quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Kristallnacht (Noite dos Cristais – 1938)



O ensaio do Holocausto


A noite das vitrines destruídas

Nesta noite em 1938 e durante o dia seguinte – no dia 9 de Novembro no calendário secular, (15 de Cheshvan no calendário hebraico) – os nazis coordenaram cruéis pogroms contra a comunidade judaica da Alemanha. Encorajados pelos seus líderes, os desordeiros atacaram e espancaram moradores judeus, incendiaram e destruíram 267 sinagogas, vandalizaram 7.500 lojas de judeus, e saquearam incontáveis cemitérios, hospitais, escolas e casas judaicas, enquanto a polícia e os bombeiros assistiam. Noventa e um judeus foram mortos e 20.000 deportados para campos de concentração.


Estes pogroms, que coletivamente passaram a ser conhecidos como a “Noite dos Cristais Partidos”, referindo-se às milhares de janelas que foram quebradas, e foi a partir daqui que a política anti-judaica nazi se intensificou. A noite das vitrines destruídas.


Na noite de dez de Novembro de 1938, a pretexto de vingar um atentado cometido em Paris contra um diplomata nazi, o governo hitlerista estimulou que seus milicianos dessem início a um colossal pogrom contra a comunidade judaica alemã. Mal sabia o mundo que aquele acontecimento seria um ensaio para o Holocausto.

Um assassinato
"Eu não gostaria de ser judeu na Alemanha."
H.Goering, 12 de Novembro de 1938


Quando na manhã de dez de Novembro de 1938 a viúva Susannah Stern, de 81 anos, atendeu às batidas na porta da sua casa na pequena Elberstadt, um lugarejo no interior da Alemanha, provavelmente intuíra que não se tratava de boa coisa. Era um dos seus vizinhos, um fazendeiro chamado Adolf Frey, convertido em chefe da milícia nazi local. Ele e mais alguns partidários que o seguiam pediram-lhe, sem cerimónias, que vestisse qualquer coisa e os acompanhasse. A velhinha negou-se, não sairia do lar! Frey impaciente renovou a ordem. De nada serviu.


Foi então que ele disparou o primeiro tiro no peito e Susannah caiu no sofá. Seguiu-se um outro na cabeça. Depois de revistar a casa, ao sair, deu-lhe mais um na testa, bem entre os olhos. A pobre senhora Stern tornou-se assim uma das tantas outras vítimas do pogrom nazi da Kristallnacht (a noite dos cristais).



O cenário na manhã seguinte era este

Um gigantesco pogrom


Na contabilidade dos assassinos somaram-se outros 90 mortos, justificados por eles como uma operação de vingança pelo atentado sofrido pelo diplomata alemão Ernst von Rath, que havia sido morto em Paris, baleado uns dias antes por um jovem judeu. Naquela noite terrível, 5.700 estabelecimentos judaicos foram depredados e muitos deles completamente destruídos pelas chamas. Em Berlim, turbas de milicianos da SA assaltaram as grandes sinagogas das ruas Farnese, Oranienburg e a da Levetzow, incendiando-as e deixando-as quase que demolidas. Na Alemanha inteira profanaram outras 177 mais. O tilintar daquelas vidraças quebradas encantou Goebbels. Aquela barulheira foi música para os ouvidos do Ministro da Propaganda do Reich, e o principal responsável por ter instigado aquele desvario junto a Hitler. "Bravo! Bravo!" - registrou ele no seu diário. Goebbels, exultante, chamou aquele dilúvio de ódio de "uma autêntica manifestação da ira popular."
Extorsão aos judeus

Enquanto isso seu rival, Hermann Goerig, o Ministro do Interior, ordenava à Gestapo e à SD (*) de Reinhart Heydrich que fizessem detenções em massa. Selecionaram então uns 30 mil judeus tidos por endinheirados e levaram-nos presos. Exigiram duas condições para liberá-los: que se comprometessem a sair do país ou que transferissem os seus bens para o governo nazi. Acreditando que o sofrimento fora pouco, Goering ainda exigiu um tributo de um bilhão de marcos para deixar a comunidade judaica em paz.



A seguir vedou aos judeus frequentar as escolas e os parques públicos. Foi assim, num repente, que o mundo civilizado, ainda chocado, tomou conhecimento de que as antigas práticas medievais, que se pensava terem sido sepultadas, renasciam na Alemanha nazi. Dos 525 a 564 mil judeus que existiam na Alemanha em 1933, ou seja 0,93% da população, a metade conseguiu emigrar nos anos seguintes. Mas para os que ficaram só lhes restou o inferno.



A nau dos desesperados


Para se safar da onda de críticas que atingiu o governo nazi, Goebbels, aquele anão mau e cínico, permitiu que um navio com judeus saísse pelo Atlântico a fora, ao d’us-dará, em busca de abrigo. Ninguém os acolheu. Os governos dos outros países temiam de que se os aceitassem, se deixassem os judeus desembarcar, os nazis os poriam para fora aos magotes. Além disso vivia-se ainda sob os efeitos da grande depressão dos anos 30, onde uma parte considerável da população operária estava desempregada, não havendo muita simpatia para com refugiados. Depois de muitas voltas o governo belga deu-lhes proteção.



Um prenúncio da catástrofe



Os altos hierarcas do III Reich interpretaram a negativa do acolhimento dos passageiros daquela nau de desesperados como uma espécie de indiferença do mundo em relação ao destino que eles resolvessem dar aos judeus no futuro. Assim, logo que a guerra eclodiu, menos de um ano depois, preparam-lhes o caminho para o cadafalso.






Na história, por vezes, as grandes tragédias são previamente anunciadas por outras de menor dimensão que lhe servem por assim dizer como um experimento vivo do que irá ocorrer em breve. Da mesma forma que a guerra civil espanhola de 1936-9 anunciou a Segunda Guerra Mundial, a "Noite dos Cristais" de 1938 prenunciou o Holocausto de 1941-45.






(*) a Gestapo (Geheimstat Politzei) era a policia política do estado, a SD (Sicherheisdinst) era a polícia da SS, o corpo de elite do partido nacional-socialista.


Fontes:

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