terça-feira, 3 de maio de 2016

Eclesiastes /Kohelet e a fragilidade da vida





O Ter e o Ser


Iluminura de Eclesiastes [Kohelet] com a palavra “Divrei/Palavras”, folio 302, 
Pentateuco Alemão do Duque de Sussex, c. de 1300, British Library.



1 1 Palavras de Kohelet, filho de David, rei em Jerusalém. 2 Vaidade das vaidades, diz Kohelet; vaidade das vaidades, tudo é vaidade.



     Começa assim o “Livro de Kohelet” (Meguilat Kohelet), da Bíblia Hebraica. Na tradução grega é conhecido por Eclesiastes, literalmente “Membro de uma Assembleia”. O texto, cuja autoria é atribuída por algumas fontes ao rei Salomão, é de carácter pessoal e autobiográfico; usando um tom carregado de cepticismo e pessimismo, é uma reflexão sobre o propósito da vida e a melhor maneira de a conduzir. O autor diz ter possuído imensas riquezas e experimentado todo o tipo de prazeres, conforme descreve no livro, concluindo, no entanto, que «devemos temer a Deus e guardar os Seus mandamentos, pois nisto consiste todo o dever do homem». (12:13)


     A palavra-chave de “Kohelet” é hevelHevel, invariavelmente traduzida como “vaidade, leviano, fútil, sem valor, absurdo, transitório”, aparece nada mais do que trinta e oito vezes, cinco das quais numa só frase: “Vaidade das vaidades, diz Kohelet; vaidade das vaidades, tudo é vaidade.” Contudo, nenhum destes significados é o seu significado primordial. O significado original da palavra hevel é “respiração débil”. Hevel é uma curta, ténue respiração, um sopro quase imperceptível, um vapor.


   Nós humanos somos seres biológicos de grande complexidade. Todavia, o que nos separa de ser e não-ser, da vida e da morte, não é nada complexo. É uma simples respiração. Podemos assim interpretar que o que obcecava Kohelet era a vulnerabilidade da vida, tão frágil como uma simples respiração. Mas apesar de frágil, ou por essa razão, Kohelet considera que a vida tem em si um valor inestimável, contrariamente à posse de bens materiais, que se revela insignificante, fútil, absurda, uma vaidade. Assim, uma existência apoiada naquilo que se possui é como um vapor -hevel -, como uma sombra que passa, um sonho que se desvanece, vã. Daí a tradução «Vaidade das vaidades, diz Kohelet; vaidade das vaidades, tudo é vaidade.»




Caim e Abel, 1542-44, por Ticiano, Basílica de Santa Maria della Salute, 
Veneza, Itália




Na sua reflexão sobre a vida, “Kohelet” também é um midrash (uma interpretação crítica) sobre as duas primeiras crianças no mundo. Não é por acaso que a primeira vítima de assassínio na Torah, é chamada Hevel (Abel). Hevel simboliza a fragilidade da vida, uma vida ceifada na mocidade, breve como uma brisa passageira. Tudo o que nos separa da morte é um sopro de vida que Deus insuflou em nós. Isto é tudo o que nós somos: hevel, uma frágil respiração. Mas é o sopro de Deus. Em hebraico as palavras para alma – nefesh, ruach, neshamah – são todas relacionadas com o acto de respirar.


     O que matou Hevel, foi Kayin (Caim). A Torah diz explicitamente porque razão lhe foi dado este nome. Chavah (Eva) disse: «Adquiri [kaniti] um homem com o auxílio do Eterno.» (Génesis 4:1) Kayin significa «adquirir, possuir, ter». Mas quanto mais temos, mais queremos ter. E já que todos queremos mais, e não menos, o resultado leva-nos irremediavelmente ao conflito e à violência.


     Por esta razão, o princípio de que não possuímos nada é fundamental para a visão estabelecida na Torah. Tudo – a terra, o seu produto, o poder, a soberania, as crianças, a própria vida -, tudo pertence a Deus. Nós somos apenas administradores, guardiães, em Seu nome.


     Kayin (Caim) significa: eu sou aquilo que possuo, e aquilo que possuo dá-me poder. A sua religião era a vontade de possuir. Por isso Deus rejeitou a sua oferta. O sacrifício que Deus aceitou foi o de Abel/Hevel, aquele que provém da humildade da mortalidade - “Senhor do Mundo, eu sou uma frágil respiração; o sopro da vida recebi-o de Ti. A minha respiração é Tua, não minha.”


     Quando a religião se torna num veículo para a alcançar o poder, o resultado é derramamento de sangue. Os extremistas, em qualquer época e em qualquer cultura, ao fazerem uso da violência em nome da religião, justificam-na por acreditarem que é apropriada e absolutamente necessária. A isto Deus responde: «A voz do sangue do teu irmão chama por Mim das profundezas da terra.» (Génesis 4:10)


     A grande escolha que a humanidade enfrenta é a de escolher entre a ambição do poder e a vontade de viver, a motivação para a vida. Se escolhermos uma cultura que sacrifique a vida em prol do poder, mesmo que isso implique o recurso à violência, então o resultado só poderá ser de devastação e derramamento de sangue.




Artigo elaborado por:

Sónia Craveiro


Muito obrigada





Texto adaptado de: The Wiil to Life vs The Will to Power: In memory of Rabbi Eitam and Naama Henkin, por Jonathan Sacks

http://www.jewishpress.com/indepth/opinions/the-will-to-life-vs-the-will-to-power-in-memory-of-rabbi-eitam-and-naama-henkin/2015/10/11/


Outras fontes:

http://www.aish.com/h/su/tai/48961266.html
http://www.jewishencyclopedia.com/articles/5415-ecclesiastes-book-of
http://www.momentmag.com/religion-violence-a-moment-symposium/

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