quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Shema Israel - A Oração




SHEMA YISRAEL
“OUVE, ISRAEL”



Maimónides, Mishneh Torah, copiado em Espanha c. 1300-1350, ilustrado em Perugia c. 1400, Biblioteca Nacional de Israel, Jerusalém. Página inicial do “Livro do Amor” (por Deus) – Sefer Ahavah. No topo da página um homem abraça um rolo da Torah; na margem inferior, um outro homem recita o Shema antes de se deitar.


     Shema Yisrael, «Ouve, Israel», é central na fé judaica. No Judaísmo nós acreditamos que Deus é ouvido, mas nunca visto. Os primeiros humanos, Adão e Eva, ouviram a voz do Eterno mover-se no jardim com a brisa do dia. Abraão, Moisés e os profetas da Bíblia Hebraica, diferenciaram-se dos seus contemporâneos porque ouviam uma voz que para os outros era inaudível. Quando Elias enfrenta os profetas de Baal no Monte Carmelo, Deus ensina-lhe que não é nem um vento forte, nem fogo, nem um terramoto, mas uma «voz mansa e delicada» (I Reis 19:9-12)

     A um nível muito básico, Shema representa um aspecto do Judaísmo que era radical nos tempos bíblicos: Deus não pode ser visto. Deus só pode ser ouvido. Moisés adverte insistentemente o povo de Israel para não venerar ou adorar nenhuma representação física do Divino; no Monte Sinai lembra que: «O Eterno vos falou do meio do fogo; som de palavras vós ouvistes, porém não vistes imagem alguma: ouvistes apenas uma voz.» (Deut. 4:12)



Shema Yisrael! Adonai Eloheinu! Adonai Echad!
Ouve, Israel! O Eterno é o nosso Deus! O Eterno é Um!
(Deuteronómio 6:4)






     Shema (pronuncia-se Shemá) é uma palavra-chave do livro de Deuteronómio, onde aparece 92 vezes. Hoje quando falamos no Shema, referimo-nos ao verso 6:4-9 do Deuteronómio e a outros três parágrafos (dois do Deuteronómio11: 13-21 e um de Números 15:37-41).   Seguindo o mandamento de dizer Shema «ao deitar e ao levantar», o Shema faz parte das orações da noite (Arvit) e da manhã (Shacharit).


O significado de Shema

     Shema ou Sh’ma, de difícil tradução, se não mesmo intraduzível, tem vários significados como, ouvir, escutar, prestar atenção, compreender ou interiorizar; pode até ter um significado aproximado de «obedecer», como quando se responde afirmativamente a uma interpelação. Contudo o termo «obedecer» não consta do hebraico bíblico, o que é extraordinário numa religião de 613 mandamentos. No hebraico moderno «obedecer» diz-se letzayet, uma palavra emprestada do aramaico.


Ouve, Israel! O Eterno é o nosso Deus! O Eterno é Um!

E amarás o Eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. E estarão, permanentemente, no teu coração estas palavras que hoje te recomendo. (Deut. 6:4-6)


Ouvir, no Judaísmo é uma tarefa sagrada. Deus quer que ouçamos, não apenas com os ouvidos, mas com os recursos mais profundos da nossa mente. Se Deus procurasse simples obediência, teria criado robots em vez de seres humanos com vontade própria. Mas ouvir, ouvir realmente, pode ser uma tarefa incrivelmente difícil. Aprender a ouvir requer treino, concentração e a capacidade de criar silêncio na alma. Ver mostra-nos a beleza do mundo, mas ouvir dá-nos a oportunidade de criarmos pontes com a alma do outro.  
   
     Tecnicamente, recitar o Shema não é um acto de oração. É fundamentalmente um outro tipo de acto: é um acto de Talmude Torah, de aprender Torah. Na oração nós dirigimo-nos a Deus. Quando estudamos Torah, ouvimos Deus. Deus quando fala connosco, chama por nós, convoca-nos para a nossa tarefa no mundo. 


QUANDO JESUS DISSE O SHEMA


Rembrandt, Cabeça de Cristo, 1640, Gemäldegalerie, Berlim

     «Não penseis que Eu vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento.» (Mateus 5:17)



     Em Mateus 22:36-40, Marcos 12:28-34 e Lucas 10:25-28, Jesus, quando inquirido acerca do primeiro mandamento da Lei, recita o Shema.

-Um doutor da Lei que ali estava ouviu a discussão. Vendo que Jesus tinha respondido bem, aproximou-se d’Ele e perguntou: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?» Jesus respondeu: «O primeiro mandamento é este: Ouve, ó Israel! O Senhor nosso Deus é o único Senhor! E amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças. O segundo mandamento é este: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Não existe mandamento mais importante do que estes dois».

     O doutor da Lei disse a Jesus: «Muito bem, Mestre! Como disseste, Ele é, na verdade, o único Deus, e não existe outro além d’Ele. E amá-Lo com todo o coração, com toda a mente e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo é melhor que todos os holocaustos e do que todos os sacrifícios». (Marcos 12:28-34)



Mais um artigo da nossa,

Sónia Craveiro



Muito obrigada



Fontes:
The Mishneh Torah, Maimonides
http://gizra.github.io/CDL/pages/D426D901-F0FB-99E7-6E57-289CFFFBDD64/
Torá, A Lei de Moisés, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2001, Brasil
Bíblia Hebraica, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2006, Brasil
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, 1993, PAULUS Editora, Portugal
The Art of Listening
https://www.ou.org/torah/parsha/rabbi-sacks-on-parsha/the-art-of-listening/
Listen, Really Listen  http://rabbisacks.org/listen-really-listen-eikev-5778/
Elijah and the prophetic truth of the ‘still, small voice’
http://rabbisacks.org/elijah-prophetic-truth-still-small-voice/
https://www.youtube.com/watch?v=82JbnMWKtS

sábado, 1 de setembro de 2018

“KOL NIDREI”




UMA HISTÓRIA POR CONTAR


O Talmude a ser carregado em Paris para ser queimado. Diorama de uma Exposição 
do Museu do Povo Judeu (Beit Hatfutsot), Telavive.


    A 12 de Junho de 1242, vinte e duas carroças carregadas com milhares de volumes do Talmude da Babilónia chegam a uma das principais praças de Paris. Os rumores já se haviam espalhado e uma multidão, conduzida pelo apóstata judeu Nicholas Donin, enche as ruas ao redor da Praça Grève para assistir ao grande espectáculo: a queima dos livros judaicos.

     Na base desta sentença encontram-se acusações de Nicholas Donin, entre elas a de que os judeus usavam o texto da oração Kol Nidrei, que permite ao crente a quebra dos seus votos, como forma de escapar ao pagamento de dívidas e assim explorar os gentios.



Maurycy Gottlieb, Judeus em oração na Sinagoga em Yom Kippur, 1878, 
Museu de Arte de Telavive.


    No Yom Kippur, ou «Dia da Expiação», recitam-se súplicas e orações ao longo do dia para implorar o perdão de Deus. A oração Kol Nidrei abre o serviço da noite. Kol Nidrei entrou no ritual como uma fórmula de anulação de promessas feitas a Deus, sem no entanto suprimir as obrigações que um homem possa ter assumido para com outro. É convicção inabalável do Judaísmo que as orações do homem, inclusive as do Yom Kippur, só podem expiar os pecados cometidos para com Deus; os que porventura foram cometidos em prejuízo de outras pessoas não serão perdoados senão pelas pessoas ofendidas.



Kol Nidrei, Machzor de Worms, c. 1272 a 1280, Biblioteca Nacional de Israel, Jerusalém.


     Não havendo certezas quanto à data da criação do Kol Nidrei, assume-se que é do período dos Geonim (século VII a XI). Os Geonim (literalmente “excelência” ou “esplendor”) estavam à frente das Academias Talmúdicas da Babilónia e representavam uma autoridade religiosa e espiritual, reconhecida na generalidade do mundo judaico. 

De acordo com certas fontes actuais, os Geonim rejeitaram o Kol Nidrei por recearem uma deterioração moral causada por crentes pouco escrupulosos relativamente aos próprios votos. Este receio seria mais tarde partilhado por Maimónides, que desprezou a oração nos seus trabalhos. Rashi considerou que o Kol Nidrei se destinava apenas a quebrar votos esquecidos. O texto foi finalmente aprovado e incluído nas orações de Yom Kippur, em 1565, pelo rabi Yosef Caro, autor do “Shulchan Aruch”, o código legal mais consultado do Judaísmo.

     No sentimento dos Judeus, a oração Kol Nidrei ficou ligada às sinagogas secretas dos «marranos» na Espanha medieval. Convertidos pela força ao Cristianismo, os «marranos» ter-se-ão autorizado a si mesmos a recitar as orações do Yom Kippur em boa consciência, depois de terem anulado os votos pronunciados para com uma outra fé professada à força.


A DENÚNCIA DO TALMUDE


Rafael, Papa Gregório IX, fresco, 1511, Palácio Pontifício, Vaticano.


     Nicholas Donin, judeu de La Rochelle, estudou na Yeshiva de Paris, então sob a direcção do reputado rabi Yehiel ben Joseph. Porém, as suas posições face aos textos sagrados e à Lei Oral eram de tal forma radicais que acabou por ser expulso da instituição e em 1225 excomungado da congregação. Anos mais tarde converteu-se ao Cristianismo, vindo a integrar a Ordem Franciscana. Nutrindo um ódio profundo aos seus antigos correligionários, o seu primeiro acto de retaliação foi instigar os Cruzados a uma perseguição sangrenta aos judeus da Bretanha. Em Poitou e Anjou foram assassinados 3000 judeus; 500 aceitaram a alternativa do baptismo.

     Em 1236, Donin enviou ao papa Gregório IX uma denúncia formal contra os judeus, em geral, e contra o Talmude, em particular. Dos 35 artigos acusatórios que elaborou, constam acusações particularmente sensíveis à doutrina cristã, tais como o Talmude conter blasfémias contra Jesus e Maria, ataques à Igreja, agravos a não-judeus e outras falsidades. Donin concluiu que o Talmude era o real impedimento à conversão dos judeus ao Cristianismo. 


A GRANDE DISPUTA DE 1240


Luís IX de França, Bíblia de São Luís (Bíblia Moralizada), França, c. 1227-34, 
The Morgan Library and Museum, Nova Iorque.


   Gregório IX aceitou as denúncias de Donin e decidiu enviá-las aos reis de França, Inglaterra, Castela, Aragão e Portugal, e a todos os principados italianos. Neste âmbito, os bispos daqueles países deveriam proceder ao confisco de todos os exemplares do Talmude, o qual deveria ser executado no primeiro sábado da Quaresma de 1240. Luís IX de França foi o único monarca a obedecer à ordem papal. Além de obedecer à ordem papal, Luís de França promoveu uma disputa pública, a que se seguiu um julgamento do Talmude. A acusação era constituída por cinco clérigos, entre eles Donin e o cardeal Eudes de Châteauroux, reitor da Universidade de Paris; a defesa por quatro rabis, todos renomados Tosafistas franceses, liderados por Yehiel ben Joseph de Paris. No final, e sem surpresas, o tribunal considerou o Talmude uma “obra herética” e condenou-o à fogueira. Dois anos mais tarde, a 12 de Junho de 1242, os preciosos livros foram solenemente queimados.


A Queima dos Judeus, “Crónicas de Nuremberga” (Liber Chronicarum), 
impresso em Nuremberga, 1493.


    Os acontecimentos ocorridos em Paris entre 1240 e 1242 provocaram vagas de difamação e de perseguição às comunidades judaicas, cada vez mais violentas e com consequências cada vez mais dramáticas. A Disputa de Paris extravasou fronteiras, servindo de modelo a outras disputas públicas, nas quais os rabis eram obrigados a defender-se de acusações cristãs apresentadas por prelados e apóstatas. Destaquemos a de Barcelona, realizada em 1263, que opôs o Ramban (Nachmanides) a Pablo Christiani, um judeu convertido ao Cristianismo. Nachmanides (que mantinha relações privilegiadas com cristãos) venceu a disputa, sendo agraciado pelo rei Jaime I de Aragão. Mas a sua vitória despoletou a ira dos Dominicanos e, aos 70 anos de idade, Nachmanides viu-se forçado a fugir de Espanha. Encontrando refúgio na Terra Santa, viveu primeiro em Jerusalém, onde fundou uma sinagoga (ainda hoje aberta ao culto) — a Sinagoga Ramban — e depois estabeleceu-se em Acre, onde escreveu o seu famoso comentário da Torah.


JURAMENTUM MORE JUDAICO


Juramento de um Judeu (de pé, em cima de uma pele de porco, apontando para uma Torah). Manuscrito Alemão Schwabenspiegel, f.204r, ilustrador Diebold Lieber, c.1425, Biblioteca Real da Bélgica, Bruxelas.


     Instituído na Idade Média, o Juramentum More Judaico ou Juramentum Judaeorum era uma forma de juramento a que os judeus eram submetidos em processos judiciais com não-judeus. Tanto o texto do juramento, como o simbolismo do ritual, cujo objectivo era o de assegurar que os judeus honrassem compromissos assumidos com gentios, eram explícitos quanto ao castigo atribuído, caso o judeu prestasse falso testemunho. Acima de tudo, o cerimonial destinava-se a humilhar o judeu, numa demonstração de absoluto desprezo. Eis alguns exemplos dos rituais aviltantes que acompanhavam o juramento:

•           França: o ritual era realizado no interior de uma sinagoga com as portas da Arca Sagrada completamente abertas; o judeu, de joelhos, tinha de usar um espinho entre as pernas muito juntas e um colar de espinhos à volta do pescoço;

•           Silésia: o judeu tinha de ficar de pé num banco de três pernas e de cada vez que caía pagava uma multa, perdendo finalmente o caso se caísse quatro vezes;

•           Roménia: o judeu tinha de permanecer deitado com uma vela suspensa sobre a cabeça, ao mesmo tempo que um chifre era soprado 7 vezes e lhe era lida a “Canção de Moisés”; por fim, o judeu colocava as mãos sobre uma Torah e recitava os versos do “Shemá Israel”, enquanto o juiz o ameaçava e à sua família.

     Esta prática degradante vigorou na Europa até meados do século XIX, sendo definitivamente abolida em 1869. Contudo em 1902 um tribunal na Roménia ainda fez uma actualização do juramento.

     O Juramentum More Judaico, embora inserido num quadro geral de anti-semitismo, depois do Julgamento do Talmude ficou intimamente associado ao significado pejorativo que as autoridades cristãs atribuíram à oração Kol Nidrei, incorporando um objectivo particular: o de anular os efeitos da oração.



Isidor Kaufmann, “Dia da Expiação”, c.1907


   KOL NIDREI — Todos os votos, as proibições, os juramentos, os anátemas, as interdições, os empenhos e os compromissos que a nós mesmos impusermos, seja por voto solene, juramento, anátema ou auto-imposição a partir deste Yom Kippur até ao próximo Yom Kippur - que venha a nós em paz -, todos eles são declarados completamente nulos, não ocorridos e inexistentes. Nossos votos não são votos, nossos compromissos não são compromissos e nossos juramentos não são juramentos. 





Kol Nidrei, Cantor Azi Schwartz, Yom Kippur, 2016, Sinagoga de Park Avenue,
Nova Iorque.


     A melodia sublime do Kol Nidrei, provavelmente a mais célebre de todas as da liturgia judaica, inspirou compositores como Beethoven, onde a mesma é reconhecível no seu Quarteto de Cordas nº14, em Dó sustenido menor, ou Max Bruch que a transpôs para violoncelo e orquestra. Terminamos este artigo com o Kol Nidrei, Op.47, de Max Bruch, num concerto realizado no Vaticano, em memória das vítimas do Holocausto. 




Kol Nidrei para violoncelo e orquestra de Max Bruch.  Concerto em memória das vítimas do Holocausto. Vaticano, Roma,7 de Abril de 1994.


GMAR CHATIMAH TOVAH!

Artigo de
Sónia Craveiro
Muito obrigada

Fontes:

HERTZFELD, Arthur, JUDAÍSMO, O grande perdão (Yom Kippur), Editorial Verbo, 1981
https://fr.wikipedia.org/wiki/Proc%C3%A8s_du_Talmud
http://www.morasha.com.br/historia-judaica-na-antiguidade/a-queima-do-talmud.html http://www.jewishvirtuallibrary.org/oath-more-judaico-or-juramentum-judaeorum
http://en.wikipedia.org/wiki/Nahmanides
https://www.jewishhistory.org/the-early-geonic-period/



segunda-feira, 11 de junho de 2018

ABORTO





O DEBATE CONTINUA


CHAI - (Vida em hebraico)


     No pensamento judaico, a Lei Oral (Torah she’be’ al peh) encerra uma verdade fundamental: o significado do texto não nos é dado pelo próprio texto. Entre o texto e o seu significado encontra-se o acto da interpretação — dependendo de quem o interpreta, em que contexto, e aquilo em que acredita. Todavia sem uma interpretação autorizada pela tradição, a Lei Oral mergulharia no caos.

     Convém lembrar que no Judaísmo houve grupos sectários — saduceus, caraítas e outros — que aceitaram a Torah Escrita, mas não a Lei Oral, uma realidade que se verificaria insustentável. O Talmude da Babilónia demonstra-nos isto mesmo com elegância e humor. Conta-nos a história de um não-judeu que queria converter-se ao Judaísmo, dirigindo-se, para o efeito, ao grande sábio Hillel. Contudo, o candidato fez uma ressalva: «Converto-me na condição de aceitar a Lei Escrita, mas não a Oral.» Hillel não protestou e disse ao homem que o ensinava. 





      No primeiro dia Hillel ensinou-lhe as quatro primeiras letras do alfabeto hebraico: alef, bet, guimel, dalet. No segundo dia ensinou-lhe as mesmas letras, mas na ordem inversa: dalet, guimel, bet, alef. «Mas ontem», protestou o homem, «ensinou-me o contrário.» «Sabe», retorquiu Hillel, «tem de confiar em mim até para lhe ensinar o alfabeto. Tem de confiar em mim, também no que toca à Lei Oral.» (Shabbat 31a). Esta pequena história do Talmude vem lembrar-nos que sem um acordo de princípios não pode haver ensino, nem aprendizagem, nem autoridade, nem genuína comunicação.



Maimónides, Mishneh Torah, Sefer Mishpatim [O Livro do Código Civil], fol. 355v, volume 2, Lisboa, 1471-1472, British Library, Londres


    Em Êxodo 21:22-23 (Parashat Mishpatim) encontramos uma passagem que, embora não diga respeito ao aborto per se, descreve uma situação em que dois homens brigam e uma espectadora, uma mulher grávida, é atingida e em consequência dos ferimentos aborta. Qual o castigo adequado a semelhante caso? Eis o texto:

“Numa briga entre homens, se ferirem uma mulher grávida e for causa de aborto, mas não houver dano [asson] fatal, o culpado será obrigado a indemnizar aquilo que o marido dela exigir, e pagará o que os juízes decidirem. Mas se houver dano fatal, então pagará vida por vida, …”

     A palavra asson significa “prejuízo, maldade, calamidade, dano, desastre”. Jacob usa-a quando os filhos lhe dizem que o vice-rei do Egipto (José) insiste que no regresso levem com eles Benjamim, o irmão mais novo, se querem ser absolvidos do crime de espionagem. Com o desaparecimento de José, Benjamim é o único filho que resta a Jacob, da sua amada esposa Raquel (entretanto falecida). Jacob não autoriza a saída de Benjamim, dizendo: «Se levardes este também de junto de mim e lhe acontecer algum desastre (asson), de tanta dor, fareis descer minha velhice ao túmulo.» (Génesis 44:29)

     No Judaísmo, o significado da lei que decorre da luta entre os dois homens é a seguinte: se a mulher aborta, mas não sofre outras lesões, o culpado é obrigado a pagar uma indemnização pela criança não-nascida, não sofrendo outras penalidades. Mas se a mulher morre, a ofensa é considerada um dano fatal. (Em Sanhedrin 79a, os sábios discordam se deve, ou não, ser aplicada a pena capital.)

     Uma coisa, no entanto, é clara. Causar o aborto a uma mulher grávida— ser responsável pela morte de um feto — não é uma ofensa capital. Até ao nascimento, o feto não tem estatuto de pessoa.



Fílon de Alexandria. André Thévet: Les vrais pourtraits et vies des hommes 
illustres grecz, latins et payens (1584)


      Ao mesmo tempo que em Israel os sábios ensinavam esta lei, havia em Alexandria, no Egipto, uma comunidade judaica considerável. Uma passagem no Talmude descreve o esplendor da sinagoga daquela cidade. A comunidade judaica alexandrina, cujo membro mais famoso foi o filósofo Fílon (c.20 AEC-c.50 EC), estava profundamente helenizada; desenvolveu as suas próprias tradições, por vezes diferentes da norma rabínica. Fílon, num dos seus trabalhos, explica a passagem bíblica em questão a um público não-judeu, parafraseando-as nas seguintes palavras:

«Mas se alguém tiver uma disputa com uma mulher grávida, a ferir na barriga e ela abortar, se a criança que foi concebida nela ainda não está moldada e não formada, ele será punido com uma multa, tanto para o assalto que cometeu, mas também porque impediu a natureza, que estava a formar e a preparar a mais excelente de todas as criaturas, um ser humano, de a trazer para a existência. Mas se a criança que foi concebida assumiu uma forma distinta em todas as suas partes, tendo recebido todas as suas próprias qualidades conjuntivas e distintivas, ele morrerá. Para uma criatura como essa, é um ser humano quem ele matou enquanto ainda estava na oficina da natureza, que entendeu ainda não ser o momento adequado para o trazer à luz, mas o manteve como uma estátua pousada na oficina do escultor, nada mais exigindo além de ser lançado e enviado para o mundo.» (Leis Especiais, III: XIX)

     Fílon interpretou a palavra asson, não como “calamidade”, mas como “forma”. Isto altera completamente o sentido dos versículos bíblicos em causa. Em ambos os casos, Fílon refere-se exclusivamente ao feto, nunca à mulher. No primeiro caso “não há asson”, pois o feto ainda não estava “moldado”, por se encontrar numa fase precoce; o segundo caso fala de um feto “já com forma”, numa fase adiantada de gestação. Fílon é particularmente expressivo quando compara um feto desenvolvido a uma escultura acabada, mas que ainda não deixou a oficina do escultor. Segundo este ponto de vista, o feticídio — aborto — pode ser considerado um acto de homicídio.



Apóstolo João (esq.) e Márcion de Sinope (dir.), MS 748, Itália, 
séc. XI, Morgan Library, Nova Iorque


      A interpretação de Fílon, bem como o ponto de vista da generalidade da comunidade judaica alexandrina (certamente influenciados pela perspectiva aristotélica que faz a distinção entre o feto “inanimado” e o “animado”), viriam a desempenhar um papel importante na história religiosa do Ocidente. A vitória decisiva da Igreja Paulina sobre a Igreja de Jerusalém, liderada por Tiago, irmão de Jesus, significou que o Cristianismo se difundiu especialmente entre os gentios, e não tanto entre os judeus.

     É justamente em Alexandria que acontece a tradução da Bíblia Hebraica para o grego (conhecida por Septuaginta/Antigo Testamento). Assim, os primeiros textos cristãos, se bem que profundamente dependentes da Bíblia Hebraica, foram escritos em grego. De facto, a única tentativa séria para separar completamente o Cristianismo da Bíblia Hebraica foi da responsabilidade do Gnóstico Márcion (séc. II) que por esta razão seria condenado por heresia.

     Os cristãos estavam, portanto, dependentes das traduções da Bíblia Hebraica, e respectivos comentários, para o grego, que eram realizadas no seio da comunidade judaica alexandrina. Como resultado, no caso particular que toca ao ensino sobre o aborto, os cristãos primitivos seguiram o pensamento de Fílon, em detrimento de o dos Sábios de Israel.



Piero della Francesca, Santo Agostinho, séc. XV, MNAA, Lisboa


      A principal diferença era, como a colocou Santo Agostinho (354-430), entre embryo informatus e embryo format — o feto ainda por formar e o já formado. Se o feto já estava formado, com mais de 40 a 80 dias após a concepção (decorria uma discussão acerca do período devido), então causar a sua morte era considerado assassínio. Assim pensava o teólogo latino Tertuliano, do século II. A lei permaneceu deste modo até 1588, quando o Papa Sisto V decretou que o aborto em qualquer estágio era considerado crime capital. Esta lei seria revogada três anos mais tarde por Gregório XIV e reintroduzida por Pio IX, em 1869. O Papa Pio IX (responsável pelo dogma da Imaculada Conceição e pela infalibilidade papal) declarou que a vida começa no momento da concepção e que o aborto, em qualquer momento de gestação, é punível com a excomunhão. Esta proclamação tornou-se Lei Canónica da Igreja Católica.


QUANDO COMEÇA A VIDA?


      Na Lei Judaica o estatuto de pessoa resulta de uma consideração legal que estabelece uma distinção, sendo essa distinção o acto do nascimento, a separação física do bebé do corpo da mãe. No entanto, apesar do feto não ter estatuto de pessoa, é uma pessoa em potência, devendo por isso ser protegido. Precisamente porque não podemos determinar o exacto momento em que a vida começa, não devemos admitir o aborto em nenhum estágio de gestação. Todavia, numa situação excepcional em que se coloca o dilema de salvar a vida da mãe, ou a do feto, tem precedência a vida da mãe.


A Lei Judaica permite explicitamente o aborto?


     Sim, mas só em circunstâncias muito limitadas. A situação mais comum, descrita explicitamente na Mishnah, é quando a vida da mãe corre perigo em consequência da gravidez. Alguns consideram que neste caso, o aborto, não só é aconselhável, como é imperativo. Mas quando a cabeça do bebé emerge da mãe (algumas autoridades afirmam que deve ser a maioria do corpo, outras apenas um membro), a terminação da gravidez já não é permitida, pois a Lei Judaica não permite sacrificar uma vida para salvar outra. 

     De salientar que entre as autoridades ortodoxas há controvérsia quanto à permissibilidade do aborto. Ou seja, certas fontes rabínicas ortodoxas defendem o aborto quando a saúde da mãe está vulnerável, sem, no entanto, correr perigo de vida; quando comprovadamente o feto sofre de malformação severa; quando a saúde mental da mãe pode ser comprometida; ou quando a gravidez decorre de uma união sexual proibida. Deste modo, as autoridades rabínicas insistem que cada caso deve ser objecto de análise individual.

     Já o Movimento Masorti (Conservador nos EUA), decretou universalmente em 1983, a permissão do aborto nos casos em que a continuação da gravidez seja susceptível de causar à mãe graves danos físicos ou psicológicos, ou quando o feto for declarado severamente deficiente.

     O Movimento Reformista tem uma abordagem semelhante. Em 1985, o rabinato do movimento incluiu no bem-estar psicológico da mãe casos de violação ou de incesto, enfatizando a oposição ao aborto por razões triviais ou “a pedido”. Em conclusão, no Judaísmo, seja ele ortodoxo, conservador ou reformista, o debate à volta do aborto continua. Mas num ponto todas as correntes estão de acordo: o aborto “a pedido” é inconcebível. 



Este artigo é da inteira autoria de
Sónia Craveiro
 
Muito obrigada


Texto adaptado de “Abortion: The Debates Continues”, por Rabino Lord Sacks
http://www.jewishpress.com/in-print/from-the-paper/abortion-the-debate-continues/2018/02/08/
Outras Fontes:
https://www.firstthings.com/blogs/firstthoughts/2009/05/science-ethics-and-abortion-the-perspective-of-britaine28099s-chief-rabbi
https://embryo.asu.edu/pages/effraenatam-1588-pope-sixtus-v
https://embryo.asu.edu/pages/pope-gregory-xiv-1535-1591
https://embryo.asu.edu/pages/pope-pius-ix-1792-1878

terça-feira, 27 de março de 2018

domingo, 11 de fevereiro de 2018

“O Sacrifício de Isaac” II




“O Sacrifício de Isaac”
Akedat Yitzchak - Parte 2


William Blake, Abraão e Isaac (1799-1800), Yale Center for British Art, 
New Haven, Connecticut.


      Na piedade judaica a Akedah é o paradigma do martírio judaico; o povo judeu está pronto, em todos os tempos, a dar a vida pela santificação do divino nome (Kidush Ha-Shem). Os judeus, quando consideraram o motivo sacrificial para além dos limites do texto, fizeram-no como consolação à perseguição de que eram alvo, como defesa à insegurança, à catástrofe e à blasfémia. Em suma, fizeram-no para justificar o seu martírio.

     Contudo, de uma forma geral para os pensadores judeus a posição de Deus relativamente à Akedah está previamente definida: o sacrifício não realizado é reduzido a uma questão hipotética, um teste a que Abraão é submetido, não implicando Deus no acto ritual. Mas enquanto o Judaísmo lê a história como o drama de um homem religioso, o Cristianismo, além de o ler assim, implica Deus, o Próprio, no drama. Para os teólogos cristãos o sacrifício não realizado pressagia a Paixão, o sofrimento e a crucificação de Jesus, que define a natureza do Cristianismo.

     De acordo com Santo Agostinho, Isaac representa Jesus na sua disposição em se encaminhar para a morte, na forma como carrega a lenha para a pira, tal como Jesus carregou a cruz, e ainda na expectativa, atribuída a Abraão, da sua ressurreição. O cordeiro preso nos ramos de um arbusto simboliza a coroa de espinhos, adivinhando Jesus entregue ao suplício. 



Marc Chagall, Abraão e Isaac a caminho do lugar do sacrifício, 1931, 
Musée National Marc Chagall, Nice.


    Chagall, talvez o pintor judeu mais notável do século XX, é perturbador na forma sombria como trata a subida de Abraão e Isaac ao Monte Moriah. Ainda na escuridão da noite, Isaac carrega ao ombro um saco com a lenha para o seu sacrifício; ao seu lado Abraão segura uma faca na mão direita, e na esquerda uma vela que ilumina o caminho. A Akedah, tradicionalmente associada ao martírio judeu — o supremo acto de sacrifício e expressão de lealdade na Aliança com Deus —, é um tema recorrente na obra de Chagall.



Marc Chagall, O Sacrifício de Isaac, 1964-66, Musée National 
Marc Chagall, Nice.


       No seu quadro “O Sacrifício de Isaac”, em contraste com as cores sombrias da peça de 1931, Chagall emprega cores como o azul e o vermelho, com toques de dourado. Isaac é representado nu, com o corpo alongado, numa atitude passiva; Abraão, de faca em punho, é interrompido por um anjo; outro anjo (talvez o mesmo, segundos depois) aponta para o cordeiro enredado, não nos ramos de um arbusto, mas no tronco de uma árvore, evocando a verticalidade da madeira, tão central para a imaginação cristã; em cena de fundo há uma crucificação e figuras que choram o crucificado.

     Chagall usou a figura do crucificado pela primeira vez em 1908, sugestionado pela violência dos pogroms na sua Rússia natal. Mas é em 1938, depois da Kristallnacht, que surge a muito controversa “Crucificação Branca”.



Marc Chagall, Crucificação Branca, 1938, Art Institute of Chicago


     A obra representa Jesus, o Judeu, rodeado, à esquerda, de soldados comunistas que atormentam uma aldeia e, à direita, de nazis que incendeiam uma sinagoga. O Crucificado, coberto abaixo do ventre com um talit, ou xaile de oração, está içado no meio, vítima de ódios, à esquerda e à direita, de igual modo. Para Chagall, Jesus na cruz representa a situação de todos os judeus, humilhados, perseguidos, enfim, vilipendiados num mundo aparentemente esquecido de Deus.


Isaac ou Ismael?


Qesas-e Qor’ãn ou Qesas al-anbyiâ — “Histórias do Corão ou História dos profetas e dos reis do passado” (fol. 40), O Sacrifício de Abraão, c.1595, 
Qazvin, BNF, Paris


     Abraão (Ibrahim), «o amigo de Deus», ocupa um lugar importante no Corão. No Corão o episódio bíblico do Sacrifício do filho é mencionado, sem, no entanto, mencionar o nome de Isaac. Sujeito a longos debates entre os comentadores muçulmanos, a opinião dominante é que se trata de Ismael (o primogénito de Abraão e de Agar), a quem a tradição islâmica atribui a fundação do santuário de Caaba, em Meca, juntamente com seu pai.





     Esta pintura realizada na Corte *safávida de Qazvin pertence ao manuscrito da “História dos Profetas”, e é um exemplo do requinte e da riqueza das miniaturas devidas a vários artistas. A intensidade dramática da história é reforçada na expressão amargurada de Abraão que, contrariamente às convenções, encosta a faca ao seu ombro, como se quisesse virá-la para si mesmo; o olhar do filho é impassível, como que perdido algures, numa atitude de total obediência.


***
     Cada uma das três tradições — judaica, cristã e islâmica — faz uma leitura própria do Sacrifício de Isaac (ou Ismael para a maioria dos muçulmanos), desenvolvendo uma narrativa de acordo com a sua identidade particular. Mas há uma mensagem que é partilhada pelas três religiões: a fé de Abraão.


Lech Lechá (Vai por ti) — E o Eterno disse a Abrão: “Vai-te da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei. E farei de ti uma grande nação (…); e serão benditas em ti todas as famílias da terra.” (Génesis 12:1-3)


     Obedecendo a um comando de Deus, Abraão (ou Abrão, como então era chamado), com 75 anos de idade, parte para o desconhecido, deixando para trás as suas referências, a casa paterna e a sua terra natal. Ao não se comportar de uma determinada forma, porque era assim que as pessoas ao seu redor agiam, nem se conformar com os costumes do seu tempo, Abraão teve a audácia de ser diferente, de “estar de um lado, enquanto o resto do mundo estava do outro.” [1]

     Apesar das inseguranças, da velhice e de tantos outros obstáculos que pareciam tornar impossível a realização da promessa que Deus lhe fizera, Abraão seguiu corajosamente a sua jornada. A vida de Abraão foi longa e atribulada, mas sempre guiada pela voz de Deus. Talvez toda ela, e não apenas o episódio do Sacrifício de Isaac, seja um apelo para ouvirmos a voz de Deus, para O deixarmos entrar nas nossas vidas.



Este artigo foi uma oferta da,
Sónia Craveiro


Muito obrigada J


*Safávidas: dinastia muçulmana de obediência xiita que reinou no Irão de 1501 a 1786.
[1] Bereishit Rabbah 42:8

Fontes:

Bíblia Hebraica, Editora e Livraria Sêfer Ltda, São Paulo, Brasil, 2006
Livres de Parole, Torah, Bible, Coran, Bibliothèque Nationale de France, 2005

https://www.firstthings.com/article/2014/04/the-christ-of-marc-chagall
https://www.theway.org.uk/back/s097Mulrooney.pdf
http://shma.com/2011/09/the-binding-of-isaac-or-his-sacrifice-christian-and-jewish-perspectives/
http://rabbisacks.org/inner-directedness-lech-lecha-5778/