segunda-feira, 16 de maio de 2016

Caim e o Livre Arbítrio




A Escolha entre o Bem e o Mal


William Blake, Adão e Eva encontram o corpo de Abel, c. 1826,
Tate Gallery, Londres



     Ao longo de dezasseis versículos do quarto capítulo do Livro de Génesis (4:1-16), assistimos ao desenrolar da tumultuosa história de rivalidade entre Caim e Abel. Como sabemos, Caim assassina o irmão. Mas antes de cometer este pecado terrível, Deus dá-lhe a possibilidade de escolher entre ceder ao impulso de matar o seu irmão Abel, ou de lhe resistir.

     Este episódio, que introduz o tema do livre arbítrio, aparece em Génesis 4:6-7, logo depois de Deus ter aceite a oferenda de Abel e ter rejeitado a de Caim.

Génesis 4:6 E disse o Eterno a Caim: «Por que te iraste e por que descaiu o teu semblante? 7Se puderes suportar isto bem, ser-te-á perdoado, mas se não, na porta jaz o pecado, e fazer-te pecar é o seu desejo, mas tu podes dominá-lo.»

Nota: A passagem de Gen.4:6-7 foi retirada da Bíblia Hebraica, editora & livraria Sêfer. 



TIMSHEL – (“TU PODES”)


     John Steinbeck, membro da Igreja Episcopal, era um homem versado nos textos da Bíblia. Um deles, em especial, despertou o seu interesse: a história de Caim e Abel. O romancista considerava que a partir desta pequena história bíblica estavam lançados os pilares da responsabilidade individual e a invenção da consciência. Foi inspirado nela que escreveu a sua obra magna “A Leste do Paraíso”.

     No entanto, a variedade de traduções do hebraico para o vernáculo, neste caso o inglês, captou a atenção de Steinbeck, muito em particular na passagem final de Génesis 4:7. Por exemplo, enquanto certas traduções dizem «domina-o» (o pecado), a versão King James diz: «dominarás sobre ele».  O «tu dominarás sobre ele», promete ao homem uma vitória certa sobre o pecado. Todavia, «domina-o» já não é uma promessa, mas sim uma ordem. Uma palavra, em concreto, intrigou Steinbeck – timshel. Por esta razão decidiu consultar o académico Louis Ginzberg, especialista em textos hebraicos. 




W. A. Bouguereau, O Primeiro Luto (Adão e Eva encontram o corpo de Abel), 1888, Museo Nacional de Bellas Artes, Buenos Aires



       A palavra hebraica timshel (תמשול), quando surge sozinha pronuncia-se timshol. Mas na passagem em questão surge associada à palavra bo, o que lhe altera a pronúncia. Assim, a vogal “o” passa a pronunciar-se timsh’l (timsh’l bo).  Steinbeck, para quem o fundamental não era a pronúncia da palavra, mas o seu significado, escolheu representar o som com a vogal “e”, optando pela pronúncia timshel.

    No romance, as personagens principais discutem a história de Caim e Abel. Debatem, sobretudo, o significado correcto da palavra timshel. Steinbeck acabaria por afirmar, através das suas personagens, que “tu podes” (em inglês “thou mayest”) era a tradução que melhor exprimia a intenção da Torah. Uma dessas personagens, Lee, o criado chinês, argumenta que a palavra timshel ─ tu podes ─ talvez seja a palavra mais importante do mundo, porque deixa o caminho aberto à escolha. Em última instância, conclui ele, a responsabilidade de escolher ou não escolher incumbe ao homem.
    
      Ainda através da voz de Lee, Steinbeck afirma: «Nas seitas e nas igrejas, milhões de fiéis obedecem à ordem «domina», e entregam-se de alma e coração à obediência; milhões de outros acreditam na predestinação do «tu dominarás», e nada do que poderão fazer deterá a marcha do destino. Mas «tu podes» é algo que engrandece o homem e o eleva ao tamanho dos deuses, porque, apesar da sua fraqueza, da sua imundície e do assassínio do irmão, é ele ainda quem dispõe da grande escolha. Pode escolher o caminho, lutar para o percorrer e vencer.»


תמשול
     

     Steinbeck, ao escolher “thou mayest - tu podes” como a tradução mais fiel da palavra timshel ao texto bíblico (aliás, consistente com as fontes judaicas), quis realçar a importância da liberdade de escolha na forma como conduzimos a nossa vida.

    Entre muitas lições, a história de Caim e Abel ensina-nos que o Livre Arbítrio, embora inerente à condição humana, para ser exercido em liberdade, em consciência, não pode estar à mercê de impulsos, do medo, da ignorância. A liberdade de escolha aprende-se, na relação com o outro, no estabelecer de afectos, na vida em comunidade, no desenrolar da aventura humana, que é a maior aventura de todas.

     Esta breve reflexão sobre o Livre Arbítrio encerra com o tema Timshel, da banda Mumford & Sons. O tema, inspirado no romance “A Leste do Paraíso”, traduz com grande expressividade a lição de Steinbeck ─ nós podemos dominar o pecado, se essa for a nossa escolha.




And you have your choices
And these are what make man great
His ladder to the stars



Timshel - Mumford and Sons


Cold is the water
It freezes your already cold mind
Already cold, cold mind
And death is at your doorstep
And it will steal your innocence
But it will not steal your substance

But you are not alone in this
And you are not alone in this
As brothers we will stand and we'll hold your hand
Hold your hand

And you are the mother
The mother of your baby child
The one to whom you gave life
And you have your choices
And these are what make man great
His ladder to the stars
But you are not alone in this
And you are not alone in this
As brothers we will stand and we'll hold your hand
Hold your hand

And I will tell the night
Whisper, "Lose your sight"
But I can't move the mountains for you




Artigo elaborado por:

Sónia Craveiro

  
Muito obrigada



Fontes:

Bíblia Hebraica, Editora & Livraria Sêfer Ltda., São Paulo, Brasil;
STEINBECK, John, A Leste do Paraíso, Editora Livros do Brasil;
MAALOUF, Amin, Um Mundo sem Regras, DIFEL;


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