segunda-feira, 16 de abril de 2012

Pós-Pêssach


A mensagem que nos acompanha o ano inteiro
 

Já passamos pelo Sêder e Chol Hamoed, "Dias Intermediários", e pelos dois últimos dias da comemoração de Pêssach, a festa de nossa liberdade, e fim: só ano que vem (que seja em Jerusalém, se D’us quiser!). O Sêder, no qual nos reunimos com nossa família e narramos a história do Êxodo: a escravidão dos israelitas no Egito e finalmente sua libertação é o ponto central desta festa única celebrada pela maioria dos judeus em todas as épocas. É um ritual que jamais perdeu seu poder de capturar a imaginação. Não se trata de um mero relato que acompanhamos na Hagadá, sobre os eventos e milagres ocorridos no Êxodo de nossa história, há muito tempo e num lugar distante.

Trazemos a história à nossa mesa e contamos e explicamos a nossos filhos, em todas as gerações, colocando ingredientes simbólicos repletos de conteúdo e significado em nossa keará.
"Ma nishtana..", "porque esta noite é diferente de todas as outras noites", trazem lembranças de nossa infância quando podemos visualizar na memória nossos pais ou avós sentados com toda a família ao redor da mesa do Sêder de Pêssach.
Mas o Sêder é apenas o início. Provamos as ervas amargas da escravidão. Bebemos quatro copos do vinho da liberdade. É como se estivéssemos ali. Em lugar algum isso é mais dramaticamente focalizado do que nas palavras de abertura do serviço. "Este é o pão da aflição que nossos ancestrais comeram na terra do Egito." A esta altura, o passado e o presente se juntam num desafio às categorias normais do tempo. O serviço do Sêder não é só recordação, mas principalmente renovação.

Os judeus têm uma história mais longa e mais notável que a maioria. Foram os primeiros a encontrar D’us na história e a verem no fluxo do tempo não a mera sequência de eventos, mas uma narrativa coerente. Uma fé baseada em fatos históricos. Nenhum povo jamais insistiu mais firmemente que os judeus de que a história tem um propósito e a humanidade um destino. A palavra história em hebraico foi adaptada, era inexistente, pois para o judaísmo história é memória. A história é aquilo que aconteceu com outra pessoa. A memória é aquilo que aconteceu para mim. A memória é a história interiorizada, o passado transformado em presente por aqueles que o revivem. Através da identificação pessoal com os momentos importantes do passado, eles se tornam parte daquilo que nos faz ser exatamente quem somos. Tornamo-nos personagens de uma história contínua que começou antes de nascermos e continuará depois de termos deixado de ser. Nesse sentido, Pêssach é a festa na qual a história se torna memória.

O resultado é que a história do Êxodo continuou, no decorrer de sucessivas gerações, a incentivar as pessoas na luta pela liberdade. A outorga da Torá, a chegada a Terra Prometida, o levante do Gueto de Varsóvia, o florescimento de Israel como povo e nação, nossa luta contra a assimilação através do fortalecimento de nossos valores são marcas vivas, passadas e atuais, de nossa liberdade, do direito de não esquecer e revitalizar a memória, manter a chama sempre acesa.
Se devemos prezar a liberdade e guardá-la, devemos lembrar à nova geração esta alternativa: o pão da aflição foi conseguido à base de luta e sofrimento: não com vingança ou ódio, mas simplesmente para saber o que é suficientemente importante para exigir constante vigilância.

Quem tem fome que venha! Junte-se a nós. Seja humilde como a matsá, mas importe-se: seja suficientemente ambicioso para refrescar sua memória. Busque na comunidade aulas de Torá, fale com seu rabino, reuna-se com grupos jovens judaicos e traga mais um amigo, estude em escolas judaicas ou coloque seu filho em uma. Esta é a lição de Pêssach após Pêssach: a memória é o nosso melhor guardião da liberdade.



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