quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os Primeiros Judeus na América do Norte




Do Recife para Nova Amesterdão


Vista de Nova Amesterdão/Nova Iorque, 1664, Jan Vingboons



   Em artigo anterior dedicado a Isaac Aboab da Fonseca, que, entre 1642 e 1654, foi rabino da comunidade sefardita do Recife, Pernambuco (então uma colónia holandesa), e o primeiro rabino nas Américas, relatámos como em 1654, após a reconquista do Recife para a Coroa portuguesa, os cerca de 600 judeus residentes naquela cidade tiveram de a abandonar. Destes, 23 que seguiam com destino a Amesterdão, foram atacados por corsários espanhóis e entretanto recolhidos por um navio francês – o Sainte-Catherine -, que chegou a Nova Amesterdão, actual Nova Iorque, em Setembro de 1654. Estes passageiros, que não tinham como pagar a viagem, ali ficaram, não regressando à Holanda.






     Peter Stuyvesant, à época governador da Nova Neerlândia (nome do território colonizado pelos holandeses desde 1602, que seria rebaptizado Nova Iorque, após a tomada pelos ingleses em 1664), opôs-se à presença de judeus na colónia, mas contrariado pelo governo central, foi obrigado a conceder-lhes permissão para se instalarem.




Stadhuys (1697), na margem original de Manhattan



   Foi em Nova Amesterdão, na ilha de Manhattan, que estes judeus provenientes do Brasil viriam a fundar a primeira comunidade judaica da América do Norte, designada Shearith Israel (Remanescente de Israel). Até à construção da primeira sinagoga em 1730, os serviços religiosos judaicos foram organizados em residências particulares e depois em espaço arrendado para o efeito. 





     

   De 1654 a 1825, a Shearith Israel foi a única congregação judaica de Nova Iorque, acolhendo todos os judeus (sefarditas ou ashkenazim) e providenciando às suas necessidades, desde o nascimento até à morte. Muitos dos seus congregantes serviram a causa da Revolução Americana. Na sua longa história, a comunidade conta com nomes sonantes que incluem três fundadores da Bolsa de Valores de Nova Iorque, a poetisa Emma Lazarus, o líder religioso Gershom Mendes Seixas, ou David Mendes Seixas (filho de Gershom) fundador do Instituto de Surdos Mudos de Filadélfia. 




Gershom Mendes Seixas em 1768



    Gershom Mendes Seixas (1745-1816) ficou para história como “The Patriot Rabbi of the Revolution”. Filho de Isaac Mendes Seixas, um judeu converso, cuja família tinha fugido de Lisboa para Londres, acusada pela Inquisição de praticar secretamente o Judaísmo, e de Rachel Levy, uma judia ashkenazi, recebeu a sua educação religiosa do pai e foi o primeiro líder religioso judeu nascido em solo americano.

     Em 1768, contava então 23 anos, Gershom foi eleito chazzan e oficiante da congregação hispano-portuguesa Shearith Israel. Embora sem uma educação religiosa formal (nunca foi ordenado rabino), Mendes Seixas conduziu a vida da comunidade, em todos os seus aspectos, ao longo de 50 anos. 






   Firme defensor da independência dos EUA, Gershom Mendes Seixas foi em 1787 um dos três clérigos convidados para a cerimónia da tomada de posse de George Washington como primeiro presidente americano. 




Emma Lazarus (1849-1887)



    Emma Lazarus foi uma poetisa americana de ascendência judaico-portuguesa (era prima direita de Benjamin Cardozo, juiz do Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos e bisneta de uma irmã de Gershom Mendes Seixas), que se destacou no plano literário, mas também na luta em prol dos Direitos Humanos. Emma depositava uma enorme fé no “sonho americano”, numa América como terra de oportunidades para os desfavorecidos, como porto seguro para todos os perseguidos neste mundo.

     Na sequência de um violento anti-semitismo vivido na Alemanha e na Rússia, nos princípios de 1880, Emma Lazarus inicia uma campanha em defesa do seu povo, chegando a defender a ideia da criação de uma pátria judaica na terra ancestral de Israel. Num de vários artigos que escreveu para o semanário American Hebrew, escreveu o seguinte:


“(…) Até sermos todos livres, nenhum de nós será livre. Mas deveríamos justificar os insultos dos nossos oponentes, deveríamos tornar-nos “tribais” e judaicos em vez de cosmopolitas como os anti-semitas alemães e os perseguidores da Rússia (…)”






     A brutalidade do anti-semitismo russo (estima-se que entre 1880 e 1920 tenham emigrado cerca de dois milhões de russos para os EUA) inspirou-a a escrever o famoso poema “O Novo Colosso”, destinado a um leilão de recolha de fundos para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade. Deste poema, que está inscrito numa placa de bronze colocada no mesmo pedestal, são famosos os versos:


 “Vinde a mim, vós os pobres e cansados,
As multidões que desesperam pela liberdade,
Os que abarrotam por essas costas e ninguém ama,
Enviai-mos, os sem casa, os naufragados,
Porque junto à porta de ouro ergo a minha chama.”



     Terminamos este artigo com um pequeno documentário, que consideramos de grande qualidade: “Os Judeus Portugueses na Formação da América”. 




Existe também o documentário - Os Judeus Portugueses na Formação da América (2ª parte de 2), e que não se encontra disponível para publicação, mas que poderão assistir directamente no Youtube.




Este artigo foi elaborado pela nossa amiga,
Sónia Craveiro
Muito obrigada


Beijinhos J


Fontes:


Pintura de Esperanza Gallego

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