segunda-feira, 11 de junho de 2018

ABORTO





O DEBATE CONTINUA


CHAI - (Vida em hebraico)


     No pensamento judaico, a Lei Oral (Torah she’be’ al peh) encerra uma verdade fundamental: o significado do texto não nos é dado pelo próprio texto. Entre o texto e o seu significado encontra-se o acto da interpretação — dependendo de quem o interpreta, em que contexto, e aquilo em que acredita. Todavia sem uma interpretação autorizada pela tradição, a Lei Oral mergulharia no caos.

     Convém lembrar que no Judaísmo houve grupos sectários — saduceus, caraítas e outros — que aceitaram a Torah Escrita, mas não a Lei Oral, uma realidade que se verificaria insustentável. O Talmude da Babilónia demonstra-nos isto mesmo com elegância e humor. Conta-nos a história de um não-judeu que queria converter-se ao Judaísmo, dirigindo-se, para o efeito, ao grande sábio Hillel. Contudo, o candidato fez uma ressalva: «Converto-me na condição de aceitar a Lei Escrita, mas não a Oral.» Hillel não protestou e disse ao homem que o ensinava. 





      No primeiro dia Hillel ensinou-lhe as quatro primeiras letras do alfabeto hebraico: alef, bet, guimel, dalet. No segundo dia ensinou-lhe as mesmas letras, mas na ordem inversa: dalet, guimel, bet, alef. «Mas ontem», protestou o homem, «ensinou-me o contrário.» «Sabe», retorquiu Hillel, «tem de confiar em mim até para lhe ensinar o alfabeto. Tem de confiar em mim, também no que toca à Lei Oral.» (Shabbat 31a). Esta pequena história do Talmude vem lembrar-nos que sem um acordo de princípios não pode haver ensino, nem aprendizagem, nem autoridade, nem genuína comunicação.



Maimónides, Mishneh Torah, Sefer Mishpatim [O Livro do Código Civil], fol. 355v, volume 2, Lisboa, 1471-1472, British Library, Londres


    Em Êxodo 21:22-23 (Parashat Mishpatim) encontramos uma passagem que, embora não diga respeito ao aborto per se, descreve uma situação em que dois homens brigam e uma espectadora, uma mulher grávida, é atingida e em consequência dos ferimentos aborta. Qual o castigo adequado a semelhante caso? Eis o texto:

“Numa briga entre homens, se ferirem uma mulher grávida e for causa de aborto, mas não houver dano [asson] fatal, o culpado será obrigado a indemnizar aquilo que o marido dela exigir, e pagará o que os juízes decidirem. Mas se houver dano fatal, então pagará vida por vida, …”

     A palavra asson significa “prejuízo, maldade, calamidade, dano, desastre”. Jacob usa-a quando os filhos lhe dizem que o vice-rei do Egipto (José) insiste que no regresso levem com eles Benjamim, o irmão mais novo, se querem ser absolvidos do crime de espionagem. Com o desaparecimento de José, Benjamim é o único filho que resta a Jacob, da sua amada esposa Raquel (entretanto falecida). Jacob não autoriza a saída de Benjamim, dizendo: «Se levardes este também de junto de mim e lhe acontecer algum desastre (asson), de tanta dor, fareis descer minha velhice ao túmulo.» (Génesis 44:29)

     No Judaísmo, o significado da lei que decorre da luta entre os dois homens é a seguinte: se a mulher aborta, mas não sofre outras lesões, o culpado é obrigado a pagar uma indemnização pela criança não-nascida, não sofrendo outras penalidades. Mas se a mulher morre, a ofensa é considerada um dano fatal. (Em Sanhedrin 79a, os sábios discordam se deve, ou não, ser aplicada a pena capital.)

     Uma coisa, no entanto, é clara. Causar o aborto a uma mulher grávida— ser responsável pela morte de um feto — não é uma ofensa capital. Até ao nascimento, o feto não tem estatuto de pessoa.



Fílon de Alexandria. André Thévet: Les vrais pourtraits et vies des hommes 
illustres grecz, latins et payens (1584)


      Ao mesmo tempo que em Israel os sábios ensinavam esta lei, havia em Alexandria, no Egipto, uma comunidade judaica considerável. Uma passagem no Talmude descreve o esplendor da sinagoga daquela cidade. A comunidade judaica alexandrina, cujo membro mais famoso foi o filósofo Fílon (c.20 AEC-c.50 EC), estava profundamente helenizada; desenvolveu as suas próprias tradições, por vezes diferentes da norma rabínica. Fílon, num dos seus trabalhos, explica a passagem bíblica em questão a um público não-judeu, parafraseando-as nas seguintes palavras:

«Mas se alguém tiver uma disputa com uma mulher grávida, a ferir na barriga e ela abortar, se a criança que foi concebida nela ainda não está moldada e não formada, ele será punido com uma multa, tanto para o assalto que cometeu, mas também porque impediu a natureza, que estava a formar e a preparar a mais excelente de todas as criaturas, um ser humano, de a trazer para a existência. Mas se a criança que foi concebida assumiu uma forma distinta em todas as suas partes, tendo recebido todas as suas próprias qualidades conjuntivas e distintivas, ele morrerá. Para uma criatura como essa, é um ser humano quem ele matou enquanto ainda estava na oficina da natureza, que entendeu ainda não ser o momento adequado para o trazer à luz, mas o manteve como uma estátua pousada na oficina do escultor, nada mais exigindo além de ser lançado e enviado para o mundo.» (Leis Especiais, III: XIX)

     Fílon interpretou a palavra asson, não como “calamidade”, mas como “forma”. Isto altera completamente o sentido dos versículos bíblicos em causa. Em ambos os casos, Fílon refere-se exclusivamente ao feto, nunca à mulher. No primeiro caso “não há asson”, pois o feto ainda não estava “moldado”, por se encontrar numa fase precoce; o segundo caso fala de um feto “já com forma”, numa fase adiantada de gestação. Fílon é particularmente expressivo quando compara um feto desenvolvido a uma escultura acabada, mas que ainda não deixou a oficina do escultor. Segundo este ponto de vista, o feticídio — aborto — pode ser considerado um acto de homicídio.



Apóstolo João (esq.) e Márcion de Sinope (dir.), MS 748, Itália, 
séc. XI, Morgan Library, Nova Iorque


      A interpretação de Fílon, bem como o ponto de vista da generalidade da comunidade judaica alexandrina (certamente influenciados pela perspectiva aristotélica que faz a distinção entre o feto “inanimado” e o “animado”), viriam a desempenhar um papel importante na história religiosa do Ocidente. A vitória decisiva da Igreja Paulina sobre a Igreja de Jerusalém, liderada por Tiago, irmão de Jesus, significou que o Cristianismo se difundiu especialmente entre os gentios, e não tanto entre os judeus.

     É justamente em Alexandria que acontece a tradução da Bíblia Hebraica para o grego (conhecida por Septuaginta/Antigo Testamento). Assim, os primeiros textos cristãos, se bem que profundamente dependentes da Bíblia Hebraica, foram escritos em grego. De facto, a única tentativa séria para separar completamente o Cristianismo da Bíblia Hebraica foi da responsabilidade do Gnóstico Márcion (séc. II) que por esta razão seria condenado por heresia.

     Os cristãos estavam, portanto, dependentes das traduções da Bíblia Hebraica, e respectivos comentários, para o grego, que eram realizadas no seio da comunidade judaica alexandrina. Como resultado, no caso particular que toca ao ensino sobre o aborto, os cristãos primitivos seguiram o pensamento de Fílon, em detrimento de o dos Sábios de Israel.



Piero della Francesca, Santo Agostinho, séc. XV, MNAA, Lisboa


      A principal diferença era, como a colocou Santo Agostinho (354-430), entre embryo informatus e embryo format — o feto ainda por formar e o já formado. Se o feto já estava formado, com mais de 40 a 80 dias após a concepção (decorria uma discussão acerca do período devido), então causar a sua morte era considerado assassínio. Assim pensava o teólogo latino Tertuliano, do século II. A lei permaneceu deste modo até 1588, quando o Papa Sisto V decretou que o aborto em qualquer estágio era considerado crime capital. Esta lei seria revogada três anos mais tarde por Gregório XIV e reintroduzida por Pio IX, em 1869. O Papa Pio IX (responsável pelo dogma da Imaculada Conceição e pela infalibilidade papal) declarou que a vida começa no momento da concepção e que o aborto, em qualquer momento de gestação, é punível com a excomunhão. Esta proclamação tornou-se Lei Canónica da Igreja Católica.


QUANDO COMEÇA A VIDA?


      Na Lei Judaica o estatuto de pessoa resulta de uma consideração legal que estabelece uma distinção, sendo essa distinção o acto do nascimento, a separação física do bebé do corpo da mãe. No entanto, apesar do feto não ter estatuto de pessoa, é uma pessoa em potência, devendo por isso ser protegido. Precisamente porque não podemos determinar o exacto momento em que a vida começa, não devemos admitir o aborto em nenhum estágio de gestação. Todavia, numa situação excepcional em que se coloca o dilema de salvar a vida da mãe, ou a do feto, tem precedência a vida da mãe.


A Lei Judaica permite explicitamente o aborto?


     Sim, mas só em circunstâncias muito limitadas. A situação mais comum, descrita explicitamente na Mishnah, é quando a vida da mãe corre perigo em consequência da gravidez. Alguns consideram que neste caso, o aborto, não só é aconselhável, como é imperativo. Mas quando a cabeça do bebé emerge da mãe (algumas autoridades afirmam que deve ser a maioria do corpo, outras apenas um membro), a terminação da gravidez já não é permitida, pois a Lei Judaica não permite sacrificar uma vida para salvar outra. 

     De salientar que entre as autoridades ortodoxas há controvérsia quanto à permissibilidade do aborto. Ou seja, certas fontes rabínicas ortodoxas defendem o aborto quando a saúde da mãe está vulnerável, sem, no entanto, correr perigo de vida; quando comprovadamente o feto sofre de malformação severa; quando a saúde mental da mãe pode ser comprometida; ou quando a gravidez decorre de uma união sexual proibida. Deste modo, as autoridades rabínicas insistem que cada caso deve ser objecto de análise individual.

     Já o Movimento Masorti (Conservador nos EUA), decretou universalmente em 1983, a permissão do aborto nos casos em que a continuação da gravidez seja susceptível de causar à mãe graves danos físicos ou psicológicos, ou quando o feto for declarado severamente deficiente.

     O Movimento Reformista tem uma abordagem semelhante. Em 1985, o rabinato do movimento incluiu no bem-estar psicológico da mãe casos de violação ou de incesto, enfatizando a oposição ao aborto por razões triviais ou “a pedido”. Em conclusão, no Judaísmo, seja ele ortodoxo, conservador ou reformista, o debate à volta do aborto continua. Mas num ponto todas as correntes estão de acordo: o aborto “a pedido” é inconcebível. 



Este artigo é da inteira autoria de
Sónia Craveiro
 
Muito obrigada


Texto adaptado de “Abortion: The Debates Continues”, por Rabino Lord Sacks
http://www.jewishpress.com/in-print/from-the-paper/abortion-the-debate-continues/2018/02/08/
Outras Fontes:
https://www.firstthings.com/blogs/firstthoughts/2009/05/science-ethics-and-abortion-the-perspective-of-britaine28099s-chief-rabbi
https://embryo.asu.edu/pages/effraenatam-1588-pope-sixtus-v
https://embryo.asu.edu/pages/pope-gregory-xiv-1535-1591
https://embryo.asu.edu/pages/pope-pius-ix-1792-1878

terça-feira, 27 de março de 2018

domingo, 11 de fevereiro de 2018

“O Sacrifício de Isaac” II




“O Sacrifício de Isaac”
Akedat Yitzchak - Parte 2


William Blake, Abraão e Isaac (1799-1800), Yale Center for British Art, 
New Haven, Connecticut.


      Na piedade judaica a Akedah é o paradigma do martírio judaico; o povo judeu está pronto, em todos os tempos, a dar a vida pela santificação do divino nome (Kidush Ha-Shem). Os judeus, quando consideraram o motivo sacrificial para além dos limites do texto, fizeram-no como consolação à perseguição de que eram alvo, como defesa à insegurança, à catástrofe e à blasfémia. Em suma, fizeram-no para justificar o seu martírio.

     Contudo, de uma forma geral para os pensadores judeus a posição de Deus relativamente à Akedah está previamente definida: o sacrifício não realizado é reduzido a uma questão hipotética, um teste a que Abraão é submetido, não implicando Deus no acto ritual. Mas enquanto o Judaísmo lê a história como o drama de um homem religioso, o Cristianismo, além de o ler assim, implica Deus, o Próprio, no drama. Para os teólogos cristãos o sacrifício não realizado pressagia a Paixão, o sofrimento e a crucificação de Jesus, que define a natureza do Cristianismo.

     De acordo com Santo Agostinho, Isaac representa Jesus na sua disposição em se encaminhar para a morte, na forma como carrega a lenha para a pira, tal como Jesus carregou a cruz, e ainda na expectativa, atribuída a Abraão, da sua ressurreição. O cordeiro preso nos ramos de um arbusto simboliza a coroa de espinhos, adivinhando Jesus entregue ao suplício. 



Marc Chagall, Abraão e Isaac a caminho do lugar do sacrifício, 1931, 
Musée National Marc Chagall, Nice.


    Chagall, talvez o pintor judeu mais notável do século XX, é perturbador na forma sombria como trata a subida de Abraão e Isaac ao Monte Moriah. Ainda na escuridão da noite, Isaac carrega ao ombro um saco com a lenha para o seu sacrifício; ao seu lado Abraão segura uma faca na mão direita, e na esquerda uma vela que ilumina o caminho. A Akedah, tradicionalmente associada ao martírio judeu — o supremo acto de sacrifício e expressão de lealdade na Aliança com Deus —, é um tema recorrente na obra de Chagall.



Marc Chagall, O Sacrifício de Isaac, 1964-66, Musée National 
Marc Chagall, Nice.


       No seu quadro “O Sacrifício de Isaac”, em contraste com as cores sombrias da peça de 1931, Chagall emprega cores como o azul e o vermelho, com toques de dourado. Isaac é representado nu, com o corpo alongado, numa atitude passiva; Abraão, de faca em punho, é interrompido por um anjo; outro anjo (talvez o mesmo, segundos depois) aponta para o cordeiro enredado, não nos ramos de um arbusto, mas no tronco de uma árvore, evocando a verticalidade da madeira, tão central para a imaginação cristã; em cena de fundo há uma crucificação e figuras que choram o crucificado.

     Chagall usou a figura do crucificado pela primeira vez em 1908, sugestionado pela violência dos pogroms na sua Rússia natal. Mas é em 1938, depois da Kristallnacht, que surge a muito controversa “Crucificação Branca”.



Marc Chagall, Crucificação Branca, 1938, Art Institute of Chicago


     A obra representa Jesus, o Judeu, rodeado, à esquerda, de soldados comunistas que atormentam uma aldeia e, à direita, de nazis que incendeiam uma sinagoga. O Crucificado, coberto abaixo do ventre com um talit, ou xaile de oração, está içado no meio, vítima de ódios, à esquerda e à direita, de igual modo. Para Chagall, Jesus na cruz representa a situação de todos os judeus, humilhados, perseguidos, enfim, vilipendiados num mundo aparentemente esquecido de Deus.


Isaac ou Ismael?


Qesas-e Qor’ãn ou Qesas al-anbyiâ — “Histórias do Corão ou História dos profetas e dos reis do passado” (fol. 40), O Sacrifício de Abraão, c.1595, 
Qazvin, BNF, Paris


     Abraão (Ibrahim), «o amigo de Deus», ocupa um lugar importante no Corão. No Corão o episódio bíblico do Sacrifício do filho é mencionado, sem, no entanto, mencionar o nome de Isaac. Sujeito a longos debates entre os comentadores muçulmanos, a opinião dominante é que se trata de Ismael (o primogénito de Abraão e de Agar), a quem a tradição islâmica atribui a fundação do santuário de Caaba, em Meca, juntamente com seu pai.





     Esta pintura realizada na Corte *safávida de Qazvin pertence ao manuscrito da “História dos Profetas”, e é um exemplo do requinte e da riqueza das miniaturas devidas a vários artistas. A intensidade dramática da história é reforçada na expressão amargurada de Abraão que, contrariamente às convenções, encosta a faca ao seu ombro, como se quisesse virá-la para si mesmo; o olhar do filho é impassível, como que perdido algures, numa atitude de total obediência.


***
     Cada uma das três tradições — judaica, cristã e islâmica — faz uma leitura própria do Sacrifício de Isaac (ou Ismael para a maioria dos muçulmanos), desenvolvendo uma narrativa de acordo com a sua identidade particular. Mas há uma mensagem que é partilhada pelas três religiões: a fé de Abraão.


Lech Lechá (Vai por ti) — E o Eterno disse a Abrão: “Vai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei. E farei de ti uma grande nação (…); e serão benditas em ti todas as famílias da terra.” (Génesis 12:1-3)


     Obedecendo a um comando de Deus, Abraão (ou Abrão, como então era chamado), com 75 anos de idade, parte para o desconhecido, deixando para trás as suas referências, a casa paterna e a sua terra natal. Ao não se comportar de uma determinada forma, porque era assim que as pessoas ao seu redor agiam, nem se conformar com os costumes do seu tempo, Abraão teve a audácia de ser diferente, de “estar de um lado, enquanto o resto do mundo estava do outro.” [1]

     Apesar das inseguranças, da velhice e de tantos outros obstáculos que pareciam tornar impossível a realização da promessa que Deus lhe fizera, Abraão seguiu corajosamente a sua jornada. A vida de Abraão foi longa e atribulada, mas sempre guiada pela voz de Deus. Talvez toda ela, e não apenas o episódio do Sacrifício de Isaac, seja um apelo para ouvirmos a voz de Deus, para O deixarmos entrar nas nossas vidas.



Este artigo foi uma oferta da,
Sónia Craveiro


Muito obrigada J


*Safávidas: dinastia muçulmana de obediência xiita que reinou no Irão de 1501 a 1786.
[1] Bereishit Rabbah 42:8

Fontes:

Bíblia Hebraica, Editora e Livraria Sêfer Ltda, São Paulo, Brasil, 2006
Livres de Parole, Torah, Bible, Coran, Bibliothèque Nationale de France, 2005

https://www.firstthings.com/article/2014/04/the-christ-of-marc-chagall
https://www.theway.org.uk/back/s097Mulrooney.pdf
http://shma.com/2011/09/the-binding-of-isaac-or-his-sacrifice-christian-and-jewish-perspectives/
http://rabbisacks.org/inner-directedness-lech-lecha-5778/

sábado, 10 de fevereiro de 2018

“O Sacrifício de Isaac” I




“O Sacrifício de Isaac”


Akedat Yitzchak - Parte 1



Marc Chagall, O Sacrifício de Isaac (detalhe), 1964-66, Musée National Marc Chagall, Nice.


«Chegou o tempo em que Deus quis experimentar Abraão. E disse-lhe: Abraão!» E respondeu: «Eis-me aqui!» E disse: «Toma o teu filho, teu único filho Isaac, a quem amas, e vai à terra de Moriah, e oferece-o ali como oferta de elevação, sobre um monte que Eu te vou indicar.» (Génesis 22:1-2)


         Isaac, filho de Sara e de Abraão, está no centro de uma das histórias mais intrigantes da Torah: “O Sacrifício de Isaac”. O episódio dramático em que Abraão quase sacrifica o filho — conhecido entre os judeus por Akedah, os cristãos por “Sacrifício de Isaac “, e os muçulmanos por Dhabih —, é um tema maior da Bíblia, comum às três fés abraâmicas.

     A narrativa do Livro de Génesis (22: 1-19) conta-nos como Abraão, obedecendo a um comando de Deus, estava disposto a oferecer o seu filho Isaac em sacrifício. Pai e filho viajam durante três dias até Moriah, o lugar do sacrifício, onde constroem um altar. Abraão amarra Isaac, coloca-o sobre uma pira de lenha e pega numa faca para o imolar. No último momento, surge um anjo que lhe roga para não fazer mal ao filho, e um cordeiro, que se encontrava ali perto preso pelos chifres num arbusto, substitui Isaac.



Miscelânea Hebraica, Akedah, folio 521b, 1277, Norte de França, 
British Library, Londres.


          Sabemos que no Mundo Antigo não era raro oferecer crianças em sacrifício aos deuses. Era uma prática pagã. Mas o Tanach vê o sacrifício humano como uma coisa hedionda. Muitos estudiosos da Bíblia interpretam esta história como um protesto contra o sacrifício humano, sendo o ponto nevrálgico o momento em que o anjo intervém para prevenir o assassínio, que Deus, ao contrário dos deuses pagãos, condena enquanto um acto obsceno, e nunca quis, realmente, perpetrar.



Bíblia Hebraica, Akedah (detalhe), 1739, Veneza. 
Gravura de Francesco Griselini. Colecção Braginsky



«O temor a Deus é o princípio da sabedoria e o conhecimento do Eterno é 
a porta do conhecimento» (Provérbios 9:10)


      Outra leitura da Akedah a partir da passagem «Chegou o tempo em que Deus quis experimentar Abraão» (Génesis 22:1), é mostrar que Deus estava a testar Abraão, pondo à prova o seu amor por Ele. Mas porque razão precisaria Deus de “testar” Abraão, quando é certo que Ele conhece o coração humano melhor que nós? De acordo com Maimónides (Guia dos Perplexos 3,24), Deus não precisava que Abraão provasse o seu amor por Ele. Antes, através do teste, Deus fez de Abraão um exemplo destinado a afirmar por todos os tempos até onde a humanidade se deve comprometer na sua devoção e amor por Ele. O “temor a Deus”, identificado em muitas passagens bíblicas como uma virtude religiosa vital, é, segundo Maimónides, um mandamento positivo que exprime o sentimento da pequenez humana face à contemplação das “grandes e maravilhosas acções e criações” de Deus.


Isaac – “Ele riu-se”

  No romance “O Último Cabalista de Lisboa”, de Richard Zimler, Abraão Zarco, um judeu clandestino de Lisboa, dá-nos uma interpretação do      Sacrifício de Isaac, construída a partir da palavra Isaac, que em hebraico quer dizer «ele riu-se» (uma alusão à grande alegria de Abraão por ser capaz de gerar um filho aos cem anos de idade (Gen.17:17).


  “O Último Cabalista de Lisboa”

     Em “O Último Cabalista de Lisboa” (1996), o primeiro de uma série de romances sobre as várias gerações de uma família de judeus portugueses — a família Zarco —, Zimler começa por nos revelar a descoberta, em 1990, numa cave de Istambul, de vários manuscritos do século XVI escritos por um cabalista português chamado Berequias Zarco.

      Berequias, entretanto, exilado em Constantinopla (como era então conhecida Istambul no mundo cristão), compôs no espaço de vinte e três anos, que vão de 5267 a 5290 do calendário hebraico, ou seja de 1507 a 1530 da era cristã, um conjunto de manuscritos redigidos na escrita hebraica angular judaico-portuguesa (um português antigo escrito no alfabeto hebraico).

     Zimler afirma que, embora “O Último Cabalista de Lisboa” seja uma obra de ficção e não uma reconstituição histórica, se manteve rigorosamente fiel à crónica de Berequias Zarco.



António de Holanda. Detalhe do Castelo de São Jorge e das muralhas da cidade no panorama geral de Lisboa. “Crónica de D. Afonso Henriques”, por Duarte Galvão. 1505. Museu-Biblioteca de Castro Guimarães, Cascais.    


     A acção de “O Último Cabalista de Lisboa" decorre em 1506, no reinado de D. Manuel I, entre os judeus forçados à conversão ao cristianismo. Em Abril desse ano, durante as celebrações da Páscoa, cerca de 2000 cristãos-novos foram assassinados num pogrom em Lisboa e muitos deles foram queimados no Rossio. A veracidade destes acontecimentos é corroborada por diversos relatos da matança que chegaram até nós, entre outros, documentos da Igreja e da Coroa portuguesa.

     A trama do romance gira à volta de uma família de cristãos-novos residente em Alfama, cujo patriarca, Abraão Zarco, é um iluminador e membro da célebre escola cabalística de Lisboa. Depois do pogrom, ele e uma rapariga são encontrados mortos na cave da residência da família Zarco, com a porta fechada por dentro. Este o mistério que será resolvido por Berequias Zarco, sobrinho de Abraão e seu discípulo no estudo da Cabala.


O Sacrifício de Isaac, segundo Abraão Zarco


Haggadah de Sarajevo, Akedah, c. 1350, Catalunha, Museu Nacional 
da Bósnia-Herzegovina, Sarajevo.


    No Capítulo VIII, pág. 128 e 129, de “O Último Cabalista de Lisboa”, Berequias Zarco narra como o seu irmão mais novo, Judas, ainda criança, se sente perturbado com o pedido de Deus (de sacrificar Isaac), que lhe parece injusto, pois acredita que Isaac é inocente. Seu tio, o cabalista Abraão Zarco, então explica-lhe: «— Muita gente pensa que esta história quer dizer que por vezes é necessário fazer sacrifícios por Deus — começou o meu mestre —. Um sacrifício tremendo, se preciso for. E até certo ponto têm razão. Abraão estava disposto a sacrificar o seu filho. E também há pessoas que acham que não estava certo que Deus exigisse tal coisa a um homem. E não estava certo que esse homem tivesse aceitado. Talvez tenham também razão. Até eu muitas vezes penso o mesmo. Mas é aqui que está o segredo… — Meu tio inclinou-se mais sobre a mesa, até o seu rosto ficar a tocar o de Judas. Os seus olhos cintilavam. Levando um dedo aos lábios, ciciou: — Não te esqueças de que Isaac quer dizer «ele riu-se». Isto é a prova segura de que a Torah fala por metáforas, por enigmas muito particulares. Isaac não é o filho de Abraão neste mundo. É uma espécie de filho do próprio interior de Abraão. É um filho nascido do riso e da mágoa de Abraão, da sua cólera e da sua ternura, dos seus medos e dos seus sonhos. Então o que é que Deus lhe pediu? Que renunciasse a isso. Que renunciasse às suas emoções e pensamentos mais íntimos, aos seus bens mais preciosos. Que desatasse os nós do seu espírito. E porquê? Para que dentro dele se pudesse abrir uma porta por onde Deus pudesse entrar.

     Meu querido Judas, esta história é um apelo para te abrires a Deus e nada mais. (…) O amor de Deus por ti é tão grande que não hesitou em contar uma história terrível e deixou que pensasses mal d’Ele. Tudo para que um dia O possas encontrar dentro de ti. Tudo o que Ele pretende é poder abraçar-te. Está bem?»



Mishneh Torah, Lisboa, 1472, fol. 11v, barra inferior com dragão (direita), pavão (centro) e leão (esquerda), British Library, Londres


    A noção de que a narrativa bíblica (e todas as situações da vida real) encerra, simultaneamente, diversas camadas de significado, está inscrita no pensamento judaico. Por outras palavras, no pensamento judaico a narrativa bíblica está deliberadamente escrita para ser entendida a diferentes níveis, conforme o nosso desenvolvimento moral e espiritual. Há uma primeira leitura de significado directo, ou óbvio, e depois há leituras mais profundas, que só compreendemos quando atingimos um certo grau de maturidade.


Este artigo foi uma oferta da,

Sónia Craveiro

 
Muito obrigada J



Fontes:
Bíblia Hebraica, Editora e Livraria Sêfer Ltda, São Paulo, Brasil, 2006
ZIMLER, Richard, O Último Cabalista de Lisboa, Quetzal Editores, Portugal, 1996
GREEN, Arthur, Estas são as Palavras, Um Vocabulário da Vida Espiritual Judaica, SOLOMON Editores, Brasil, 2014

http://www.jewishpress.com/judaism/torah/vayeira-the-binding-of-isaac/2014/11/06/0/
http://shma.com/2011/09/the-binding-of-isaac-or-his-sacrifice-christian-and-jewish-perspectives/
http://www.koltorah.org/ravj/Akeidat_Yitzchak_1.html
http://www.jewishvirtuallibrary.org/akedah
http://www.myjewishlearning.com/texts/Bible/Torah/Genesis/The_Binding_of_Isaac.shtml
http://portugal-mundo.blogspot.pt/2008/04/o-ciclo-sefardita-de-richard-zimler.html

                        

terça-feira, 28 de novembro de 2017

“OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE”




“Olho por olho, dente por dente” significará, realmente, 
um olho por um olho?





     “Olho por olho, dente por dente”: esta passagem do Livro do Êxodo (Êx. 21:24) é uma das mais conhecidas da Torah, e também uma das que mais tem prejudicado a reputação do Judaísmo ao longo dos tempos.
     Em sociedades pré-bíblicas não é difícil imaginar uma vítima de agressão tirar a vida ao seu agressor, como forma de retaliação, criando assim um ciclo infindável de conflitos e vinganças, que se prolongaria de geração em geração. Ao definir a ideia de que uma lesão provocada deve ser objecto de reparação material, a Torah não aprova a vingança, estabelecendo como reparação uma medida standard imediatamente perceptível como justa. 



Jean Fouquet, Pompeu no Templo de Jerusalém, c. 1470, BNF, Paris


       É do conhecimento geral que a Judeia do Período Romano estava muito fragilizada. A influência greco-romana era omnipresente e insidiosa, com manifestações inegáveis de paganismo, e aos problemas interétnicos entre as populações judaicas e não-judaicas, juntavam-se as tensões sociais, religiosas e políticas no seio da própria sociedade judaica. Pode assim deduzir-se que numa população tão heterogénea e conturbada, a Torah não fosse conhecida de todos, ou que muitos dela tivessem um conhecimento pobre e limitado, se não mesmo deturpado.

     Como mais adiante tentaremos demonstrar, a frase “olho por olho, dente por dente” faz parte de uma sentença destinada a implementar normas de justiça e equidade. Contudo, por muito revolucionária que a directiva “olho, por olho” tenha sido quando a Torah foi escrita, durante o Período Romano terá degenerado numa espécie de receita para um legalismo mesquinho e rudimentar — uma troca por troca.




James Tissot, “O Sermão da Montanha”, Ilustração para “A Vida de Cristo”, c. 1886-96, Brooklyn Museum of Art, Nova Iorque


«Não penseis que Eu vim abolir a Lei e os Profetas. 
Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento.» 
(Sermão da Montanha – Mateus 5:17).


     No Sermão da Montanha, Jesus fez questão de realçar o tema, quando repudiou a frase “olho por olho, dente, por dente”, em concreto: «Ouvistes o que foi dito: “Olho por olho, dente por dente!” Eu, porém, digo-vos: não vos vingueis de quem vos fez mal. Pelo contrário: se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a esquerda!» (Mateus 5:38-39). Este texto, para ser entendido, não pode ser extirpado do contexto maior. Ou seja, o propósito de Jesus no Sermão da Montanha não era o de abolir a Lei de Deus, revelada por meio de Moisés, mas antes de a confirmar, refutando as distorções que lhe eram feitas.



John Hamilton Mortimer, Shylock, 1776, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque



     Para a posteridade, “olho por olho, dente por dente”, também chamada “Lei de Talião”, viria a representar para a Cristandade o que de pior havia no Judaísmo, uma religião de lei, em vez de uma religião de amor; o Judaísmo oferece uma vingança rancorosa, enquanto o Cristianismo oferece uma generosidade sublime – uma equação que foi, e ainda continua a ser, profundamente influente na cultura ocidental.

     Na peça O Mercador de Veneza, de Shakespeare, a insistência de Shylock, o usurário judeu, em tirar uma libra de carne do corpo de António, o mercador cristão, conforme o espírito da lei, é uma metáfora eloquente desta ideia. A disputa entre Shylock e António levanta a questão sobre o direito do credor à sua propriedade, e o direito à vida. Objectivamente, o mote central da peça é sobre a Lei e a Justiça, onde subjaz o conflito entre a Cristianismo, representado por António, e o Judaísmo, representado por Shylock. 


O PROBLEMA

    Interpretar o conceito bíblico “olho por olho, dente por dente” como uma forma de reciprocidade rigorosa entre o crime e a pena, é consensual, como sabemos. Mas se lermos atentamente o texto da Torah, percebemos que o seu objectivo não é a vingança, mas sim fazer justiça: “Olho por olho, dente por dente, (…). E quando ferir um homem o olho de seu escravo ou o olho de sua escrava, e o danificar, o deixará em liberdade por causa de seu olho.” (Êx. 21: 24-26).
     O texto bíblico é claro quando faz a correspondência entre o mal causado a alguém e o castigo imposto a quem o causou. Neste caso, o agressor perde o direito à sua propriedade, enquanto a vítima ganha a liberdade. Nenhum momento do texto aponta para vingança. Pelo contrário: a vítima, apesar da sua condição de escravo, tem o direito inalienável a não ser lesada na sua integridade física. Porque o foi, é indemnizada com o direito à liberdade. Isto não é vingança, é justiça!
     Desta forma, “olho por olho, dente por dente”, não tem o sentido que lhe é atribuído; na verdade é uma lei que impõe critérios de justiça e equidade, na qual aquele que transgride é obrigado a compensar a parte lesada.
     Partindo da lei bíblica, os rabis produziram uma série de textos legais, constantes nos tratados Ketuvot 32b e Bava Kama 83b, que integram o Talmude. Embora não se saiba exactamente quando foi instituída a prática do pagamento de multas para ressarcir danos físicos causados a outrem, sabe-se que quando a Mishnah foi compilada, no século I da EC, já era uma prática consagrada.

LER, COMPARAR E CONTEXTUALIZAR



Haggadah Ashkenazi, Cinco Rabis em Bnei Brak, c. 1560-1575. 
British Library, Londres

AYIN TACHAT AYIN, SHEIN TACHAT SHEIN
“OLHO POR OLHO, DENTE POR DENTE”

      No texto bíblico, “Olho por olho, dente por dente” apresenta-se em hebraico na forma “Ayin tachat ayin, shein tachat shein”. Alguns especialistas defendem que a palavra “tachat”, que é traduzida “por” não tem este significado, significando antes “no lugar de”. Para o efeito dão alguns exemplos: no episódio do sacrifício de Isaac, Abraão sacrifica um carneiro tachat o seu filho Isaac (Génesis 22:13); na história de José na corte do Faraó, Judah diz a José: «deixa-me ser teu servo tachat Benjamim» (Génesis 44:33). Ou o episódio da prostituta Rahav em Jericó, quando os espiões israelitas dizem a Rahav que se esta não os denunciar, a troco da sua discrição eles empenham as suas vidas tachat dela (“A nossa vida responderá pela vossa, se não denunciardes esta nossa conversa.” (Josué – 2:14).
     Daqui podemos concluir que alguém que cega outra pessoa, tem de dar a essa pessoa algo tachat o olho perdido, alguma coisa no lugar do olho perdido. Essa alguma coisa, diz-nos a tradição, será uma compensação monetária.

Há um Deus, mas há muitas fés.
Isto diz-nos que Deus é maior que a religião.

     Um dos momentos mais trágicos da civilização ocidental, foi quando os cristãos começaram a distinguir entre aquilo a que chamaram o “Deus de vingança do Velho Testamento”, por oposição ao “Deus de amor do Novo Testamento”. É uma daquelas assunções que está de tal forma enraizada na cultura, que nem é posta em causa. Causa arrepios, só de pensar quantos judeus perderam a vida à luz deste preconceito.
     “Olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé” é apenas um versículo dos 118 que compõem o Código Legislativo, compreendido entre os capítulos 21 e 24 (Parashat Mishpatim), do Livro do Êxodo. Interpretar a frase “olho, por olho, dente por dente” na perspectiva da vingança, não é um erro menor. Afinal, ler um verso, tirá-lo do contexto, e formular conclusões a partir daí, pode ter consequências devastadoras. E tem prejudicado gravemente a reputação do Judaísmo.



Este artigo foi uma oferta da,
Sónia Craveiro


Muito obrigada J

Fontes:

Torá, a Lei de Moisés, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2001, São Paulo, Brasil;
Bíblia Sagrada, Evangelho segundo Mateus, Paulus Editora, 2012, Lisboa;