domingo, 18 de novembro de 2012

OS SEFARDITAS NO IMPÉRIO OTOMANO (Parte II)



«Chamais sábios aos reis de Castela e Portugal; eles que expulsando os judeus empobrecem os seus reinos e enriquecem os meus.»
Bayezid II


Constantinopla, Civitates Orbis Terrarum, 1572


     Nos anos que se seguiram à expulsão da Península Ibérica, a vida dos judeus sefarditas em terras otomanas tornou-se num exemplo de criatividade e prosperidade. Muitos dedicaram-se ao comércio, à medicina, ou aos assuntos políticos na corte imperial. Segundo um relato de Hans Derschwan, que percorreu a Turquia entre 1553 e 1555 ao serviço do Banco Fugger, encontravam-se judeus em todas as cidades, de diversas origens e de todas as línguas. Relata ainda que os judeus estavam autorizados a viajar e a comerciar por todo o império, que contavam com todo o tipo de artesãos, e que não permitiam a mendicidade a nenhum dos seus. Para este efeito, tinham cobradores que iam de casa em casa e recolhiam dinheiro numa caixa comum para os pobres. Esse dinheiro era utilizado para manter os pobres e o hospital.

Mercador Judeu, Nicolas de Nicolay
   O famoso viajante Nicolas de Nicolay, que visitou o império em 1551, escreveu: «…Marranos há pouco banidos e expulsos de Espanha e Portugal,…em detrimento e grande dano para a cristandade ensinaram ao Turco vários inventos, artes e máquinas de guerra, como fazer artilharia, pólvora para canhão, balas e outras armas.»

Médico Judeu, Nicolas de Nicolay

    O desempenho dos judeus na medicina era relevante, em especial dos sefarditas que traziam da Europa conhecimentos médicos mais evoluídos. Joseph Hamon, nascido em Granada, foi um célebre físico dos sultões Bayezid II e Selim I. O seu filho, Moshe Hamon (1490-1567), sucedeu-lhe no cargo junto de Selim I e de Solimão, o Magnífico.




   Não podíamos omitir o famoso Amato Lusitano (nascido em 1511, em Castelo Branco, com o nome cristão de João Rodrigues de Castelo Branco), que veio a morrer em Salónica, em 1568. Médico eminente, publicou em diversas cidades europeias, de acordo com as migrações a que foi obrigado para escapar às perseguições religiosas, sete volumes das Centúrias Médicas, resultando num dos mais importantes compêndios de clínica médica e de cirurgia estudados nas principais universidades europeias até ao século XVIII.

Mapa da Baía de Salónica, séc. XVI, Piri Reis
   A VII Centúria é publicada em Salónica, no ano de 1561. Neste último volume, Amato declara o seu retorno ao Judaísmo. De resto, já tinha expressado na V Centúria a tristeza por ser obrigado a abandonar a terra onde nascera e onde não pudera viver sem perseguição.
«Oh ingrata mãe-pátria, que nem meus ossos aceitarás receber.»
Keter Torá, Constantinopla, 1536
   Uma das inovações mais significativas que os sefarditas introduziram no Império Otomano foi a impressão em hebraico e em judeo-espanhol, dado que lhes era vedada a impressão em carateres árabes. Data de 1493, apenas um ano após a expulsão de Espanha, a oficina de impressão dos irmãos David e Samuel Nahmias. Em 1536, é impressa na oficina de Eliezer ben Gershom Soncino, a Keter Torá (Coroa da Torá), uma compilação das 613 mitzvot da autoria do Rabino David Vital, também ele um judeu expulso de Espanha.
Dona Grácia Nasi e Joseph Nasi, 1931, Arthur Szyk
   Os judeus sefarditas também se distinguiram na diplomacia otomana. Exemplo disso, é o caso de João Micas, que viria a adotar o nome Joseph Nasci, ou Nasi. Joseph teria trinta anos quando chegou a Istambul. Por essa altura já tinha dado provas de grande competência nos negócios, revelando-se um hábil diplomata. O sultão Selim II recompensou-o com o título de duque de Naxos. Joseph era sobrinho de Dona Grácia Nasci, a Senhora, também conhecida por Dona Grácia Mendes. Dona Grácia nascida em 1510, em Lisboa, era detentora de uma fortuna imensa baseada no comércio da pimenta e das especiarias. Obrigada a fugir de Portugal, percorreu a Europa, enfrentando muitos inimigos que cobiçavam a sua fortuna, até chegar ao Império Otomano.
Percurso da viagem de Grácia Nasi, de Lisboa até Istambul
   Ha Giveret «a Senhora», para além de uma extraordinária mulher de negócios, tinha uma personalidade fortíssima e uma fé inabalável. A generosidade de Dona Grácia é lendária: combatia todo o tipo de injustiças perpetradas contra os seus irmãos de fé, praticava o mandamento judaico do resgate de cativos e financiava a construção de sinagogas e academias de estudo talmúdico. Em 1560, Dona Grácia obteve do sultão uma concessão de terras na Galileia, incluindo as ruínas na cidade de Tiberíades. As muralhas da cidade encontravam-se em derrocada, a produção agrícola deficiente e a população, especialmente a judaica, miserável. Apesar da oposição da população árabe local, o sultão apoiava vigorosamente o projeto de povoamento judaico da cidade.
Tiberíades e o Mar da Galileia, David Roberts
   Dom Joseph providenciou a ida de judeus, especialmente artesãos, para se estabelecerem em Tiberíades. Em 1565 estavam concluídas as obras da muralha, restauradas as casas e plantados palmeirais, laranjais e pinheiros. A exportação de laranjas e tâmaras para o mercado europeu, era um dos planos para a sustentabilidade da economia de Tiberíades. No entanto, a conflitualidade gerada, quer por ataques constantes de drusos e beduínos, quer pela oposição de monges franciscanos locais, não permitiu que a colonização judaica sobrevivesse. Para todos os efeitos, a tentativa dos Nasi de criarem um refúgio para todos os judeus perseguidos, faz deles uma espécie de pioneiros do sionismo moderno que, quatro séculos depois, daria origem ao renascimento do Estado de Israel.
O Cabalista, Moshe Castel
     Safed, a cidade dos cabalistas, na Galileia, para além de refúgio de centenas de cristãos-novos portugueses fugidos à Inquisição, foi também um retiro de muitos místicos judeus. Vamos referir apenas dois: Yosef Caro e Shlomo Alkabetz.
Yosef Caro
   O rabino Yosef ben Ephraim Caro é considerado o maior codificador da Lei Judaica, a Halakhá. Nasceu em Portugal em 1488, e ainda criança, na sequência do decreto de Expulsão de 1497 de D. Manuel I, emigrou com a sua família para a Turquia. Já adulto, fixou-se em Safed, onde viria a falecer em 1575.
     Yosef Caro é autor de uma vastíssima obra. “Shulhan Arukh” (“A Mesa Posta”), é a sua obra de referência e aquela que ainda hoje é considerada a obra mais importante sobre a Halakhá.
     Shlomo Alkabetz (c. 1500, Salónica-1580, Safed) foi um rabino, cabalista e poeta. A sua obra mais conhecida é o poema litúrgico “Lechá Dodí”. Foi o rabino Isaac Luria quem instituiu o costume de iniciar o Shabat com a cerimónia de Cabalat Shabat, cantando o hino “Lechá Dodí”.
A demonstrar a sua vitalidade através dos tempos, propomos a audição do hino “Lechá Dodí” em duas versões: a primeira na cerimónia de inauguração de Sinagoga Sefardita “Edmond J. Safra”, em Aventura, na Florida (postado neste blogue em 17 de Outubro de 2012.
Lecha Dodi- Aventura Turnberry Friday Night Live
   A segunda, muito diferente, é a original versão dos Abayudaya, os judeus negros do Uganda. A audição desta versão de “Lechá Dodí” pertence a um artigo publicado em Rua da Judiaria de Nuno Guerreiro Josué, intitulado “A Música dos Judeus do Uganda”.
Notas:
«Chamais sábios aos reis de Castela e Portugal; eles que expulsando os judeus empobrecem os seus reinos e enriquecem os meus» (frase proferida por Bayezid II, sultão otomano entre 1481-1512, citada por Immanuel Aboad in Nomologia, o Discursos Legales Compuestos, Amsterdão, 1629);
Piri Reis (1465-1555) – comandante naval otomano, cartógrafo e geógrafo.
 
Esta é a continuação do artigo “Os Sefarditas no Império Otomano”, o segundo de quatro artigos.
Também este elaborado por Sónia Craveiro, a quem deixo os meus sinceros agradecimentos.
Muito Obrigada
Beijinhos
Fontes:
MUCZNIK, Esther, Grácia Nasi, a esfera dos livros;
DICIONÁRIO DO JUDAÍSMO PORTUGUÊS, EDITORIAL PRESENÇA;

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