sábado, 25 de fevereiro de 2012

Os Senhores do desterro de Portugal.



Judeus portugueses em Ferrara em meados do Sec. XVI.



Em 1600, o judaísmo italiano tinha-se reduzido a pouco menos de 21.000 pessoas. Para acompanhar a política anti-judaica da península ibérica, os governantes das cinco maiores cidades italianas: Nápoles, Milão, Palermo, Génova e Bolonha escolheram a estratégia da expulsão dos judeus; enquanto os governantes de Veneza, Roma e Florença, preferiram a segregação nos guetos.

Os judeus remanescentes confluíam para as terras de refúgio, lugares especiais inseridos entre os maiores componentes do sistema geopolítico italiano. Estes territórios ofereciam uma solução para a instalação da população judaica italiana, garantindo sua continuidade no país, e pelos judeus expulsos de seus países de origem, como os espanhóis em 1492, os portugueses em 1498, e os alemães em 1530, que se refugiaram neles. Foi criada então, nos Estados Estenses, uma comunidade judaica forte e organizada.

A saída da Espanha e de Portugal sem dúvida constituiu, para os judeus ibéricos, uma penosa etapa, que nem todos cumpriram da mesma forma. Os caminhos trilhados pelos "Senhores do Desterro de Portugal", das margens do rio Tejo às margens do rio Pó, foram muitos e variados, mas nem sempre fáceis de acompanhar. De qualquer forma, estes judeus seguiam uma direção constante: o Império Otomano, com os portos seguros de Salónica, Constantinopla, Adrianópolis, Sarajevo, Valona e Belgrado e, em um segundo momento, Esmirna e Alexandria. A Itália serviu então, em muitos casos, como uma ponte entre a Península Ibérica e o Oriente.





O duque Ercole I D'Este, em 1492, havia convidado para Ferrara os judeus exilados da Espanha, prometendo que poderiam ter seus líderes espirituais e juízes, praticar o comércio e a medicina e lhes concedendo redução dos impostos. O grupo de judeus que aderiu à sua chamada formou uma pequena comunidade que fez reviver as antigas tradições culturais e religiosas do judaísmo sefardi e que se atribuiu o nome de Nação Portuguesa. Estes judeus mantiveram um bom relacionamento com os outros núcleos da Nação Portuguesa instalados nos grandes centros comerciais da Europa Ocidental, no Norte da África e no Império Turco ou que tinham permanecido na Península Ibérica. Mais difícil foi seu relacionamento com os judeus italianos residentes no lugar, devido aos privilégios que lhes eram oferecidos, como a isenção de impostos e a possibilidade de residir fora dos guetos. Estas hostilidades derivavam também do fato de que entre os refugiados sefarditas existia um discreto número de cristãos novos - provavelmente mercadores - que utilizavam a própria identidade judaica instrumentalmente, apresentando-se como judeus quando a ocasião era propícia, mas assumindo uma identidade cristã na maioria das vezes. Desculpavam este fato declarando que a dissimulação era de vital importância para sua sobrevivência.


Os cristãos novos portugueses tinham em toda a Europa uma inconfundível e inequívoca identificação no âmbito profissional, a dos grandes mercadores internacionais, e se não faltaram os médicos, os homens da lei, os agricultores, os que constituíram diferentes corporações - com os da lã, seda e diamantes - e até os empregados mais humildes, todos eles faziam parte do quadro comercial dominante.

Este fato explica como os exilados tiveram, como um dos seus primeiros pontos de chegada, a Antuérpia, uma grande cidade portuária à sombra da Coroa Espanhola, com livre acesso ao comércio em todo o mundo. Mas nos anos 30 do século 16, apesar da proteção política dada pelo governo aos mercadores que nela operavam, o governo espanhol não transigiu no plano da ortodoxia católica e a Inquisição tornou-se tão cuidadosa e rigorosa como em Portugal.

A origem dos estabelecimentos judaicos nos Estados Estenses está estreitamente ligada aos bancos de empréstimos sob penhor com juros baixos, ou, como se dizia naquele tempo, com "módica usura". Era difícil que a condução de um banco fosse entregue a uma única pessoa, mesmo nas cidades menores; mais frequentemente, a gestão era assumida por dois ou mais sócios, chamados "prestadores principais". O banqueiro principal tinha o direito de escolher até seis sócios, podendo revogar suas nomeações e substituí-los por outros. Os mais importantes clientes dos bancos judaicos eram constituídos por três entidades: o senhor, o município e a Igreja.

Os prestadores eram acompanhados por suas famílias, funcionários e domésticos. Muitas vezes estava presente também um professor particular com cultura rabínica que, além de exercer as funções religiosas da comunidade, era também tutor dos filhos, sobrinhos e netos dos banqueiros. Às vezes fazia parte do grupo um maestro de música e dança.

Apesar da profissão dos chefes da nação portuguesa ser declaradamente mercantil, muitos dos mercadores eram eruditos. Tratava-se de intelectuais, médicos, juízes e escritores que, além das relações de negócios e dos capitais de suas empresas, levaram consigo a Ferrara um vasto e diferenciado património de conhecimentos. No clima de fervor cultural e de fidelidade à religião de seus ancestrais, se insere a edição de Ferrara da Bíblia en Lengua Española.


No fim do verão de 1549, a peste explodiu no Grão-ducado Estense com graves consequências para os judeus portugueses, que foram expulsos.

Os portugueses foram levados, de noite, até o porto, provavelmente no rio Pó, e daí até o mar Adriático, onde antes de serem embarcados foram roubados de seus pertences. Outros portos italianos não os deixaram desembarcar, apesar de ninguém mostrar sintomas da peste. Alguns deles, depois de atacados e pilhados pelos corsários, dirigiram-se para a Turquia.


Nada menos que 320 judeus foram expulsos. Os que permaneceram em Ferrara foram mercadores e industriais amparados por seus privilégios. Apesar disso a comunidade portuguesa reconstituiu-se depois de alguns meses. Dois códigos de particular importância regulavam a vida dos judeus sefarditas nos Estados Estenses: o Livro de Corame Vermelho  (promulgado por Francisco I, que reunia todos os privilégios concedidos até aquele momento pelos vários príncipes italianos e pelo próprio Duque de Modena) e o Livro das Deliberações da Nação Judaica de Reggio Emília, que constituiu, na prática, o diário oficial daquela Comunidade no período entre 1652 e 1672.

A lista dos refugiados judeus em Ferrara é muito longa e inclui alguns entre os nomes mais conhecidos da diáspora judaica sefardita, como o de Dona Grácia Nasi.

Merece particular relevo a família de Don Isaac Abrabanel (1437-1508), que, saindo da Espanha após a expulsão, estabeleceu-se no reino de Nápoles, acolhida pelo rei Ferrante.

Quando os judeus foram expulsos do Reino, Isaac, depois de vários acontecimentos e migrações, refugiou-se em Veneza, onde viveu até sua morte. Seus três filhos, Judah, filósofo conhecido como Leão Hebreu; José, médico, e Samuel, importante banqueiro, representante da comunidade judaica de Nápoles, que havia casado com sua prima Benvenida, transferiram-se para Ferrara. Abraham Usque, estudioso e editor, imprimiu em Ferrara, além de trinta livros em hebraico, a Biblia en Lengua Española.

No campo dos estudos judaicos, podemos mencionar os poetas Jacob Fano e Abraham Dei Galicchi Jagel; os médicos Amatus Lusitanos, Moses e Azriel Alatino; o cronista Samuel Usque. Destes conversos que voltaram ao judaísmo nas terras de refúgio italianas, hoje são conservados muitos e variados testemunhos, em geral restaurados: antigos guetos, sinagogas, cemitérios e museus (como em Bologna, Ferrara e Sorana). Além disso, há também uma grande quantidade de objetos rituais e manuscritos.


Existem ainda escritos e documentos que testemunham as falas com as quais os judeus sefarditas se comunicavam entre si, misturando termos hebraicos, o espanhol e o português, com os dialetos italianos da região. Estas falas, que hoje estão sendo recuperadas, tinham até nomes particulares como o dialeto ghettaiolo  (dialeto do gueto) de Ferrara.





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