segunda-feira, 5 de maio de 2014

Os Judeus de Santiago de Compostela.




SANTIAGO DE COMPOSTELA



Santiago de Compostela, a capital da Galiza, é uma cidade com cerca de 95.700 habitantes internacionalmente famosa como um dos destinos de peregrinação cristã mais importantes do mundo, na altura de Roma ou Jerusalém.

Ligado a esta tradição, que remonta à fundação da cidade no século IX, a sua catedral, cuja construção foi iniciada em 1075, alegadamente alberga o túmulo de Santiago Maior, um dos apóstolos de Jesus Cristo. A visita deste túmulo marca o fim da peregrinação, cujos percursos, os chamados Caminhos de Santiago ou Via Láctea, alastram por toda a Europa Ocidental.

As peregrinações aumentaram grandemente a importância económica e política da cidade, tornando-se arcebispado em 1120. Libertada da tutela de Braga, a outra grande sé da Galiza, a hierarquia católica de Compostela passou a ter jurisdição por sobre a maioria de Leão e das Astúrias e acabou sendo centro de um grande senhorio feudal religioso. Mesmo Lisboa, libertada do domínio muçulmano em 1147, ficou oficialmente ligada como sufragânea à Arquidiocese de Compostela até 1394, altura em que a capital portuguesa é elevada para Sé Arquiepiscopal.

Desconhece-se exactamente quando assentaram os Judeus em Santiago de Compostela. Os Caminhos de Santiago supuseram um movimento continuado de peregrinos e mercadores procedentes de diversos países, de todas as classes sociais, estilos de vida, etc. Mas para que tudo isto corresse bem, foi precisa a existência de uma importante estrutura, quer comercial, quer logística, em todo o caminho e em Santiago de Compostela. Esta situação, especialmente frutífera, motivou a aparição da Judiaria de Compostela.

Os Judeus que se assentaram em Santiago de Compostela procuravam, em primeiro lugar, o comércio, pois a continuada chegada de peregrinos fazia precisa a presença de prestamistas, fraldários, mercadores e outros em segundo lugar, a igreja, pois os altos hierarquias católicas precisavam de jóias, cálices, sacrários,... pelo que joalheiros, ourives e fabricantes judaicos se instalaram em Compostela, conhecedores das procuras do clero. Porém, existe, ao menos na teoria, uma terceira e muito importante razão que justificaria a presença de Judeus em Compostela: a construção da Catedral.

A catedral de Compostela está cheia de referências ao povo e à religião judaica. Por exemplo, no chamado Pórtico da Glória, obra-prima do românico europeu, está representado o povo judeu no extremo esquerdo enquanto no direito aparecem os gentios. Também aparecem talhadas muitas figuras do chamado pelos cristãos "Velho Testamento", junto com as do Novo. 



Pórtico da Glória


No arco da esquerda, por exemplo, junto à imagem de Jesus Cristo pode-se distinguir a Eva e Adão e, logo a seguir, uma figura coroada que representa o patriarca Abraão, à que seguem a dos profetas Isaías, Jacob e Judá. No lado esquerdo aparece Moisés, segurando a Lei, acompanhado por Isaías, Daniel e Jeremias. Nos pilares sobre os quais descansa o arco lateral estão representados os profetas menores Oseias, Joel, Amós e Obadias. 




Na Porta das Pratarias torna-se a encontrar de novo Isaías (rodeando a Jesus Cristo), Moisés e Aarão, bem como o túmulo de Abraão. Mas, pelo seu valor artístico, destaca a figura do Rei David, uma das obras-primas da arte medieval.



Porta das Pratarias.


Na Idade Média as ornamentações de uma catedral não se faziam apenas por questões estéticas, mas respondiam a uma complexa simbologia. Cada elemento tenta significar algo dentro do conjunto da catedral. Esta concepção simbólica estava em algumas ocasiões ligada aos princípios da Cabala.

É preciso levar em conta que na Idade Média a Bíblia era um livro interdito para o povo e que a presença dum grande número de personagens e passagens bíblicas apenas se justifica pela presença de artistas e pedreiros que conheciam as escrituras.

Parece justificada a participação de artesãos judeus na construção da catedral de Santiago de Compostela durante o século XII. Porém, existe uma questão que põe em causa esta tese: a religião judaica proíbe expressamente as imagens, deixando como única possibilidade dessa participação judaica em que fossem judeus convertidos ou estivessem assessorados por Judeus que não executariam a obra, o que explicaria o profundo conhecimento dos princípios cabalísticos e da Bíblia. Alguns historiadores sustêm a tese de que o Mestre Mateus fosse de origem hebraica.



Localização da Judiaria de Compostela. Foto Google Earth


A Judiaria de Santiago de Compostela estava localizada por trás da catedral. A partir da Praça de Cervantes saem as ruas que formavam a Judiaria compostelana, as Ruas Algália de Arriba e Algália de Abaixo e a Rua dos Truques que liga estas duas. No outro lado da praça acham-se a Ruela de Jerusalém e a Rua Tróia. O limite do bairro judeu encontrar-se-ia na actual Capela das Ânimas e, a sul, com as ruelas e pequenas praças por volta da igreja de Sam Miguel dos Agros.



Ruela de Jerusalém, na Judiaria de Compostela. 
Foto: Miguel Veny



Rua Nova na Judiaria de Santiago de Compostela.
Fotos: Eva L. Parguinha


É possível que posteriormente, como no caso de Ourense, se deslocassem para o eixo Rua Nova e Entre-Ruas.


Ruas e arruamentos da Judiaria de Santiago de Compostela.



Enquanto o nome de Jerusalém resulta claramente identificável com o povo judeu, segundo alguns expertos o nome Troia não provém daquela cidade da Ásia Menor, mas da denominação original de Torá.





Rua da Troia na Judiaria de Compostela.
Fotos do Google Maps


No caso do nome Algália, esta palavra procede da arabização da palavra hebraica "Cabala" (em árabe Alcabala), o que reforça a tese da existência de judeus estudiosos da cabala em Compostela e que estes aplicariam os seus conhecimentos na construção da catedral.



R. da Algalia de Abaixo, na Judiaria de Compostela. Foto Google Maps.



R. da Algalia de Abaixo vista da R. dos Truques na Judiaria de Compostela. 
Foto do Google Maps.



R. da Algalia de Arriba, na Judiaria de Compostela. Foto do Google Maps


Paradoxalmente à importância da catedral e as grandes possibilidades que oferecia a capital galega, a Judiaria de Santiago de Compostela teve um tamanho reduzido e com pouco peso dentro da judiaria galega.

É em Santiago de Compostela que tem lugar em 1520 a primeira referência ao Tribunal da Inquisição na Galiza, também chamado de Tribunal de Santiago. Nessa altura é nomeado o primeiro inquisidor no Reino da Galiza. A frieza ambiental que os inquisidores encontraram num reino tão tolerante fez fracassar a missão para a qual esse tribunal foi criado.


Porém, a chegada de conversos portugueses perseguidos pela Inquisição de Coimbra fez com que se enviasse um inquisidor especial para encarar a emigração judaica que de Portugal entrava na Galiza. Nessa altura delimita-se pela primeira vez a circunscrição territorial do Tribunal de Santiago abrangendo os bispados de "Astorga, Tui, Mondonhedo, Lugo e Ourense". Mesmo assim, os sucessivos inquisidores fracassaram na sua tentativa de implantar o Tribunal.

É por isto que aos olhos da Inquisição em 1532 Galiza foi colocada sob o tribunal de Valhadolid, conhecido como o Santíssimo ofício de Castilla la Vieja e o reino de Leão. Todavia, os testemunhos recebidos da Galiza eram muito poucos e quando se produziam, o Tribunal castelhano mal podia actuar.

Finalmente o Santo Ofício consegue estabelecer-se de vez em Santiago de Compostela em 1574. Nessa altura, os inquisidores sediaram-se no Palácio de Monte-Rei na Praça de Sam Miguel, lindando com a cerca oriental da horta do mosteiro de São Martinho Pinário.

Doravante a perseguição contra os judaizantes galegos estendeu-se ao longo de todo o século XVII, com fases de especial beligerância (1604-11, 1616-21, 1624-31, 1634-41, 1654-64 e 1679-82). Na praça de Cervantes, muito pertinho da Praça de S. Miguel chegaram a realizar-se autos-da-fé, mantendo-se até os finais do século XVI a coluna por volta da qual se imporiam as penas e em cujo pé se localizava o cadafalso.

Dentre os processos da inquisição na Galiza cabe destacar o promovido contra 40 judaizantes em Ribadávia ou as investigações levadas a cabo na zona de Valdeorras, coincidindo com o aumento das perseguições em Portugal, o que fez com que os Judeus portugueses na sua fugida utilizassem Galiza, quer como via de saída para outras comunidades europeias mais tolerantes, quer como local de assentamento.

Em 1729 a Inquisição mudou-se para a Casa Grande do Hórreo ou de Calo, um prédio situado extramuros frente à Porta da Mámoa (no canto que hoje formam a R. do Hórreo e a R. da Fonte de Santo António).



Casa Grande do Hórreo/Casa da Inquisição de Compostela.



Fontes:

(Por Caeiro)


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