segunda-feira, 3 de abril de 2017

JERUSALÉM | III Parte




JERUSALÉM

Cidade Santa das Três Religiões Abraâmicas



Postal ilustrado comemorativo da festa anual de Chanukah e da libertação de Jerusalém pelo General Allenby, que coincidiram na data de 9 de Dezembro de 1917. (Judas Macabeu e General Allenby em Jerusalém. M. M. Harris, Chanukah. Cincinnati, Ohio, EUA)



      A 2 de Novembro de 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, foi emitida a Declaração Balfour, segundo a qual o governo britânico se comprometia a apoiar os representantes do movimento sionista na criação de um Lar Nacional Judeu na Palestina, caso a Grã-Bretanha conseguisse derrotar o Império Otomano (aliado da Alemanha), que à data dominava a região. A 9 de Dezembro de 1917 o general Allenby entrou em Jerusalém à frente das tropas britânicas, pondo termo a 400 anos de domínio otomano na Palestina.





General Allenby em Jerusalém – 11 de Dezembro de 1917


      Os britânicos, que governaram primeiro com um governo militar e a partir de 1920 até à independência de Israel em 1948, com um mandato de administração atribuído pela Liga das Nações, estabeleceram a sede administrativa do território em Jerusalém.

      Nos 30 anos que se seguiram Jerusalém conheceu um crescimento urbano exponencial, beneficiando de melhorias tecnológicas, tais como a electricidade ou a água canalizada, que se tornaram uma realidade em muitos lares. Ao mesmo tempo, a violência e o conflito germinavam na cidade. Duas forças opositoras nacionais colidiam nos seus interesses, o que veio a reflectir-se no futuro do território.  



Jerusalém. Soldados britânicos evacuam judeus da Cidade Velha durante os motins 
árabes, 1936 (Wikipedia)    



Jerusalém. Soldados britânicos escoltam um grupo de prisioneiros árabes na Cidade Velha, durante os motins contra a autoridade britânica, 1938 (Wikipedia)


      A revolta árabe contra a tutela britânica, que exigia a independência de uma Palestina árabe e o fim da imigração judaica, registou episódios de violência em 1920, 1921, 1929, 1935 e 1936-39. Em resposta ao terror árabe surgiram organizações judaicas paramilitares: a Haganah, precursora do Exército de Israel; a Etzel (Irgun Tzvai Leumi) e a Lehi, estas, duas organizações cujas actividades se caracterizaram pelo terrorismo. O ambiente de guerrilha que se vivia no território levou os britânicos a limitar a circulação em alguns sectores de Jerusalém, criando as “zonas de segurança”. Entretanto a população civil, quer árabe, quer judaica, vivia aterrorizada. A cada dia que passava, era maior o abismo entre as duas comunidades.



Retirada do Exército Turco, 9 de Dezembro de 1917, Jerusalém. Biblioteca da Universidade Monash, Melbourne, Austrália


      Para os britânicos Jerusalém era uma cidade especial; estavam familiarizados com o seu passado glorioso através da Bíblia e das lições de história. Mas a cidade que encontraram no Inverno de 1917 achava-se numa situação desesperada. A retirada do exército turco tinha levado as provisões mais básicas, como comida, combustível e medicamentos; muitas das tradicionais fontes de abastecimento de bens alimentares ficavam além das linhas de frente; as estradas estavam arruinadas e a quase totalidade das linhas ferroviárias tinha sido desmantelada; grande parte da população masculina tinha sido deslocada; os serviços sanitários tinham cessado e as epidemias pareciam inevitáveis. À situação já de si dramática, juntava-se a escassez de água.



Enforcamentos pelo exército turco junto à Porta de Jafa, Jerusalém, 1917


      Neste cenário devastador os habitantes de Jerusalém estavam felizes por se terem libertado dos abusos do exército turco, depositando grandes expectativas na chegada das tropas britânicas. Contudo, a má experiência recente com uma ocupação militar de grande escala era motivo de apreensão, nomeadamente quanto ao impacto no abastecimento de água e comida, já tão restritivo.



O Alto Comissário para a Palestina, Herbert Samuel (sentado ao centro) e o Governador de Jerusalém, Ronald Storrs (em pé, o quarto a contar da direita) recebem os representantes religiosos da cidade, depois de um serviço para comemorar a libertação britânica, 1924.


      Em 28 de Dezembro de 1917 Ronald Storrs foi designado governador militar de Jerusalém (mais tarde governador civil), em substituição do general Bill Borton que ocupou o cargo apenas durante algumas semanas. Storrs tinha pela frente uma tarefa gigantesca: impedir que a população morresse de fome, de desidratação, de epidemias e de frio. A primeira coisa que Storrs fez, com a assistência do general Allenby, comandante da Força Expedicionária Egípcia, foi importar 200 toneladas de trigo do Egipto. As linhas ferroviárias foram reparadas, transportando água para a cidade enquanto as condutas eram instaladas.


      Para além de abastecer a cidade de comida e impedir que a população morresse literalmente de fome, a administração britânica foi muito eficaz no domínio da saúde pública. Jerusalém já tinha muitos hospitais, mas a saúde pública, severamente afectada no período da Grande Guerra, enfrentava a possibilidade eminente de epidemias. A nova administração tomou várias medidas para corrigir a situação: removeu quantidades maciças de lixo; instalou caixotes de lixo públicos; toda a população foi vacinada contra a varíola; piscinas e cisternas foram cobertas com repelente de mosquitos, numa campanha bem-sucedida para erradicar a malária.  



Judeus de Bucara na Festa dos Tabernáculos (Sukkot) em Jerusalém, 1900-1920. American Colony (Jerusalem). Library of Congress, Washington D. C.


      A Revolução de Outubro, na distante Rússia, teve um impacto maior na vida de Jerusalém. Os residentes do influente e elegante Bairro de Bucara eram imigrantes abastados de Bucara, no Uzbequistão Russo, que dependiam essencialmente de negócios que mantinham na sua terra natal. A recém-formada União Soviética nacionalizou esses negócios, negando-lhes assim a sua fonte principal de rendimento. Durante a Primeira Guerra Mundial o exército turco ocupou diversos edifícios do bairro e abateu quase todas as árvores. Os dois factores juntos determinaram o rápido declínio do Bairro de Bucara.



Procissão de Páscoa do Patriarcado Grego Ortodoxo a entrar na Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalém, 1903. Underwood & Underwood, Londres


      O Patriarcado Grego Ortodoxo de Jerusalém tinha adquirido vastas propriedades, onde desenvolvia projectos de construção financiados pelo Governo Russo Czarista (o Czar via-se a si próprio como protector e benfeitor de todos os cristãos ortodoxos). A suspensão de fundos que se verificou devido à I Guerra Mundial, depois tornada permanente pela Revolução de Outubro, mergulhou o Patriarcado Grego numa crise profunda. De forma a aliviar as pesadas dívidas, foram vendidos muitos lotes de terreno que viriam a constituir as bases da expansão urbanística de Jerusalém daquele tempo.



  “Complexo Russo” em Jerusalém, 1863


      O “Complexo Russo”, que abrangia uma área de 17 hectares na parte central de Jerusalém, era composto pela Catedral Russa Ortodoxa da Santa Trindade e por um conjunto de edifícios que serviam como albergues a milhares de peregrinos russos ortodoxos, desde a sua criação em 1860. A mudança de regime na Rússia estancou o fluxo de peregrinos e de meios para manter o “Complexo”. Vários edifícios foram arrendados às autoridades britânicas, onde foram instaladas esquadras de polícia, tribunais e uma prisão.



O Patriarca de Jerusalém junto à Catedral Russa Ortodoxa da Santa Trindade, 
“Complexo Russo”, Jerusalém


      A mudança de regime na Rússia também gerou conflitos no que toca ao direito de propriedade da Igreja Russa Ortodoxa em Jerusalém, dividindo-se esta em duas facções: a Igreja “Vermelha”, que se identificava com os comunistas e a Igreja “Branca”, que se mantinha fiel aos familiares do czar no exílio. Cada uma das facções reclamava o direito de propriedade das várias igrejas e mosteiros russos, em Jerusalém. A disputa seria resolvida na década de 1950 pelo governo de Israel, que comprou a maior parte do “Complexo”.



Casa Bonem – Beit Bonem, Rehaviah, Jerusalém.


      Nos anos 1920 os jerosolimitanos mais abastados, querendo melhorar a sua qualidade de vida, adoptaram um estilo de bairro desenvolvido à maneira inglesa, conhecido por “Garden Suburb”. A filosofia do “Garden Suburb” consistia em criar uma moradia unifamiliar rodeada de jardins; as ruas seriam cuidadosamente planeadas, com alamedas arborizadas. Rehaviah (como o nome de um dos netos de Moisés (1 Crónicas 23:17), é um dos bairros ajardinados dos subúrbios de Jerusalém e foi construído em terrenos comprados ao Patriarcado Grego Ortodoxo.

      Nos anos 30, com a chegada de Hitler ao poder, deu-se uma vaga de emigração judaica da Alemanha para a Palestina, da qual faziam parte arquitectos proeminentes. Esses arquitectos, que tinham sido influenciados pela Escola Bauhaus, produziram exemplos Bauhaus de excelência, como a casa do Dr. Bonem em Rehaviah, construída em 1935-36 pelo arquitecto/artista Leopold Krakauer.



Casa Francis – Beit Francis, Bakah, Jerusalém. Fotógrafo: Shmuel Bar-Am 


      Bakah, actualmente um dos “Garden Suburbs” de Jerusalém, nasceu ainda nos finais do século XIX, junto à antiga estação de caminhos-de-ferro que ligava Jerusalém a Jafa. É desse período uma das casas mais carismáticas de Bakah; construída para a família Francis, uma família cristã árabe, a Casa Francis, com os seus arcos largos, era originalmente térrea. Os andares superiores foram acrescentados em 1920.



Nova Sede dos Correios, Jerusalém, 1938. Matson Photo Service


      Os britânicos, reconhecendo a necessidade de Jerusalém preservar o seu carácter único, a nível paisagístico, histórico e cultural, pretendiam ao mesmo tempo transformá-la numa cidade moderna. Nesse âmbito, Ronald Storrs publicou uma lei determinando que toda a construção da cidade teria de usar “a pedra nativa de Jerusalém” (pedra usada em construções como o Muro das Lamentações). Esta lei, ainda em vigor, tem salvaguardado a beleza única da cidade. Um dos melhores exemplos desta determinação britânica é o edifício da Nova Sede dos Correios de Jerusalém, do arquitecto Austen St. Barbe Harrison, inaugurado em 1938.



Monte Scopus. (Vista do deserto da Judeia, do Mar Morto e dos Montes Moab). Cerimónia de Inauguração da Universidade Hebraica de Jerusalém. 1 de Abril de 1925. Álbum Mizpah.


      Em 1914 a Organização Mundial Sionista comprou uma propriedade de Sir John Gray Hill, no Monte Scopus em Jerusalém, com o propósito de aí construir uma universidade. A Universidade Hebraica de Jerusalém foi inaugurada a 1 de Abril de 1925. Ao tempo tinha apenas um edifício: a Escola de Química e Instituto de Microbiologia Dr. Chaim Weizman. No primeiro ano a instituição acolhia 164 estudantes e tinha uma colecção de 82 500 livros. Para os judeus, a nova universidade, além de ser uma instituição de ensino superior, tornou-se num símbolo de progresso e renascimento de um povo.



Jerusalém, Palace Hotel, c. 1930 (Wikipedia)



Waldorf Astoria Jerusalem (antigo Palace Hotel) Pormenor da fachada com versos do Corão
(clique na imagem para aumentar)


      No lado ocidental da cidade foram construídos hotéis de luxo, respondendo assim às exigências dos novos tempos. O Palace Hotel, com projecto do arquitecto turco Nahas Bey, foi construído em 1928-29 por iniciativa do Supremo Conselho Muçulmano de Jerusalém. Como veio a verificar-se, o Palace não foi financeiramente viável; terminada a sua carreira como hotel, o edifício passou a alojar escritórios da administração britânica. Em 1948, com a fundação do Estado de Israel, foi sede do Ministério da Indústria e do Comércio. Depois de um percurso muito atribulado, em 2006 foi comprado pela família Reichman, do Canadá. Hoje, primorosamente restaurado, é o Waldorf Astoria Jerusalem.



King David Hotel, Jerusalem. Matson Photograph Collection, 1931. 
Library of Congress, Washington, D. C.



Hotel David depois do atentado bombista executado pelo Irgun. 
Fotografia publicada no Jerusalem Post, Julho de 1946


      A Palestine Hotel Company, uma empresa com capital da família Mosseri (banqueiros judeus egípcios), comprou lotes de terreno ao Patriarcado Grego Ortodoxo, com a finalidade de construir um grande hotel de luxo em Jerusalém. O King David Hotel, com projecto do arquitecto suíço Emil Vogt, abriu em 1931.


      Durante os motins árabes de 1936-39, o exército britânico arrendou o último andar do hotel, onde passou a funcionar um quartel general de emergência. Mais tarde, toda a ala sul foi transformada no centro militar e administrativo britânico da Palestina. Em Julho de 1946, uma bomba colocada na cozinha pelo Irgun, matou 91 pessoas, feriu 46, destruindo a ala sul do edifício. Em 1967, depois da reunificação de Jerusalém, a nova gerência reabilitou o hotel e acrescentou-lhe dois andares. Desde então, o King David Hotel tem recebido muitas personalidades ilustres.



YMCA, Jerusalém, c. 1933. Colecção Particular


      Em 1924, contribuições do filantropo James Jarvie de Nova Jérsia, da YMCA americana e britânica e da Comunidade Judaica de Manchester, tornaram possível a aquisição de terrenos ao Patriarcado Grego Ortodoxo, com o fim de construir um centro YMCA. Inaugurado em 1933, o centro está dividido em três unidades: secção principal, com hotel e instalações para actividades educativas, auditório e uma ala desportiva. O projecto tem assinatura de Arthur Louis Harmon, o mesmo arquitecto do Empire State Building em Nova Iorque.



As 40 colunas do pátio...




 ...e os 12 ciprestes do jardim do Hotel YMCA, em Jerusalém


      O edifício foi concebido de maneira a transmitir uma atmosfera onde as três religiões abraâmicas pudessem encontrar expressão. Deste modo, as 40 colunas do pátio representam, tanto os 40 anos em que os israelitas vaguearam pelo deserto antes de entrarem na Terra Prometida, como os 40 dias da tentação de Jesus. No jardim foram plantados 12 ciprestes, simbolizando as 12 tribos israelitas, os 12 discípulos de Jesus e os 12 seguidores de Maomé.



Sarcófagos, cemitério de Deir el-Balah, Idade do Bronze, séc. XIX-XIII AEC; o Grande Rolo de Isaías, Qumram, século I AEC; Estátua do imperador Adriano, Campo da Sexta Legião, Tel Shalem, Vale Beth Shean, período romano, 117-138 EC. Museu Arqueológico Rockefeller, Jerusalém, Israel



      A intensa actividade arqueológica na Terra Santa nas primeiras décadas do século XX, despoletou a necessidade de ter um foro digno onde armazenar e exibir os achados. O filantropo americano John D. Rockefeller (um cristão devoto), doou 2 milhões de dólares para construir, equipar e manter um museu com esse fim. Rockefeller estipulou que as exibições do museu deveriam mostrar o papel desempenhado pelos povos da Terra Santa na história do mundo.



Museu Arqueológico Rockefeller, Pátio Interior, Jerusalém, Israel


      O Museu Arqueológico Rockefeller, cujo projecto foi confiado ao arquitecto Austen ST. Barbe Harrison, foi inaugurado em 1938 e integra o Museu de Israel desde 1968. Da sua colecção fazem parte milhares de artefactos, que vão desde os tempos pré-históricos até ao período otomano. Entre os seus tesouros encontram-se os Manuscritos do Mar Morto.



Os últimos soldados britânicos do Mandato Britânico para a Palestina descem a sua bandeira, Porto de Haifa, Junho de 1948 (AFP/Getty)


      O Mandato Britânico para a Palestina terminou a 14 de Maio de 1948. Nas ruas da Cidade Velha ouviram-se as gaitas de foles anunciando a partida dos soldados britânicos. Das janelas e na soleira das sinagogas, anciãos de longa barba observavam o desfile. Desde há três mil anos que os seus antepassados testemunhavam a partida de muitos outros ocupantes: assírios, babilónios, persas, gregos, romanos, cruzados, árabes e turcos. Desta vez, cabia aos militares britânicos deixarem Jerusalém.



Este artigo é da autoria de:
Sónia Craveiro


Muito obrigada J


Fontes:

LAPIERRE, Dominique, COLINS, Larry, Oh Jerusalém, Bertand Editora
INGEBORG RENNERT CENTER FOR JERUSALEM STUDIES - Bar-Ilan University - Ramat-Gan, Israel -


sexta-feira, 24 de março de 2017

Cartas de Lisboa | Lições sobre Angariação de Fundos




Vayakhel - Pekudei



A nossa Parashá começa com Moisés a instruir o Povo Judeu sobre os materiais necessários para a construção do Mishkan, o Tabernáculo. No entanto, antes de Moisés começar a listar os itens necessários e ele mais uma vez fala ao Povo Judeu sobre a importância do Shabat. Por que é que a Torá menciona novamente o Shabat, no que parece estar completamente fora do contexto?



O Rabino Isaque Caro, que serviu como Rosh Yeshiva, diretor da Academia de Torah em Lisboa no final do Séc. XV dá-nos a sua perspectiva sobre esta questão. A sua explicação, também serve como uma visão geral sobre doações e angariação de fundos para algo sagrado e especial.



Escreve o Rabino Caro, "Sempre que uma doação é feita, há sempre a necessidade de um prefácio, para mencionar o que é verdadeiramente e em última análise mais importante para nós. A nossa verdadeira fonte de apoio não são as nossas posses, mas sim Avodat Hashem, o nosso relacionamento com D-us ".


 Para uma pessoa abdicar de algo que é seu, parte das suas posses e pertences, é necessário uma razão para tal. Que maior lembrete existe sobre valores e prioridades do que o Shabat? O Shabat é uma vez por semana, um lembrete constante para permitir reconhecer e reorientar as nossas prioridades.

O Shabat inevitavelmente faz-nos perceber que o sucesso e conquistas dos seis dias úteis são as nossas únicas ferramentas e meios de nos ajudar a alcançar os nossos objectivos, mas não são o objectivo em si. Com esta introdução, pedir que as pessoas tenham "coração generoso" para contribuir da sua riqueza material para a construção do Mishkan, torna-se natural e instintivo.



Pintura de Elena Kotliarker


É por isso que o Shabat é mais uma vez mencionado. O Shabat não é apenas o nosso dia de descanso, mas também o dia que nos ajuda a equilibrar a nossa ambição e o nosso comportamento.

Shabat Shalom!
Cortesia do Rabino
 Eli Rosenfeld
chabadportugal.com

sexta-feira, 17 de março de 2017

Cartas de Lisboa | O Descanso de Shabat



Ki-Tisa

Na Parashá desta semana encontramos um versículo que nos lembra a observância do Shabat, o nosso dia de descanso. "Fala aos filhos de Israel e diz: 'Guardai os meus Sábados! Porque é um sinal entre Mim e vós. "(Shemot 31:12)
Muitos dos comentaristas perguntam-se se este verso é mesmo necessário, já que a Mitsvá do Shabat já foi discutida extensivamente anteriormente. Porquê uma nova menção deste dia especial?
 Dom Abarbanel no seu comentário à Parashá oferece uma análise profunda do que representa o Shabat e por que é tão importante mencioná-lo mais uma vez.

O contexto geral desta menção do Shabat na nossa Parashá, vem a seguir ao mandamento de construir o Mishcan, o Tabernáculo. Visto a esta luz, a necessidade de reiterar o mandamento do Shabat torna-se clara. É este projeto que prepara o caminho para o que viria a ser o Beit Hamikdash, o Santo Templo, o nosso mais sagrado espaço físico.

Enquanto Shabat nos lembra dos seis dias da criação, o seu método de observância é através do repouso, não através da acção. É essa tensão, diz Dom Abarbanel que o versículo vem esclarecer.

Geralmente, diz Dom Abarbanel, a conclusão de todas as ideias é através de sua atualização, quando uma ideia ou conceito se torna tangível e real. A acção sempre parece ser mais eficaz do que a falta dela. Poder-se-ia pensar, portanto, que a observância do Shabat, que é meramente descanso (ausência e contenção), talvez seja menos uma expressão activa do nosso relacionamento com D-us, do que construir a localização mais sagrada da Terra.




É por isso, diz Dom Abarbanel, que a Torá nos lembra que a nossa confiança em D-us, é expressa por vezes através da criatividade e da acção, e outras vezes fazendo o contrário, não agindo.


 Isto é o que a menção do Shabat na nossa Parsha nos ensina, que D-us quer que a nossa fé e confiança Nele sejam exibidas mesmo em comportamentos que possam parecer contra-intuitivos. Isso lembra-nos que a nossa relação e 

fé em D-us engloba todos os aspectos da nossa existência. Tanto em tempos de expansão e criatividade como em momentos de introspecção e contenção.


Shabat Shalom!
Cortesia do Rabino
Eli Rosenfeld
chabadportugal.com




1ª Pintura é de Boris Dubrov

Restantes pinturas são de Alex Levin

quarta-feira, 15 de março de 2017

Raizes na Pedra




Também na pedra, o homem 
deixa raízes.



Placa de mármore, encontrada em 2011, numa Vila Romana, perto de
 S. Bartolomeu de Messines.



Dessas raízes levanta-se a árvore que de folha em folha conta a sua vida, o seu tempo, a sua história. Olhando-a a nós próprios nos vemos, num passado que faz o nosso presente e traça o nosso futuro.

A data provável da mesma é de 390,final do séc. IV e nela se destaca o nome de Yehiel, nome que aparece frequentemente referenciado nos livros hebraicos.
De acordo com os peritos podemos ainda ler "O Judeu é abençoado por D.S"

A questão que se levanta é de saber qual a relação da pessoa a quem este nome pertencia com a Vila Romana. Proprietário? Escravo?

Podemos então dizer que nos fins do séc. IV foi dada sepultura a um Judeu no espaço futuramente português.

Esta placa de dois metros de largura parece ser uma laje de sepultura e foi encontrada por uma equipa de arqueólogos alemães dirigida por Friederich Schiller, numa camada de entulho e de pedras.

Quando terão chegado? O momento da sua vinda tem sido incansavelmente estudado.
Com os Fenícios? No tempo da destruição do 1º Templo com Nabucodonosor? Depois da vitória do General Tito? Quando o Imperador Adriano arrasa Jerusalém? Como teriam vindo? Atravessando o Mediterrâneo? Por caminhos terrestres?


Uma outra lápide de mármore foi encontrada no cemitério paleo-cristão de Mértola e guardada no Museu desta cidade.


O epitáfio escrito em latim e está incompleto. Algumas indicações nos dá… “Despediu-se da vida em paz" e a data da sua morte: no quarto dia das Nonas de Outubro de 520. Ou seja no dia 4 de Outubro de 482. A acompanhar as palavras e a data um menorah, símbolo do Judaísmo.




Encontra-os D. Afonso Henriques, em Santarém, quando conquista a cidade. Dedicavam-se maioritariamente a actividades artesanais, comerciais e intelectuais.

O seu grão-rabino, Yahia ben Yahia, foi escolhido pelo nosso primeiro rei como homem da sua confiança com funções comparáveis às de ministro de Finanças.

No que diz respeito à Sinagoga terá sido uma das mais antigas no que hoje é território português, dado que aparece já referida em 1095, no Foral que D. Afonso VI de Leão outorga a esta cidade. Dela conhecemos apenas a sua localização junto à extremidade oriental de S. João de Alpram.



O mesmo não acontece relativamente às fundações das Sinagogas da Judiaria Velha no tempo de D. Dinis e da Sinagoga de Monchique, no Porto, no tempo de D. Fernando.



Lápide em pedra de calcário da Sinagoga Grande de Lisboa, mandada construir por Judá, filho de Guedelha, no tempo de D. Dinis, primeira década do sec. XIV.




Foi encontrada após o terramoto de 1755, em Lisboa e encontra-se hoje na Sinagoga-Museu Luso-Hebraico de Abraão Zacuto, em Tomar.

De acordo com a tradução do texto:


"Esta é a porta do Senhor pela qual os justos entrarão. Entrai pelas suas portas com graças e em seus átrios com louvor. Vós que ides no caminho do Senhor acorrei à casa de culto. Três vezes por dia vinde a suas portas em acção de graças. E tomai nas vossas mãos cítaras e cantai um cântico de graças. Edifício formoso e belo construiu Guedaliah que tem o seu assento nas Assembleias do Justos e da Congregação. Ao nome do Senhor levantou esta obra magnífica. E acabou a obra do nosso D.S no primeiro dia do nosso famoso Atanim no ano de cinco mil e sessenta e sete do nosso cômputo."

Inscrição hebraica que pertenceu à Sinagoga de Monchique no Porto, erguida no tempo de D. Fernando, sob a orientação do Rabi-mor, D. Judá Aben Menir.




Lápide da Sinagoga de Monchique, no Porto.



Nela consta o nome do arquitecto que a desenhou e construiu: José ben Arieh. Guardada, hoje, no interior do Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa.

Diz o texto hebraico nas oito linhas traduzidas para português:

1 - “Quem disser “como não foi resguardado o edifício nomeado por meio dum muro”, 2 - acaso não saberá que eu tenho um familiar que conhece altas personagens, 3 - que me guarda? Acaso não dirá: “Ágil e ardoroso, eu sou um muro”? 4 - O mais nobre dos judeus, o mais forte dos exércitos, ei-lo firme na coluna dos príncipes! 5 - Bom protector do seu povo, serve a Deus com a sua integridade; construiu uma casa ao Seu Nome, de pedras aparelhadas. 6 - Segundo depois do rei, à cabeça é contado em grandeza e na presença dos reis tem assento. 7 - É ele o rabino Dom Judá ben Maneyir, luz de Judá, e a ele pertence a beleza da autoridade. 8 - Por ordem do rabino, que viva, Dom José ben Arieh, intendente, encarregado da obra).




Lápide hebraica guardada no Espaço " Arte e Memória" de Gouveia..



O processo da Inquisição de Lisboa relativo a João Lopes, mercador, Cristão-Novo de Gouveia, indica-nos que os Judeus se tinham localizado, em redor da Igreja de S. Pedro, habitando aquele uma casa defronte do Templo. Constava que ele era Rabi dos Cristãos-Novos e a sua casa Sinagoga. O denunciante Aires Pinto, Cristão-Velho, acrescentava que na casa de João Lopes existia uma inscrição que parecia ser em hebraico:


"A glória desta última casa será maior do que a primeira, diz o Senhor dos Exércitos. Concluída a casa da nossa santificação e da nossa glória, no ano de 5257. E os resgatados do Senhor voltarão e virão para Sião em alegria."


Este trabalho foi realizado na integra pela minha querida amiga,

Dora Caeiro


Muito obrigada J