terça-feira, 16 de abril de 2013

FERNÃO MENDES PINTO



PEREGRINAÇÃO


Frontispício da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, Lisboa, 1614


    Falar de Fernão Mendes Pinto é falar da Peregrinação, de tal forma homem e obra estão ligados. Pouco se sabe da sua vida, para além de que nasceu e morreu em Portugal, passou vinte e um anos na Ásia e escreveu um livro – Peregrinação -, publicado em 1614 (trinta e um anos após a morte do autor). 



Descobrimentos Marítimos Portugueses - Planisfério Cantino, 1502


    A vida de Fernão Mendes Pinto abrange quase todo o século XVI, uma época que foi palco tanto da gloriosa ascensão, como da decadência da nação portuguesa. Por altura do seu nascimento (1509?-1511?), o Império Português estava espalhado ao longo de uma linha que ia da costa do Brasil às da África Ocidental e Oriental, à Pérsia, à costa do Malabar na Índia, ao Ceilão e aos arquipélagos da Malaia e das Molucas. Quando Fernão Mendes Pinto morreu, em 1583, Portugal tinha perdido a sua independência, absorvido pelo império de Filipe II, rei de Espanha (Filipe I de Portugal). 

    Pensamos ser apropriado introduzir aqui duas peças musicais que ilustram, a primeira, o apogeu do Império Português no reinado de D. João III, e a segunda, a derrota do exército português em Alcácer-Quibir, comandado por D. Sebastião, que conduziria à perda da nossa independência: “Pardeos bem andou Castella” e “Puestos estan frente a frente”. 

     

Carlos V e Isabel de Portugal, retratados por Tiziano


“Pardeos bem andou Castella” é referida como uma “Portuguesa folia” na peça de Gil Vicente “Templo d’Apolo”, estreada na partida de D. Isabel de Portugal, filha de D. Manuel I, para Castela, quando casou com o Imperador Carlos V, em 1526. 

Pardeos bem andou Castela/pois tem rainha tam bela
(…)
Pardeos bem andou Castela/com toda sua Espanha
pois tem rainha tam bela/emperatriz d’Alemanha



Segréis de Lisboa – Música para o teatro de Gil Vicente – Pardeos bem andou Castela




D. Sebastião, retratado por Cristóvão de Morais, c. 1572-74


     “Puestos estan frente a frente” (romance) faz parte da obra “Miscelânea”, de Miguel Leitão d'Andrade, publicada em 1629; narra a Batalha de Alcácer-Quibir, ocorrida em 1578, na qual o rei português D. Sebastião perdeu a vida. 

Puestos estan frente a frente/Los dos valerosos campos
Uno es del Rey Maluco/otro de Sebastiano el Lusitano
(…)
Busca la muerte en dar muertes/Sebastiano el Lusitano
Diziendo ahora es la hora/Que “Un ben morir, tutta la vitta honora”



Gérard Lesne - O Lusitano:  Puestos estan frente a frente





     Fernão Mendes Pinto informa-nos logo no início da longa narrativa da sua peregrinação de que «(…) até à idade dos dez ou doze anos vivi na miséria e na estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho (…)». Deduzimos que nasceu algures entre 1509 e 1511, conforme palavras do próprio ao afirmar que tinha dez ou doze anos quando morreu o rei D. Manuel I, no dia de Santa Luzia, a 13 de Dezembro de 1521. 

     A família de Fernão Mendes Pinto, embora pobre, será remotamente aparentada com os poderosos Mendes (Francisco e Diogo Mendes) de Lisboa e Antuérpia, cristãos-novos a quem a coroa portuguesa concedera o monopólio do comércio das especiarias, nos começos do século XVI. Talvez isto explique o tio que o levou para Lisboa e o colocou ao serviço de uma senhora da nobreza. Em 1523, o jovem Fernão Mendes Pinto vive em Setúbal ao serviço da casa do fidalgo Francisco de Faria e a partir de 1527 é moço de câmara na Casa de D. Jorge de Lencastre, Mestre da Ordem de Santiago e filho natural de D. João II. 




    É em 1537 que embarca para a Índia, tentando a sua sorte em terras do Ultramar. A partir daí, pelo espaço de vinte e um anos, Fernão Mendes Pinto vive aventuras que virá a descrever ao longo dos 226 capítulos da sua Peregrinação. Relata massacres terríveis, tendo muito provavelmente participado em alguns deles; diz-nos que foi escravo, soldado, negociante, embaixador, missionário, corsário… «fui treze vezes cativo e dezasseis vendido, por causa dos desaventurados sucessos que atrás no decurso desta minha tão longa peregrinação largamente deixo contados» (Cap. 226).



Portugueses no Japão, Biombo Namban, séc. XVI/XVII

     Nas suas andanças pela Ásia, viveu em Malaca, em Pegú (Birmânia) e no Sião. Depois, andou pelos mares da China em viagens de negócios e sabe-se que fez quatro ao Japão. Nesta fase da sua vida, que está relativamente bem documentada, há informação de que juntou uma fortuna considerável; é como negociante abastado que conhece S. Francisco Xavier na sua terceira viagem ao Japão, em 1551, tendo emprestado dinheiro àquele missionário para a construção da primeira igreja cristã em terras nipónicas. 


    Em 1554 decide regressar à pátria, mas enquanto permaneceu em Goa foi tomado de um fervor místico que o levou a doar grande parte dos seus bens à Companhia de Jesus, que o acolheu como noviço. Foi nestas circunstâncias que integrou uma missão evangelizadora ao Japão (totalmente custeada por si), que no entanto resultou em fracasso. 



Rua Direita em Goa, 1596, Jan Huygen van Linshoten


     Entre esta última viagem ao Japão e o regresso a Goa, em 1557, Fernão Mendes Pinto decide afastar-se da Companhia de Jesus, ao que tudo indica a seu próprio pedido e amigavelmente. Regressa a Portugal em 1558, era D Catarina rainha regente, e durante quatro anos e meio andou empatado na corte na expectativa de uma compensação pelos serviços prestados à Coroa. Vendo as suas pretensões frustradas, retira-se para uma pequena propriedade que possuía no Pragal, perto de Almada; casou, constituiu família, e entre 1569 e 1578 escreveu a sua Peregrinação. Morreu em 1583, apenas três meses depois de ter recebido o modesto estipêndio da Coroa, em reconhecimento dos serviços prestados a Deus e ao Rei. 




    Parece ser intencional, e não por acidente, que Fernão Mendes Pinto omite aspectos da sua vida na Peregrinação; sob a aparência de um romance de aventuras onde é difícil separar o real do imaginário, a obra revela-nos uma crítica à sociedade do seu tempo, uma denúncia às atrocidades cometidas, hipocrisias e falsa religiosidade, que Fernão Mendes Pinto testemunha, embora de forma indirecta, por razões tão evidentes como a Censura e a Inquisição.

     A ideologia da Cruzada foi a força unificadora mais importante da história de Portugal na época dos descobrimentos. Mas essa ideologia era marcada por uma intolerância a que o autor de Peregrinação foi profundamente sensível, como podemos constatar nos exemplos que se seguem: 


Palavras de um menino raptado a seus pais, e que os portugueses captores tentavam doutrinar:

— Sabeis porque vo-lo digo? Porque vos vi louvar a Deus despois de fartos, com as mãos alevantadas e com os beiços untados, como homens que lhes parece que basta arreganhar os dentes ao céu sem satisfazer o que têm roubado; pois entendei que o Senhor da mão poderosa não nos obriga tanto a bulir com os beiços, quanto nos defende tomar o alheio, quanto mais roubar e matar, que são dous pecados tão graves quanto despois de mortos conhecereis no rigoroso castigo de Sua divina justiça. (Cap. 55)

Palavras dos tártaros acerca do procedimento dos portugueses:

— Conquistar esta gente terra tão alongada da sua pátria dá claramente a entender que deve de haver entre eles muita cobiça e pouca justiça.

A que o velho, que se chamava Raja Bendão, respondeu:

— Assim parece que deve ser, porque homens que por indústria e engenho voam por cima das águas todas por adquirirem o que Deus lhe não deu, ou a pobreza neles é tanta que de todo lhes faz esquecer a sua pátria, ou a vaidade e a cegueira que lhes causa a sua cobiça é tamanha por ela negam a Deus e a seus pais. (Cap. 122)



Rua Direita em Goa, (detalhe) 1596, Jan Huygen van Linshoten


    Durante os vinte e um anos que viveu na Ásia, Fernão Mendes Pinto teve uma vida activa, recheada de aventuras e, porventura, alheada das restrições políticas e religiosas que estavam a ser gradualmente impostas na sua pátria. 

    Por outro lado, o contacto estreito com as religiões asiáticas, tradicionalmente tolerantes, ter-lhe-á permitido amadurecer ideias e atitudes. Na sociedade multirracial da Índia portuguesa, é possível que tenha estabelecido contactos com o Judaísmo, através da antiga comunidade judaica que ali se radicara muito antes da chegada dos portugueses. 

    De uma forma ou de outra, Fernão Mendes Pinto chegou a uma filosofia que se fundamenta na moral dos Dez Mandamentos; crê no princípio do livre arbítrio, na assunção da responsabilidade pelos próprios actos; rejeita o mito do deus da tribo que aceita quebrar os seus próprios mandamentos e a prática de actos imorais contra membros de uma qualquer sociedade, independentemente da sua raça, credo ou cor. 

  Podemos assim concluir que a Peregrinação é, antes de mais, um apelo à tolerância racial e religiosa. 



Arte indo-portuguesa, Goa, Nª Senhora da Palma, (detalhe) séc. XVII


     Terminamos este artigo com um exemplo musical que é fruto do cruzamento de duas culturas: a portuguesa e a indiana. Trata-se da canção mariana Senhora del mundo (que Gil Vicente incluiu no seu Auto da Feira, representado “ás matinas do Natal, na era do Senhor de 1527”), numa interpretação da saudosa Montserrat Figueras, acompanhada por saltério e instrumentos musicais indianos. 



“…a mágoa que eu tenho de ver o muito que por nossos pecados nesta parte perdemos e o muito que pudéramos ganhar…”

Fernão Mendes Pinto


Notas:
1 - O Planisfério Cantino é uma carta náutica que representa os descobrimentos marítimos portugueses. Deve o seu nome a Alberto Cantini, que a obteve clandestinamente em Lisboa, em 1502, para o seu empregador, Ercole I d’Este, duque de Ferrara.
2 - Carlos V e Isabel de Portugal são pais de Filipe II de Espanha (I de Portugal) e avós de D. Sebastião. 



Este excelente artigo é mais um carinho da autoria da nossa amiga,
Sónia Craveiro
A quem agradeço pelo valor que tem acrescentado a este Blog.

Beijinhos
Muito obrigada

Fontes:
CATZ, Rebecca, A sátira social de Fernão Mendes Pinto – análise crítica da Peregrinação, Prelo, Lisboa, 1978;
PINTO, Fernão Mendes, Peregrinação, Publicações Europa-América, 1983;
NERY, Rui Vieira, Música para o teatro de Gil Vicente, Portugaler.



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