segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

SEFARDITAS NO IMPÉRIO OTOMANO (IV Parte)




ENTRE A QUEDA DO IMPÉRIO E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
 
A Baía de Salónica
 
    Como já vimos, o império otomano começou a corroer-se por dentro ao longo do século XVIII. Em finais do século XIX começou a desmoronar-se. Salónica, conhecida por “A Jerusalém dos Balcãs”, parece alheia a tudo isto. Edgar Morin no seu livro “Vidal e os seus” (que trata da biografia de seu pai, um sefardita de Salónica), diz-nos que em 1852 chega ao porto o primeiro navio a vapor; de 1877 a 1888 uma rede de caminho-de-ferro uniu Salónica a Skopje, primeiro, depois à rede sérvia e ao Ocidente. O Expresso do Oriente passou a ligar Londres, Paris, Viena, Belgrado, Salónica e Istambul. Em 1890 começa a instalação de gás de cidade; em 1893, a das linhas de tramways e em 1896, a da distribuição de água potável.
 
Judeus sefarditas, Salónica, 1917
 
    Com a melhoria das condições de vida, Salónica passa de 50000 habitantes em 1865, para 170000 em 1912. As proporções são de 56% de sefarditas, com 12 escolas e 32 sinagogas, 20% de turcos, 20% de gregos, 4% de búlgaros e outros.
     Salónica é como uma pequena pátria para os sefarditas. Toda a cidade vive ao ritmo da sua maioria sefardita que impõe o feriado ao sábado.
 
1912, a Grécia vence os Turcos em Salónica
 
Mas a Revolução dos Jovens Turcos, a desintegração do Império Otomano e finalmente a conquista da cidade pela Grécia, vão desagregar a pequena cidade-pátria salonicense. Em 1931, depois dos motins antissemitas, muitos judeus emigram para a Palestina, França e Estados Unidos da América.
 
Jovem judeu detido pelas forças nazis, Salónica, 1942
(Deutsches Bundesarchiv)
 
 
    O último golpe, e o mais duro, acontece em plena Segunda Guerra Mundial. Em 1941 a Alemanha nazi ocupa a Grécia e posteriormente começa a deportar os judeus para campos de extermínio. Serão assassinados cerca de 60000, sendo a maioria de Salónica. Dos 42830 judeus de Salónica, quase todos deportados para Auschwitz-Birkenau, sobreviveram 1950. A Grécia construiu um pequeno memorial público aos judeus gregos, 54 anos após a guerra e depois de dez anos de negociações.
 
Família Touriel, 1924, Ilha de Rodes
 
    Desde 1923 e de acordo com o Tratado de Lausanne (que veio ratificar o de Sèvres), que a Ilha de Rodes se encontrava sob administração italiana. Em 1936, o governador fascista Mario de Vecchi implementou um conjunto de leis antijudaicas, chegando ao ponto de usar cem lápides de túmulos do cemitério judaico para a construção da sua nova residência. Em 1939, umas centenas de judeus conseguiram embarcar num navio que fazia o transporte ilegal de judeus para a Palestina. Em 1942, o novo governador da ilha, almirante Campione, tentou proteger os judeus, revogando várias medidas antissemitas. No entanto, e apesar da queda de Mussolini em 1943, os alemães nazis ocuparam a ilha em 1944, iniciando a deportação da comunidade judaica.
 
Tanques nazis na Ilha de Rodes, 1944
 
    Dois dias depois de os alemães ocuparem a ilha, o cônsul geral da Turquia, Selahhatin Ülkϋmen, intercedeu corajosamente pelos judeus turcos, conseguindo salvar 42. Os restantes 1676 foram deportados para Auschwitz. Sobreviveram 151.
     Muito haveria ainda a dizer sobre o trágico destino das comunidades judaicas da antiga Jugoslávia, Bulgária, ou Roménia. Lembremos que em 1940 viviam nos países balcânicos cerca de 253 mil judeus. Destes, 228 mil, ou seja, 90% pereceram na Shoá.
 
“Que a tua lembrança seja amor -
A História de Ovadia Baruch”
 
 
    O filme “Que a tua lembrança seja amor – A História de Ovadia Baruch” (um judeu sefardita de Salónica, que sobreviveu a Auschwitz) faz parte do projeto “Testemunhos e Educação”, uma produção conjunta do Instituto para o Estudo do Holocausto no Yad Vashem e o Centro de Multimédia da Universidade Hebraica de Jerusalém. Propomos a visualização de dois pequenos excertos deste filme:
 
 
Ovadia Baruch - No Museu Judaico e na Sinagoga em Salónica
 
 
 
Ovadia Baruch - Chegada a Auschwitz
 
 
 Vamos a murir avlando nuestra lingua
 
Placa em ladino, Auschwitz-Birkenau
 
     Em Março de 2003, no aniversário dos 60 anos da chegada dos primeiros deportados de Salónica, foi colocada uma placa em ladino, que reza assim:
 
 
KE ESTE LUGAR, ANDE LOS NAZIS EKSTERMINARON UN MILYON/ I MEDYO DE OMBRES, DE MUJERES I DE KRIATURAS/ LA MAS PARTE DJUDYOS/ DE VARYOS PAYIZES DE LA EVROPA/ SEA PARA SEMPRE, PARA LA UMANIDAD/ UN GRITO DE DEZESPERO I UNAS SINYALES.
AUSCHWITZ-BIRKENAU
1940-1945.
 
     Os sefarditas organizaram várias sublevações em Auschwitz. Salvador Santa Puche, investigador do percurso dos sefarditas no Holocausto, recolheu o seguinte testemunho de uma sobrevivente daquele campo: «Si mos van a matar a todos (…) vamos a murir avlando nuestra lingua. Es la sola koza ke nos keda i no mos lo van a tomar!» De facto, os sefarditas usaram a sua língua ancestral, o ladino ou judeo-espanhol, como arma de resistência. “Arvores yoran por luvyas” é uma cantiga sefardita medieval, transformada em hino contra os verdugos alemães. Na imagem em baixo, vemos a cantora Flory Jagoda, cantando “Arvores yoran por luvyas”, na cerimónia da dedicação da placa em judeo-espanhol, que teve lugar em Auschwitz em Março de 2003.
 
Flory Jagoda em Auschwitz cantando “Arvores yoran por luvyas”
 
     Lembrar a tragédia de milhões de seres humanos vítimas de perseguições, é uma obrigação. Mas viver cada dia das nossas vidas com a convicção de que “a terra prometida está dentro de nós”, é com certeza uma maneira de honrar a memória daqueles que pereceram vítimas do preconceito antissemita. Flory Jagoda é disso um exemplo.
     Flory Jagoda é uma compositora e intérprete norte-americana, que tem pautado a sua vida e carreira musical em defesa da música sefardita e da língua da sua infância – o judeo-espanhol ou ladino. Nasceu em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, no ano de 1925. Cresceu na pequena cidade de Vlacenice, rodeada dos avós, tios, tias, primos e primas – a família Altaras -, uma família sefardita de tradição musical. Durante a Segunda Guerra Mundial esteve internada num campo da ilha de Korčula, na Dalmácia. De lá conseguiu fugir com os pais para Itália, onde conheceu Harry Jagoda, então militar dos EUA, com quem veio a casar. Após a guerra, regressou à sua cidade natal para saber da família. As poucas provas encontradas indicam que a família Altaras, 42 pessoas, foi sumariamente fuzilada na quinta onde vivia.
     Flory Jagoda encontrou na música um caminho para homenagear a família que perdeu, cantando as cantigas que aprendeu com a sua avó – Nona Luna -, e compondo outras ao estilo sefardita.
     Em 2002 recebeu dois prestigiados prémios – National Heritage Fellowship e National Endowment for the Arts -, pela sua dedicação à música sefardita e à defesa do ladino ou judeo-espanhol.
     Chanucá está a aproximar-se e bem a propósito, propomos uma cantiga alusiva a esta festividade, da autoria de Flory Jagoda: “Ocho Kandelikas”.
 
 
Los Desterrados cover Flory Jagoda’s lovely Chanuhah song in their own inimitable fashion
 
1 - Chanukah linda esta aki, ocho kandelas para mi,
Chanukah linda esta aki, ocho kandelas para mi.
 
Refrão - Una kandelika, dos kandelikas, tres kandelikas,
kuatro kandelikas, sinko kandelikas,
seis kandelikas, siete kandelikas,
ocho kandelas para mi.
 
2 - Muchas fiestas vo fazer, com alegrias i plazer
Muchas fiestas vo fazer, com alegrias i plazer
 
3 - Los pastelikos vo comer, com almendrikas i la miel
Los pastelikos vo comer, com almendrikas i la miel
 
Nota: link para um artigo da revista eSefarad sobre Flory Jagoda
 
 
Este é o quarto e último artigo sobre o tema:
 
 SEFARDITAS NO IMPÉRIO OTOMANO”
Todos eles, como é do vosso conhecimento, foram elaborados por
Sónia Craveiro,
a quem desde já deixo o meus sinceros agradecimentos.
Muito obrigada
 
Beijinhos
 
Fontes:
MORIN, Edgar, VIDAL E OS SEUS, Instituto Piaget;

 

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