domingo, 25 de novembro de 2012

OS SEFARDITAS NO IMPÉRIO OTOMANO (Parte III)




DECLÍNIO DAS COMUNIDADES JUDAICAS NO IMPÉRIO OTOMANO


Viajantes no interior de uma caravana turca, manuscrito otomano, século XVII, Museu Correr, Veneza



O cronista turco Evliya Çelebi (1611-1684) diz-nos nos relatos das suas viagens, que o grande sarraf (banqueiro-mor e cambista) do Egipto era um hebreu, que chefiava um corpo de 300 funcionários judeus.

     As atividades urbanas dos judeus do Império Otomano no século XVII, não se tinham modificado muito desde o século XVI. Os judeus continuavam a participar no comércio marítimo, a ocupar um lugar de privilégio na administração e vida financeira do Estado, mas também trabalhavam no fabrico de vestuário e eram técnicos exímios na fiação do ouro e da seda.


Lady Mary Wortley Montagu em traje turco, c. 1756, Jean-Etienne Liotard
 

    Lady Mary Wortley Montagu, escritora e esposa do embaixador britânico acreditado em Istambul, num testemunho de 1717, refere que era difícil para as grandes famílias otomanas moverem-se nos meios de negócios sem a ajuda dos «seus» judeus. É igualmente nesta época que há um renascer da atividade da impressão de livros em Istambul. Mas a par deste brilhantismo, era visível a progressiva degradação da situação económica dos judeus otomanos. Cada vez mais os judeus viviam em bairros segregados, onde a insalubridade das habitações era uma realidade e o ambiente social se assemelhava a um gueto. Crescia a intolerância muçulmana e eram cada vez mais frequentes as manifestações antissemitas, vindas amiúde das comunidades gregas ortodoxas. Tudo isto resultou numa vaga de emigração hebraica, mas desta vez para fora das fronteiras do império.
 


Salónica em 1688
 
    Em Salónica, entre 1660 e 1692, a população judaica passou de 40000 para 12000 pessoas. Verificou-se uma quebra semelhante em Sarajevo, Skopje, Belgrado e um pouco menor em Sófia, Monastir e Edirna. A partida dos judeus originou uma recomposição demográfica e étnica das cidades balcânicas, com grande impacto para as comunidades judaicas, que foram substituídos por gregos, arménios, eslavos e albaneses. Os judeus perderam assim o seu ascendente no aparelho de Estado, cedendo o lugar aos cristãos.
     O êxodo, em que tiveram parte um grande número de conversos portugueses e espanhóis, dirigiu-se sobretudo para Inglaterra e os Países Baixos. Entre 1700 e 1709, um grupo de judeus turcos instalou-se em Viena de Áustria.
 
Vista de Viena a partir do Belvedere, Bernardo Belloto, il Canaletto
 
     Deste grupo faziam parte as famílias Camondo, Nissin, Amar, De Mayo, Benveniste ou Eskenazi, só para citar algumas, que anos mais tarde se reuniriam à volta de Diogo Pereira d’Aguilar [um converso português, filantropo e homem de negócios que entre 1725 e 1747 deteve o monopólio do tabaco em Áustria, e que receberia o título de barão do Sacro Império Romano-Germânico], desenvolvendo um novo polo de judaísmo ibérico em Viena. Ainda hoje a comunidade turco-judaica de Viena fundada por Diogo d’Aguilar, reza pela sua alma em Yom Kippur.
 
Temesvár (atual Timişoara, Roménia), O Livro de Canções de Ferenc Wathay, Magyar Tudományos Akádemia
 
    O barão d’Aguilar fundou igualmente uma comunidade sefardita em Temesvár [cidade governada pelos turcos entre 1552 e 1716, e que a partir desta data foi anexada à Hungria na qualidade de província austríaca], que mantinha uma estreita ligação com a comunidade de Viena.
     Na verdade, durante o século XVIII assiste-se ao retalhamento do Império Otomano pelos dois impérios cristãos vizinhos, o russo e o austríaco. Entretanto, no século XIX surgem os nacionalismos balcânicos e a Sérvia, a Grécia, a Roménia e a Bulgária conquistam a sua autonomia. Já na década de oitenta, os franceses apoderam-se da Tunísia (1881) e os ingleses do Egipto (1882). A situação das comunidades judaicas acompanhou esta degradação do império e em 1885 serviam na alta administração otomana 348 gregos, 494 arménios e apenas 99 judeus.
 
 
O CASO DAMASCO E O LIBELO DE SANGUE DA ILHA DE RODES
 
Bairro Judeu na Velha Damasco, 1873-74, Lord Frederick Leighton
 
    Olhando para este quadro de Lord Frederick Leighton colhemos a impressão de uma vida idílica dos judeus de Damasco, no século XIX. Dificilmente associamos esta cena doméstica a um famoso caso de libelo de sangue, ocorrido em 1840, e que ficou conhecido por “Caso Damasco”. Tudo começou com o desaparecimento de um monge franciscano e do seu criado. De seguida os judeus da cidade foram acusados de os terem assassinado, com o fim de usarem o sangue das vítimas para a confeção das matzot de Pessach. A comunidade cristã local, o governador da cidade e o cônsul de França, com amplo suporte do governo de Paris, alinharam ativamente nesta acusação de ritual de assassinato. Os judeus acusados (oito dos mais notáveis da cidade e um barbeiro de nome Negrin) foram barbaramente torturados - arrancaram-lhe os dentes, as barbas e depois queimaram-nos -, tendo um deles “confessado” o crime - o barbeiro Negrin, cujo testemunho foi então utilizado como prova irrefutável de culpa. Joseph Lañado, um dos notáveis, devido à avançada idade e em resultado das torturas, veio a falecer. Entretanto a sinagoga foi pilhada.
 
Sir Moses Montefiore, Henry Weigall
 
     No mesmo ano, na ilha de Rodes, a comunidade grega ortodoxa criou um libelo de sangue contra os judeus, acusando-os de ritual de assassinato na pessoa de um menino cristão. O libelo teve o apoio dos cônsules de França, Grã-Bretanha, Suécia, Grécia e Império Austro-Húngaro. O governo otomano local, contrariamente à tradição do império de proteger os judeus das acusações de libelo de sangue, apoiou a acusação de ritual de assassinato. Vários judeus foram presos, alguns fizeram “confissões” sob tortura e um quarteirão do bairro judeu foi bloqueado durante doze dias.
     Os casos chamaram a atenção internacional, provocando uma onda de protestos da diáspora judaica europeia. James de Rothschild, cônsul honorário de Áustria em Paris, tomou as rédeas da situação, e as potências europeias mobilizaram-se pelos judeus de Damasco e de Rodes.
     Adolph Crémieux (presidente da Alliance Israélite Universelle) e Moses Montefiore (xerife de Londres) partem para o Egipto, conseguindo, após negociações atribuladas, inocentar os judeus de Damasco. No regresso à Europa, Montefiore fez escala em Istambul, onde se encontrou com o embaixador britânico, Lord Ponsonby.
 
Lord Ponsonby, John Frederick Lewis
 
    Montefiore sugere a Ponsonby que, à semelhança do que tinha sido feito por Solimão, o Magnífico, fosse emitido um firman (decreto imperial), denunciando oficialmente o libelo de sangue contra judeus. O embaixador britânico conseguiu, em menos de uma semana, uma audiência entre Montefiore e o grão-vizir Reshid Paşa e finalmente os casos de Damasco e de Rodes foram definitivamente selados.
 

Hagia Sofia vista do Bósforo, David Roberts (1796-1864)

 

    Em 3 de Julho de 1908 estala a Revolução dos Jovens Turcos. Esta data marca a dissolução do Império Otomano. A situação política é altamente instável e a transição de um sistema monárquico para um constitucional, verifica-se muito difícil. Um pouco por todo o império sucedem-se as revoluções locais, com episódios de grande violência.
     Em 1920, após a Primeira Guerra Mundial, sob os termos do Tratado de Sèvres, é assinado um acordo de paz entre os Aliados e o Império Otomano. São criados 40 novos países a partir dos antigos territórios otomanos (incluindo a República Turca de Chipre do Norte). O sultanato foi abolido a 1 de Novembro de 1922.

     O mundo ficou diferente e a complexidade das relações modernas entre judeus e «gentios», entre o Oriente e o Ocidente, alterou-se.
 
Adio Querida - Miris Kiše na Balkanu - najavna špica
 
 
 
     “O cheiro da chuva nos Balcãs” (Miris Kiše na Balkanu) é o título de um romance publicado em 1986, da escritora sérvia Gordana Kuić. O romance, inspirado na sua mãe, Blanki Levi, e nas suas tias, fala do destino de uma família de judeus sefarditas de Sarajevo, no período conturbado que vai de 1914 a 1945. Miris Kiše na Balkanu foi adaptado a uma série televisiva e tem como música associada uma das canções sefarditas mais famosas dos Balcãs – Adios Querida. É com ela que encerramos este artigo.
 
 
Adio, Adio Querida,
No quero la vida,
Me l’amargates tu
 
 Tu madre cuando te pario
Y te quito al mundo,
Coracon ella no te dio
Para amar segundo.
 
 Va, buxcate otro amor,
Aharva otras puertas,
Aspera otro ardor,
Que para mi sos muerta.



 

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