quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O futebolista judeu que enfrentou o poder de Hitler



O dia em que Hitler matou um craque



Matthias Sindelar. Um nome simples para aqueles nomes confusos austríacos, mas no futebol, não era simples. Longe disso. Era um monstro.


Poucos sabem, mas a seleção austríaca era a grande potência do mundo todo nos anos 1930; era chamada de Wonderteam. Havia alguns grandes jogadores, como o artilheiro Bican, a muralha Raftl, e o zagueiro Schmaus, mas nenhum chegava aos pés do cerebral meio-atacante Sindelar.





Rápido, habilidoso, chutava bem com as duas pernas, e era disputado já por alguns clubes europeus, mas não. Preferiu ficar no seu clube de coração, o Áustria Viena, pelo qual defendeu por treze anos da sua vida, de 1926 a 1939.





O “homem de papel”, como era conhecido devido à sua elasticidade, ganhou duas Copas Mitropa, a precursora da Liga dos Campeões, e também um campeonato austríaco. Mas foi na seleção austríaca que ganhou renome internacional. De 1930 a 1933, a selecção austríaca disputou 16 partidas, e atingiu a bagatela de 13 vitórias, 2 empates e 1 derrota, para Inglaterra, saindo aplaudida por quase ter vencido o jogo. Além disso, marcara 52 golos, uma média de mais de 3 golos por partida.

Na Copa de 1934, Sindelar jogou a primeira partida contra a França, e logo marcou o seu golo. Depois, nas quartas de finais, fez de tudo, dando diversos passes que poderiam ser golo. Não anotou o seu, mas foi o melhor em campo contra a Hungria. Mas a Áustria acabou eliminada quando enfrentou a anfitriã Itália (isso mesmo, a que jogava, e se perdesse, morreria). Isso, aliado à marcação desleal de Monti sobre Sindelar, eliminou as chances austríacas no mundial. Sindelar nem jogou na disputa de terceiro lugar, porque se lesionou e teve que sair. 




Sindelar continuou jogando o seu futebol alegre e vistoso, pela sua equipa Áustria Viena. Até que chegaram as eliminatórias para o mundial de 1938, a ser disputado na França. Sindelar participou das eliminatórias pelo Wonderteam, e como era de se esperar, logo a Áustria esteve classificada.


Mas é aí que começa tudo. Se alguns sabem de história, já devem saber o que aconteceu no dia 13 de Março de 1938; para os que não sabem, um breve resumo: a Alemanha, vizinha da Áustria, vivia sob um regime ditatorial de Adolf Hitler. O führer convidou o líder do partido nazi austríaco, Arthur Seyss-Inquart, para um jantar na casa dele. Então os dois trocaram algumas ideias, se tornaram amigos, até que no dia 13 de Março de 1938, Seyss-Inquart anunciou a unificação da Áustria com a Alemanha. Então, a economia alemã melhorou, a vida melhorou, e um país a menos no mundo…

No entanto, este acontecimento também trouxe mudanças no futebol. Se tudo fosse simples, os craques austríacos jogariam sem problemas na seleção alemã. E isso até que aconteceu em parte, porque Raftl, Pesser, Mock, Hahnemann e Mock, antigos integrantes do Wonderteam, foram para a seleção alemã, a Nationaelf. Mas e Matthias Sindelar?


Sindelar era um homem de ouro. Não aceitava o regime ridículo, o preconceito obrigatório contra os negros, homossexuais, e, principalmente, judeus – até porque Sindelar era judeu. Como se não bastasse ser judeu, ainda era social-democrata. Oh, os nazis ouviram isso. Matar? Trabalhos forçados? Depende. Se ele aceitasse defender a sua nova pátria, isso logo se esqueceria, e ele se tornaria um alemão legítimo. Mas Sindelar não era nazi! Odiava isso, e se recusou a defender essa selecção ridícula.


Hitler ficou louco; como pode, um jogador de futebol, profissão tão ridícula, não aceitar seu poder? Irado, acionou a Gestapo. Começaram a investigá-lo, e descobriram, também, uma partida entre Alemanha x Áustria, para comemorar a unificação, em Abril de 1938, na qual Sindelar jogou por todos, foi o melhor em campo, e ao fazer um golo se dirigiu às tribunas onde estavam Adolf Hitler e seus comparsas. Começou a dançar, desrespeitando o ditador no meio dos alemães.


Comemorando com dança na direcção de Hitler

Sindelar também não aceitava as convocações, como foi dito antes. Com isso, a Gestapo, depois de muita investigação, decidiu dar um fim à sua vida, com a justificativa de mau-exemplo para o povo austríaco – afinal, ele era um ídolo. Para ninguém desconfiar, esperariam 6 meses depois do fim da Copa do Mundo.


Sindelar (esq.) jogando com as cores da Áustria
 contra a Alemanha


E Sindelar e sua namorada, foram mortos a pedido de Hitler. Intoxicados por monóxido de carbono, em seu próprio apartamento. E o homem que desafiou o nazismo estava morto. Perdera uma batalha, como se tivesse perdido para um adversário mais forte que ele. Como jogador, não bastava só um para se marcar. Eram precisos vários para tentar ter alguma chance com ele. O nazismo era exatamente o que podia vencê-lo. Vários jogadores, fortes, que usavam armas desleais dentro de jogo. E, abatido em seu quarto, enquanto estava dormindo, não teve tempo de usar sua agilidade, e sair correndo. Ou mesmo driblar os generais nazis – nada disso foi possível.

E o maior jogador dos anos 30 acabara de morrer. Mas a memória dele, suas jogadas, quem o viu, nunca irá esquecê-lo. O maior austríaco de todos os tempos. Matthias Sindelar.



“Nesta casa, morreu no dia de 23 de Janeiro de 1939, em circunstâncias pouco claras, o Rei do futebol de Viena, Matthias Sindelar, apelidado de “O homem de papel”. Sindelar, nascido em 10 de Fevereiro de 1903, em Kozlau (hoje Kozlov, na República Checa), foi durante anos o coração e a cabeça do Áustria Viena e do legendário Wonderteam austríaco.


O Wunderteam: Sindelar é o 
5º, em pé, da esquerda para a direita


Fontes:

Conteúdo retirado do blog: Fichas de futebol – http://fichasfutebol.blogspot.com
e
http://chicomiranda.wordpress.com/2010/07/24/o-dia-em-que-o-nazismo-matou-um-craque/
http://www.zerozero.pt/jogador.php?id=21011&epoca_id=0

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