segunda-feira, 3 de março de 2014

E ainda no Sul de Portugal



FARO

Muralhas da cidade velha de Faro


A cidade portuguesa com cerca de 44.000 habitantes, capital do Algarve, albergou na época medieval, como outras localidades da região, uma comunidade judaica.

Conquistada pelos Mouros em 718, esteve sob o domínio muçulmano até 1249, em que é "reconquistada" pelas tropas de D. Afonso III, que lhe viria a conceder duas cartas forais em 1266 e 1269.


Na altura do século XIII existia já uma importante comunidade judaica, tal como testemunha uma pedra tumular datada de 1315 com o nome de Josef Dotomb, que se supõe ter sido rabino, e que foi encontrada num espaldão militar onde se situa hoje o Centro Histórico Judaico de Faro. Extramuros situava-se a Judiaria de Faro, a sul da R. de Santo António e confinava com a Alagoa.


Porém, a chegada maioritária dos Judeus a Faro, na sua maioria mercadores, dá-se na época dos Descobrimentos Marítimos Portugueses.


A judiaria de Faro ficava situada no local onde hoje se encontra o Convento de Nª. Srª. da Assunção (Museu Infante D. Henrique).




A comunidade judaica de Faro foi sempre uma das mais distintas da região algarvia e das mais notáveis de Portugal, contando com muitos artesãos e gente empreendedora e destacada por ter sido o berço da imprensa em Portugal.



De facto, possuía uma oficina de copistas (1391). Uma das suas figuras mais relevantes foi o tipógrafo Dom Samuel Gacon (ou Porteiro), quem em 1487 editou o primeiro livro impresso em Portugal, o Pentateuco, uma obra em língua hebraica fundamental nas sinagogas. O único exemplar conhecido desta edição ainda em existência encontra-se na colecção permanente da Brittish Library, em Londres.

O primeiro livro impresso em Portugal imprensou-se em Faro em 1487 e foi uma edição do Pentateuco (Torá) escrito em língua hebraica. (Facsimile do Pentateuco hebraico da oficina de Samuel Gacon)


Em 1492 D. Samuel Porteiro editou também o Talmud, constituído pelo "Tratado do Divórcio" e o "Tratado dos Juramentos".

A manifesta prosperidade dos Judeus farenses no século XV é interrompida pelo Édito emitido por D. Manuel I, em Dezembro de 1496, no qual os expulsa de Portugal, caso não se convertessem ao catolicismo. Assim, oficialmente, e só neste sentido, é que em Faro, como em Portugal, deixaram de existir Judeus.

Ato contínuo, em 1519, no local onde estava implantada a Judiaria de Faro, na Vila Adentro, foi erigido o Convento de Nossa Senhora da Assunção.



Vila Adentro


 Traços da comunidade judaica de Faro encontram-se também em Fez (Marrocos). Sabe-se também que Judeus expulsos originários de Faro viveram em Baiona, Londres, Dublim e Jamaica durante os séculos XVII e XVIII.

Após o terramoto de 1755 o Marquês de Pombal convidou os seus descendentes, homens de negócio e mercadores que moravam em Gibraltar e no norte da África, para regressar a Portugal e ajudar a recuperar a economia portuguesa. 

É deste jeito que no século XIX se estabelece uma nova comunidade judaica na zona da Rua de Santo António, composta por aproximadamente 60 famílias, contribuindo para o crescimento do comércio local. Com a passagem do tempo membros desta comunidade emigrariam para outras cidades.

Assim sendo, cerca de 1830, esta comunidade judaica edificou duas Sinagogas, de que já não existem vestígios, e um cemitério.

 Intitulando-se «retornados», chamaram à cidade de Faro a Nova Jerusalém, e depressa se tornaram a principal comunidade, fruto da sua capacidade financeira e da preparação para os negócios. Para além do comércio, os membros desta nova comunidade judaica de Faro investiram na indústria, com a instalação de várias fábricas que empregavam centenas de pessoas no fabrico de rolhas de cortiça, cigarrilhas e conservas de peixe. Importavam carvão da Inglaterra e exportavam produtos do campo (nomeadamente figos, amêndoas e alfarrobas) para França, Inglaterra e Gibraltar.

Prova da prosperidade da comunidade ressuscitada é que o edifício onde hoje está instalado o Colégio Algarve (Rua Filipe Alistão), foi residência-palácio de Abraão Amram. A sua importância ficou também patente aquando a visita do rei D. Carlos e da restante família real a Faro, para a inauguração da estação ferroviária da cidade. Como o Bispo carecia de condições para receber o rei, foi Samuel Amram quem emprestou tudo o que ele precisava, mesmo empregados para o servirem.



Fachada do Colégio Algarve


Com o advento do século XX, começa também o declínio da pujante comunidade judaica de Faro. As novas gerações de Judeus começaram a sair da cidade para concluir os seus cursos superiores, indo para Lisboa, Londres ou os EUA para jamais regressar. Ao mesmo tempo, aconteceu a grande depressão do final da década de 1920, que levou à falência de muitas das empresas da região que eram propriedade de famílias judias. Destarte, no primeiro terço de século a comunidade judaica mal compreendia 50 famílias. Em 1965, vendo o esmorecimento, Semtob Deiblatt Sequerra, o último líder da comunidade, acertou com a Câmara local a manutenção do espaço do cemitério, para garantir a dignidade da necrópole. Em 1970 apenas havia cinco judeus a morar em toda a província, esmorecendo as duas Sinagogas existentes.

O Cemitério Judaico de Faro, classificado como local de interesse público no registo de monumentos nacionais, é a única mostra hoje existente da passagem desta comunidade judaica. O espaço, localizado na zona norte da cidade de Faro, entre o hospital distrital e o estádio de São Luís, é, ao mesmo tempo, Centro Histórico Judaico de Faro, que é gerido pela Comunidade Israelita de Lisboa.




O terreno do cemitério foi adquirido em 1851 pelos líderes da comunidade: Joseph Sicsu, Moisés Sequerra e Samuel Amram, sendo o primeiro enterramento o do Rabbi Joseph Toledano (em 1838) e o último o de Abrahám Ruah, em 1932.

O cemitério foi votado ao abandono até 1990, quando Isaac Bitton, descendente da comunidade de Faro mas radicado nos Estados Unidos, visitou o cemitério e ficou chocado com a sua degradação. Ao seu regresso os EUA, criou a Faro Cemetery Restoration Fund, Inc., organização que no terreno era gerida por Ralf Pinto, descendente de judeus que fugiram para a Holanda. Em 1993 o cemitério foi reaberto ao público numa cerimónia de rededicação que contou com a presença do então presidente da República, Mário Soares, que homenageou assim o contributo da comunidade judaica para o desenvolvimento do Algarve.




Na ocasião, o Presidente da República portuguesa plantou o primeiro dos dezoito ciprestes existentes na fachada do cemitério, como homenagem viva a Aristides de Sousa Mendes, o cônsul português de Bordéus que salvou 30.000 pessoas do Holocausto.

Em 2003 o cemitério renomeado passando a designar-se Centro Histórico Judaico de Faro.



Ciprestes na fachada do Cemitério da Colónia Judaica de Faro.




Fontes:

(Por Caeiro)


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