segunda-feira, 8 de abril de 2013

Cristãos-Novos Portugueses em Ferrara




BREVE INCURSÃO NA OFICINA DE 
ABRAÃO USQUE


Ferrara, Hondius Joducus Jr., 1626


    Itália foi porto de abrigo para muitos cristãos-novos portugueses, cuja experiência no comércio transoceânico se revelou da maior importância numa terra que detinha o principal mercado de exportação do comércio dos judeus otomanos. No entanto, o regresso ao Judaísmo era proibido, já que segundo a óptica cristã a conversão dos judeus baptizados era vista como um crime de apostasia, passível da pena capital.

     A presença judaica em Ferrara, uma cidade situada no norte de Itália e banhada pelo rio Po di Volano (um braço do rio Pó), está documentada a partir de 1275. Os judeus conheciam uma situação estável e próspera, que se foi consolidando ao longo dos séculos XIV e XV sob a protecção da Casa d’Este. Foi justamente sob a protecção de Ercole I d’Este (1431-1505) que um grupo de refugiados judeus de Espanha se estabeleceu no seu território, dando assim origem à comunidade sefardita de Ferrara. Durante a primeira metade do século XVI, marranos portugueses vieram juntar-se aos refugiados espanhóis, em especial depois da instituição da Inquisição em Portugal. 



Brasão da família Abravanel


     A comunidade sefardita de Ferrara reunia-se à volta do banqueiro Isaac Abravanel, neto do comentador nascido em Lisboa, do mesmo nome. 



Ercole II d’Este, retratado por Nicolo dell ‘Abate


     O duque de Ferrara Ercole II d’Este (1508-1559) foi o mais poderoso protector dos judeus daquela época. A partir de 1538 fez publicar legislação com vista a acolher na sua cidade todas as pessoas hispanófonas e lusófonas, concedendo-lhes liberdades «de vir, como cristãos, ou como judeus». Ferrara, foi ainda a única cidade da Cristandade a amnistiar a apostasia dos baptizados à força. Todavia, durante o ducado de Alfonso II, uma decisão papal de 1581 consignada na bula Antiqua Judaeo-rum improbitas desencadeou uma onda de repressão contra as comunidades judaicas de Itália, levando a Inquisição romana a perseguir os cristãos apóstatas. Em Ferrara foram presos vários marranos, acusados de praticarem a circuncisão (Brit Milá); cinco destes foram extraditados para Roma e por fim, o praticante de circuncisões clandestinas José Saralvo foi condenado à fogueira, em 1583. 



Alfonso II d’Este, retratado por Cesare Aretusi



     Apesar deste episódio dramático, Alfonso II teve a habilidade política de renovar os privilégios aos sefarditas, autorizando-os a acolher os refugiados da Península Ibérica, conquanto não praticassem a circuncisão nos adultos. Em 1597, Alfonso II morre não deixando herdeiros varões e em 1598 o ducado de Ferrara é devolvido à Igreja. Os judeus viram as suas liberdades seriamente limitadas e muitos abandonaram a cidade, especialmente portugueses. 



Planta de Ferrara, finais séc. XV


       O acolhimento que a cidade de Ferrara deu aos portugueses fugidos de uma pátria intolerante, ainda que efémero, deixou uma marca duradoura na história judaica, em particular devida às criações literárias e artísticas que aí se desenvolveram. Os judeus portugueses cultivavam uma literatura refinada em língua espanhola ou portuguesa clássica, procurando uma elegância e um esteticismo que os distinguia dos demais.




Selo da oficina de Abraão Usque


      De realçar, que as perseguições a que os cristãos-novos portugueses estiveram sujeitos, não constituíram motivo para que renegassem o país que os viu nascer, como se pode observar no selo da oficina do editor português Abraão Usque – a esfera armilar do rei D. Manuel de Portugal. 



Bíblia de Ferrara, 1553


    Abraão Usque, nome hebraico adoptado por Duarte Pinel, um latinista de Lisboa, fundou uma oficina de imprensa nas línguas hebraica, espanhola e portuguesa, que esteve activa entre 1553 e 1557, graças ao apoio da riquíssima Grácia Mendes, a Senhora. O principal feito desta oficina foi a edição da Bíblia e do ritual sefardita, em tradução judeo-castelhana, dita “Bíblia de Ferrara”. Esta Bíblia, fielmente reproduzida em numerosas edições, teve uma relação estreita com os cristãos-novos regressados ao Judaísmo, influenciando a primeira tradução espanhola efectuada por um cristão, o luterano Casiodoro de Reina, em 1569. 



Consolaçam ás Tribulaçoens de Israel, 1553



      Consolação às Tribulações de Israel é uma obra-prima da literatura portuguesa, do historiador Samuel Usque (cujo nome de baptismo usado em Portugal continua a ser desconhecido), impressa na oficina de Abraão Usque, em 1553. A obra, fazendo uso do diálogo pastoril, muito popular na época, exprime a consciência atormentada dos cristãos-novos - «esta nossa nação seguida & afugentada agora dos reinos de Portugal». O protagonista, o pastor Icabo (Jacob), que representa «toda a nação de Israel», narra as tribulações do povo judeu desde os tempos bíblicos até às perseguições inquisitoriais contemporâneas, a dois amigos pastores «Zicareo» e «Numeo», alegorias da Memória e da Consolação, que são igualmente os profetas da Bíblia, Zacarias e Naum.

     Samuel Usque procura, através da alegoria literária, exortar os seus correligionários, os “Senhores do Desterro de Portugal”, a regressar ao Judaísmo, argumentando que o tempo do Messias é chegado – consolação final do livro. 



História de Menina e Moça, Bernardim Ribeiro, Ferrara, 1554


Uma das figuras mais enigmáticas do Renascimento Português é, sem dúvida, Bernardim Ribeiro. Dele sabe-se que colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, deduzindo-se, portanto, que pertenceu à roda dos poetas palacianos, como Sá de Miranda ou Gil Vicente. A sua obra mais emblemática é o romance Saudades, mais conhecido como Menina e Moça, um clássico da nossa literatura. O romance foi editado em 1554, na oficina de Ferrara de Abraão Usque, sob o título História de Menina e Moça.


Menina e moça me levaram de casa de minha mãe para muito longe. Que causa fosse então a daquela minha levada*, era ainda pequena, não a soube.


*Partida forçada
A «Menina» recorda a infância e todas as mudanças funestas que marcaram tragicamente a sua vida. Segundo o investigador literário Hélder Macedo, ao evocar o afastamento de casa, o autor introduz logo no início o tema do desterro ou exílio, tema-chave da obra, porque está na base dos sentimentos que caracterizam as personagens e as identificam entre si: a tristeza, a saudade. Ignora-se, porém, de que exílio se trata: amoroso (afastamento da pessoa amada), político (referência às perseguições aos judeus portugueses), ou místico (alusão à Cabala).

     Juntamente com as obras de Bernardim Ribeiro são editadas obras de Cristóvão Falcão e vários outros. 




Lisboa Ribeirinha na primeira metade do séc. XVI. Detalhe de uma iluminura de Simão Bening (1483-1561) in Genealogia dos Reis de Portugal de António de Holanda, Museu Britânico, Londres. 


     Jorge de Montemor, também conhecido como Jorge de Montemayor, é um poeta/músico que adoptou como nome, o da sua terra natal, Montemor-o-Velho, na região de Coimbra. O seu romance Diana, editado em Ferrara, é escrito em castelhano, língua da sua eleição. É também em castelhano que escreve a canção Flerida en cuja mano, que faz parte do Cancioneiro Musical de Belém. É com ela que terminamos este artigo. A interpretação é do grupo Segréis de Lisboa, sob a direcção de Manuel Morais.

Flerida en cuja mano/esta mi triste vida/no triste mas dischosa estando nella
Pues no te sirves della/bien es que io la nege/que aun que estoi olvidado
Amor de mi cuidado/y el coraçon cansado no soçiega/seras en toda cosa
Flerida a min sabrosa







Este artigo foi elaborado pela nossa amiga

Sónia Craveiro

Muito obrigada J
Beijinhos 




Fontes:

WILKE, Carsten L., HISTÓRIA DOS JUDEUS PORTUGUESES, Edições 70;
DICIONÁRIO DO JUDAÍSMO PORTUGUÊS, EDITORIAL PRESENÇA;
FERREIRA, Maria Ema Tarracha, ANTOLOGIA LITERÁRIA COMENTADA – Época Clássica, século XVI – I parte – Gil Vicente & Bernardim Ribeiro, EDITORA ULISSEIA;
LOPES, Óscar, SARAIVA, António José, História da Literatura Portuguesa;
MORAIS, Manuel, CANCIONEIRO MUSICAL DE BELÉM, IMPRENSA NACIONAL – CASA DA MOEDA.

2 comentários:

  1. Boa-noite
    Montemor-o-Velho é uma vila e não uma cidade, situada entre Coimbra e Figueira da Foz. Para além do seu castelo, umas das ruas principais de acesso ao Castelo, denomina-se por "rua da Judiaria".
    Cumprimentos
    JM

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    1. Boa noite Joaquim,

      Muito obrigada pelo seu reparo, tem toda a razão. Foi um lapso da nossa parte mas que já corrigi.

      Gratas pela atenção que nos dispensou,

      ZD e SC

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