terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Metamorfoses de uma Cidade Medieval - Viseu



A coexistência entre a Comunidade Judaica e a Catedral de Viseu


Por Anísio Miguel de Sousa Saraiva
Centro de História da Sociedade e da Cultura - UC;
Centro de Estudos de História Religiosa – UCP
anisio@sapo.pt


Viseu, vista da cidade.


(…)A história da comuna judaica viseense inicia-se, portanto, nos finais do século XIII e, tal como sucede com a esmagadora maioria das localidades portuguesas, o seu estudo depende exclusivamente das informações constantes nas fontes cristãs, uma vez que desta comunidade não chegaram quaisquer testemunhos escritos a respeito da sua constituição ou do seu funcionamento. A imagem que hoje podemos construir dos judeus de Viseu é, assim, limitada ao resultado de uma leitura realizada de fora para dentro, ou seja, a partir do exterior deste grupo e circunscrita aos registos que a maioria cristã deixou nos seus centros de produção documental. No caso particular de Viseu, a base para o estudo da comuna hebraica encontra-se na chancelaria régia, mormente no que diz respeito à centúria de Quatrocentos[20], e, sobretudo, no rico repositório informativo do cartório do cabido da Sé viseense, de onde provém a esmagadora maioria das fontes para a história da presença judaica na cidade, agora por nós elencada e que compreende uma cronologia que se estende dos finais do século XIII até aos inícios do século XVI[21]. É especialmente através dos documentos produzidos ou recolhidos pelo cabido da catedral que se torna possível perscrutar as características e as linhas de inserção da minoria hebraica, numa leitura que se entrecruza, inevitavelmente, com a vida económica desta instituição eclesiástica, a mais importante de Viseu e de toda a região da Beira. A Sé, na condição de detentora de grande parte da propriedade urbana e peri-urbana da cidade, funcionou como um dos principais interlocutores no relacionamento entre judeus e cristãos, e exerceu uma forte influência nos mecanismos de organização sócio-espacial daquela minoria, o que desde logo se pode compreender se tivermos em conta o facto do cabido ser o proprietário de muitas das casas e dos bens habitados e emprazados por judeus[22].




Sé de Viseu, fachada © DGEMN


Cientes desta estreita ligação estabelecida entre o cabido da catedral e a comuna, examinemos então com mais pormenor as fontes e analisemos o que elas nos têm a dizer.
Situa-se em pleno reinado dionisino e a poucos anos do final do século XIII, mais concretamente em 1284, a primeira referência a um judeu habitante de Viseu,



Mais antiga referência documental a um judeu habitante em Viseu, 1284 (Janeiro) © DGARQ / ADVIS (Pergaminhos, m. 26, n. 16).


de nome Abraão e antigo proprietário de casas no Soar[23], que em 1293 foi indiciado pela justiça do rei, acusado de cobrar mais do dobro do montante de um empréstimo que concedera a um cristão da cidade[24]. Abraão residia com sua mulher Donti Dona numas casas em Cimo de Vila, na entrada sul do arrabalde de Viseu[25], junto das quais o casal possuía uma outra habitação com sobrado, que optou por alienar a um cónego da Sé, em Março de 1305[26].



Locais de fixação dos primeiros judeus de Viseu, sécs. XIII-XIV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Como testemunha do contrato de compra e venda deste imóvel aparece um outro judeu, chamado Bento, que, por certo, e juntamente com a família de Abraão, terá convivido com Abricio, também membro da comunidade judaica e morador, pelo ano de 1303, junto ao terreiro da ermida de S. Domingos[27]. Mostram-nos estas referências, apesar de esparsas, alguns dos nomes dos primeiros hebreus de Viseu que, na transição do século XIII para o XIV, se fixaram no arrabalde da cidade, mais concretamente junto a Cimo de Vila e a S. Domingos, habitando um espaço urbano também ocupado pela população cristã e situado numa zona privilegiada de acesso ao eixo viário que fazia a ligação a sul, em direcção a Coimbra[28]. Infelizmente, nada mais se conhece desta primeira comunidade hebraica, tão pouco o documento régio que eventualmente terá sancionado a sua formação[29]. Os registos documentais do século XIV mostram-se parcos em informações sobre este grupo, revelando-nos apenas sinais de aproximação à maioria religiosa, de que são exemplos o caso de um judeu convertido ao cristianismo[30] e alguns indícios de agitação entre os cristãos e esta minoria semita, ocorrida durante o reinado de D. Afonso IV. Referimo-nos a queixas que os oficiais do concelho fizeram chegar ao monarca reclamando da conduta do corregedor quando estanciava em Viseu, por frequentemente tomar para si e para a aposentadoria dos seus homens roupas e camas aos vizinhos cristãos, em vez de o fazer aos vizinhos judeus, como, aliás, mandava o costume antigo da cidade[31].



Localização da Judiaria de Viseu, segunda metade séc. XIV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Se estes primeiros dados apontam para a presença judaica no arrabalde citadino, pelos inícios do reinado de D. Pedro I (1357-1367) essa tendência de fixação mostra-se ter invertido, em favor da centralidade imposta pela Praça, na confluência da qual se situava a Rua da Triparia, que ligava aquele largo à não menos central e animada Rua das Tendas[32], onde, pouco antes de 1359, se regista a morada de um judeu chamado Jacob[33]. De facto, este dado leva-nos a suspeitar que, pelo começo da segunda metade de Trezentos, o bairro dos judeus já tivesse abandonado o arrabalde deslocando-se para este núcleo estratégico do centro urbano[34]. Prova disso surge anos mais tarde, em 1379, ao registarmos a primeira referência documental à sinagoga de Viseu, localizada nas imediações da Praça e da Triparia, mais precisamente numa das quelhas que partiam da rua das Tendas[35], por certo não muito afastada da Rua da Judiaria, documentada também pela primeira vez, em 1386[36]. Estas duas importantes referências permitem-nos, assim, inferir que este novo pólo de reunião e da vida da comuna judaica já se encontrava perfeitamente definido e organizado nesta zona privilegiada da cidade, entre os últimos anos do reinado de D. Fernando (1367-1383) e o princípio da governação de D. João I (1385-1433)[37]. O que, aliás, vem ao encontro das determinações das cortes de Elvas realizadas por D. Pedro I em 1361, que impuseram às comunidades semitas, entre um vasto conjunto de obrigações segregacionistas, o dever de se organizarem em judiarias, constituindo assim uma identidade espacial própria, definida em torno do seu centro ordenador formado pela sinagoga[38]. Se a isto ainda levarmos em conta que a construção deste templo, símbolo da vida espiritual e religiosa da comunidade, pressupunha a autorização do rei[39], fácil será concluir que a deslocação da comuna de Viseu para esta área da cidade e a consequente formação de uma nova judiaria terá sido um processo intencional, que mereceu o devido consentimento por parte da Coroa.

Deste modo ter-se-á concretizado mais um capítulo da história social e urbana de Viseu medieval que decorreu num período muito particular, profundamente marcado pela crise demográfica e cerealífera, agravado pelas sucessivas reincidências do trágico surto da Peste Negra, a que se juntaram, durante o reinado fernandino, três guerras com Castela, além da consequente crise dinástica portuguesa, dirimida durante a Crise de 1383-85, e do prolongamento das hostilidades com o reino vizinho até aos inícios do século XV. Foi sem dúvida um período de forte instabilidade e conflito, que se reflectiu na destruição e no despovoamento de Viseu, tragicamente atingida pelos saques e incêndios perpetrados pelas forças castelhanas em 1372, em 1385 e em 1396[40].

O restabelecimento da paz, nos alvores de Quatrocentos, tornou possível que a cidade se lançasse à ambiciosa tarefa do seu repovoamento e da sua reconstrução, carenciada de gente e de investimento capaz de a reerguer e de restabelecer o seu dinamismo económico e social. E aqui tudo leva a crer terem os judeus desempenhado um papel decisivo, pois muitos terão sido aqueles que vieram habitar a urbe viseense, provavelmente vindos de outras aldeias e vilas beirãs ou da vizinha Castela, escapando assim ao movimento antijudaico que há décadas grassava neste reino[41]. Disso mesmo nos dão conta os registos documentais quatrocentistas, que atestam um aumento exponencial do número de judeus em Viseu, bem como o empenho do cabido da Sé em reactivar a gestão da sua base patrimonial, através de uma firme política de emprazamentos de casas e pardieiros, dispersos um pouco por toda a cidade, procurando, em grande medida, reconstruir os seus imóveis e dinamizar a empobrecida economia capitular e urbana. O bairro judaico de Viseu fazia parte dessa rede imobiliária, razão por que encontramos, nestes primeiros anos do século XV, o cabido a emprazar a judeus umas casas na rua que dava acesso à sinagoga[42], ou a receber em doação um pardieiro na Judiaria, cuja localização as fontes passam a situar, com mais pormenor, nas imediações da rua das Tendas[43], a par da torre dos sinos da Sé[44] (no espaço que hoje corresponde à Rua da Senhora da Boa Morte).



Rua da Judiaria (actual Rua da Senhora da Boa Morte) © Anísio M. S. Saraiva (2009).


A proximidade espacial entre a catedral e a judiaria e os vínculos de natureza económica estabelecidos entre cristãos e judeus afiguram-se por demais evidentes. A Viseu de Quatrocentos ressurgia assim como um espaço dinâmico e multi-étnico, ao mesmo tempo que se reerguia das ruínas deixadas pela guerra e prosseguia a reorganização da sua malha urbana em função dos interesses de quem detinha a propriedade. Um dos episódios mais significativos deste processo reformador ocorreu logo entre 1415 e 1418, com a deslocalização da judiaria para uma zona contígua, igualmente bem situada, entre a Praça e a Rua das Tendas, mas mais afastada do perímetro da Sé (e que hoje corresponde à Rua da Senhora da Piedade)[45]. A razão desta nova mudança talvez a encontremos no crescimento da comunidade judia e na necessidade desta se arruar num espaço de maiores dimensões. Ao que também podemos acrescentar as relações de poder estabelecidas entre uma comuna mais numerosa e influente e uma maioria cristã também interessada em com ela coexistir, porque empenhada em ter o seu contributo na reconstrução da economia da cidade.



Localização da Judiaria Nova de Viseu, inícios séc. XV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Na verdade, se em 1415 os cónegos recebiam um pardieiro na rua da Judiaria, identificada junto à Torre dos Sinos[46], três anos depois, em 1418, o cabido emprazava a um clérigo uma casa nessa mesma rua, mas desta vez com a indicação de aí ter sido o antigo espaço de morada dos judeus[47]. Motivo pelo qual a partir desta data passou a ser identificado por rua da Judiaria Velha[48], em oposição à nova que então se organizava e edificava, em grande medida em terrenos de propriedade da Sé, e para onde se transferiu a sinagoga, agora também aí referenciada[49]. Só assim se explica que muitas das casas desse espaço, agora afecto à nova judiaria de Viseu, fossem exploradas e alvo da atenção do cabido da Sé, naturalmente atraído pela disponibilidade económica dos seus ocupantes e pela consequente perspectiva de obter um bom rendimento nas rendas a cobrar[50]. Este interesse patrimonial dos cónegos no novo bairro judaico, também conhecido noutras cidades episcopais, como Braga, Lamego e Évora, não impediu que alguns hebreus mais abonados tivessem acesso à propriedade, comprando e vendendo as suas casas de habitação, como aconteceu com Isaac Franco ou com Samuel Navarro[51].



Rua da Judiaria Nova (actual Rua da Senhora da Piedade) © Anísio M. S. Saraiva (2009).


No entanto, importa sublinhar que a mudança da judiaria, da rua contígua à Torre dos Sinos para este novo espaço, terá sido um processo gradual, caracterizado pela progressiva ocupação por cristãos das casas até aí ocupadas por judeus[52], enquanto alguns destes ainda aí permaneceram durante mais alguns anos. Lembremos os exemplos do ourives Mordafay ou de Jacob Catarribas, que os documentos do cabido referenciam, entre 1428 e 1439, como moradores na Judiaria Velha, junto das escadas traseiras da catedral e da Torre dos Sinos (depois chamada Torre do Relógio, por entretanto ter recebido esse mecanismo)[53]. Mas não só aqui registamos a morada de judeus; apesar de congregada num novo local a população hebraica espalhou-se pontualmente por zonas cristãs da cidade[54], seja nas movimentadas e comerciais Rua das Tendas[55] e Rua da Triparia[56], aliás próximas da judiaria[57], seja nas mais afastadas Rua da Vela de S. Domingos[58] ou na Rua das Quintãs[59], onde, inclusive, existiam casas de propriedade da comuna[60].



Localização de habitações judaicas, séc. XV © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Pelas informações disponíveis percebemos estar perante uma comunidade judia numerosa e activa, dedicada a diferentes actividades económicas que animavam a cidade, como se depreende da variedade de ofícios mecânicos a que muitos dos seus membros se dedicavam, com particular interesse nas actividades de ferreiro[61], gibiteiro[62], ourives[63], sapateiro[64], tintureiro[65] e tecelão[66], em consentâneo com a não menos importante ligação ao sector agrícola, principalmente na exploração de vinhas[67], lagares e alguns olivais, também estes de propriedade da catedral e situados na área peri-urbana da cidade, sobretudo em Jugueiros[68], mas também na Arroteia[69], em Ranhados[70], na Mouta[71], em Sás[72], na Alagoa[73] e junto do rio Pavia[74].



Rei D. Duarte © Anísio M. S. Saraiva (2006).


Neste entrecruzar de espaços habitados e no bulício dos afazeres dos mesteres e dos trabalhos do campo, executados por cristãos e judeus, encontramos a génese do pulsar da nova cidade em que se tornou a Viseu de Quatrocentos. Porém, o quadro de coexistência pacífica que terá caracterizado o relacionamento destes dois grupos, assente na tolerância da maioria face à minoria, acabou por ganhar outros contornos ao longo do século XV como consequência do aumento da pressão segregacionista imposta pela política antijudaica da época[75]. Na verdade, se houve momentos em que a comuna de Viseu obteve a protecção e o patrocínio da Coroa, como aquele em que recebeu a confirmação dos seus privilégios, foros, liberdades e costumes, outorgada pelo rei D. Duarte, em 1433[76], outros houve em que foi o alvo das queixas da maioria cristã interessada agora em reforçar a secundarização da minoria judaica no quadro sócio-económico da cidade. A reclamação mais forte foi apresentada nas cortes realizadas em Évora, em 1444. Queria o concelho de Viseu aproveitar o facto de a cidade começar finalmente a ser amuralhada para solicitar ao rei a transferência da judiaria para um lugar mais afastado dentro do perímetro do muro, de forma a evitar o grande inconveniente de ter o bairro judaico em pleno centro urbano[77]. O infante regente D. Pedro concordou com o pedido, mas só quando a cidade estivesse efectivamente toda murada, o que ainda estava longe de ser uma realidade, razão por que a mudança da judiaria nunca se chegou a efectivar[78].



Antiga Praça de Viseu (actual Praça D. Duarte) © DGEMN


Anos mais tarde, em 1460, o concelho voltaria a reclamar em cortes, de novo reunidas em Évora, pedindo para que as vendas feitas por cristãos a judeus se realizassem primeiro na Praça da cidade e não na Judiaria, porque, em contrário, alegavam que as mercadorias quando chegavam ao mercado, depois de passarem pela rua dos judeus, já iam “çujas e dampnadas”[79]. Novos sinais de crispação e antagonismo foram dados oito anos depois, em 1468, desta vez pelos procuradores de Viseu às cortes de Santarém. Queixavam-se agora de haver judeus a habitar fora da Judiaria e do facto das casas deste bairro terem portas e janelas que tanto davam serventia para a própria Judiaria como para as casas de cristãos, resultando daí grande prejuízo e dano à cidade. Por essa razão solicitaram ao monarca que ordenasse aos judeus o encerramento de todas as portas e janelas que confrontassem com propriedade cristã, pedido a que o rei D. Afonso V prontamente anuiu[80]. O bairro judaico de Viseu ganharia assim a sua definitiva configuração, de espaço reservado, vedado aos olhares da cidade cristã, ao mesmo tempo que não permitia aos judeus a livre vizinhança com os demais elementos da maioria religiosa. À imagem do isolamento das casas judaicas juntava-se a do encerramento da rua da Judiaria, atestado desde 1455, através da colocação de portas em cada uma das suas extremidades, uma delas, aliás, situada na esquina da Rua da Triparia, junto a uma travessa que dava passagem para a Sé[81].



Rua da Judiaria Nova (actual Rua da Senhora da Piedade) © Anísio M. S. Saraiva (2009).


Os tempos anunciavam assim o eminente virar de página na já longa história de coexistência entre cristãos e judeus. O fim da convivência étnica em Portugal precipitava-se em resultado da conjuntura peninsular. O assalto sangrento à Judiaria Grande de Lisboa, ocorrido em Dezembro de 1449[82], pré-anunciou os ecos anti-semitas que mais tarde chegaram de Espanha, com a expulsão dos judeus da Andaluzia, a implantação da Inquisição em Castela e a consequente expulsão dos judeus, em 1492, facto que provocou sérias repercussões no equilíbrio sócio-político do nosso país[83]. Numerosos contingentes de judeus procuraram abrigo no reino português e colocaram o rei D. Manuel I perante a inevitabilidade de seguir a corrente antijudaica espanhola, mormente quando confrontado com uma imposição político-matrimonial que o levou a publicar, em 1496, o decreto da expulsão dos judeus que não aceitassem a conversão[84]. Desde esse momento muitos foram aqueles que abandonaram o reino e muitos foram os que se subjugaram à conversão ao catolicismo.

Em Viseu cedo estas mudanças ganhariam rosto, impondo transformações na topografia da cidade e nos elos de sociabilidade nela estabelecidos, durante os dois séculos de história da presença semita. A partir de 1498, a até então Rua da Judiaria abandona esse nome, passando a chamar-se Rua Nova, tendo muitos dos seus antigos moradores sido expulsos ou alvo de conversões forçadas[85]. A lembrar estes novos tempos da perseguição e da diáspora judaica ficou-nos o elucidativo testemunho de um emprazamento realizado pelo cabido da Sé, em Novembro de 1499. Nesse contrato os cónegos emprazaram a Diogo Henriques umas casas na Rua Nova que antes fora Judiaria, nas quais tinha vivido o seu pai, o judeu Josepe Rodriga, casas essas que confrontavam com outras habitações em que agora vivia Fernão Lopes, que em tempos se chamou Salomão Adida, e com casas de Henrique Lopes, que antes tivera o nome de Mosé Adida (cf. Fig. 15)[86].



Emprazamento de umas casas na Rua Nova «que foy Judaria», a Diogo Henriques, filho de judeus, 1499 (13 de Novembro) © DGARQ / ADVIS (Pergaminhos, m. 33, n. 26).


A alteração toponímica e onomástica bem patente no teor deste contrato converte-se em memória viva da profunda transformação por que passou a ocupação humana e territorial das nossas cidades, vilas e aldeias nestes finais de Quatrocentos. Daqui em diante, o rumo da sua história haveria de ser, irreversivelmente, outro.



Conclusão

Durante a Idade Média Viseu pontuou entre as demais cidades episcopais portuguesas como um espaço urbano de média dimensão, caracterizado pelo seu dinamismo económico e social, em muito potenciado pela sua localização privilegiada e pelo seu estatuto de centro eclesiástico, político e comercial. Ao carácter dinâmico, a cidade acrescentou o perfil multi-étnico da sua população, composta por cristãos mas também por judeus, de cuja presença em Viseu os primeiros testemunhos datam dos finais do século XIII, tendo como ponto de fixação o arrabalde citadino, nas imediações do principal eixo viário que ligava a cidade ao sul. Neste espaço a comunidade judaica foi-se enraizando e estabelecendo vínculos de natureza económica com o cabido da Sé, na qualidade de principal detentor da propriedade urbana da cidade, convertendo-se este num importante interlocutor no relacionamento entre a maioria cristã e a minoria judia durante todo o período medieval. A localização da comuna judaica na topografia da cidade viria a sofrer uma primeira e importante alteração nos inícios da segunda metade do século XIV, ao deslocar-se do arrabalde para o centro da urbe, sempre junto das principais vias de circulação mas agora mais perto do centro religioso, político e comercial citadino, delimitado pela Praça, pela catedral e pela Rua das Tendas. Iniciado o século XV e passadas as três décadas de guerras e destruições que deixaram a cidade praticamente em ruínas, Viseu lançou mãos a um intenso processo de reconstrução e de repovoamento do seu tecido urbano, no qual a comuna judaica também participou de forma activa. Tanto assim foi que, no seguimento deste movimento reconstrutivo impulsionado sobremaneira pelo cabido da catedral, a judiaria mudou pela segunda vez de localização, desta feita para uma rua maior, contígua à anterior e igualmente bem situada, entre a Praça e a Rua das Tendas, apenas um pouco mais afastada do perímetro da Sé e com maior possibilidade de expansão. Passou a ser neste espaço fechado em torno de si próprio que viveu a grande maioria da comunidade judaica viseense durante a centúria de Quatrocentos, até o decreto régio de 1496 sentenciar a sua expulsão. Aqui, na Judiaria Nova, a comuna viseense atingiu a sua maior expressão enquanto grupo minoritário inicialmente tolerado pela maioria cristã, mas que ao longo do século XV viu ser transformado esse padrão de coexistência e até de cooperação entre as duas comunidades num relacionamento declaradamente segregacionista, o que de todo não impediu a comunidade judaica de participar activamente na revitalização da economia e de cooperar com o cabido da Sé no processo de reconstrução e de reanimação do tecido urbano de Viseu ao longo do século XV.



Fonte:

Anísio Miguel de Sousa Saraiva




Fontes manuscritas:


Arquivo Distrital de Viseu (ADVIS)

Pergaminhos, m. 00 (n. 4, 44, 58, 161, 185, 328, 337); m. 09 (n. 12, 14); m. 15 (n. 15, 46); m. 16 (n. 39); m. 18 (n. 09, 72, 76, 109); m. 19 (n. 19 verso, 79); m. 20 (n. 91); m. 21 (n. 74); m. 22 (n. 04, 20); m. 23 (n. 49, 67); m. 25 (n. 18b); m. 26 (n. 16); m. 28 (n. 55); m. 30 (n. 10); m. 32 (n. 22, 37); m. 33 (n. 07, 08, 26, 44); m. 34 (n. 06, 44); m. 35 (n. 17, 26, 27, 45b); m. 36 (n. 50); m. 37 (n. 04); m. 38 (n. 36a, 50); m. 39 (n. 06, 12, 15); m. 40 (n. 31); m. 41 (n. 11, 32); m. 42 (n. 03); m. 43 (n. 06, 24, 32, 33, 35, 46); m. 44 (n. 14, 18, 24, 31); m. 46 (n. 14, 35); m. 47 (n. 18, 19, 29, 35); m. 48 (n. 07, 36, 47, 48, 50); m. 49 (n. 11, 12, 15, 17, 63); m. 50 (n. 31, 81).

Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT)

Leitura Nova, Beira, Liv. 2.

Sé de Viseu, Documentos Régios, m. 1 (n. 23).

Fontes impressas:

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2 comentários:

  1. Caro Sr. Saraiva!!

    Saudações a partir do Brasil. Tenho buscado, sem muito sucesso, informações sobre famílias de judeus que viveram em Viseu pelos século XVI a XIX. O senhor saberia informar se existe uma lista de membros da Sinagoga de Viseu ou mesmo dos moradores da Rua da Judiaria?

    Grato desde já,

    André Menezes

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  2. Caro Sr. André Menezes, desde já grata por visitar o meu blog, mas como pode verificar nas fontes, este não é o original, pelo que para contactar o autor do mesmo, deverá tentar este link que está mais acima mencionado: http://ucp.academia.edu/An%C3%ADsioMigueldeSousaSARAIVA

    Espero ter sido útil.

    Ziva David

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