quarta-feira, 19 de setembro de 2012

YOM KIPPUR



O GRANDE PERDÃO
 

     Um dia por ano, o homem esforça-se por servir a D'us, não como homem, mas como se fosse um anjo. Os anjos não comem nem bebem, e a sua única ocupação quotidiana é celebrar a Deus e viver na Sua presença. É assim que no Yom Kippur (o Dia da Expiação), o Judeu não come nem bebe, seja o que for; observa o mais rigoroso jejum e passa todas as horas de vigília em oração. É nesse dia, quando se encerra os Dez Dias de Arrependimento, que é finalmente determinado o julgamento de cada um em vista do novo ano. Nos antigos tribunais de justiça dos Judeus procedia-se legalmente desta forma: o acusado estava sentado no seu banco em atitude de arrependimento. Esta atitude deve ser a de todos os Judeus no decorrer do mais solene dos dias. Mas qualquer que seja esta gravidade, mesmo no Yom Kippur, o Judeu não perde o sentimento de que pertence à família de D'us.
 

Duas pequenas histórias de Yom Kippur
Um dia, o rabino Elimelek de Lisensk enviou os seus discípulos, na madrugada do Dia da Expiação, para observarem o comportamento de um certo alfaiate. «Vós aprendereis dele – disse-lhes – aquilo que um homem deve fazer neste dia santo.» Por uma janela viram o alfaiate tirar de uma prateleira um livro em que tinha escrito todos os pecados que tinha cometido ao longo do ano. De livro na mão, o alfaiate dirigiu-se a D'us: «Hoje, neste dia do perdão para todo o Israel, chegou para nós a hora de Tu, meu D'us, e eu fazermos contas. Eis a lista dos meus pecados; mas há outro livro onde registei todos os pecados que Tu também cometeste: os desgostos, a tristeza e o sofrimento que me causaste, a mim e à minha família. Senhor do Universo, se contarmos exatamente os totais, Tu estás mais devedor para comigo do que eu para Contigo! Mas eis a madrugada do Dia da Expiação, em que cada qual tem o dever de fazer as pazes com o seu vizinho. Também eu Te perdoo os Teus pecados se Tu estás disposto a perdoar os meus.» A seguir, o alfaiate encheu um copo de vinho, pronunciou sobre ele uma bênção e exclamou: «L’Chaim (vida feliz), Senhor do Mundo! Que a paz e a alegria reinem entre nós, porque nós nos perdoámos um ao outro e os nossos pecados, é como se nunca tivessem existido.»
Os discípulos regressaram para junto do rabino Elimelek, contaram-lhe tudo quanto tinham visto e ouvido, e mostraram indignação pela impertinência das palavras do alfaiate para com D'us. O mestre respondeu-lhes que o próprio D'us, com toda a sua corte, ouvira o que o alfaiate dissera, e que essas palavras tinham provocado muita alegria nas esferas celestes.
 
 
 
 

     “D'us é um capítulo muito especial do meu judaísmo. Sei que Ele disse: «Não terás outro D'us a não ser Eu» ou «Não invocarás o nome de D'us em vão». O D'us em que creio descobri-O pela primeira vez quando era menino, numa sinagoga ortodoxa em Jerusalém. É uma história que contei mil vezes porque é fundamental na minha vida.
     Estava acompanhado por um rabino francês amigo do meu pai. Vi logo muitos homens e rapazes que discutiam em hebraico, ou talvez em yiddish, o significado de coisas escritas em livros grandes e poeirentos, apoiados a uma mesa de madeira escura. De repente, no altar que estava no meio da sinagoga, apercebi-me que havia um homem de pequena estatura, de meia-idade, com um chapéu de abas largas debruadas a pele. Vestia um cafetã e, elevando os braços ao céu, saltando, gritava e imprecava em hebraico. Assustado com aquela cena, dirigi-me ao rabino que me acompanhava e perguntei-lhe:
 

- «Mas o que é que está a fazer aquele homem?»
- «Não vês?», respondeu-me o rabino.
- «Sim, salta e grita.», disse eu.
- «Claro, está zangado com D'us.
 

     Fiquei atónito, pensando naquele homem que, diante de todos e na indiferença geral, imprecava por algum agravo sofrido que ele atribuía a D'us, o qual, em vez de o defender, o abandonara ao seu destino miserável. Aquela relação direta com D'us marcou-me para sempre.
Muitos anos depois, perguntei ao rabino Elio Toaff, como seria possível saber, depois do jejum do Kippur, se tínhamos sido perdoados pelos nossos pecados. Toaff respondeu-me: «Sente-se dentro de nós, percebe-se por si mesmo.»
     Nós, judeus, dialogamos com alguém que “não há”, que não dá sinais, que não responde, a quem nos dirigimos com orações que, na maioria dos casos, não percebemos, e todavia somos inabaláveis na nossa fé Nele. Até os judeus ateus falam com D'us e jejuam em Kippur. D'us é D'us e isso não se discute.”
 
Este artigo foi oferecido pela minha amiga:
Sónia Craveiro

 Muito obrigada
Beijinhos
 
Fontes:
 
in JUDAÍSMO, O Grande Perdão – Yom Kippur, Arthur Hertzberg, Editorial Verbo
 
in Mitzvah, Alain Elkann, Cavalo de Ferro, Editores, Lda.
Imagens:
Maurycy Gottlieb, Judeus Rezando na Sinagoga em Yom Kippur, 1878; Hermann Struck, Velho Judeu de Jafa, 1903; Hermann Struck, Retrato de um judeu a ler.

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