segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ELIAS MONTALTO (1567-1616)



UM MÉDICO JUDEU PORTUGUÊS


Rua d’Ega, Castelo Branco


   Felipe Rodrigues Montalto, também conhecido como Elias Montalto, foi um médico cristão-novo, oriundo de Castelo Branco. Seus pais, António Aires (boticário de profissão) e Catarina Aires educaram-no secretamente na fé judaica. Era sobrinho-neto do famosíssimo Amato Lusitano. Estudou Filosofia e Medicina na Universidade de Salamanca. 

     Em Castelo Branco casa com a cristã-nova Jerónima da Fonseca, que já no exílio haveria de adoptar o nome de Raquel. O casal teve cinco filhos, todos nascidos em Castelo Branco, dos quais dois gémeos morrem ainda na infância. Moisés, um dos três sobreviventes, virá a ser um médico conceituado na Polónia, tendo falecido em Lublin, em 1637. 


O Louvre nos começos do século XVII, Féodor Hofbauer


    Não se sabe a data exacta da saída de Portugal do Dr. Felipe Montalto, mas sabe-se que partiu para Itália, estabelecendo-se em Livorno a partir de 1598. É nesta cidade que em 1599 converte um jovem português de Lisboa à fé judaica – Paulo de Pina.

     Anos depois vai viver para Veneza, onde conhece Concino Concini, casado com Leonora Galigai, aia e irmã de leite da rainha Maria de Médicis. Por recomendação de Concini, em 1606 Montalto parte para Paris, na qualidade de médico da Corte francesa, sendo então chamado a observar Leonora Galigai, que se encontrava muito doente. Montalto consegue curar Leonora, mas o rei Henrique IV não tolera judeus praticantes na sua Corte. 


Veneza em 1565, Civitates Orbis Terrarum I43


  Regressado a Itália, o médico português fixa-se em Veneza, defendendo livremente as suas crenças judaicas. Publica nesse ano de 1606, em Florença, a obra Optica Intra Philosophie et Medicinæ Aream de Visu, de Visus Organo et Objecto Theor, um estudo notável sobre a anatomia do olho e a fisiologia da visão.

     Entretanto, Henrique IV de França morre em 1610, sucedendo-lhe o filho Luís XIII, com apenas 9 anos de idade. A rainha Maria de Médicis torna-se regente na menoridade do filho, e convida o Dr. Montalto para seu médico pessoal. 


Maria de Médicis, como rainha regente, em 1611, Frans Pourbus, o Jovem


  Montalto, no entanto, impõe como condição prévia à aceitação do cargo, a liberdade de praticar a sua religião. A rainha regente solicita autorização ao Papa, e uma vez esta concedida, em 1612 Montalto parte para Paris, na companhia da mulher, de dois filhos, Isaac e Moisés, e de*Saul Levi Morteira, seu *shohet, secretário particular e professor de hebraico dos filhos.
     
    Em 1614, sob a protecção da rainha Maria de Médicis, Montalto publica a sua principal obra médica - Archipathologia in Qua Internarum Capititis Affectionum, Essentia Causæ Signa, Præsagia, & Curatio Accuratissima Indagine Disseruntur-, um estudo sobre as “afecções nervosas e mentais”. Nesta obra, precursora dos estudos psiquiátricos, Montalto procura a explicação científica das doenças mentais, rejeitando as justificações demoníacas e aconselha um tratamento com base no repouso e na psicoterapia. 


Casamento de Luís XIII com Ana de Áustria, Bordéus, 1615, gravura de Adrien Moreaux


      Em finais de 1615 realiza-se em Bordéus, o casamento de Luís XIII com Ana de Áustria (filha de Filipe III de Espanha). Montalto acompanha a rainha regente, mas no regresso a Paris morre subitamente em Tours, em Fevereiro de 1616.

   Maria de Médicis ordena que o corpo do seu médico particular seja embalsamado, sendo depois levado para Amsterdão por Saul Levi Morteira e por familiares do falecido. O Dr. Felipe Elias Montalto foi sepultado no Cemitério dos Judeus Portugueses, em Ouderkerk ann de Amstel, nos arredores de Amesterdão. 


Cemitério dos Judeus Portugueses, Ouderkerk aan de Amstel


   Elias Montalto deixou uma obra notável, estudada por várias gerações de médicos. Robert Burton no seu famoso livro The Anatomy of Melancholy, cita o Dr. Montalto e a sua Archipathologia 85 vezes. 



*Saul Levi Morteira (1596-1660) – Autor do Tratado sobre a verdade da Lei de Moisés, pertence à Direcção, em Amesterdão, que aplica o herem (excomunhão) a Espinosa.
*Shohet – abatedor ritual.



Este artigo foi elaborado na integra pela minha querida amiga,

Sónia Craveiro,

A quem deixo, desde já o meu muito obrigada,

Beijinhos



Fontes:

DICIONÁRIO DO JUDAÍSMO PORTUGUÊS, MORTERA, SAUL LEVI, EDITORIAL PRESENÇA;
GUARDA, HISTÓRIA E CULTURA JUDAICA, MUSEU, ELIE DE MONTALTO;


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