quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O último judeu no Afeganistão



 
Zebulon Simintov, foto de 2005 | Emilio Morenatti
 

Zebulon Simintov vive num quarto ao lado da última sinagoga em Cabul. É o último de seu povo, não há outro judeu em todo o Afeganistão. No dia em que elemorrer ou decidir sair para Israel, irá acabar com o que poderia tornar-se vinte e cinco séculos de presença judaica no país.
 
 


A presença de judeus no Afeganistão pode ser rastreada até o século VI A.e.c. Consta que a sua chegada teria ocorrido durante o cativeiro babilônico. Na verdade, há uma crença entre os pashtuns, o grupo étnico majoritário no Afeganistão, que afirma que são descendentes de uma das dez Tribos perdidas de Israel. Da mesma forma, que o nome da cidade de Cabul deriva de Caim e Abel, e do país, Afegã, um neto, lendário do rei Saul de Israel, de acordo com a tradição pashtun, seria o progenitor de todos os pashtuns.
 
Em qualquer dos casos, estudos genéticos recentes parecem descartar a origem judaica do povo pashtun, tendo encontrado poucas conexões entre eles. Com os judeus, teria sido o mesmo que com os povos gregos e árabes também passaram pela região, mas não alteraram drasticamente sua demografia.
 
Após pesquisa a algumas fontes históricas, a primeira referência documental à presença judaica no Afeganistão é o século VII d.e.c. Em 1080, o poeta judeu de Granada, Moisés ibn Ezra, fala de 40.000 judeus em homenagem à cidade de Ghazni. Dois séculos mais tarde, um outro judeu sefardita, Benjamin de Tudela, fixa o número de judeus em cerca de 80.000 afegãos.


Ao contrário, do caso de Moisés, Benjamin conhecia a região, pois havia feito várias viagens para Bagdá, Mosul e Palestina. Nessas viagens fez contato com as comunidades judaicas locais. Embora houvesse lugares na Arábia, Pérsia ou no próprio Afeganistão, dos quais ele não gostou particularmente, mas mesmo assim, esforçou-se para obter informações sobre o número de judeus que lá viviam, os nomes dos notáveis de suas comunidades e seus costumes.
 

A sinagoga de Yu Aw em Herat. Fotos de 1998 antes da restauração de 2009 | Annette Ittig para o International Survey of Jewish Monuments
 
Depois veio a invasão mongol de Genghis Khan no Afeganistão em 1222, os judeus afegãos foram reduzidos a diversos grupos isolados. A comunidade só se recuperou em meados do século XIX, com a chegada de judeus que fugiam das conversões forçadas e perseguições na Pérsia, e que fez disparar o número total de judeus para 40.000.
 
Mas, novamente, os seus números começaram a diminuir e em 1948, apenas 5.000 ainda estavam no país. O golpe de misericórdia para a comunidade dá-se em 1951, quando os Serles têm permissão para emigrar havendo um êxodo real para Israel e para os Estados Unidos.
 
Zebulon nasceu alguns anos mais tarde, em 1959, na cidade afegã de Herat. Zebulon lembra que havia 13 casas onde viviam famílias judias. A vida era tranquila até os anos 80 quando chegou o Mujahideen. Ele recorda-se do seu assédio, mas esclareceu que isso não tinha nada a ver com a sua religião e sim com questões monetárias. No final, Zebulon e sua família vendeu a loja de tapetes de peles e se mudou para Cabul.

 
A sinagoga de Yu Aw em Herat depois da recuperação.
 
 
 
Enquanto isso, a comunidade continuou a reduzir a emigração e em 1969 já só existiam apenas cerca de 300 judeus no país, um processo que se acelerou com a invasão soviética do país, de modo que, em 1996, o número de judeus não chegava a uma dúzia deles, principalmente em Cabul.



Durante este tempo, Zebulon passou vários anos no Turcomenistão, mas voltaria para o Afeganistão em 1998. Ele conta-nos que o seu apartamento tinha sido destruído durante a guerra civil, e que depois disso ele decidiu ir viver num quarto ao lado da sinagoga, um edifício de dois andares com salas vazias dispostas em torno de um pátio, construído cerca de 45 anos atrás.
 
Até então, Zebulon tinha levado uma vida decente como um comerciante de tapetes e antiguidades, mas as coisas mudaram e ele foi corrido para fora do negócio por agentes alfandegários que lhe confiscaram todas as mercadorias existentes no seu armazém no valor de cerca de US $ 40.000.
 
Cemitério judeu em Herat
 
Zebulon é o único judeu no Afeganistão, mas estima-se que existam mais de 10.000 descendentes daqueles que já partiram, apesar de só serem contabilizadas  200 famílias que vivem em Nova Iorque, a maior comunidade judaica no exterior. Destes, alguns têm conhecimento mínimo de Dari ou pashto, os dois idiomas oficiais do Afeganistão, mas a maioria perdeu a língua de seus pais ou avós. O sentimento afegão é bastante fraco entre a maioria deles. Alguns justificam dizendo que:
 
 " vivia e ainda sinto uma certa ligação com o país que meus avós ou pais deixaram para trás, mas reconheço que é um país fraco”.
 
Alguns destes descendentes enviam a Zebulon todos os anos antes da festa judaica de Pessach, um pacote com 27 quilos de alimentos kosher. Zebulon sobrevive com isso e outros auxílios semelhantes que vêm de outras comunidades judaicas no exterior, mas também graças à caridade de alguns de seus vizinhos muçulmanos, inclusive vários deles, seus grandes amigos. É precisamente um deles, o guardião de um dos dois cemitérios judaicos na capital, que após a morte de Ishaq (o penúltimo judeu daquele país), viveu na sinagoga, pelo menos por uns tempos.
 
 
 
Fonte:
 
 

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