sábado, 12 de janeiro de 2019

José e Judah...



ARREPENDIMENTO E PERDÃO

UMA HISTÓRIA DE IRMÃOS



Ford Madox Brown, “A Túnica de Muitas Cores”, c. 1864-1866, Walker Art Gallery, Liverpool


  A sequência entre os capítulos 37 a 50 do Livro de Génesis compreende a narrativa mais longa da Torah que, à excepção do capítulo 38 (dedicado a Tamar), é toda ela dedicada a um herói: José. A história começa e acaba com ele. Vemo-lo em criança, amado — mesmo mimado —, pelo pai; como adolescente sonhador, provocando ressentimento nos irmãos; como escravo, depois prisioneiro, no Egipto; mais tarde como a segunda figura mais importante do maior império do mundo antigo. A cada etapa, a narrativa gira à volta dele e do impacto que tem sobre os outros. A vida de José emerge como um arquétipo de liderança. Contudo é Judah, o quarto filho de Jacob, que vem a deixar uma marca indelével no povo judeu.

    Mas comecemos por ouvir a canção “Close every door “, do musical “Joseph and the Amazing Techicolor Dreamcoat”. Inspirado na história bíblica de José, a música é de Andrew Lloyd Webber e os líricos de Tim Rice. “Close Every Door” é a penúltima canção do primeiro acto do musical, cantada por José quando estava na prisão, acusado (falsamente) de seduzir a mulher de Potifar.   




Cantores: Yaakov Lemmer, Azi Schwartz e Netanel Hershtik. Orquestra e direcção do maestro Jules van Hessen. Sinagoga Portuguesa de Amesterdão.



József Mólnar, “A partida de Abraão de Ur para Canaã”, 1850, Galeria Nacional da Hungria


      O povo da aliança é conhecido por vários nomes. O primeiro é ivri, “hebreu”, significando “estranho”, “estrangeiro” ou “nómada”. Era assim que Abraão e a multidão que o seguia eram conhecidos. O segundo é Israel, derivado do nome atribuído a Jacob depois deste “ter lutado com Deus e os homens, e ter vencido” (Gen. 32:29). E o terceiro é yehudim, ou judeus.

     Após a divisão do reino e da conquista do Norte pelos assírios em 722 AEC, os descendentes de José, as tribos de Efraim e Manassés, desapareceram das páginas da História, enquanto a tribo de Judah, que dominava o reino do Sul, sobreviveu ao exílio da Babilónia. É a Judah, Yehudah em hebraico, que vamos buscar o nome que nos identifica como povo. Nós somos yehudim, judeus.



 James Tissot, “José conversa com Judah, seu irmão”, c. 1896-1902, Jewish Museum, Nova Iorque


     Mas porquê Judah e não José? A resposta está na passagem que descreve o encontro entre os dois irmãos, quando Judah implora a José pela libertação de Benjamim. Mas recuemos alguns capítulos, ao início da história de José, quando Judah propõe vender José para a escravatura: E disse Judah a seus irmãos: «Que proveito teremos matando o nosso irmão e ocultando o seu sangue? Vamos e o venderemos aos ismaelitas, e não poremos nossas mãos nele, pois ele é nosso irmão, nossa carne e nosso sangue». E os irmãos concordaram. (Gen. 37:26-27)

     Este é um discurso de uma insensibilidade atroz. Judah não quer sujar as mãos de sangue, mas pretende tirar proveito da situação, vendendo o irmão como escravo. Ao contrário de Rúben, o único dos irmãos que faz uma tentativa para salvar José (e falha), Judah mostra-se frio e calculista.  



James Tissot, “José revela a sua identidade aos irmãos”, c. 1896-1902, Jewish Museum, Nova Iorque


     Mas Judah muda. Outrora não hesitou em vender o irmão para a escravatura. Agora face à perspectiva de deixar Benjamim como escravo, diz a José: «E agora, deixa que este teu servo fique teu escravo no lugar do rapaz, e que ele possa voltar com os seus irmãos. Como poderia eu voltar à casa de meu pai sem levar comigo o rapaz? Não quero ver a desgraça que cairia sobre meu pai.» (Gen. 44:33-34)

     O homem que vemos passados tantos anos, não é o mesmo de antes. A frieza deu lugar à preocupação, a indiferença pelo destino de José foi substituída pela coragem em defesa de Benjamim. Judah está disposto a sofrer o destino que outrora infligiu a José, a fim de libertar o irmão mais novo. Isto é arrependimento sincero, e é este gesto que motiva José a revelar a sua identidade e perdoar os irmãos.



Horace Vernet, “Judah e Tamar”, 1840, Wallace Collection, Londres


     Judah é o primeiro penitente — o primeiro baal teshuvah — da Torah. Mas donde surgiu esta mudança de carácter? Para percebermos temos de recuar ao capítulo 38 — à história de Tamar. 

     O capítulo abre dizendo-nos que Judah se tinha separado dos irmãos, vindo a casar com uma mulher canaanita, de quem teve três filhos. Tamar (que se depreende fosse igualmente canaanita) foi casada com os dois filhos mais velhos de Judah. Tendo ambos falecido, deixaram-na viúva e sem filhos. Judah, temendo que o seu terceiro filho sofresse a mesma sorte, afastou-o dela, impedindo-a de casar novamente. Tamar, quando compreendeu a sua situação, disfarçou-se de prostituta. Judah dormiu com ela e Tamar ficou grávida. Judah, que ignorava o disfarce da nora, concluiu que ela tinha tido relações proibidas e ordenou que fosse condenada à morte. Entretanto, Tamar, que tinha ficado com o anel de selo, o manto e o cajado de Judah como penhor, enviou ao sogro a seguinte mensagem: «O pai do meu filho é o homem a quem estes objectos pertencem.»



Escola de Rembrandt, “Judah e Tamar”, c. 1650-1660, Rezidenzgalerie, Salzburgo


     Judah agora está ciente de toda a história. Não só colocou Tamar numa situação impossível, condenando-a à viuvez para o resto da vida, e isto além de ser o pai do filho dela, como percebe que Tamar agiu com extraordinária discrição ao revelar a verdade sobre ele, sem o envergonhar (daqui deriva a regra “Mais vale atirarmo-nos a uma fornalha incandescente, do que humilharmos alguém em público”).

     Tamar é a heroína da história, mas há uma consequência de grande significado: Judah reconhece que errou e admite imediatamente «Ela é mais justa do que eu» (Gen. 38:26). Este é o ponto de viragem na vida de Judah. Aqui nasce a capacidade de cada um reconhecer a própria culpa, de sentir remorso, e de mudar — o complexo fenómeno definido por teshuvah — que mais tarde conduz ao momento em que Judah faz com Benjamim, o oposto do que tinha feito com José. O mais importante, sugere a Torah, é que o pecador se arrependa — reconheça e admita o seu erro e tenha a capacidade de mudar a sua atitude. 

    Talvez não seja coincidência que Judah e Tamar tenham gerado Perez, dando assim início a uma árvore genealógica que dez gerações mais tarde nos dá David, o maior rei de Israel. 



Leão de Judá, fachada da Casa do Leão de Judá (ou Casa do Gato Preto), Trancoso, Portugal


     Possivelmente o futuro de Judah estava implícito no seu nome, que deriva do verbo le’hodot, significando “dar graças” (Yehudah recebeu o nome de Leah, que no nascimento do filho disse: «Desta vez dou graças ao Eterno. Por isso, deu-lhe o nome de Yehudah.» (Gen. 29:35). Também significa “admitir, confessar”. O termo bíblico vidui “confissão” — que é parte integrante do processo de teshuvah, e de acordo com Maimónides o seu elemento chave — tem a mesma raiz. Portanto, Judah também significa “aquele que admite o seu pecado”.


   “Onde se encontram os penitentes, nem o mais perfeito dos justos tem lugar”


     No Talmude da Babilónia (Berachot 34b), os Sábios articularam o seguinte princípio: “Onde se encontram os penitentes, nem o mais perfeito dos justos tem lugar”. Apoiaram-se no texto de Isaías “Paz, paz para quem está longe e para quem está perto” (Isaías 57:19), identificando aquele que está longe com o penitente pecador, que assim surge à frente daquele que está perto, o justo perfeito.

      José é conhecido na tradição por ha’ tzaddik, “o justo”. Judah, como vimos, foi um penitente. José tornou-se vice-rei do Egipto, “o segundo, depois do rei”. Judah foi o antepassado de reis. Onde o penitente Judah se encontra, nem o mais perfeito justo como José tem lugar.

     Por mais virtuoso e de natural bom carácter que alguém seja, maior é a grandeza de quem é capaz de crescer e mudar. Este é o poder da penitência, e começou com Judah.



Líricos da canção “CLOSE EVERY DOOR”

JOSEPH
Close every door to me, hide all the world from me
Bar all the windows and shut out the light
Do what you want with me, hate me and laugh at me
Darken my daytime and torture my night

If my life were important I
Would ask will I live or die
But I know the answers lie far from this world

Close every door to me, keep those I love from me
Children of Israel are never alone
For I know I shall find my own peace of mind
For I have been promised a land of my own.

CHILDREN
Close every door to me, hide all the world from me
Bar all the windows and shut out the light

La la la la la la (REPEAT)

JOSEPH
Just give me a number instead of my name
Forget all about me and let me decay
I do not matter
I'm only one person
Destroy me completely then throw me away

If my life were important I
Would ask will I live or die
But I know the answers lie far from this world

Close every door to me keep those I love from me
Children of Israel are never alone
For we know we shall find our own peace of mind
For we have been promised a land of our own


E este é mais um artigo elaborado por

Sónia Craveiro


Muito obrigada


Fontes:

Bíblia Hebraica, EDITORA E LIVRARIA SÊFER LTDA, São Paulo, Brasil
https://www.sefaria.org/Berakhot.34b.22?lang=bi
Rabi Jonathan Sacks:
“Choice and Chance” (Vayigash 5777)
http://www.rabbisacks.org/choice-change-vayigash-5777/
“The Unexpected Leader”
http://www.jewishpress.com/judaism/jewish-columns/rabbi-lord-jonathan-sacks/the-unexpected-leader-2/2018/12/13/
“DO NOT SHAME TAMARS RIGHTEOUS LESSON”
http://www.jewishpress.com/judaism/jewish-columns/rabbi-lord-jonathan-sacks/do-not-shame-tamars-righteous-lesson/2015/12/03/

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Shema Israel - A Oração




SHEMA YISRAEL
“OUVE, ISRAEL”



Maimónides, Mishneh Torah, copiado em Espanha c. 1300-1350, ilustrado em Perugia c. 1400, Biblioteca Nacional de Israel, Jerusalém. Página inicial do “Livro do Amor” (por Deus) – Sefer Ahavah. No topo da página um homem abraça um rolo da Torah; na margem inferior, um outro homem recita o Shema antes de se deitar.


     Shema Yisrael, «Ouve, Israel», é central na fé judaica. No Judaísmo nós acreditamos que Deus é ouvido, mas nunca visto. Os primeiros humanos, Adão e Eva, ouviram a voz do Eterno mover-se no jardim com a brisa do dia. Abraão, Moisés e os profetas da Bíblia Hebraica, diferenciaram-se dos seus contemporâneos porque ouviam uma voz que para os outros era inaudível. Quando Elias enfrenta os profetas de Baal no Monte Carmelo, Deus ensina-lhe que não é nem um vento forte, nem fogo, nem um terramoto, mas uma «voz mansa e delicada» (I Reis 19:9-12)

     A um nível muito básico, Shema representa um aspecto do Judaísmo que era radical nos tempos bíblicos: Deus não pode ser visto. Deus só pode ser ouvido. Moisés adverte insistentemente o povo de Israel para não venerar ou adorar nenhuma representação física do Divino; no Monte Sinai lembra que: «O Eterno vos falou do meio do fogo; som de palavras vós ouvistes, porém não vistes imagem alguma: ouvistes apenas uma voz.» (Deut. 4:12)



Shema Yisrael! Adonai Eloheinu! Adonai Echad!
Ouve, Israel! O Eterno é o nosso Deus! O Eterno é Um!
(Deuteronómio 6:4)






     Shema (pronuncia-se Shemá) é uma palavra-chave do livro de Deuteronómio, onde aparece 92 vezes. Hoje quando falamos no Shema, referimo-nos ao verso 6:4-9 do Deuteronómio e a outros três parágrafos (dois do Deuteronómio11: 13-21 e um de Números 15:37-41).   Seguindo o mandamento de dizer Shema «ao deitar e ao levantar», o Shema faz parte das orações da noite (Arvit) e da manhã (Shacharit).


O significado de Shema

     Shema ou Sh’ma, de difícil tradução, se não mesmo intraduzível, tem vários significados como, ouvir, escutar, prestar atenção, compreender ou interiorizar; pode até ter um significado aproximado de «obedecer», como quando se responde afirmativamente a uma interpelação. Contudo o termo «obedecer» não consta do hebraico bíblico, o que é extraordinário numa religião de 613 mandamentos. No hebraico moderno «obedecer» diz-se letzayet, uma palavra emprestada do aramaico.


Ouve, Israel! O Eterno é o nosso Deus! O Eterno é Um!

E amarás o Eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. E estarão, permanentemente, no teu coração estas palavras que hoje te recomendo. (Deut. 6:4-6)


Ouvir, no Judaísmo é uma tarefa sagrada. Deus quer que ouçamos, não apenas com os ouvidos, mas com os recursos mais profundos da nossa mente. Se Deus procurasse simples obediência, teria criado robots em vez de seres humanos com vontade própria. Mas ouvir, ouvir realmente, pode ser uma tarefa incrivelmente difícil. Aprender a ouvir requer treino, concentração e a capacidade de criar silêncio na alma. Ver mostra-nos a beleza do mundo, mas ouvir dá-nos a oportunidade de criarmos pontes com a alma do outro.  
   
     Tecnicamente, recitar o Shema não é um acto de oração. É fundamentalmente um outro tipo de acto: é um acto de Talmude Torah, de aprender Torah. Na oração nós dirigimo-nos a Deus. Quando estudamos Torah, ouvimos Deus. Deus quando fala connosco, chama por nós, convoca-nos para a nossa tarefa no mundo. 


QUANDO JESUS DISSE O SHEMA


Rembrandt, Cabeça de Cristo, 1640, Gemäldegalerie, Berlim

     «Não penseis que Eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento.» (Mateus 5:17)



     Em Mateus 22:36-40, Marcos 12:28-34 e Lucas 10:25-28, Jesus, quando inquirido acerca do primeiro mandamento da Lei, recita o Shema.

-Um doutor da Lei que ali estava ouviu a discussão. Vendo que Jesus tinha respondido bem, aproximou-se d’Ele e perguntou: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu: «O primeiro mandamento é este: Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor! E amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo mandamento é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não existe mandamento mais importante do que estes dois».

     O doutor da Lei disse a Jesus: «Muito bem, Mestre! Como disseste, Ele é, na verdade, o único Deus, e não existe outro além d’Ele. E amá-Lo com todo o coração, com toda a mente e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo é melhor que todos os holocaustos e do que todos os sacrifícios». (Marcos 12:28-34)



Mais um artigo da nossa,

Sónia Craveiro



Muito obrigada



Fontes:
The Mishneh Torah, Maimonides
http://gizra.github.io/CDL/pages/D426D901-F0FB-99E7-6E57-289CFFFBDD64/
Torá, A Lei de Moisés, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2001, Brasil
Bíblia Hebraica, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2006, Brasil
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, 1993, PAULUS Editora, Portugal
The Art of Listening
https://www.ou.org/torah/parsha/rabbi-sacks-on-parsha/the-art-of-listening/
Listen, Really Listen  http://rabbisacks.org/listen-really-listen-eikev-5778/
Elijah and the prophetic truth of the ‘still, small voice’
http://rabbisacks.org/elijah-prophetic-truth-still-small-voice/
https://www.youtube.com/watch?v=82JbnMWKtS

sábado, 1 de setembro de 2018

“KOL NIDREI”




UMA HISTÓRIA POR CONTAR


O Talmude a ser carregado em Paris para ser queimado. Diorama de uma Exposição 
do Museu do Povo Judeu (Beit Hatfutsot), Telavive.


    A 12 de Junho de 1242, vinte e duas carroças carregadas com milhares de volumes do Talmude da Babilónia chegam a uma das principais praças de Paris. Os rumores já se haviam espalhado e uma multidão, conduzida pelo apóstata judeu Nicholas Donin, enche as ruas ao redor da Praça Grève para assistir ao grande espectáculo: a queima dos livros judaicos.

     Na base desta sentença encontram-se acusações de Nicholas Donin, entre elas a de que os judeus usavam o texto da oração Kol Nidrei, que permite ao crente a quebra dos seus votos, como forma de escapar ao pagamento de dívidas e assim explorar os gentios.



Maurycy Gottlieb, Judeus em oração na Sinagoga em Yom Kippur, 1878, 
Museu de Arte de Telavive.


    No Yom Kippur, ou «Dia da Expiação», recitam-se súplicas e orações ao longo do dia para implorar o perdão de Deus. A oração Kol Nidrei abre o serviço da noite. Kol Nidrei entrou no ritual como uma fórmula de anulação de promessas feitas a Deus, sem no entanto suprimir as obrigações que um homem possa ter assumido para com outro. É convicção inabalável do Judaísmo que as orações do homem, inclusive as do Yom Kippur, só podem expiar os pecados cometidos para com Deus; os que porventura foram cometidos em prejuízo de outras pessoas não serão perdoados senão pelas pessoas ofendidas.



Kol Nidrei, Machzor de Worms, c. 1272 a 1280, Biblioteca Nacional de Israel, Jerusalém.


     Não havendo certezas quanto à data da criação do Kol Nidrei, assume-se que é do período dos Geonim (século VII a XI). Os Geonim (literalmente “excelência” ou “esplendor”) estavam à frente das Academias Talmúdicas da Babilónia e representavam uma autoridade religiosa e espiritual, reconhecida na generalidade do mundo judaico. 

De acordo com certas fontes actuais, os Geonim rejeitaram o Kol Nidrei por recearem uma deterioração moral causada por crentes pouco escrupulosos relativamente aos próprios votos. Este receio seria mais tarde partilhado por Maimónides, que desprezou a oração nos seus trabalhos. Rashi considerou que o Kol Nidrei se destinava apenas a quebrar votos esquecidos. O texto foi finalmente aprovado e incluído nas orações de Yom Kippur, em 1565, pelo rabi Yosef Caro, autor do “Shulchan Aruch”, o código legal mais consultado do Judaísmo.

     No sentimento dos Judeus, a oração Kol Nidrei ficou ligada às sinagogas secretas dos «marranos» na Espanha medieval. Convertidos pela força ao Cristianismo, os «marranos» ter-se-ão autorizado a si mesmos a recitar as orações do Yom Kippur em boa consciência, depois de terem anulado os votos pronunciados para com uma outra fé professada à força.


A DENÚNCIA DO TALMUDE


Rafael, Papa Gregório IX, fresco, 1511, Palácio Pontifício, Vaticano.


     Nicholas Donin, judeu de La Rochelle, estudou na Yeshiva de Paris, então sob a direcção do reputado rabi Yehiel ben Joseph. Porém, as suas posições face aos textos sagrados e à Lei Oral eram de tal forma radicais que acabou por ser expulso da instituição e em 1225 excomungado da congregação. Anos mais tarde converteu-se ao Cristianismo, vindo a integrar a Ordem Franciscana. Nutrindo um ódio profundo aos seus antigos correligionários, o seu primeiro acto de retaliação foi instigar os Cruzados a uma perseguição sangrenta aos judeus da Bretanha. Em Poitou e Anjou foram assassinados 3000 judeus; 500 aceitaram a alternativa do baptismo.

     Em 1236, Donin enviou ao papa Gregório IX uma denúncia formal contra os judeus, em geral, e contra o Talmude, em particular. Dos 35 artigos acusatórios que elaborou, constam acusações particularmente sensíveis à doutrina cristã, tais como o Talmude conter blasfémias contra Jesus e Maria, ataques à Igreja, agravos a não-judeus e outras falsidades. Donin concluiu que o Talmude era o real impedimento à conversão dos judeus ao Cristianismo. 


A GRANDE DISPUTA DE 1240


Luís IX de França, Bíblia de São Luís (Bíblia Moralizada), França, c. 1227-34, 
The Morgan Library and Museum, Nova Iorque.


   Gregório IX aceitou as denúncias de Donin e decidiu enviá-las aos reis de França, Inglaterra, Castela, Aragão e Portugal, e a todos os principados italianos. Neste âmbito, os bispos daqueles países deveriam proceder ao confisco de todos os exemplares do Talmude, o qual deveria ser executado no primeiro sábado da Quaresma de 1240. Luís IX de França foi o único monarca a obedecer à ordem papal. Além de obedecer à ordem papal, Luís de França promoveu uma disputa pública, a que se seguiu um julgamento do Talmude. A acusação era constituída por cinco clérigos, entre eles Donin e o cardeal Eudes de Châteauroux, reitor da Universidade de Paris; a defesa por quatro rabis, todos renomados Tosafistas franceses, liderados por Yehiel ben Joseph de Paris. No final, e sem surpresas, o tribunal considerou o Talmude uma “obra herética” e condenou-o à fogueira. Dois anos mais tarde, a 12 de Junho de 1242, os preciosos livros foram solenemente queimados.


A Queima dos Judeus, “Crónicas de Nuremberga” (Liber Chronicarum), 
impresso em Nuremberga, 1493.


    Os acontecimentos ocorridos em Paris entre 1240 e 1242 provocaram vagas de difamação e de perseguição às comunidades judaicas, cada vez mais violentas e com consequências cada vez mais dramáticas. A Disputa de Paris extravasou fronteiras, servindo de modelo a outras disputas públicas, nas quais os rabis eram obrigados a defender-se de acusações cristãs apresentadas por prelados e apóstatas. Destaquemos a de Barcelona, realizada em 1263, que opôs o Ramban (Nachmanides) a Pablo Christiani, um judeu convertido ao Cristianismo. Nachmanides (que mantinha relações privilegiadas com cristãos) venceu a disputa, sendo agraciado pelo rei Jaime I de Aragão. Mas a sua vitória despoletou a ira dos Dominicanos e, aos 70 anos de idade, Nachmanides viu-se forçado a fugir de Espanha. Encontrando refúgio na Terra Santa, viveu primeiro em Jerusalém, onde fundou uma sinagoga (ainda hoje aberta ao culto) — a Sinagoga Ramban — e depois estabeleceu-se em Acre, onde escreveu o seu famoso comentário da Torah.


JURAMENTUM MORE JUDAICO


Juramento de um Judeu (de pé, em cima de uma pele de porco, apontando para uma Torah). Manuscrito Alemão Schwabenspiegel, f.204r, ilustrador Diebold Lieber, c.1425, Biblioteca Real da Bélgica, Bruxelas.


     Instituído na Idade Média, o Juramentum More Judaico ou Juramentum Judaeorum era uma forma de juramento a que os judeus eram submetidos em processos judiciais com não-judeus. Tanto o texto do juramento, como o simbolismo do ritual, cujo objectivo era o de assegurar que os judeus honrassem compromissos assumidos com gentios, eram explícitos quanto ao castigo atribuído, caso o judeu prestasse falso testemunho. Acima de tudo, o cerimonial destinava-se a humilhar o judeu, numa demonstração de absoluto desprezo. Eis alguns exemplos dos rituais aviltantes que acompanhavam o juramento:

•           França: o ritual era realizado no interior de uma sinagoga com as portas da Arca Sagrada completamente abertas; o judeu, de joelhos, tinha de usar um espinho entre as pernas muito juntas e um colar de espinhos à volta do pescoço;

•           Silésia: o judeu tinha de ficar de pé num banco de três pernas e de cada vez que caía pagava uma multa, perdendo finalmente o caso se caísse quatro vezes;

•           Roménia: o judeu tinha de permanecer deitado com uma vela suspensa sobre a cabeça, ao mesmo tempo que um chifre era soprado 7 vezes e lhe era lida a “Canção de Moisés”; por fim, o judeu colocava as mãos sobre uma Torah e recitava os versos do “Shemá Israel”, enquanto o juiz o ameaçava e à sua família.

     Esta prática degradante vigorou na Europa até meados do século XIX, sendo definitivamente abolida em 1869. Contudo em 1902 um tribunal na Roménia ainda fez uma actualização do juramento.

     O Juramentum More Judaico, embora inserido num quadro geral de anti-semitismo, depois do Julgamento do Talmude ficou intimamente associado ao significado pejorativo que as autoridades cristãs atribuíram à oração Kol Nidrei, incorporando um objectivo particular: o de anular os efeitos da oração.



Isidor Kaufmann, “Dia da Expiação”, c.1907


   KOL NIDREI — Todos os votos, as proibições, os juramentos, os anátemas, as interdições, os empenhos e os compromissos que a nós mesmos impusermos, seja por voto solene, juramento, anátema ou auto-imposição a partir deste Yom Kippur até ao próximo Yom Kippur - que venha a nós em paz -, todos eles são declarados completamente nulos, não ocorridos e inexistentes. Nossos votos não são votos, nossos compromissos não são compromissos e nossos juramentos não são juramentos. 





Kol Nidrei, Cantor Azi Schwartz, Yom Kippur, 2016, Sinagoga de Park Avenue,
Nova Iorque.


     A melodia sublime do Kol Nidrei, provavelmente a mais célebre de todas as da liturgia judaica, inspirou compositores como Beethoven, onde a mesma é reconhecível no seu Quarteto de Cordas nº14, em Dó sustenido menor, ou Max Bruch que a transpôs para violoncelo e orquestra. Terminamos este artigo com o Kol Nidrei, Op.47, de Max Bruch, num concerto realizado no Vaticano, em memória das vítimas do Holocausto. 




Kol Nidrei para violoncelo e orquestra de Max Bruch.  Concerto em memória das vítimas do Holocausto. Vaticano, Roma,7 de Abril de 1994.


GMAR CHATIMAH TOVAH!

Artigo de
Sónia Craveiro
Muito obrigada

Fontes:

HERTZFELD, Arthur, JUDAÍSMO, O grande perdão (Yom Kippur), Editorial Verbo, 1981
https://fr.wikipedia.org/wiki/Proc%C3%A8s_du_Talmud
http://www.morasha.com.br/historia-judaica-na-antiguidade/a-queima-do-talmud.html http://www.jewishvirtuallibrary.org/oath-more-judaico-or-juramentum-judaeorum
http://en.wikipedia.org/wiki/Nahmanides
https://www.jewishhistory.org/the-early-geonic-period/