domingo, 19 de outubro de 2014

Judeus na China | Parte I




Os Judeus de Kaifeng


Os Judeus de Kaifeng, Yin Xin (China, 1959-)



     A história da chegada de judeus à China está rodeada de polémica. Ainda hoje os académicos divergem sobre a data em que os judeus se estabeleceram na China: uns defendem que terá sido no primeiro século da era comum, durante a dinastia Han, enquanto outros defendem que terá sido mil anos depois, durante a dinastia Song.

     O que é indiscutível é que a «descoberta» dos judeus de Kaifeng para o Ocidente começa no século XVII, com o missionário jesuíta italiano Matteo Ricci. 




Matteo Ricci em traje académico confucionista




     Numa carta de 1605, dirigida ao seu superior da Companhia de Jesus, Ricci refere a oportunidade de se encontrar com um chinês judeu, de nome Ai Tian, e de conhecer a comunidade de Kaifeng, que possuía inclusive uma sinagoga. A carta, entretanto publicada, acerca da comunidade «desconhecida» dos judeus de Kaifeng e da sua sinagoga seria geradora de um enorme interesse nos meios católicos. E porquê da sinagoga? Os jesuítas esperavam encontrar lá uma Bíblia Hebraica Chinesa «sem corrupção», que evidenciasse incongruências entre aquela Bíblia e a Bíblia Hebraica tradicional, podendo deste modo refutar os académicos rabínicos. 




    Maquete da Sinagoga de Kaifeng



     Numa outra carta de 1704, do missionário italiano Giampaolo Gozani (Itália,1659-Macau,1732) para o padre José Soares (Portugal,1656-Pequim,1736), pode ler-se uma descrição da sinagoga de Kaifeng, dos seus livros, rituais e costumes da comunidade. Todavia, a procura da Bíblia de Kaifeng «sem corrupção» revelar-se-ia infrutífera – os manuscritos encontrados eram em tudo semelhantes às Bíblias Hebraicas da Europa. 




Ao Longo do Rio durante o Festival de Qingming (detalhe), Zhang Zeduan, 
séc. XII, dinastia Song



     Estudiosos da História dos Judeus na China como Chen Yuan (1880-1971) ou Xu Xin (1949-), acreditam que a primeira vaga de judeus que migraram para Kaifeng ocorreu em 960, no início da dinastia Song (960-1279). Kaifeng, então chamada Bianjing, tinha sido elevada à categoria de cidade imperial da China e era uma metrópole vibrante com mais de 1 milhão de habitantes. Na obra Ao longo do Rio durante o Festival de Qingming (considerada por muitos a maior obra prima da pintura chinesa de todos os tempos), o artista Zhang Zeduan (1085-1145) captou o dia-a-dia de Kaifeng. 




Ao Longo do Rio durante o Festival de Qingming (detalhe-A Ponte do Arco-Íris), 
Zhang Zeduan, séc. XII, dinastia Song



     A vida em Kaifeng desenrolava-se ao longo do Rio Bian, com o seu imenso tráfego de navios que transportavam todo o género de mercadorias. Mas as mercadorias também chegavam por terra, através da lendária Rota da Seda. 




Caravana da Rota da Seda, Atlas Catalão, Abraão Cresques, 1375



     Documentos jesuítas referem a presença de dois monumentos em pedra, outrora colocados na área exterior da sinagoga, com inscrições que mencionam, entre outras coisas, um episódio ocorrido em 960; a inscrição em causa descreve o que teria sido o início da vida judaica em Kaifeng, quando mercadores judeus oriundos da Pérsia, que viajavam numa das caravanas da Rota da Seda, aceitaram um convite do imperador para lá se estabelecerem. 




A sinagoga de Kaifeng, segundo um desenho
do padre Jean Domenge, 1722


     Em 1163 é erigida a primeira sinagoga de Kaifeng, que seria reconstruída várias vezes ao longo dos séculos. Em 1722 o padre jesuíta Jean Domenge enviou para o Vaticano uma série de desenhos do complexo da sinagoga, que de acordo com a sua descrição seguia o estilo arquitectónico local, dispondo de mikveh, sala para abate ritual de animais e sala de estudo.




     A Leitura da Torá, Yin Xin



     À semelhança de outras comunidades da diáspora judaica na Ásia, como as da Índia, a de Kaifeng viveu em segurança e prosperidade, chegando a contar com cerca de 5 000 membros no período da dinastia Ming (1368-1644). No decorrer da sua longa existência, a kehilah de Kaifeng cumpriu as leis de kashrut, praticou a circuncisão nos seus rapazes, observou as leituras da Torá na sinagoga, guardou o Shabbat e outras festividades. 




Judeus de Kaifeng (pai e filho), finais de séc. XIX



Judeus de Kaifeng, 1900



     Em meados do século XIX, porém, a situação era de decadência: além de um empobrecimento geral, a comunidade tinha sido praticamente assimilada, o último rabino havia morrido em 1810, e em 1850 uma cheia do Rio Amarelo de grandes proporções destruiu a sinagoga. Os estragos resultantes da inundação foram irreparáveis e os bens que se salvaram vendidos. 




Rolo da Torá, Kainfeng, séc. XVII. Génesis 35:1



     O corpo literário produzido pela antiga comunidade judaica de Kaifeng, hoje disperso em vários museus e bibliotecas do mundo, contava com inúmeros livros de oração e também com 15 Rolos da Torá, dos quais apenas sete estão completos. A imagem acima pertence a um Rolo do século XVII, que foi adquirido em 1851 por missionários estacionados em Kaifeng, e oferecido ao Brittish Museum em 1852. 




Página de livro de orações da sinagoga de Kaifeng,
Hebrew Union College Library



Judeus de Kaifeng na actualidade (fotografia de Jean Shea)



     Nos anos mais recentes, vários membros da comunidade, em especial os mais jovens, começaram a explorar a sua herança judaica, a recolher informação sobre Judaísmo e sobre Israel. Em 2006 e posteriormente em 2009 a Shavei Israel patrocinou a aliyah a descendentes dos judeus de Kaifeng, com o propósito de estes fazerem o retorno formal ao Judaísmo. Graças à Shavei Israel a comunidade judaica de Kaifeng, actualmente com 150 membros, dispõe de um centro de estudos com uma sala espaçosa para oração e realização de aulas, um quarto de hóspedes para visitantes que se encontram de passagem pela comunidade, uma cozinha kosher, uma sala de jantar, e uma sala com computador para uso do Skype. 




Comunidade na dedicação do novo centro de estudos, 
Novembro de 2013



     O renascimento do Judaísmo em Kaifeng não é fácil. A universidade local oferece um mestrado em Judaísmo, mas os estudantes de Estudos Judaicos estão proibidos de contactar com os judeus da comunidade. Na verdade, é ilegal para os judeus identificarem-se como tal. Na China são reconhecidas 56 minorias religiosas, mas a judaica não é uma delas. Pode dizer-se que o simples facto de haver uma comunidade judaica em Kaifeng é um verdadeiro milagre.

     No vídeo abaixo podemos ver Ram, um judeu de Kaifeng a conduzir a comunidade na canção Vehi Sheamda da Haggadah de Pessach





A Chinese Jew sings v'hi sh'amda – Shavei Israel





Nota: Muito embora a pintura Ao Longo do Rio durante o Festival de Qingming (um rolo com mais de 5 metros de comprimento) não tenha a ver directamente com o assunto deste artigo, pensamos ser do maior interesse disponibilizar um vídeo explicativo da obra: 




A Moving Masterpiece 清明上河 [English narration]



Este artigo foi elaborado e oferecido a todos vós, por:
Sónia Craveiro

Muito obrigada


Beijinhos J



Fontes:

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