quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

JERUSALÉM | II Parte




Cidade Santa das Três Religiões Abraâmicas


Vista de Jerusalém, Braun & Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, 1582, Colónia

     No seguimento da conquista otomana de 1517, a Palestina foi dividida em quatro distritos agregados a Damasco e governados a partir de Istambul (antiga Constantinopla). No dealbar da era otomana, estima-se em 1000, o número de famílias judias a viver no território, principalmente em Jerusalém, Nablus (Shechem), Hebron, Gaza, Safed e Galileia. A comunidade era composta de descendentes de judeus que nunca abandonaram a antiga Terra de Israel, e de imigrantes do Norte de África e da Europa.

     A primeira metade do século XVI foi uma época de prosperidade para Jerusalém, e bem assim para todo o império turco. Com Solimão, o Magnífico (sucessor de Selim I), Jerusalém beneficiou de uma série de projectos que contribuíram para o seu desenvolvimento e até um certo esplendor. Solimão edificou muralhas para defender a cidade de ataques inimigos (as mesmas que ainda hoje circundam a Cidade Velha), reparou o sistema de abastecimento de água, construiu várias fontes (sabils) e redecorou as paredes exteriores do Domo da Rocha com temas florais de inspiração persa, que podem ser admirados até aos nossos dias.  



Ernest Richmond (1874-1955), “Decoração Floral do Domo da Rocha, Jerusalém”, aguarela, Victoria & Albert Museum, Londres


       Jerusalém, apesar de um começo auspicioso sob domínio otomano, conhece entre os séculos XVII e XIX um longo período de decadência. O governo central em Istambul era fraco e ineficiente; os governadores locais, com poucas ou nenhumas ligações à cidade e à região, tinham como principal preocupação, não o bem-estar das populações, mas o enriquecimento pessoal; as terras eram em grande parte propriedade de senhorios ausentes, abandonando os agricultores ao empobrecimento; a segurança no território degradara-se, sobretudo nas estradas, o que se reflectiu no número cada vez menor de visitantes. Cada vez menor era também a população de Jerusalém, que ficou reduzida a menos de 10 000 habitantes.


William Turner, “Monte Moriah”, gravura de E. Finden, 1835-36


    A situação modificar-se-ia radicalmente no século XIX. Foram vários os factores que, simultaneamente, influenciaram o crescimento da população e o desenvolvimento urbano de Jerusalém. Podemos agrupá-los em três categorias: reformas no aparelho legal, administrativo e político do império otomano; imigração judaica e construção de novos bairros; actividades das “Grandes Potências” e de grupos cristãos estrangeiros.


Gustav Bauernfeind, “À entrada do Monte do Templo” (detalhe. A cena descreve um grupo de judeus do lado de fora de uma das entradas do Monte do Templo – a Porta dos Mercadores de Algodão - e do lado de dentro um grupo de muçulmanos, um deles em pé, segurando um sabre), 1886, Colecção Privada


    As reformas em Jerusalém não começaram com os otomanos. Em 1831, forças egípcias lideradas por Mohammed Ali e pelo seu filho Ibrahim Pasha conquistaram e ocuparam o Egipto, a Palestina e grande parte da Síria. Os novos senhores egípcios realizaram uma série de reformas que tiveram um grande impacto nos assuntos legais e políticos do território, com efeitos duradouros, mesmo após a retoma do poder pelos turcos, nove anos mais tarde.

     Estas reformas abrangiam: direitos legais extensíveis a não-muçulmanos, acabando com a situação de cidadãos de segunda classe, a quem até ali era cobrada uma taxa especial per capita; reorganização da administração regional; criação de gabinetes de aconselhamento municipal (majlis); reforço da Lei e Ordem, incluindo a segurança nas estradas, factor que fez de Jerusalém, e do restante território, um destino mais seguro para os visitantes. 


    David Roberts, “Cripta da Igreja do Santo Sepulcro”, gravura de Louis Haghe, 1842


    Em 1840 os turcos otomanos, com o auxílio de várias potências europeias, expulsaram os egípcios da região. Os turcos continuaram a exercer uma política de reformas, conhecida por Tanzimat, que compreendia uma abordagem mais liberal a assuntos não-muçulmanos. Esta abordagem mais liberal a estrangeiros e a não-muçulmanos, incentivou uma crescente emigração judaica para Jerusalém (tanto interna, como externa), assim como actividades cristãs das “Grandes Potências” Ocidentais, especialmente através de diplomatas e missionários.

     Foi em 1840 que, pela primeira vez, um bispo protestante (inicialmente numa união anglicano/luterana) foi designado para Jerusalém; foi construída a primeira igreja protestante — a Igreja de Cristo; o Patriarca Latino e o Patriarca Grego Ortodoxo voltaram a estabelecer residência em Jerusalém, depois de um longo interregno. Os anglicanos empenharam-se em actividades missionárias, destinadas a converter judeus ao cristianismo. Com este objectivo, fundaram escolas e um hospital.

     Académicos britânicos, franceses e norte-americanos lançaram estudos de geografia e arqueologia bíblica; a Grã-Bretanha, a Prússia, a França, a Áustria, os EUA, a Grécia, a Noruega e a Pérsia, abriram consulados em Jerusalém. Estes consulados gozavam de direitos particulares, conhecidos como capitulações, que isentavam os cônsules e respectivos concidadãos das leis locais turcas.


Rua de Jerusalém, 1880. Fotógrafo: Felix Bonfils


     Em 1863, Jerusalém tornou-se a segunda cidade do Império Otomano a ser reconhecida como município (a primeira foi Istambul). À frente dos destinos do município estava um muçulmano, assessorado por conselheiros representantes das várias comunidades religiosas, incluindo representantes dos ashkenazim e dos sefarditas. De salientar que neste período de meados do século XIX, as comunidades cristãs e judaicas foram beneficiadas, ao contrário dos muçulmanos, que não contaram com apoio diplomático ou filantrópico. Ademais, a concessão de direitos a não-muçulmanos provocou um decréscimo de autoridade legal e de rendimentos dos clérigos muçulmanos, que durante séculos foram favorecidos com as taxas especiais impostas a judeus e cristãos.


“Jerusalém, a Muralha onde os Judeus vão chorar”, 1875. Fotógrafo: Felix Bonfils.  GADCOLLECTION



Jerusalém. O Bairro Judeu visto do Monte do Templo. Matson Photograph Collection, 1898-1914. Library of Congress, Washington, D. C.


   O rápido crescimento da população judaica em Jerusalém, aliado ao facto de os residentes judeus serem pobres, provocou uma grave crise de habitação.  A par da sobrelotação, havia também a questão de um sistema sanitário obsoleto, que em muito contribuía para as frequentes epidemias que assolavam a cidade.      Em 1850 a família Rothschild, de forma a aliviar as duras condições em que os seus correligionários viviam, construiu um conjunto de apartamentos — Batei Mahaseh —, solução que se revelou temporária.


  As primeiras casas e o moinho-de-vento em Mishkenot Sha’ananim


     Por essa altura Sir Moses Montefiore (genro dos Rothschild) visitou a cidade. Dando-se conta do estado deplorável em que os judeus viviam, tentou, debalde, adquirir habitações para resolver o problema. Surpreendentemente, recebeu uma generosa oferta do governador turco de Jerusalém: um lote de terreno numa colina a oeste da cidade. Em 1857, Montefiore importou um moinho-de-vento da Cantuária, Inglaterra, que instalou naquele terreno, de modo a providenciar farinha mais barata aos judeus pobres de Jerusalém.

     A resposta para aliviar a crise habitacional de Jerusalém chegaria três anos mais tarde, quando Montefiore, com fundos de Judah Touro, um magnata de Nova Orleãs, construiu perto do moinho-de-vento o primeiro bairro residencial fora das muralhas de Jerusalém — Mishkenot Sha’ananim. Nos vinte cinco anos que se seguiram seriam construídos mais sete bairros judeus, constituindo o núcleo da Cidade Nova.


Jerusalém. A Piscina de Ezequias. Matson Photograph Collection, 1898-1914. Library of Congress, Washington, D. C.


     A água que se encontrava à disposição do povo de Jerusalém estava repulsivamente contaminada com toda a sorte de detritos, criando condições favoráveis à cólera que, todos os anos, cobrava um elevado preço em vidas humanas. Em 1864 foi formada a Sociedade de Ajuda à Água de Jerusalém, sob o patrocínio dos Montefiore, dos Rothschild e de membros do clero e da nobreza de Inglaterra. Em 1865, um grupo de distintos académicos britânicos e membros do clero anglicano fundaram o Fundo para a Exploração da Palestina (The Palestine Exploration Fund). Entre os membros da nobreza que patrocinavam o projecto estava a baronesa Angela Burdett-Coutts, a segunda mulher mais rica do mundo, depois da rainha Vitória.


  Jerusalém. A Porta de Jafa, “Jerusalem Tour”, 1895-1904, Underwood & Underwood, Londres


    Graças ao entusiasmo de estudiosos da Geografia e da Arqueologia Bíblica, cuja motivação era tão espiritual como científica, e da acção de filantropos judeus e cristãos, o progresso fez-se sentir na então arruinada Palestina. Sem esquecer a abertura do Canal do Suez, em 1869, que acelerou o comércio entre os três continentes, foram dados passos fundamentais para o desenvolvimento da região, de Jerusalém em particular. Por exemplo: a instalação do correio postal e do telégrafo; a realização de carreiras regulares de navios a vapor entre a Europa e a Terra Santa; a construção da primeira estrada e da linha férrea que ligou Jerusalém à cidade portuária de Jafa, etc.



Départ de Jérusalem en chemin de fer, 1896, Alexandre Promio

     Lançado pelos irmãos Lumière em 1897, Départ de Jésusalem en Chemin de Fer é um de nove filmes realizados em Jerusalém, por Alexandre Promio. Mostra a despedida de transeuntes no cais da estação de caminhos de ferro em Jerusalém.


Sala de Aula, Orfanato Feminino Chabashim St., Jerusalém, 1912. Fotógrafo: Tzadok Bassan


    Durante a segunda metade do século XIX Jerusalém conheceu uma oferta muito variada de oportunidades na área da educação, tanto para rapazes, como para raparigas. Membros do Movimento Iluminista Judaico e filantropos da Diáspora, através de organizações como a Alliance Israelite Universelle ou a Hilfsverein Deutschen Juden, fundaram escolas modernas para judeus, que juntavam aos seus currículos matérias seculares e algumas o ensino da língua hebraica.  A princípio estas escolas contaram com uma oposição feroz das escolas tradicionais judaicas — Haredim (estritamente religiosas). 

     Outra contribuição importantíssima foi a de missionários estrangeiros.  Fundaram diferentes tipos de escolas que tiveram um papel relevante, especialmente na educação dos cristãos, sendo que na parte final do século as autoridades otomanas tenham admitido a inclusão de estudantes muçulmanos. Em 1891 o Governo abriu uma escola muçulmana para raparigas.

Número de estudantes das escolas de Jerusalém, em 1882, por tipo de escola e por género dos estudantes




Academia Bezalel, Jerusalém. Aula de Pintura do Professor Abel Pann, 1912. Fotógrafo: 
Yaacov Ben-Dov


   As oportunidades, tanto educativas, quanto intelectuais, proporcionadas por estas escolas, primeiro, incrementaram o número de pessoas educadas em Jerusalém; segundo, os estudantes, para além do hebraico, do árabe e do turco, foram educados noutras línguas, como o francês, o inglês, o alemão, o grego, o latim ou o russo. Estes conhecimentos, não só lhes abriram novas perspectivas, como os prepararam para trabalhos na área da diplomacia, das missões estrangeiras, como professores, tradutores, intérpretes, etc. Terceiro, estes quadros diferenciados reuniram condições para prestar serviço no governo otomano, um grupo mais tarde mobilizado para a administração do Mandato Britânico. Quarto, estes novos projectos educativos permitiram aos estudantes o acesso a outras estruturas de ensino mais especializado, para continuarem os seus estudos.


Porta de Jafa (lado oriental), Alexandre Promio, Jerusalém, 1897


    Nos finais do século XIX Jerusalém contava com 17 hospitais, 54 escolas e um número significativo de periódicos, impressos nas mais variadas línguas. Jerusalém era uma cidade multicultural, onde as três religiões abraâmicas com as suas diferentes etnias conviviam cordialmente. Mas o fim do Império Otomano, cujo desmembramento estava em curso desde o século XVIII, traria mudanças profundas. Em 1917 os Britânicos entraram em Jerusalém, pondo termo a 400 anos de domínio turco na Palestina.

Este artigo é da autoria de:
Sónia Craveiro

Muito obrigada J


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