segunda-feira, 17 de março de 2014

E alargando horizontes, vamos até às judiarias da Galiza!




E hoje vamos conhecer um pouco da Judiaria da cidade de,

PONTE VEDRA




Do latim pontem veteram (Ponte Velha), Ponte Vedra é uma cidade galega com cerca de 82.700 habitantes, situada na beira do Rio Lerez e da Ria homónima.


Ao teor do foral concedido durante o reinado de Fernando II (1157-88), assistiu-se a uma reactivação da actividade comercial, restaurando-se caminhos e pontes, repovoando-se de novo o local hoje ocupado pela cidade, depois de se ter assistido a um certo abandono na Alta Idade Média. Entre as concessões destacam-se o monopólio do fabrico do saim (gordura obtida ao prensar alguns peixes) na Galiza e da cura do peixe (não da salga) em 1229, bem como a adjudicação do porto de carga e descarga da Galiza em 1452.

Existe constância da presença judaica na cidade de Ponte Vedra desde, no mínimo, 1304. Assim figura no documento de venda de uns terrenos ao prior de Santo Domingos de Ponte Vedra, no que se refere a presença de um guardião ou custódio da Sinagoga da vila. Para que houvesse uma sinagoga estabelecida em Ponte Vedra nos inícios do século XIV, tinha de habitar um número de dez famílias, pelo que é muito provável que a presença judaica na cidade se remontasse a meados do século XIII.

A Judiaria de Ponte Vedra possuía sinagoga e fossar (cemitério judaico) pelo que cabe pensar que o seu tamanho e importância, deveria de ter sido considerável no seu momento de esplendor. Há que levar em conta que durante a Idade Média a cidade pontevedresa era um importante centro comercial.



Localização da Judiaria de Ponte Vedra


A localização da Judiaria de Ponte Vedra estava entre o actual Parador de Turismo (casa do Barão) e a Igreja de Santa Maria, abrangendo as ruas Alta, da Amargura, Pratarias Velhas e Tristám de Montenegro.



Ruas do âmbito judaico de Ponte Vedra.

Rua Alta




Rua da Amargura





Rua Pratarias Velhas



Rua Tristám Montenegro





Na praça de Santa Maria a Maior existe uma placa que comprova que nesse local estava o antigo cemitério judeu, conhecido como Lampão ou Campas dos Judeus. As duas lápides judaicas (parcialmente cortadas) foram encontradas por acaso no lajeado de uma casa do início do século XIX na Rua Dona Tereixa (Teresa).




Planta de Ponte Vedra


Relativamente à situação desse cemitério existem duas hipóteses. Por um lado, aquela que o situa fronteiro à fortaleza arcebispal e, por outro, a que o situa extramuros e afastado do casario habitado. Uma fonte documental em favor da primeira tese, seria o livro de Atas municipais de 1573, onde se recolhe um foral,



"de un pedazo de suelo, que está en donde dizen las campanas dos judeos, junto a la fortaleza desta villa".


Placa informativa do local do cemitério judaico medieval.


Lampão dos Judeus de Ponte Vedra.


A partir de 1560 assenta-se em Ponte Vedra uma comunidade de cristãos-novos vindos de Braga e Barcelos. Tratava-se de um grupo activo de profissionais altamente qualificados, entre os quais, médicos, advogados e, mormente, mercadores. Entre os recém-chegados figuram apelidos como; Pereira, Saraiva, Dinis, Chaves, Coronel, Nunes e Brandão, também presentes em Vigo, Redondela, Tui, Baiona ou Ribadávia.

A partir de 1604 a Inquisição impulsiona uma rusga em toda a Galiza contra o criptojudaísmo, caindo o seu peso sobre os marranos de Ponte Vedra em 1619.

O ascenso social dos cristãos-novos de Ponte Vedra bem como o seu enriquecimento ao abrigo das suas actividades comerciais, suscita as desconfianças de uma decadente oligarquia local, que se achava com o monopólio do poder político (regedorias municipais). Altamente endividados, os cristãos-velhos viram-se forçados a vender privilégios, que são assumidos pela nova classe comercial. Nessa altura essas camadas tradicionais, temendo perder de vez os seus privilégios de linhagem, mobilizam a Inquisição para travar o ascenso social dos cristãos-novos, exigindo limpeza de sangue. Porém, os seus pedidos batem com a resistência da coroa, não podendo os inquisidores intervir contra os criptos judeus. Uma real cédula de 1623 reabilita os condenados pontevedreses, permitindo a Marcial Saraiva Pereira exercer um cargo como regedor.

Os conversos teimaram na luta pelo ascenso social, aproveitando a transigência do governo do Conde-Duque de Olivares, de triste memória noutros acontecimentos. De facto, Ventura Dinis chegará a ser um dos mais importantes banqueiros do rei, sendo honrado com o título de Marquês de Olivares. Ele irá subornar a Inquisição para remover os infames "sambenitos" da igreja de S. Bartolomeu.


Os referidos "sambenitos" eram uma arma usada pelo Santo Ofício para o escárnio público dos conversos. Nas igrejas das que eram frequentadores os penitenciados pela Inquisição colocava-se uma sorte de cartazes, os "sambenitos", nos que figurava o nome do réu, ficando a sua família incapacitada para o exercício de qualquer cargo público. No caso de Ponte Vedra era a igreja de S. Bartolomeu o ponto escolhido pela velha fidalguia para fazer escárnio público dos cristãos-novos.


Perante a falta de apoio da coroa o mesmo Concelho reage com medidas pontuais, entre as quais, denunciar as aspirações sociais dos cristãos-novos mostrando as suas origens ou condenas passadas. Assim sendo, numa data imprecisa da primeira metade do século XVII as autoridades locais decidem instalar um cruzeiro sobre o local do antigo cemitério judaico com o intuito de "limpar" o local. Posteriormente, com o triunfo das correntes liberais em meados do século XIX, esse cruzeiro seria removido do Lampão dos Judeus, colocando-se no Campelo de Santa Maria, onde actualmente se conserva.



Campelo de Santa Maria com o cruzeiro noutrora colocado do cemitério judaico.




Cruzeiro com a igreja de Santa Maria ao fundo.


Tal como no caso de Monte-Rei, a documentação sobre a presença judia é muito fraca. Porém, a existência de duas laudas sepulcrais e, possivelmente, de um cemitério, ao que há que acrescentar as referências a vários Judeus vivendo na cidade são elementos suficientes para afirmar a existência de uma comunidade judaica.

Numa carta da pianista judia Marta Lehman de inícios do século XX, descreve-se a Judiaria de Ponte Vedra como uma das mais bem conservadas da Europa. Porém, na actualidade pouco podemos ver daquele que foi um importante bairro judeu.



Localização de Ponte Vedra na Espanha


Nota: Esta cidade aparece escrita em diferentes fontes, de duas formas diferentes. Por desconhecimento da minha parte, optei por colocar igual à fonte de onde retirei o texto. Por isso, ou se escreve; Ponte Vedra, ou Pontevedra!


Fonte do texto:

(Por Caeiro)

Fontes das fotos:

Google Earth
Google Maps

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