quarta-feira, 23 de abril de 2014

Ainda por Terras de Sefarad e desta vez na Galiza:




RIBADÁVIA


Vila de Ribadávia


Vila galega de 5.500 habitantes, centro económico e administrativo da região do Ribeiro. Está atravessada pelo rio Ávia, pouco antes da sua desembocadura no rio Minho, entre as montanhas da serra do Faro e a do Suído.



Vista de Ribadávia


Ribadávia surge como núcleo relevante de população no século XI, sendo capital do Reino da Galiza durante o reinado de Dom Garcia (1065-71). A chegada da corte galega produziu um efeito imediato de expansão da vila, constituindo o seu núcleo. O assentamento real na cidade e a sua situação estratégica atraiu uma considerável quantidade de Judeus, atraídos pelas possibilidades de negócio. A importância do Reino da Galiza era grande na época, com umas fronteiras que se estendiam além do Douro, e mesmo com poder de vassalagem sobre o reino muçulmano de Badajoz.

No século XII produz-se um crescimento demográfico e económico ligado com a comercialização do vinho do Ribeiro e com a fundação dos grandes mosteiros de São Clódio, Melom e Osseira e graças ao foral de 1164, concedido pelo rei Fernando II.

Em 1375, por concessão de Henrique II de Trás-Tamara, inicia-se o senhorio de Ribadávia, tornando-se em sede do Adiantado Maior do Reino da Galiza (uma espécie de vice-rei). No alto da cidade acha-se o castelo dos Sarmento, senhores da vila, do que se conservam algumas ruínas.



Castelo de Ribadávia


A capital do Ribeiro esteve amuralhada, tal como testemunham ainda restos de panos e algumas portas que se conservam, como a Porta Nova, a Porta da Vila de Arriba e o postigo da Porta Falsa, que afortunadamente se safaram da derruba iniciada em 1832 e que se parou por causa das dificuldades económicas.



Remanescente da muralha de Ribadávia. Foto de Caeiro


Nessa altura já contava com uma comunidade judaica, cuja primeira e mais conhecida referência, não da judiaria mas da presença judaica, é a Crónica de Froissart, escrita nos finais do século XIV, que ressalta a importância que tiveram os Judeus de Ribadávia e o alto preço em vidas que pagaram pela resistência que ofereceram junto com o resto dos habitantes em 1386 face ao ataque das tropas inglesas do Duque de Lencastre, que assaltou a cidade numa das guerras da libertação da Galiza.

Posteriormente a esta crónica, os dados sobre a comunidade judaica de Ribadávia reduzem-se às quantidades pagas em conceito de taxações específicas que a população judaica devia pagar à Coroa e algumas outras notícias sobre algumas das personagens que lá viveram.

Pela documentação existente, sabe-se que o número de famílias hebraicas em Ribadávia situou-se por volta das treze em 1464; sete entre 1472-74; onze em 1749 e quatro em 1482. A estes dados haveria que acrescentar as pessoas não sujeitas a tributações. Na altura do século XV a comunidade judaica de Ribadávia era semelhante à maioria das existentes na Galiza.




Em 1476 os reis católicos ascendem à casa dos Sarmento a Condado em reconhecimento pelo labor de Bernardino Peres Sarmento na reconquista. Muitos Judeus encargavam-se então da gestão dos assuntos financeiros do senhorio e posteriormente do Condado de Ribadávia, especializando-se na administração de bens e rendas e em diversos ofícios artesanais. Também se destacaram como mercadores de vinho.




A documentação existente dos séculos XVI, XVII e XVIII é suficientemente explícita para permitir localizar a Judiaria de Ribadávia. Trata-se de documentos referidos a foros, uma espécie de contratos de arrendamento a longo prazo, ou às vendas de casas, propriedade do mosteiro de Santo Domingo. Esses documentos falam na localização de diferentes prédios "na rua da judiaria".

Essa Judiaria de Ribadávia localizava-se entre a praça Maior e a muralha medieval. Porém, nem todos os estudiosos concordam na extensão desta zona. Segundo Leopoldo Meruéndano e Benito Fernández Alonso, os Judeus habitavam entre a Porta Nova de Abaixo e a de Arriba, com o passeio correspondente da Madalena, para além de uma zona exterior no bairro dos Ferreiros e da Corredoira. José Luis Lacave situa a Judiaria de Ribadávia na actual rua de Merelhes Caula mas, com base na obra de Meruéndano, estende o bairro judeu "ao espaço que existe entre a Madalena, a muralha e as ruinas do castelo, isto é, às ruas Porta Nova de Arriba, Porta Nova de Abaixo e Travessa da Porta Nova". Esta delimitação não é compartilhada por Samuel Elján, que admite que a presença judaica em Ribadávia não era tão grande que permitisse habitar em quase metade da superfície da vila.



Localização da Judiaria de Ribadávia. Foto do GoogleEarth


Seja como for, o bairro judeu reconhecido pelo concelho de Ribadávia (em roxo) é o que abrange a Rua Merelhes /Judiaria, Praça da Madalena, Rua da Porta Nova de Arriba, Rua da Porta Nova de Abaixo, Travessa da Porta Nova e Praça de Buxám".



Zonas de âmbito judaico de Ribadávia. Foto de Eva L. Parguinha



Os arruamentos judaicos de Ribadávia em cor cinza.


Do bairro judeu de Ribadávia ainda persiste o traçado medieval das suas longas e estreitas ruas, os seus cantos de ruas e praças, porteadas pelas sacadas, e pátios rodeados de fachadas. Como uma continuidade dos prédios, quer pelas ruas, quer pelas arcadas, a pedra é o elemento presente nesta judiaria. Os mercados judeus localizavam-se nos sotos das casas, evitando destarte a entrada do sol para comodidade dos clientes e para preservar os alimentos. As varandas projetam-se para a rua em proeminentes saintes para proteger os sotos da chuva; de resto, colocavam diante das suas próprias portas lajeados a jeito de plataformas, elevadas uns centímetros por sobre o nível da via a fim de evitar que a humidade do solo penetrasse nos locais.


Rua da Judiaria

O eixo principal do bairro judeu de Ribadávia situava-se por volta da Rua da Judiaria (hoje rua de Merelhes de Caula), que liga a Praça Maior com a praça da Madalena. Esse foi o nome da rua até o século XVII, pois posteriormente foi mudado pelo nome de Rua da Cruz. Porém, na documentação, até a entrada do século XIX, quando se cita a Rua da Cruz aparece sempre a antiga denominação de Rua da Judiaria, o que permite supor que a rua seria mais conhecida por esse segundo nome do que pelo primeiro. Na actualidade conserva o mesmo traçado e recuperou o nome tradicional juntamente com o de Merelhes Caula.



Placa da Rua da Judiaria


O lajeado da rua e a proeminência das pedras nas casas contribuem para lhe dar ao seu percorrido uma forte fasquia medieval.



Praça Maior, ao fundo a Rua da Judiaria. Fotos de Eva L. Parguinha



Ao fundo a Praça Maior de Ribadávia. - Rua da Judiaria. Fotos de Eva L. Parguinha


Nesta rua existem lojas de artesanato onde as suas montras destacam diferentes elementos ornamentais judaicos.


Foto de Eva L. Parguinha




Foto de Caeiro



Prédio Judeu – Foto de Caeiro



Praça da Madalena


Foto de Eva L. Parguinha



Foto de Caeiro



Foto de Eva L. Parguinha



Foto de Caeiro



Pr. da Madalena vista da Pr. de Buxám. Foto de Caeiro



Porta Nova

O Arco situado no limite sul da Judiaria e que permite o acesso desde a vila até o rio Minho.


Porta Nova. Foto de Caeiro


Na sua aresta direita pode-se constatar a existência de umas concavidades iguais às existentes na porta da muralha de Melgaço.



Porta Nova do interior da Judiaria de Ribadávia. Foto do GoogleMaps



Foto de Caeiro


A partir do arco da Porta Nova duas ruas penetram na judiaria, a Rua da Porta Nova de Arriba e a Rua da Porta Nova de Abaixo.



Prédio no entroncamento da R. da Porta Nova de Arriba -esq- 
e Porta Nova de Abaixo -dt.



Rua da Porta Nova de Arriba


Dentro da judiaria, na Rua da Porta Nova de Arriba, ainda existe uma casa do século XV e uma porta na fachada de uma outra da mesma época. Ambas as portas são de arcos de meio ponto realizados com grandes dovelas e nas suas ombreiras direitas possuem concavidades.



Porta Nova de Arriba. Fotos de Caeiro


Este prédio no nº 20, é a única habitação que conserva o pátio interior característico das casas judaicas e que era comum a todas.



Casa 18 Porta Nova



Fotos de Caeiro



Rua da Porta Nova de Abaixo

Rua que discorre paralela à muralha pela sua face interna.


Fotos de Caeiro



À esquerda a Tr. da Porta. - Fotos de Caeiro



Fotos de Caeiro


A casa com o número 27 da Rua da Porta Nova de Abaixo exibe uma estrela de David.



Foto de Eva L. Parguinha


Travessa da Porta Nova


Foto de Caeiro


Nesta rua uma placa lembra o local do nascimento da soprano Ángeles Gulin (1939-2002) particularmente ligada às obras de juventude de G. Verdi.



Foto de Caeiro


Porta Falsa


Foto de Caeiro



Porta Falsa vista de dentro da Judiaria. Na dt. a Pr. de Buxàm. Foto de Caeiro



Pr. de Buxám, à esq. a R. da Porta Nova de Abaixo. Foto de Caeiro



Extramuros

Rua que discorre paralela à face exterior da muralha.



Foto de Caeiro



Foto de Caeiro



Foto do  GoogleMaps


No número 7 da Praça da Madalena acha-se o prédio que pode ter abrigado a Sinagoga de Ribadávia.



Foto de Eva L. Parguinha


Foto de Eva L. Parguinha



Foto do GoogleMaps




No interior do actual prédio e por trás da sua fachada do século XVI encontram-se uns muros dos sécs. XII-XIII com arcadas e contrafortes românicos. Segundo o historiador Xosé Ramón Estévez Pérez, o capitel deste prédio está ligado com o mundo judaico, já que a existência de quatro pinhas nas laterais lembraria as colunas de Salomão, a margarida formando uma estrela e os acantos de sete braços como os candelabros judaicos.


Capitel pertencente ao prédio onde se acha esteve a Sinagoga. 
Foto de Eva L. Parguinha


Além disto, encontrou-se uma cisterna no primeiro andar destinado a apanhar a água da chuva e que posteriormente caía até à gárgula e que posteriormente poderia ter sido utilizada para os banhos rituais judaicos.



Porta do pátio da sinagoga. Foto de Eva L. Parguinha


Na imagem, a porta de acesso ao pátio na zona posterior da parcela, na que se acha que foi o pátio de reuniões da sinagoga (nº3 da Travessa da Porta Nova). Cabe referir a semelhança com a porta da possível sinagoga de Monforte de Lemos.



Prédio onde sediou a Inquisiçom de Ribadávia.
Foto de Eva L. Parguinha


Para além dos portugueses, para se safarem do Santo Ofício outros membros da Judiaria de Ribadávia assentaram-se em zonas afastadas da Serra do Suído (dando origem à comunidade judaica da Granha) ou nos vales dos rios Ávia e Arenteiro.

Tanto cristãos quanto Judeus contribuíram para a pujança económica do Ribeiro, que chegou ao seu nível mais alto entre os séculos XV e XVII, tendo sempre como base a comercialização do vinho, do qual a Judiaria foi mais proprietária do que cultivadora directa. Para além de mercadores, os judeus exerceram ofícios ligados ao artesanato, entre os quais os de sapateiro, alfaiate, ferreiro, talho e ourives.

Para reivindicar o passado judeu, desde 1989 celebra-se a Festa da História, com as pessoas vestidas à época. Esta celebração já aparece citada em documentos do século XVIII, mas em 1868 deixou de se celebrar.




Também existe a hipótese da existência de um túnel que ligaria esta parcela com o rio e que poderia ter sido utilizado pelos judeus para escapar das perseguições. A localização da parcela permite também a colocação de uma sala de oração orientada para o leste e com as dimensões apropriadas para os rituais judaicos.

Depois do édito de expulsão, muitos dos Judeus que moravam em Ribadávia converteram-se ao cristianismo para poder conservar os seus bens, além de serem considerados cidadãos de pleno direito. Alguns mantiveram o culto judaico em segredo, sendo mostra da repressão desdobrada contra eles o  famoso Processo de El Malsín em 1606-10, enquadrado nas várias ocasiões que Ribadávia foi objeto de actividade da Inquisição contra praticantes do judaísmo.

Os que não renunciaram à sua religião assentaram-se provisoriamente em Portugal, regressando a Ribadávia quando as perseguições recuaram, mas fugindo periodicamente para Portugal durante os períodos em que os representantes da inquisição realizavam as suas inspecções pela região do Ribeiro.





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