domingo, 27 de fevereiro de 2022

Last Folio

 

Yuri Dojc & Katya Krausova



A exposição de Yuri Dojc e Katya Krausova revela imagens

 do que sobra de um último testemunho histórico da vida 

de um povo.


Exposição em curso no CCB até dia 29/05/2022





Uma história interrompida aquando da deportação dos judeus 

para campos de concentração em 1942.










Ruínas de escolas, destroços de sinagogas, pedaços que sobram de livros e de 

objetos poderão ser encontrados nesta exposição, que contempla ainda um 

conjunto de retratos de sobreviventes do Holocausto e um filme que expõem as 

marcas da destruição da cultura judaica provocada pelos nazis.



Mikveh












Os livros estavam se desintegrando como  num conto de fadas. 

Íamo-nos movendo e a poeira se espalhava.”





Ler também:

https://g1.globo.com/distrito-federal/noticia/exposicao-fotografica-no-df-resgata-

memorias-da-segunda-guerra-mundial.ghtml


Fontes:


https://www.ccb.pt/

https://www.youtube.com/watch?v=MMRBPLaxchE

https://www.youtube.com/watch?v=0vZeL63l1ok

https://www.youtube.com/watch?v=JC3TprF53-M&list=TLPQMjcwMjIwMjKX4YZ-

HoKvDA&index=2


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Isaac de Castro Tartas – Um Mártir Judeu

 


Em Tartas, localidade francesa da Gasconha, pelo ano de 1625, nasceu uma criança que foi baptizada com o nome de Tomás Luís.

Seus pais (Cristovão Luís e Isabel da Paz) eram cristãos novos de Bragança, fugidos da Inquisição. Ambos se ligavam à família de Oróbio de Castro.



Do álbum de Angel Gabriel Rodriguez



Em Castro viveria até aos 11 anos, altura em que foi para Bordéus estudar gramática e filosofia. Em 1639, a família deixou a França e rumou para a Holanda, fixando-se na cidade de Amesterdão. Ali aderiram abertamente ao judaísmo, fazendo-se circuncidar e tomando nomes hebraicos. Tomás Luís passou a chamar-se Isaac de Castro.

Não sabemos em pormenor que escola frequentou, mas é incontestável que acumulou vastos conhecimentos talmúdicos, conforme ficaria demonstrado ao longo do processo a que foi submetido. Sabemos também que ele dominava perfeitamente o hebraico, o grego, o latim e o francês, para além da língua paterna. Tentou também estudar medicina, matriculando-se para isso na universidade de Leiden mas que por alguma razão, logo a abandonou.

Sendo um jovem muito inteligente, com boa preparação filosófica e teológica, as autoridades judaicas de Amesterdão enviaram-no para o Brasil com a finalidade especifica de ensinar a lei dos judeus. Aliás, ele seguiu para ali como acompanhante do seu “tio” Moses Rafael de Aguilar e do rabino Aboah da Fonseca. E assim andaria o jovem Isaac por terras do Brasil Holandês (Paraíba, Olinda, Recife…) por 3 ou 4 anos.



O retrato é do comentarista, Aboab de Fonseca, que não foi apenas o primeiro rabino do Brasil, mas também o primeiro rabino a ir para a América.



Em dezembro de 1644 tinha já abandonado Pernambuco e encontrava-se na cidade portuguesa da Baía. O objectivo seria catequisar os cristãos-novos que ali havia e levá-los de regresso ao judaísmo para isso precisava de se apresentar como cristão, pois caso contrário seria logo preso. Seguindo esta estratégia, a primeira coisa que fez, foi mudar o nome para Joseph de Lis e apresentar-se ao Bispo da Baía, contando-lhe que nascera em Avinhão, terra governada pelo Papa de Roma, onde era permitido ser judeu e que por esse motivo ele não fora baptizado mas sim circuncidado uma vez que seus pais eram judeus e também ele toda a vida tinha sido judeu mas que agora reconhecera que a verdadeira religião era a católica. Por esse motivo vinha humildemente pedir para ser baptizado e admitido na igreja católica romana.



O mapa de Nicolaes Visscher mostra o cerco a Olinda e Recife em 1630



O bispo desconfiou e depois de algumas investigações mandou prendê-lo e remetê-lo à Inquisição de Lisboa. As razões apontadas podem resumir-se neste testemunho de um familiar do santo ofício que o prendeu: O dito judeu que se chamava Joseph Lis e dizia vulgarmente que viera a esta cidade a chamado de alguns homens da nação hebreia para lhes vir ensinar as cerimónias judaicas…(1)”


Embarcado na Baía a 5 de janeiro de 1645, chegou a Lisboa a 15 de março seguinte. Impossível resumir aqui o seu processo verdadeiramente exemplar em diversos pontos de vista. Desde logo pelos estranhos companheiros (espias) que o meteram no carcere: dois padres sodomitas que o denunciaram por rezar e “gaiar” à maneira dos judeus e fazer muitos jejuns, sempre com os pés descalços e a cabeça coberta. Explicará ele aos inquisidores que cobria a cabeça onde se gravam pensamentos imundos e por isso “era imunda e não se podia falar com Deus com ela descoberta”.

Mas o que é “verdadeiramente notável” (2), é um texto de 34 páginas que o jovem “rabi” apresentou para fundamentar a sua crença na lei de Moisés que “não tem coisa repugnante à razão e à verdade natural”, considerando alguns que esta foi uma das primeiras formulações do “direito universal natural à liberdade de consciência”. Mas vejam as suas próprias palavras, em resposta aos inquisidores que o aconselhavam a renunciar à sua fé:

 

“Disse que ele não seguia a lei de Moisés por ser ou não ser baptizado nem duvidar que a podia seguir livremente, senão por lhe parecer melhor para a salvação” (3)”



Terreiro do Paço - (Séculos XVI  e XVIII) (Desenho de Matthaus Santer) LISBOA



E se os homens podiam salvar-se seguindo os preceitos da natureza, ele, por ser hebreu, nascido de pais hebreus e “…sujeito às leis do povo israelítico, não podia haver salvação senão na crença de Moisés”. Fundamentando este argumento, referiu que apesar de todas as “perseguições, calamidades e trabalho de tão longo cativeiro, como tem padecido e padece o povo de Israel, não só não é acabado, mas antes se multiplica e cresce” mais que nenhum outro. E mais ainda: o povo hebreu é tão abençoado por Deus que até os cristãos têm por adágio: corre-lhe o maná como a judeu”.

 

E não apenas os judeus são por Deus beneficiados em riqueza mas até os povos que os admitem entre eles, assim, “…entre as nações do Norte se tem entendido o mesmo, por se experimentar que os aumentos daqueles Estados se ocasionaram na felicidade dos judeus que ali vivem, porque entrando pobres nas ditas províncias, não só se enriqueceram a si mas a todos os moradores delas como estes mesmo confessam”.

 

Impossível resumir aqui todo o seu processo. Diremos tão só que desde o início ele foi tido pelos inquisidores como “judeu profitente” e no próprio carcere lhe foi apreendida uma “nomina” (tefilin) – Duas peças de couro cosidas a maior parte, contendo orações judaicas para por na testa e no braço.

Prova de que os inquisidores o consideravam “professor da lei”, encontra-se no processo de Tomás Gomes, um jovem que foi então apanhado com um “Selly hot”. Chamado a explicar o que aquilo significava, Joseph Lis disse que:

 

“Selly Hot quer dizer madrugada em hebraico (4) e que tem uma cerimónia que os judeus fazem rezando e tendo atos de contrição por um espaço de 40 dias, se começa no mês de agosto e acaba a 10 da lua de setembro.  em que é então o jejum solene que se chama Kipur…”

 

Tentaram os inquisidores reduzi-lo à fé cristã, enviando-lhe os mais qualificados mestres de teologia, mas o jovem “rabi” para tudo encontrava argumentos. Um dos qualificadores concluiu assim: “Digo que esta pessoa me parece tão pertinaz na crença da lei de Moisés, que se deixava queimar vivo por ela.”(5)

 

Na verdade, assim aconteceu. A 15 de dezembro de 1647 foi queimado vivo.



Auto-de-fé no Terreiro do Paço (Lisboa)


E enquanto a fogueira se acendia e as chamas crepitavam, Isaac de Castro Tartas cantava o Shemá.”


Shemá Yisrael, Ado-nai Elohenu, Ado-nai Echad.

Escuta Israel, o Eterno é nosso D-us, o Eterno é um.


Na verdade, ele foi um verdadeiro mártir do judaísmo.




O meu muito obrigada pela permissão de publicação deste artigo ao senhor Henrique Martins:


Fontes/Notas

https://5l-henrique.blogspot.com/2016/06/nos-transmontanos-sefarditas-e-marranos_21.html

 

1 – ANTT, inquisição de Lisboa, processo 11550, de Joseph de Lia, tif.67.

2 – COELHO, António Borges, A Inquisição de Évora 1533-1568. Pp. 268-270, ed. Caminho, Lisboa,2002.

3 – ANTT, pº 11550. Tif.160

4 – ANTT,  inquisição de Lisboa, pº11560, de Tomás Gomes, tif.47.Pub.ANDRADE e GUIMARÃES, Na Rota dos Judeus: Celorico da Beira, ed. Câmara Municipal de Celorico da beira, 2015.

5 – ANTT, pº 11550, tif 151.

Por António Júlio Andrade / maria Fernanda Guimarães

In: jornalnordeste.com

https://en.wikipedia.org/wiki/Isaac_Aboab_da_Fonseca

Do álbum Angel Gabriel Rodriguez, por Angel Gabriel Rodriguez

 https://www.geni.com/photo/view/6000000040896928849?album_type=photos_of_me&photo_id=6000000142256376833

https://www.geni.com/people/Isaac-de-Castro-Tartas/6000000040896928849

https://www.youtube.com/watch?v=PYg0gWubwt8

https://www.youtube.com/watch?reload=9&v=tqa-S4e9isE&feature=emb_title

https://pt.wikipedia.org/wiki/Invas%C3%B5es_holandesas_no_Brasil#/media/Ficheiro:Nicolaes_Visscher_-_Pharnambuci_(Pernambuco,_Brazil).jpg

http://oridesmjr.blogspot.com/2011/07/o-brasil-na-rota-do-oriente.html

https://aps-ruasdelisboacomhistria.blogspot.com/2014/09/terreiro-do-paco-i.html


domingo, 31 de janeiro de 2021

O Pecado de Adão e Eva – Vergonha e Culpa

 



Uma Perspectiva Judaica



Adão, Eva e a serpente (detalhe), Haggadah de Sarajevo, Barcelona, c. 1350, Museu Nacional da Bósnia-Herzegovina


“E o Eterno Deus ordenou ao homem, dizendo: «De toda a árvore do jardim podes comer. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, pois no dia em que dela comeres, morrerás!» (Génesis 2:16-17)



Mas, afinal, o que foi o primeiro pecado? O que era o bem e o mal da Árvore do Conhecimento? O conhecimento era assim tão mau que tivesse de ser proibido, ou só poderia ser adquirido através do pecado? Não é essencial ao ser humano conhecer a diferença entre o bem e o mal? Não quereria Deus que os humanos fossem cientes de uma das formas mais elevadas de conhecimento? Então porque quereria Ele que o fruto que o produz fosse proibido?

 

Não teriam Adão e Eva conhecimento do bem e do mal antes de terem comido o fruto proibido, justamente, porque foram criados “à imagem e semelhança de Deus”? O Judaísmo defende que sim, pelo menos potencialmente. Então, o que é que mudou depois de terem comido o fruto?

 

Estas são as perguntas colocadas pelo rabino Jonathan Sacks num comentário à parashat Bereshit — “The Art of Listening” —, sobre o episódio do pecado de Adão e Eva. Em artigo anterior abordámos o tema do pecado original, uma doutrina cristã a que este pecado está fortemente associado. Impõe-se, portanto, abordá-lo numa perspectiva judaica. No Judaísmo não há pecado original.




Adão, Eva e a serpente, Miscelânea Hebraica do Norte de França, c. 1280, folio 520v, British Library



A reflexão de Sacks assenta nas conclusões do filósofo medieval Maimónides, que abordou o tema persistentemente no tratado “Guia dos Perplexos” (Livro I, Capítulo II). Maimónides deduziu o seguinte: os primeiros humanos já tinham conhecimento do bem e do mal, antes de terem comido o fruto. O que eles adquiriram ao comer o fruto proibido foi o conhecimento de “coisas geralmente aceites”. Mas o que é que Maimónides quis dizer com “coisas geralmente aceites”? É geralmente aceite que matar é mau e a honestidade é boa.

 

Quereria Maimónides dizer que a moralidade é uma mera convenção? Certamente que não! O que ele quis dizer é que depois de terem comido o fruto, o homem e a mulher sentiram vergonha por estarem nus, e isso é uma mera convenção social, porque nem toda a gente se sente envergonhada com a nudez. Mas como é que equacionamos sentir vergonha por estar nu com “o conhecimento do bem e do mal”? Tem tudo a ver com aparências.




Adão, Eva e a serpente (detalhe). Pentateuco com comentários de Rashi, painel Bereshit, folio 1, séc. XV, Itália (Ferrara?), Colecção Harley, British Library



Viver em função das aparências, sujeita-nos a viver segundo as expectativas que os outros têm de nós, como parecemos (ou imaginamos parecer) aos olhos dos outros. E se parecemos mal, sentimos vergonha. A primeira reacção instintiva quando sentimos vergonha, é o desejo de nos tornarmos invisíveis. Por contraste, o sentimento de culpa não tem nada a ver com a percepção que os outros têm de nós. Não conseguimos escapar tornando-nos invisíveis ou fugindo. Para onde quer que formos a nossa consciência acompanha-nos sempre, independentemente da imagem que os outros têm de nós. Com este contraste em perspectiva, podemos agora compreender a história do primeiro pecado.

 

A serpente disse à mulher: «Deus sabe que no dia em que comerdes dele, vossos olhos se abrirão e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal.» (Génesis 3:4-5) E o que aconteceu de facto: «E os olhos de ambos foram abertos e souberam que estavam nus.»; a Torah enfatiza a aparência da árvore: «A mulher viu que a árvore era boa para comer, desejável para os olhos e cobiçável para entender o bem e o mal». A emoção-chave desta história é a vergonha. Antes de comerem o fruto estavam nus, mas não se envergonhavam. Depois de o comerem sentiram vergonha e procuraram esconder-se. Cada elemento desta história — o fruto, a árvore, a nudez, a vergonha —tem a ver com uma cultura de vergonha centrada nas aparências.




Adão e Eva após a expulsão do Paraíso (detalhe), Haggadah de Sarajevo, Barcelona, c. 1350, Museu Nacional da Bósnia-Herzegovina



No Judaísmo Deus não é visto, é ouvido. Os primeiros humanos “ouviram a voz de Deus, que se movia no jardim”. Respondendo ao chamamento de Deus, o homem disse: “Ouvi a Tua voz no jardim e tive medo por estar nu, e escondi-me.” Quando Adão e Eva ouviram a voz de Deus no jardim “esconderam-se da presença de Deus entre as árvores do jardim”, uma reacção absolutamente desconcertante. Nós não nos podemos esconder de uma voz. Escondemo-nos, sim, na tentativa de não sermos vistos, uma reacção intuitiva à vergonha. Mas a Torah é o supremo exemplo de uma cultura de culpa, não de vergonha. Não é por nos escondermos que conseguimos escapar a um sentimento de culpa. A culpa não tem nada a ver com aparências, mas tudo com consciência, a voz de Deus no coração humano.


Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos



No conto “O Principezinho”, quando a raposa diz para o principezinho: — "Vou dizer-te o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.", Antoine de Saint-Exupéry captou admiravelmente a noção de que o essencial, o genuíno, “só se vê bem com o coração”, ao contrário daquilo que os olhos vêem, que pode ser enganador, uma ilusão de aparências.

 

***



Adão e Eva, Golden Haggadah c. 1330, Catalunha (Barcelona?), British Library



O pecado dos primeiros humanos foi o de terem seguido o olhar, em vez do ouvir. As suas acções foram determinadas pelo que viram, a beleza da árvore, e não pelo que ouviram, a palavra de Deus que lhes ordenou que não comessem do seu fruto. Como resultado da sua desobediência, eles adquiriram de facto o conhecimento do bem e do mal, mas do tipo errado. Adão e Eva adquiriram uma ética de vergonha, não de culpa; de aparências, não de consciência. Isto, segundo o rabino Jonathan Sacks, é o que Maimónides tinha em mente com a distinção entre verdadeiro-e-falso e “coisas geralmente aceites”.

 

“Não há sobre a terra alguém tão correcto que só faça o bem e não peque jamais”

 

Eclesiastes [Kohelet] 7:20



Como nos lembra Kohelet, somos todos pecadores. Faz parte da natureza humana. A nossa vida desenrola-se numa constante tensão entre a boa inclinação (yetzer hatov) e a má inclinação (yetzer harah), sendo que Deus nos deu a liberdade de escolher entre o bem e o mal, o livre arbítrio. Se escolhermos bem, estamos no bom caminho. Se escolhermos mal, estamos perdidos no caminho. Mas é sempre possível regressar ao bom caminho, fazer teshuvah. Para tanto, temos de afastar os ruídos indesejáveis que nos perturbam a atenção, criando silêncio na alma, para ouvirmos a voz de Deus.

 

No Yom Kippur, ou «Dia da Expiação», recitamos súplicas e orações para implorar o perdão de Deus. Durante o Viddui toda a congregação confessa uma longa série de pecados, batendo no coração, um gesto simbólico de compromisso num acto de reflexão de consciência. Podemos ter cometido determinado pecado, ou não, mas é suposto juntarmo-nos ao coro de vozes dizendo “Nós cometemos este pecado”. Podemos não ter difamado ninguém, mas fomos capazes de confrontar quem o fez? De uma maneira ou de outra, estamos todos implicados no comportamento dos outros. A nossa responsabilidade é simultaneamente individual e colectiva. Isto reflecte um tema central no Judaísmo: nós somos todos responsáveis uns pelos outros.




O rei assírio Assurbanipal. Detalhe de relevo, Nínive, (actual Iraque), 645-635 AEC



Ainda em Yom Kippur, suavizamos a intensidade do tema da expiação com o tema do perdão. Da selecção da Bíblia Hebraica para a liturgia do serviço da tarde lemos o Livro de Jonas. Neste livro, Deus instrói o profeta Jonas a viajar para Nínive, onde deverá pregar ao povo para abandonar a vida pecaminosa a que estava entregue, ou arriscava o castigo Divino. Jonas, recusa-se a realizar a missão, foge e acaba no ventre

 

de um grande peixe, libertando-se ao fim de três dias. Só depois faz o que Deus lhe tinha pedido. O povo de Nínive arrepende-se e Deus, vendo a sua sinceridade, depressa lhe perdoa. Quando Jonas protesta, clamando que Deus lhe tinha facilitado a vida, Deus deixa claro que ama profundamente o povo de Nínive, que o considera inteiramente merecedor da misericórdia Divina.

 

Nesta história tocante, até porque Nínive era a capital da Assíria, o império que atacou o reino do norte de Israel e foi responsável pelas “tribos perdidas” de israelitas, a mensagem parece ser muito clara: se os teus piores inimigos podem ser perdoados pelos seus pecados, tu também podes.




Albrecht Dürer, Adão e Eva (gravura em cobre), 1504, Pierpont Morgan Library, Nova Iorque



A Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento, as duas árvores especiais que Deus colocou no Jardim do Éden, são elementos-chave no drama de Adão e Eva. Elas representam duas formas diferentes de conhecimento, duas formas distintas de pensamento. No pensamento judaico, este drama não é sobre sexo, pecado original, ou “a Queda”. É sobre outra coisa: o tipo de moralidade que queremos para conduzir as nossas vidas.

 

A primeira e fundamental lição sobre Adão e Eva é a de que cada um de nós é seu descendente directo. Aos olhos de Deus somos todos iguais. Ninguém é superior. Ninguém é inferior.

 

O Talmude contempla uma variedade de interpretações e midrashim sobre o drama de Adão e Eva. Numa leitura mais cuidada do texto, deparamo-nos com mais perguntas do que respostas. Mas, afinal, é isto mesmo o estudo da Bíblia. Não é sobre encontrarmos todas as respostas, é sobre a procura. Não é sobre o destino, é sobre a viagem. É sobre a procura de Deus e do Seu lugar nas nossas vidas.


Post Scriptum:






O rabino Jonathan Sacks faleceu no passado dia 7 de Novembro, deixando um imenso vazio. O seu impacto como educador, filósofo, rabi, professor, foi excepcional. Na forma como tornou acessível a comunicação de conceitos filosóficos de extrema complexidade. No empenho pelo enquadramento do bem comum entre o Judaísmo e as outras religiões. Na coragem em abordar temas controversos. Na defesa incansável dos valores morais do Judaísmo, como inspiração para a Humanidade.

O mundo vai sentir a falta dele. Eu vou sentir a falta dele.

Que a sua memória seja uma bênção.




Rabbi Sacks on The Mutation of Antisemitism 2017

 

Texto adaptado de “The Art of Listening”, do rabino Jonathan Sacks

https://rabbisacks.org/the-art-of-listening-bereishit-5776/



Este artigo foi elaborado por:

Sónia Craveiro

Desde já o meu obrigada

Beijinhos



Outras fontes:

 

Bíblia Hebraica, Editora & Livraria Sêfer Ltda., São Paulo, Brasil

 

HURWITZ, Sarah, HERE ALL ALONG, Spiegel & Grau, New York

 

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de, “O Principezinho” (Capítulo XXI), Editorial Aster, Lisboa

 https://www.myjewishlearning.com/article/the-jewish-view-of-sin/

https://www.myjewishlearning.com/article/understanding-viddui/?utm_source=mjl_maropost&utm_campaign=MJL&utm_medium=email