pensamento abriu caminho para grandes filósofos da Cristandade medieval, como Alberto Magno ou Tomás de Aquino.

 

****

 

Alguns apontamentos sobre cultura europeia



Retrato de Camões executado em vida do poeta. Cópia de um original desenhado por Fernão Gomes (1548-1612). Arquivo Nacional da Torre do Tombo.


     Camões é, por excelência, um vulto da cultura ocidental. Conhecedor do texto bíblico — lembremos o soneto “Sete anos de pastor Jacob servia” (Génesis 29) ou “Redondilhas de Babel e Sião” (Salmo 137) —, n’Os Lusíadas evidencia uma superlativa erudição clássica. Num ensaio sobre os 450 anos de publicação da obra, Carlos Maria Bobone considera «Os Lusíadas como o poema que mostra o momento em que os mitos antigos deixam de ser necessários, o momento do fim da mitologia. Tudo aquilo que os antigos deuses tinham – os segredos dos ventos, dos mares, da guerra – fica nas mãos dos portugueses, de tal modo que os deuses se extinguem na sua função. (…) o poema pode ser entendido como uma elegia do mitológico, como o seu fim: esta é a derrota dos deuses antigos às mãos da cristandade, por via do conhecimento.»


     No célebre poema “Com que voz chorarei meu triste fado”, Camões usa a palavra “fado” com o seu significado histórico, que é o da sua raiz latina fatum: o destino, a sina. O Fado como representação da Portugalidade, está associado a um quotidiano de lamentações, pautado por trágicas histórias de amor.


Com que voz chorarei meu triste fado,

que em tão dura paixão me sepultou.

Que mor não seja a dor que me deixou

o tempo, de meu bem desenganado


https://www.youtube.com/watch?v=hJRWAR_kNMo 

“Com que voz” por Amália; poema de Camões; música de Alain Oulma



O Mito de Orfeu


Orfeu rodeado de animais (mosaico), Época Romana, Museu Arqueológico Regional de Palermo


     Os gregos da era clássica veneravam Orfeu como o músico mais dotado de todos os tempos. Quando tocava lira, os pássaros interrompiam o seu voo para escutar e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores curvavam-se para captar as suas árias arrastadas pelo vento. Orfeu casou com Eurídice, uma jovem tão encantadora que atraiu as atenções de um homem chamado Aristeu. Quando ela repeliu as suas investidas, ele perseguiu-a. Ao fugir dele, Eurídice calcou uma serpente que a mordeu e lhe causou a morte. Orfeu ficou como louco. Pegando na lira, desceu aos Infernos a fim de tentar trazê-la de volta consigo.



Jean-Baptiste Corot, Orfeu levando Eurídice do Inferno (detalhe), 1861, Museum of Fine Arts, Housto



     Baseado no mito grego de Orfeu, “L’Orfeo” de Monteverdi é um drama musical estreado na corte de Mântua, no Carnaval de 1607.

     Na Ária “Vi ricorda ò boschi ombrosi”, que se tornaria muito popular entre os ouvintes de Monteverdi, Orfeu canta como era infeliz antes de casar com Eurídice.



https://www.youtube.com/watch?v=_j11wAOG5zI

 

MONTEVERDI // Ritornello [Gagliarda] & Aria “Vi ricorda ò bosch’ombrosi” by CLEMATIS, Zachary Wilder

 

(No vídeo, seguidamente à ária de Monteverdi, é executada uma peça instrumental de Salomone Rossi, um compositor judeu italiano que trabalhou para a corte de Mântua)


Maria, mãe de Jesus


Mariotto Albertinelli, Visitação, 1503, Galerias Uffizi, Florença



     A Visitação de Albertinelli de 1503, é uma de muitas obras da arte europeia dedicada ao episódio conhecido por Visitação. Refere-se à Visitação de Maria à sua prima Isabel, quando Maria confirmou a sua gravidez a Isabel, a cuja casa numa cidade da Judeia se dirigiu logo após a Anunciação, para a acompanhar no nascimento de João Baptista (Lucas 1:39-50).

 

     Este episódio é celebrado no esplendoroso Magnificat de Bach (com libreto em latim, uma raridade na vasta obra do compositor luterano), estreado em Leipzig no ano de 1723. Desta passagem do Evangelho segundo Lucas, consta o Cântico de Maria (Lucas 1:46-50), um Magnificat pleno de alegria, em que Maria rejubila por estar grávida. Podemos ouvi-lo na lindíssima ária “Et exultavit spiritus meus”


Johann Sebastian Bach, Magnificat in D Major, BWV 243 - Aria: "Et exultavit spiritus meus" Magdalena Kožená with Marek Stryncl and Musica Florea



 https://www.youtube.com/watch?v=1ZVZB_EZlu8



O sacrifício de Isaac/A crucificação de Jesus


     Uma interpretação convencionalmente aceite no Judaísmo sobre o episódio d’O sacrifício de Isaac, é a de que Abraão passa por uma experiência dramática. O sacrifício não realizado é reduzido a uma questão hipotética, para testar o fervor de Abraão, sem implicar Deus no acto ritual. Todavia para os teólogos cristãos o sacrifício não realizado pressagia a Paixão, o sofrimento e a crucificação de Jesus, definindo assim a natureza de Deus. Em suma, o Judaísmo lê a história como um drama de um homem religioso, enquanto o Cristianismo, concordando com esta leitura, vai mais longe, lendo-a como parte de um drama do próprio Deus.


     Maria (sopra la Carpinese), cantada durante a Paixão na ilha da Córsega, em língua corsa (Corsu, uma língua românica que tem fortes similaridades com o italiano), exprime a dor pungente de Maria perante o sofrimento do filho, Jesus.


Maria (sopra la Carpinese)


https://www.youtube.com/watch?v=bpZK_QTOtBk

L'Arpeggiata - Christina Pluhar, Barbara Furtuna (chant corse)



****

Liberdade e Responsabilidade


     Observa o rabi Benjamin Blech que, de uma perspectiva judaica, falar do ideal de liberdade, ignorando a sua necessária parceria com a responsabilidade, é ignorar o seu verdadeiro sentido. Comentando sobre o Pessach, a Festa da Liberdade, Blech acrescenta que na realidade o Pessach é, apenas, meia festa: a partir do momento em que celebramos a libertação da escravidão no Egipto, começamos a contar os dias para a Festa de Shavuot, quando no Monte Sinai o povo de Israel recebeu a Torah. Os dois festivais estão indissociavelmente ligados. O primeiro fala de libertação de; o segundo de liberdade para. Fomos libertos de uma vida de servidão, para nos colocarmos, voluntariamente, à disposição para uma vida vinculada a restrições de rectidão moral.

 

     Como o historiador cristão Paul Jonhson escreveu na sua elucidativa “História dos Judeus”, a versão bíblica de moralidade foi um arranque muito pertinente para noções fundamentais do mundo antigo daquele tempo. Ideias judaicas como “igualdade perante a lei, divina e humana; a inviolabilidade da vida e a dignidade da pessoa humana; a consciência individual e a redenção pessoal; a consciência colectiva e a realidade pessoal, e muitos outros temas… constituem as ferramentas fundamentais da mente humana.”



Democracia/Direitos Humanos


     Na clássica Atenas, o exercício da cidadania compreendia uma certa forma de participação política, um exercício centrado nos deveres dos cidadãos para com a comunidade. Uma prática assente na ideia demos kratos — com uma tradução muito livre para “poder ao povo”. Na realidade, esta ideia de participação cívica só se aplicava a homens gregos livres. Mulheres, escravos e estrangeiros, não tinham parte nesse “poder”. Mas apesar das imperfeições, as classes mais baixas tinham direitos.

 

     Por contraste, em Esparta reinava uma aristocracia militarista que submetia os hilotas, uma população local escravizada, a chacinas periódicas, para lhes lembrar do seu estatuto sub-humano.

 

     Na Europa, a Democracia — Liberdade sob a Lei —, expressa valores universais. Levando milénios a amadurecer, só foi plenamente implementada no século XX. E até muito tarde, quase até à primeira guerra mundial, o sufrágio era censitário e exclusivamente masculino. Estruturada na ética judaico-cristã e na cultura clássica, a ideia de Democracia conduziu a uma cultura distinta do Ocidente: a dignidade da pessoa humana, o conceito de Direitos Humanos.



Este artigo foi elaborado por,

Sónia Craveiro

 

Muito obrigada


 

Fontes:

Luis Nunes de Antuérpia (1553 - 1645) ou Ludovicus Nonnius https://arlindo-correia.com/201210.html

“Há 450 anos Luís de Camões deu Os Lusíadas à Língua Portuguesa e transformou-a” por Carlos Maria Bobone https://observador.pt/especiais/ha-450-anos-luis-de-camoes-deu-os-lusiadas-a-lingua-portuguesa-e-transformou-a/

Seyyed Hossein Nasr. Science and Civilization in Islam.

New American Library. NY 1968. Introduction. In the Name of God Most Merciful and Compassionate http://www.fordham.edu/halsall/med/nasr.html

 

Rabbi Moshé ben Maimon, Rambam dit MAÏMONIDE https://www.medarus.org/Medecins/MedecinsTextes/maimonide.html

The Work of Maimonides: Passion & Compassion http://www.jewishvirtuallibrary.org/jsource/loc/Passion.html

PHILIP, Neil, Livro Ilustrado de Mitos e Lendas, editora Civilização, 1996

Paul Johnson On The Jews https://www.simpletoremember.com/jewish/blog/paul-johnson-on-the-jews/

quinta-feira, 2 de março de 2023

Gregos e Judeus Parte III

 



Gregos e Judeus

Duas Culturas em Confronto

Parte III: Um Diálogo de Culturas



Édipo e a Esfinge de Tebas, cílice ático de figuras vermelhas (detalhe), c.470 a.C., atribuído ao pintor Édipo, Museu do Vaticano, Roma

(A cena ilustra o “Enigma da Esfinge”: «Qual é o ser dotado de voz que anda com quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três ao anoitecer?». Édipo responde que se trata do homem porque, enquanto criança gatinha com todos os seus membros, em adulto anda com as duas pernas e chegando a velho com a ajuda de uma bengala.)


   A antiga Israel e a antiga Grécia — as duas grandes influências da civilização ocidental — tinham pontos de vista profundamente diferentes de tempo e circunstância. Os gregos deram ao mundo o conceito de tragédia. Os judeus deram ao mundo a ideia de esperança.

 

     Os gregos acreditavam em ananké, a fatalidade do destino. Na narrativa de “Édipo” de Sófocles, tudo o que Laio e o seu filho Édipo fazem para frustrar o destino trágico anunciado pelo oráculo, de facto aproxima-os mais da sua concretização. Nós esforçamo-nos, nós lutamos, por vezes alcançamos grandeza, mas evitar a tragédia é inútil porque o destino está traçado. Portanto, fica a pergunta: será que a vida tem um propósito?

     A história de José, o filho de Jacob e Raquel, é exactamente o oposto da história de Édipo.




Adrien Guignet, José interpreta o sonho do Faraó, 1845, Musée des Beaux-Arts, Rouen, França


     No Livro de Génesis, a sequência entre os capítulos 37 a 50 compreende a narrativa mais longa da Torah que, à excepção do capítulo 38 (dedicado a Tamar), é toda ela dedicada a um herói: José. A história começa e acaba com ele. Vemo-lo em criança, amado, mesmo mimado, pelo pai; como adolescente sonhador, provocando ressentimento nos irmãos; como escravo, depois prisioneiro, no Egipto; mais tarde como a segunda figura mais importante do maior império do mundo antigo. A cada etapa, a narrativa gira à volta dele e do impacto que tem sobre os outros. A vida de José emerge como um arquétipo de liderança. Aparentemente cada novo episódio parece conduzir à tragédia, mas em retrospectiva verifica-se que afinal era apenas um passo necessário para salvar vidas e para a materialização dos seus sonhos.


Mashber: crise e nascimento


     Mashber, a palavra hebraica para crise, também significa “cadeira de parto”. Na semântica da consciência judaica, a ideia de sofrimento em tempos difíceis está gravada como uma forma colectiva de sentir as contracções de uma mulher a dar à luz. Qualquer coisa nova está a nascer. Cada adversidade gera uma nova oportunidade.

 

      Para os judeus, de ontem e de hoje, Deus está connosco na jornada que percorremos ao longo do tempo. Acreditamos que somos parte da Criação de um Deus infinitamente bom e todo-poderoso, que nos concedeu o livre arbítrio. Por vezes sentimo-nos perdidos, mas depois descobrimos, como José descobriu, que Ele esteve sempre a guiar os nossos passos. O Judaísmo é antagónico à tragédia. Diz-nos que a cada golpe do destino, devemos lembrar a promessa de Deus de nunca nos abandonar. Alerta-nos para não cedermos ao desespero. Mesmo quando a nossa vida é marcada pelo infortúnio, lacerada pela dor, quando parece que a felicidade nos abandonou, ainda assim há esperança.


Atenas e Israel


Cabeça de mármore de jovem usando um diadema, século III-II a.C., Metropolitan Museum, Nova Iorque


     Os antigos gregos criaram uma das civilizações mais notáveis de todos os tempos. Deram-nos filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, historiadores como Heródoto e Tucídides, dramaturgos como Sófocles e Ésquilo, ou matemáticos como Pitágoras, Euclides e Arquimedes. Produziram arte e arquitectura de uma beleza inexcedível. No período clássico da Grécia Antiga, entre os séculos VI a IV a.C., a par de um desenvolvimento das expressões artísticas, deu-se um florescimento do pensamento racional. Nesse período, as disciplinas de história e medicina conheceram um progresso relevante. Os gregos procuravam a verdade na contemplação da natureza e da razão, emergindo assim o pensamento científico. A filosofia, como forma de reflectir o mundo, foi considerada a base de todas as ciências.

 

     “A Alegoria da Caverna” do Livro VII de A República de Platão, versa sobre a teoria do conhecimento. Neste exercício filosófico de combate à ignorância, Platão, usando a metáfora de um grupo de pessoas que vivem acorrentadas numa caverna, demonstra como o conhecimento humano pode ser pobre e limitado, quando a única percepção que têm da realidade lhes é mostrada, apenas, através de sombras trémulas projectadas por uma fogueira.



O Judaísmo não é sobre a verdade como sistema, mas sobre a verdade como história


     A antiga Israel (séculos antes dos gregos) procurava a verdade na história, nos acontecimentos e como Deus nos instruiu a aprender com eles. A Torah não é um tratado teológico, mas também não é uma simples história apresentada numa sequência de acontecimentos. Invocando princípios universais, é com as histórias de Adão e Eva, Caim e Abel, Noé e a geração do Dilúvio e a Torre de Babel, que nos fala de uma interacção entre Deus e a humanidade, cada uma delas representando um passo na sua maturação. Com a subtileza e a profundidade da Torah, observamos a condição humana e o seu crescimento psicológico, do instinto à consciência, do “pó da terra” até à responsabilidade moral, “à imagem de Deus”. Numa série de histórias interligadas que se desenrolam no tempo, desde a saída de Sara e Abraão da Mesopotâmia até Moisés e os israelitas errantes no deserto, fala-nos de uma viagem religiosa cheia de dúvidas, dificuldades e traumas. Fala-nos da natureza humana.

 

     Citando Thomas Cahill, “a Bíblia Hebraica conta-nos a história de uma “família”, que no decurso de dois milénios — dois milénios que estão hoje entre dois a quatro mil anos antes de nós — acumulou todas as confusões e antagonismos da vida humana. A história da Bíblia Hebraica é a história de uma consciência em evolução.”


História/Memória


Haggadah para crianças, de 1945. Compara a narrativa de Pessach com o Holocausto (Yeshiva University Museum/Center for Jewish History/via JTA)



     Muitas culturas da Antiguidade observavam o tempo apenas na sua natureza cíclica: as estações sucedem-se umas às outras, as pessoas nascem e morrem, e tudo regressa ao início. Nada muda realmente. Há mais de 5000 anos, os Sumérios inventaram a escrita cuneiforme. O desenvolvimento do sistema cuneiforme de escrita teve como resultado prático um sistema formal de educação, uma suprema realização do ponto de vista da história das civilizações. Todavia, diz-nos o académico Thomas Cahill, na cultura intemporal dos Sumérios, as cidades-estado tinham sido fundadas por deuses em tempos imemoriais. As invenções eram propriedade dos deuses, tal como os seres humanos, que tinham sido criados para ser seus servos. A escrita, o instrumento que torna a História possível porque fixa o passado como algo que não se pode mudar, não reflectia a história temporal. Não existia futuro tal como aprendemos a compreendê-lo.

 

     Os Judeus foram o primeiro povo a pensar no tempo como uma arena de transformação, um tempo linear e irreversível. Desbravando uma nova maneira de compreender e sentir o mundo, abriram a possibilidade a uma história pessoal, a uma vida individual com valor. No entanto, o hebraico bíblico não tem uma palavra que signifique “história” (o equivalente mais próximo é divrei hayamim, “crónicas”). Em vez disso usa a raiz zachor, que significa “memória”.

 

     Entre história e memória há uma diferença fundamental. História é a “história dele”, um conjunto de eventos que aconteceram a alguém, num certo tempo. Memória é “a minha história”. É o passado interiorizado que faz parte da minha identidade. Como Elie Wiesel escreve no prefácio do seu livro “From the Kingdom of Memory”, “Ser judeu é lembrar, reclamar o nosso direito à memória bem como o dever de a manter viva. Lembrar… lembra-te que foste escravo no Egipto. Lembra-te de santificar o Shabbat… — Esquecer para um judeu é negar o seu povo – e tudo o que ele simboliza – e também negar-se a si próprio.”


Corpo e Alma


Rafael, Escola de Atenas/Platão e Aristóteles (detalhe), 1509-1511, fresco, Stanza della Segnatura, Vaticano.  (Platão, à esquerda, aponta para os céus e para o reino das formas. Aristóteles, à direita, aponta para a terra e para o reino das coisas)


     Platão, discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, viveu entre 428 e 347 a.C. Tinha 29 anos quando Sócrates foi condenado a beber a taça de cicuta. Inspirado pelo método dialéctico de Sócrates, Platão fundou em Atenas a sua própria escola de filosofia — a Academia. Para Platão, o homem é um ser dividido em duas partes: um corpo que flui e uma alma imortal. Ela é a sede da razão. Em “Fedro”, a metáfora que Platão usa para descrever a relação da alma com o corpo é a de uma pessoa encerrada numa prisão. A filosofia platónica almeja libertar a pessoa do seu corpo, que é sentido como uma prisão. Só assim se pode alcançar a perfeição.

 

     Num comentário à parashat Veyetze — “Be Fearful of Religion” —, o rabi Nathan Lopes Cardozo diz-nos que no Judaísmo, e de acordo com o pensamento bíblico, o corpo não é percepcionado como estando em conflito com a alma. Não é um obstáculo, mas antes um companheiro bem-vindo. De outra forma, qual seria a serventia do corpo? Apenas um fardo, sem o qual estaríamos melhor? O pensamento judaico atesta que a intenção de Deus não poderia ser a de criar um corpo humano, que deliberadamente causasse frustração à pessoa. É verdade, por vezes o corpo coloca-nos desafios, mas em última instância esses desafios fazem parte do nosso “crescimento” como seres humanos. No Judaísmo, o propósito do ser humano não é o de viver no Céu em contemplação, mas o de agir com os seus corpos para trazer o Céu para o domínio material, de forma a transformar o mundo num lugar melhor.



Aristóteles: filósofo e cientista


     Aristóteles (Macedónia, 384-Atenas, 322 a.C.), não só foi o último grande filósofo grego, como também o primeiro grande biólogo da Europa. Filho de um médico reconhecido, observava meticulosamente a natureza e as suas transformações. Fundou e ordenou as diversas ciências, criando uma linguagem técnica e uma lógica de pensamento analítico — o método científico. Em 335 a.C. fundou em Atenas a sua escola de filosofia — o Liceu.

 

     Aristóteles defendia que todos os pensamentos e ideias chegam à nossa consciência através daquilo que vimos e ouvimos. Além disso, temos uma capacidade única que não pode ser encontrada em nenhum outro ser vivo: a de pensar racionalmente. Uma distinção que retém uma centelha da razão divina. O seu conceito teórico sobre a alma difere do de Patão e de René Descartes (1596-1650 d.C.). Para ele, a alma não é um agente imaterial que age no interior de um corpo. A própria essência da alma é definida pela sua relação com o corpo.


Aristóteles e o Pensamento Judaico


     Há dois aspectos do pensamento aristotélico que sustentam um paralelo extraordinário com o pensamento judaico. O primeiro concerne ao envolvimento de Aristóteles no estudo do mundo, cuja realidade é inegável e digna, tanto de uma compreensão plena, como de vivermos nele. Assim se compreende que Aristóteles se tenha dedicado a tópicos tão diversos como a ética, a física, a psicologia ou a política.

 

     O segundo é sobre “propósito”, que no pensamento aristotélico é chamado “telos”. O propósito é considerado uma das quatro causas através das quais chegamos a um entendimento do universo e é referido como a “causa final”. A causa final deve reflectir-se numa “boa vida”.

 

     Na “Ética a Nicómaco”, Aristóteles advoga uma vida governada, antes de tudo, pela razão, mas reconhecendo, como no Judaísmo, que a humanidade tem um lado não-racional e que outras condições devem ser satisfeitas, tais como uma boa saúde, a amizade, a família, as nossas necessidades estéticas ou até as nossas necessidades sensuais. Isto é referido como uma vida de verdadeira felicidade, “eudaimonia” na terminologia aristotélica. Um tema que Viktor Frankl, um filósofo moderno judeu, clarifica na sua obra clássica “Man’s Search for Meaning”, que lida com a procura de um propósito além da Shoah.


***

     «Num mundo cíclico, não há princípios nem fins. Mas para nós, o tempo teve um começo. Seja pelas palavras de Deus no Livro de Génesis quando «no princípio criou Deus os céus e a terra», ou no Big-Bang da ciência moderna, um conceito que não seria possível sem os Judeus.» Thomas Cahill - “A Herança Judaica”

 

Nota: a teoria da origem do universo — o Big Bang — foi criada por Georges Lemaître (1894-1966), um padre católico, astrónomo, cosmólogo e físico belga.



Artigo de,

Sónia Craveiro 

Muito obrigada




Fontes:

 CAHILL, Thomas, “A Herança Judaica”, Contexto Editora, Lda. 1999, Lisboa

 Rabi Jonathan Sacks:

 “Choice and Chance” (Vayigash 5777) http://www.rabbisacks.org/choice-change-vayigash-5777/

 “A Nation of Storytellers” (Ki Tavo 5779) https://rabbisacks.org/ki-tavo-5779-nation-storytellers/

 “Improbable Endings and the Defeat of Despair” (Vayeshev 5778) http://rabbisacks.org/improbable-endings-defeat-despair-vayeshev-5778/

“The Ever-Repeated Story” (Bamidbar 5777) http://rabbisacks.org/ever-repeated-story-bamidbar-5777/

 “Be Fearful of Religion”: Parashat Veyetze by Rabbi Nathan Lopes Cardozo http://www.jewishpress.com/judaism/jewish-columns/rabbi-dr-nathan-lopes-cardozo/be-fearful-of-religion-parashat-veyetze/2017/11/24/ https://www.britannica.com/biography/Aristotle/Philosophy-of-mind https://www.britannica.com/biography/Aristotle/Political-theory#ref1204151 https://www.britannica.com/biography/Aristotle/Philosophy-of-mind “Aristotle and Jewish Thought: A Harmonious Encounter” By Howard Zik https://www.jewishpress.com/indepth/aristotle-and-jewish-thought-a-harmonious-encounter/2014/12/28/0/