segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Judeus e Judiaria de Belmonte - Os que nunca partiram!

  
BELMONTE


Vila portuguesa localizada junto da Serra da Estrela, região da Beira, 
com cerca de 3.100 habitantes.


Belmonte destaca-se pela sua excepcional posição estratégica, não só pela sua altitude, mas também como ponto de convergência de importantes vias antigas e outros elementos (riqueza mineral, recursos hídricos,…) que contribuíram para que, desde tempos imemoriais, populações se tenham estabelecido nesta vila.

Por todo o município registam-se vestígios pré e proto-históricos, romanos e medievais, que provam a preferência das comunidades primitivas em se estabelecerem neste espaço. Os Judeus também não devem ter ficado indiferentes a estas condições, pelo que a sua presença em Belmonte deve recuar bastante no tempo.

Apesar dos escassos conhecimentos acerca da primitiva presença judaica em Belmonte, o contributo desta comunidade para a história da Vila é indiscutível, pela sua presença ainda na actualidade e pelos vestígios deixados pelas comunidades anteriores.

Devido à escassez de referências documentais e de vestígios, não se conhece a data exacta do estabelecimento dos Judeus em Belmonte, no entanto, os mesmos, são citados no foral outorgado por D. Sancho I em 1199, o que poderá ser já um sinal da sua presença. É de referir que a passagem onde se menciona a palavra “Judeus” repete-se noutros forais atribuídos na época, em vários locais da Beira Baixa, adaptados do foral de Ávila; “ testemunhamos e para sempre confirmamos que todo o que penhorar mercadores ou viajantes cristãos, judeus ou mouros, a não ser que seja fiador ou devedor, todo o que isto fizer, pague ao Bispo 60 soldos e dará em dobro o gado que tomar ao seu dono”. Não se sabe se este trecho comprova a existência, já no final do século XII, de Judeus em Belmonte, no entanto, por essa altura, sabe-se da existência de populações judaicas na Covilhã, Guarda, Gouveia, Trancoso e outras terras da Beira. Por isso, é provável que Belmonte tivesse já a sua comunidade de Judeus.

Após a concessão do foral e o reconhecimento da entrega do senhorio da Vila ao Bispado de Coimbra, fomentou-se o crescimento do primitivo núcleo urbano de Belmonte, procedendo-se também à construção do castelo. A Vila, aproveitando a disposição topográfica do espaço, expande-se para poente, em torno da actual Rua Direita, e para nascente, em torno da Igreja de S. Tiago e de Sta. Maria (hoje desaparecida).




Castelo de Belmonte


Em 1910, aquando da demolição da Igreja de S. Francisco (antiga Igreja do Espírito Santo e Misericórdia), no actual Largo António José de Almeida, Francisco Tavares Proença Júnior identificou uma lápide com caracteres hebraicos inscritos, com a seguinte legenda;

“E Adonai está no seu templo sagrado, emudece perante Ele toda a sua terra”


(Livro de Hababuc, 2.20), que possivelmente pertenceria à torça da porta principal da primitiva sinagoga e cuja datação remonta a 1297.

O facto de haver já uma sinagoga nessa altura, reflecte a permanência em Belmonte de uma comunidade judaica numerosa, bem estabelecida e organizada.

Portanto é ponto assente que não teriam sido os Judeus expulsos de Espanha em 1492 que fundaram a comunidade judaica de Belmonte, embora, pela proximidade da fronteira, a tivessem reforçado.

Relativamente à localização da judiaria, apesar de não haver certezas, devido à escassez de fontes histórico-arqueológicas, é a toponímia, com nomes como Rua da Judiaria, Bairro de Marrocos, que auxilia na sua localização espacial. A Judiaria de Belmonte poderia situar-se em torno das atuais Rua Direita (antiga Rua Direita de Marrocos) e Rua da Fonte da Rosa (antes Rua da Judiaria e Rua de Marrocos), no interior do espaço urbano amuralhado.




Local onde estaria situada a primeira sinagoga, em 1297


A área compreendida por entre estas ruas e pela Rua da Sé (que dá acesso hoje à Igreja Matriz) é identificada como a zona Medieval da vila. A norte da Rua Direita existe uma antiga praça que mantém basicamente a estrutura que de velho tinha, com casinhas feitas em granito e cruciformes nas ombreiras. A comunicação entre estas artérias principais faz-se ainda por pequenas vielas e guetos onde teriam vivido outrora Judeus, mouros e homiziados.



Casa na Judiaria de Belmonte. Foto: UM JEITO MANSO



A localização da possível sinagoga é ainda desconhecida, pois a referida situar-se-ia demasiado longe da primitiva judiaria, e num local que somente foi ocupado a partir do séc. XV. Com o Édito de Expulsão de 1496 a Sinagoga de Belmonte foi transformada em templo religioso (na Igreja do Espírito Santo, culto bastante frequente na época). Alguns elementos arquitectónicos manuelinos provenientes da Igreja, como uma pia baptismal, reforçam a ideia da transformação da sinagoga em templo religioso por essa altura.

A sinagoga era o centro da comunidade judaica, funcionando como templo, tribunal e escola. Os açougues, fornos, lagares, entre outros equipamentos, eram também indispensáveis numa judiaria. Quanto ao cemitério, desconhece-se a sua localização, mas seria, com certeza, fora do limite amuralhado.

É nos séculos XIV e XV, devido ao crescimento económico, demográfico e urbano, que Belmonte começa a ampliar o seu espaço urbano para poente, estruturando-se em torno do Largo Afonso Costa, Praça da República, Rua 1º de Maio, Rua do Inverno, Rua Nossa Senhora de Esperança, Rua Pedro Álvares Cabral, e Largo António José de Almeida, local conhecido como Devesa, onde se realizariam as feiras e mercados.

De facto, o espaço situado entre o Largo Afonso Costa e o Largo António José de Almeida era um espaço de grande atividade comercial e artesanal, a que os Judeus não teriam sido alheios, estabelecendo aqui um segundo núcleo habitacional. Além disso, a comunidade local de Belmonte, por esta altura, deve ter sido engrossada por Judeus vindos de Espanha, após o Édito de Expulsão espanhol de 1492. Nesta altura, teria mais lógica, a fundação de uma sinagoga no Largo António José de Almeida, pois estava mais perto dum novo centro de presença judaica.

No entanto, estes locais nom estariam totalmente demarcados, havendo seguramente uma espécie de coabitação dos habitantes de Belmonte. Apesar de poder haver arruamentos estabelecidos e pré-definidos, os Judeus poderiam, provavelmente, fixar-se de forma espontânea e livre entre a população cristã.

Em dezembro de 1496 é assinado o decreto de expulsão dos Judeus em Portugal por D. Manuel que irá mudar radicalmente a situação da comunidade judaica. Assim, todos os Judeus são obrigados a abandonar Portugal num prazo de 10 meses, no entanto, D. Manuel não estava interessado na partida dos Judeus, por isso, o prazo alargado da expulsão e as conversões à força. Os Judeus exerciam bastante influência em diversos campos: económico, político, social e cultural, destacando-se pelas atividades mercantis, artesanais, usurárias e, por isso, a inconveniência na sua partida.


Em Belmonte, o pagamento da judenga, em 1496, confirma que os Judeus continuavam a viver na localidade, mas com o decreto de expulsão de D. Manuel e o estabelecimento da Inquisição em 1536 muitos Judeus devem ter fugido. Os que ficaram praticavam a sua religião em segredo. Assim, Belmonte nunca terá sofrido um abandono total dos Judeus.





Na década de 1920 Samuel Schwarz, um engenheiro de origem judaico-polaca que realizava trabalhos na zona, detectou a existência de judeus em Belmonte; “uma comunidade bastante demarcada da comunidade católica, conservando práticas, usos e costumes muito característicos que teimam em manter-se”.



Depois de séculos de resistência e de organização judaica em segredo, findas as perseguições da época da inquisição e terminados os processos de integração católica que diluíram a totalidade das muitas comunidades existentes na sociedade católica portuguesa, veio a descobrir-se que em Belmonte estavam vivas as tradições, a organização e a estrutura religiosa dos últimos Judeus secretos de Portugal, que continuaram a casar-se apenas entre si durante séculos e expulsando da comunidade quem quebrasse esta norma.

Logo depois da "descoberta", para dar conta do seu encontro com os cripto judeus de Belmonte Schwarz escreveu em 1925 "Cristãos-Novos em Portugal no século XX", publicada como separata da revista "Arqueologia e História" da Associação de Arqueólogos Portugueses. Ele fez esforços para que os cripto judeus de Belmonte regressassem oficialmente ao Judaísmo. 

Algumas organizações judaicas, entre as quais a Alliance Israélite Universelle e pessoas individuais como Cecil Roth e Lucien Wolf uniram-se a esses esforços com entusiasmo.



Símbolo da Alliance Israélite Universelle



Cecil Roth e Lucien Wolf


Os Judeus de Belmonte constituem a última comunidade peninsular de origem cripto judaica a sobreviver enquanto tal e subsistir ainda hoje com unidade, possuindo sinagoga, rabino e cemitério próprio. Tem igualmente uma direcção comunitária.

Depois de tempos de ocultação religiosa, a actual comunidade judaica de Belmonte une esforços no seu resgate, na sua reconversão de cristãos-novos ou marranos ao judaísmo puro, visto que anos de convívio com os cristãos corromperam algumas das suas práticas judaicas. Este regresso apenas teve lugar na década de 1970, depois da comunidade estabelecer contacto com os Judeus de Israel.

A comunidade de Belmonte cumpre hoje os principais ritos religiosos, alguns dos quais desapareceram da memória colectiva belmontense. Outros foram secularmente cumpridos, embora por vezes fortemente deturpados. É necessário entender que esta comunidade se tornou secreta durante séculos sem qualquer tipo de contacto com o judaísmo exterior.

Assim, actualmente o ciclo litúrgico anual dos Judeus de Belmonte compreende o Dia do Perdão (Yom Kippur), a Festa dos Tabernáculos (Sukot), a Alegria da Lei (Simchat Torah), a celebração da Rainha Ester (Purim), a Santa Festa (Pessach) e a Festa das Colheitas (Shavuot). Para compreender as transfigurações tornadas evidentes polo isolamento secular está o caso da Hanukah. Esquecida há séculos, foi substituída pela cerimónia do Natalinho. Interrogados sobre o seu significado, os Judeus belmontenses diziam que se celebrava o nascimento do Santo Moisés. Nas últimas décadas a festa acabava por coincidir com o Natal dos cristãos. Curiosos relatos como este podem ser analisados no livro de Maria Antonieta Garcia intitulado "Os Judeus de Belmonte - Os Caminhos da Memória".

Já que as fontes documentais e os vestígios são escassos, sobram os motivos cruciformes ainda visíveis, que podem fornecer algumas informações acerca da ocupação espacial judaica em Belmonte. No decurso do levantamento dos elementos patrimoniais efectuado pelo Gabinete Técnico Local (GTL), que elaborou o Plano de Salvaguarda da Vila, foi dada especial atenção às cruzes presentes nalgumas ombreiras de casas, pelo que foi feito o seu inventário, assim como o seu decalque e registo fotográfico. 



Cruciforme de Belmonte. Foto: Rafael Baptista


Numa primeira análise os motivos cruciformes identificados não são muito abundantes, porque alguns foram destruídos e outros poderão estar encobertos pelos revestimentos modernos das casas. Além dos motivos cruciformes, registam-se ainda algumas datas e observa-se também a presença de casas com portas duplas e outros vestígios que reflectem o secretismo dos cultos.

No núcleo mais antigo os motivos cruciformes são ainda visíveis nos nº96, 108 do Largo da Rua Direita, nos números 468, 470, 484 e 455 da Rua Fonte da Rosa e no nº137 da Travessa da Fonte da Rosa.

No segundo núcleo observam-se motivos cruciformes no nº31 do Largo de Santarém (nº31), no nº51 da Rua do Inverno (muitas vezes chamada depreciativamente como Rua do Inferno quando nela habitavam membros da comunidade judaica), nº56 da Rua 1º de Maio, nº90 da Travessa do Correio e nº140 da Rua 25 de Abril.

As cruzes são geralmente simples, apresentando algumas hastes nas pontas. O seu tamanho varia entre os 6 e os 25,5 cm. O traço da gravação é geralmente muito irregular e tosco, variando dos 0,4 aos 2,5 cm. Cabe referir também que muitas destas cruzes aparecem associadas a portas biseladas, assim como a casas com características comerciais.

Existem também referências à existência de outros motivos cruciformes nas casas n.º 97 e n.º 107 (Rua Direita), assim como no n.º 483 e 486 (Rua Fonte da Rosa). O conjunto de casas formado pelos nºs 106, 107, 108 e 109 teriam ligação interna entre si, de modo a poderem servir de escapatória, caso fossem detectados nas suas práticas. As casas n.º 102 e 103 e também o n.º 138 também teriam ligação interna entre si. Nas traseiras do edifício n.º 138 é possível observar uma porta entaipada que daria com outro edifício, hoje em ruínas. Na Rua Pedro Álvares Cabral são também referidas cruzes em alguns edifícios.



Cruciforme identificado em Belmonte. Foto: UM JEITO MANSO


Em Belmonte registaram-se também cruzes em afloramentos rochosos, talvez com a intenção de demarcar espaços e no Lagar da Fontinha, aí em razoável quantidade.

De referir, no entanto, que a existência de estes motivos cruciformes, que podem estar associados a datas e outros anagramas, gravados nas ombreiras de habitações e outros espaços públicos (fontes, moinhos, etc), deve ser compreendida como um elemento de cristianização do local. Nem sempre a gravação dum elemento cruciforme deve ser entendida como a marcação de um espaço de ocupação judaica. Assim como não se deve entender todas as portas biseladas e habitações com portas destinadas a local de comércio de judeus.

Todos estes elementos constituem vestígios de vivências, pelo que a sua protecção é indispensável para a preservação da memória colectiva. Ameaçados pela erosão, abandono, reconstruções do edificado e por acções humanas, os vestígios da judiaria de Belmonte já são escassos.


Em 1989 a Comunidade Judaica de Belmonte é reconhecida oficialmente e em 1996 inaugura a Sinagoga “Beit Eliahu” (Filho de Elias) precisamente na Rua Fonte Rosa, uma das ruas da antiga judiaria. Também o cemitério judaico foi aberto em 2001.



Sinagoga Beit Eliahu de Belmonte


Desde 2005 está igualmente aberto ao público o Museu Judaico (único em Portugal) e Centro de Estudos Judaicos Adriano Vasco Rodrigues que retrata a história da presença sefardita em Portugal, usos, costumes e que integra um memorial sobre as últimas notícias da inquisição.




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