A nossa Parashá começa com
Moisés a instruir o Povo Judeu sobre os materiais necessários para a construção
do Mishkan, o Tabernáculo. No entanto, antes de Moisés começar a listar os
itens necessários e ele mais uma vez fala ao Povo Judeu sobre a importância do
Shabat. Por que é que a Torá menciona novamente o Shabat, no que parece estar
completamente fora do contexto?
O Rabino Isaque Caro, que
serviu como Rosh Yeshiva, diretor da Academia de Torah em Lisboa no final do
Séc. XV dá-nos a sua perspectiva sobre esta questão. A sua explicação, também
serve como uma visão geral sobre doações e angariação de fundos para algo
sagrado e especial.
Escreve o Rabino Caro,
"Sempre que uma doação é feita, há sempre a necessidade de um prefácio,
para mencionar o que é verdadeiramente e em última análise mais importante para
nós. A nossa verdadeira fonte de apoio não são as nossas posses, mas sim Avodat
Hashem, o nosso relacionamento com D-us ".
Para uma pessoa abdicar de
algo que é seu, parte das suas posses e pertences, é necessário uma razão para
tal. Que maior lembrete existe sobre valores e prioridades do que o Shabat? O
Shabat é uma vez por semana, um lembrete constante para permitir reconhecer e
reorientar as nossas prioridades.
O Shabat inevitavelmente
faz-nos perceber que o sucesso e conquistas dos seis dias úteis são as nossas
únicas ferramentas e meios de nos ajudar a alcançar os nossos objectivos, mas
não são o objectivo em si. Com esta introdução, pedir que as pessoas tenham
"coração generoso" para contribuir da sua riqueza material para a
construção do Mishkan, torna-se natural e instintivo.
Pintura de Elena Kotliarker
É por isso que o Shabat é
mais uma vez mencionado. O Shabat não é apenas o nosso dia de descanso, mas
também o dia que nos ajuda a equilibrar a nossa ambição e o nosso comportamento.
Na Parashá desta semana encontramos um versículo que nos
lembra a observância do Shabat, o nosso dia de descanso. "Fala aos filhos
de Israel e diz: 'Guardai os meus Sábados! Porque é um sinal entre Mim e vós.
"(Shemot 31:12)
Muitos dos comentaristas perguntam-se se este verso é mesmo
necessário, já que a Mitsvá do Shabat já foi discutida extensivamente
anteriormente. Porquê uma nova menção deste dia especial?
Dom Abarbanel no seu comentário à Parashá oferece uma
análise profunda do que representa o Shabat e por que é tão importante mencioná-lo
mais uma vez.
O contexto geral desta menção do Shabat
na nossa Parashá, vem a seguir ao mandamento de construir o Mishcan, o
Tabernáculo. Visto a esta luz, a necessidade de reiterar o mandamento do Shabat
torna-se clara. É este projeto que prepara o caminho para o que viria a ser o
Beit Hamikdash, o Santo Templo, o nosso mais sagrado espaço físico.
Enquanto Shabat nos lembra dos seis dias
da criação, o seu método de observância é através do repouso, não através da
acção. É essa tensão, diz Dom Abarbanel que o versículo vem esclarecer.
Geralmente, diz Dom Abarbanel, a
conclusão de todas as ideias é através de sua atualização, quando uma ideia ou
conceito se torna tangível e real. A acção sempre parece ser mais eficaz do que
a falta dela. Poder-se-ia pensar, portanto, que a observância do Shabat, que é
meramente descanso (ausência e contenção), talvez seja menos uma expressão
activa do nosso relacionamento com D-us, do que construir a localização mais
sagrada da Terra.
É por isso, diz Dom Abarbanel, que a
Torá nos lembra que a nossa confiança em D-us, é expressa por vezes através da
criatividade e da acção, e outras vezes fazendo o contrário, não agindo.
Isto é o que a menção do Shabat na nossa
Parsha nos ensina, que D-us quer que a nossa fé e confiança Nele sejam exibidas
mesmo em comportamentos que possam parecer contra-intuitivos. Isso lembra-nos
que a nossa relação e
fé em D-us engloba todos os aspectos da nossa existência. Tanto em tempos de expansão e criatividade como em momentos de introspecção e
contenção.
Placa de
mármore, encontrada em 2011, numa Vila Romana, perto de
S. Bartolomeu de
Messines.
Dessas raízes levanta-se a árvore que de folha em folha
conta a sua vida, o seu tempo, a sua história. Olhando-a a nós próprios nos
vemos, num passado que faz o nosso presente e traça o nosso futuro.
A data provável da mesma é de 390,final do séc. IV e nela
se destaca o nome de Yehiel, nome que aparece frequentemente referenciado nos
livros hebraicos.
De acordo com os peritos podemos ainda ler "O Judeu é
abençoado por D.S"
A questão que se levanta é de saber qual a relação da
pessoa a quem este nome pertencia com a Vila Romana. Proprietário? Escravo?
Podemos então dizer que nos fins do séc. IV foi dada
sepultura a um Judeu no espaço futuramente português.
Esta placa de dois metros de largura parece ser uma laje de
sepultura e foi encontrada por uma equipa de arqueólogos alemães dirigida por
Friederich Schiller, numa camada de entulho e de pedras.
Quando terão chegado? O momento da sua vinda tem sido incansavelmente estudado.
Com os Fenícios? No tempo da destruição do 1º Templo com
Nabucodonosor? Depois da vitória do General Tito? Quando o Imperador
Adriano arrasa Jerusalém? Como teriam vindo? Atravessando o Mediterrâneo? Por
caminhos terrestres?
Uma outra lápide
de mármore foi encontrada no cemitério paleo-cristão de Mértola e guardada no
Museu desta cidade.
O epitáfio escrito em latim e
está incompleto. Algumas indicações nos dá… “Despediu-se da vida em paz" e
a data da sua morte: no quarto dia das Nonas de Outubro de 520. Ou seja no dia
4 de Outubro de 482. A acompanhar as palavras e a data um menorah, símbolo do
Judaísmo.
Encontra-os D. Afonso Henriques, em Santarém, quando
conquista a cidade. Dedicavam-se maioritariamente a actividades artesanais,
comerciais e intelectuais.
O seu grão-rabino, Yahia ben Yahia, foi escolhido pelo
nosso primeiro rei como homem da sua confiança com funções comparáveis às de
ministro de Finanças.
No que diz respeito à Sinagoga terá sido uma das mais
antigas no que hoje é território português, dado que aparece já referida em
1095, no Foral que D. Afonso VI de Leão outorga a esta cidade. Dela conhecemos
apenas a sua localização junto à extremidade oriental de S. João de Alpram.
O mesmo não
acontece relativamente às fundações das Sinagogas da Judiaria Velha no tempo de
D. Dinis e da Sinagoga de Monchique, no Porto, no tempo de D. Fernando.
Lápide em pedra de calcário da
Sinagoga Grande de Lisboa, mandada construir por Judá, filho de Guedelha, no
tempo de D. Dinis, primeira década do sec. XIV.
Foi
encontrada após o terramoto de 1755, em Lisboa e encontra-se hoje na
Sinagoga-Museu Luso-Hebraico de Abraão Zacuto, em Tomar.
De acordo
com a tradução do texto:
"Esta é a porta do Senhor
pela qual os justos entrarão. Entrai pelas suas portas com
graças e em seus átrios com louvor. Vós que ides no caminho do
Senhor acorrei à casa de culto. Três vezes por dia vinde a suas
portas em acção de graças. E tomai nas vossas mãos cítaras
e cantai um cântico de graças. Edifício formoso e belo
construiu Guedaliah que tem o seu assento nas Assembleias do Justos e da
Congregação. Ao nome do Senhor levantou esta
obra magnífica. E acabou a obra do nosso D.S no
primeiro dia do nosso famoso Atanim no ano de cinco mil e sessenta e sete do
nosso cômputo."
Inscrição
hebraica que pertenceu à Sinagoga de Monchique no Porto, erguida no tempo de D.
Fernando, sob a orientação do Rabi-mor, D. Judá Aben Menir.
Lápide da Sinagoga de Monchique,
no Porto.
Nela consta o nome do arquitecto que a desenhou e
construiu: José ben Arieh. Guardada, hoje, no interior do Museu Arqueológico do
Carmo, em Lisboa.
Diz o texto hebraico nas oito linhas traduzidas para
português:
1 - “Quem disser “como não foi resguardado o edifício
nomeado por meio dum muro”, 2 - acaso não saberá que eu tenho um familiar que
conhece altas personagens, 3 - que me guarda? Acaso não dirá: “Ágil e ardoroso,
eu sou um muro”? 4 - O mais nobre dos judeus, o mais forte dos exércitos, ei-lo
firme na coluna dos príncipes! 5 - Bom protector do seu povo, serve a Deus com
a sua integridade; construiu uma casa ao Seu Nome, de pedras aparelhadas. 6 -
Segundo depois do rei, à cabeça é contado em grandeza e na presença dos reis
tem assento. 7 - É ele o rabino Dom Judá ben Maneyir, luz de Judá, e a ele
pertence a beleza da autoridade. 8 - Por ordem do rabino, que viva, Dom José
ben Arieh, intendente, encarregado da obra).
Lápide hebraica guardada no
Espaço " Arte e Memória" de Gouveia..
O processo da Inquisição de Lisboa relativo a João Lopes,
mercador, Cristão-Novo de Gouveia, indica-nos que os Judeus se tinham
localizado, em redor da Igreja de S. Pedro, habitando aquele uma casa defronte
do Templo. Constava que ele era Rabi dos Cristãos-Novos e a sua casa Sinagoga.
O denunciante Aires Pinto, Cristão-Velho, acrescentava que na casa de João
Lopes existia uma inscrição que parecia ser em hebraico:
"A glória desta última casa
será maior do que a primeira, diz o Senhor dos Exércitos. Concluída a casa da
nossa santificação e da nossa glória, no ano de 5257. E os resgatados do Senhor
voltarão e virão para Sião em alegria."
Este trabalho foi realizado na
integra pela minha querida amiga,
A Parashá desta semana abre com as instruções de D-us a
Moisés a respeito da Mitsvá de construir o Mishcan. O Mishcan, ou Tabernáculo,
era a estrutura temporária que serviu como precursor do Templo em Jerusalém.
Antes de receber a lista detalhada de todos os pormenores
que seriam úteis na construção do Mishkan, há uma instrução geral. "Fala
aos filhos de Israel, e faz com que eles tomem para Mim uma oferta, de cada
pessoa cujo coração o inspira à generosidade" (Shemot 25: 2)
O Rabino Avraham Saba questiona a escolha de palavras da
Torá.
Por que é que a Torá usa a palavra "tomar" quando
as pessoas estão de facto a ser convidadas a "dar"?
A resposta, diz o Rabino Saba, é uma lição geral para nós
sobre Torá e Tzedaká, a perspectiva Judaica sobre filantropia.
A primeira coisa a reconhecer, é que o que temos e o que
temos acumulado, vem de (e, portanto, pertence a) D-us.
Como escreve o Rei Davi em Tehilim: "A terra e tudo
quanto nela existe é do Senhor" (Tehilim 24:1)
Devemos reconhecer, diz o Rabino Saba, que somos meramente
guardiões dos nossos recursos. Estamos encarregados do seu uso para garantir
que qualquer pessoa em necessidade é ajudada. Devemos reconhecer que o que cada
um de nós possui é verdadeiramente devido às bênçãos recebidas de D-us.
É por isso que, diz o Rabino Saba, neste caso o versículo
usa a palavra "tomar" e não "dar". Tudo neste mundo que nós
acumulamos não é verdadeiramente para nós mesmos ou mesmo o nosso. Apenas tem a
aparência de o ser.
A única coisa que podemos tomar, e verdadeiramente possuir
para a eternidade, é o que damos. Ao dedicar algo a um propósito que nos
transcende ou uma boa acção ou Mitsvá, esses sim são actos de aquisição. Esses
actos de bondade, de Tzedaká e Torá tornam-se uma parte de nós para sempre.
Vista de Jerusalém, Braun & Hogenberg, Civitates Orbis Terrarum, 1582, Colónia
No seguimento da conquista otomana de 1517, a Palestina foi dividida em quatro distritos agregados a Damasco e governados a partir de Istambul (antiga Constantinopla). No dealbar da era otomana, estima-se em 1000, o número de famílias judias a viver no território, principalmente em Jerusalém, Nablus (Shechem), Hebron, Gaza, Safed e Galileia. A comunidade era composta de descendentes de judeus que nunca abandonaram a antiga Terra de Israel, e de imigrantes do Norte de África e da Europa.
A primeira metade do século XVI foi uma época de prosperidade para Jerusalém, e bem assim para todo o império turco. Com Solimão, o Magnífico (sucessor de Selim I), Jerusalém beneficiou de uma série de projectos que contribuíram para o seu desenvolvimento e até um certo esplendor. Solimão edificou muralhas para defender a cidade de ataques inimigos (as mesmas que ainda hoje circundam a Cidade Velha), reparou o sistema de abastecimento de água, construiu várias fontes (sabils) e redecorou as paredes exteriores do Domo da Rocha com temas florais de inspiração persa, que podem ser admirados até aos nossos dias.
Ernest Richmond (1874-1955), “Decoração Floral do Domo da Rocha, Jerusalém”, aguarela, Victoria & Albert Museum, Londres
Jerusalém, apesar de um começo auspicioso sob domínio otomano, conhece entre os séculos XVII e XIX um longo período de decadência. O governo central em Istambul era fraco e ineficiente; os governadores locais, com poucas ou nenhumas ligações à cidade e à região, tinham como principal preocupação, não o bem-estar das populações, mas o enriquecimento pessoal; as terras eram em grande parte propriedade de senhorios ausentes, abandonando os agricultores ao empobrecimento; a segurança no território degradara-se, sobretudo nas estradas, o que se reflectiu no número cada vez menor de visitantes. Cada vez menor era também a população de Jerusalém, que ficou reduzida a menos de 10 000 habitantes.
William Turner, “Monte Moriah”, gravura de E. Finden, 1835-36
A situação modificar-se-ia radicalmente no século XIX. Foram vários os factores que, simultaneamente, influenciaram o crescimento da população e o desenvolvimento urbano de Jerusalém. Podemos agrupá-los em três categorias: reformas no aparelho legal, administrativo e político do império otomano; imigração judaica e construção de novos bairros; actividades das “Grandes Potências” e de grupos cristãos estrangeiros.
Gustav Bauernfeind, “À entrada do Monte do Templo” (detalhe. A cena descreve um grupo de judeus do lado de fora de uma das entradas do Monte do Templo – a Porta dos Mercadores de Algodão - e do lado de dentro um grupo de muçulmanos, um deles em pé, segurando um sabre), 1886, Colecção Privada
As reformas em Jerusalém não começaram com os otomanos. Em 1831, forças egípcias lideradas por Mohammed Ali e pelo seu filho Ibrahim Pasha conquistaram e ocuparam o Egipto, a Palestina e grande parte da Síria. Os novos senhores egípcios realizaram uma série de reformas que tiveram um grande impacto nos assuntos legais e políticos do território, com efeitos duradouros, mesmo após a retoma do poder pelos turcos, nove anos mais tarde.
Estas reformas abrangiam: direitos legais extensíveis a não-muçulmanos, acabando com a situação de cidadãos de segunda classe, a quem até ali era cobrada uma taxa especial per capita; reorganização da administração regional; criação de gabinetes de aconselhamento municipal (majlis); reforço da Lei e Ordem, incluindo a segurança nas estradas, factor que fez de Jerusalém, e do restante território, um destino mais seguro para os visitantes.
David Roberts, “Cripta da Igreja do Santo Sepulcro”, gravura de Louis Haghe, 1842
Em 1840 os turcos otomanos, com o auxílio de várias potências europeias, expulsaram os egípcios da região. Os turcos continuaram a exercer uma política de reformas, conhecida por Tanzimat, que compreendia uma abordagem mais liberal a assuntos não-muçulmanos. Esta abordagem mais liberal a estrangeiros e a não-muçulmanos, incentivou uma crescente emigração judaica para Jerusalém (tanto interna, como externa), assim como actividades cristãs das “Grandes Potências” Ocidentais, especialmente através de diplomatas e missionários.
Foi em 1840 que, pela primeira vez, um bispo protestante (inicialmente numa união anglicano/luterana) foi designado para Jerusalém; foi construída a primeira igreja protestante — a Igreja de Cristo; o Patriarca Latino e o Patriarca Grego Ortodoxo voltaram a estabelecer residência em Jerusalém, depois de um longo interregno. Os anglicanos empenharam-se em actividades missionárias, destinadas a converter judeus ao cristianismo. Com este objectivo, fundaram escolas e um hospital.
Académicos britânicos, franceses e norte-americanos lançaram estudos de geografia e arqueologia bíblica; a Grã-Bretanha, a Prússia, a França, a Áustria, os EUA, a Grécia, a Noruega e a Pérsia, abriram consulados em Jerusalém. Estes consulados gozavam de direitos particulares, conhecidos como capitulações, que isentavam os cônsules e respectivos concidadãos das leis locais turcas.
Rua de Jerusalém, 1880. Fotógrafo: Felix Bonfils
Em 1863, Jerusalém tornou-se a segunda cidade do Império Otomano a ser reconhecida como município (a primeira foi Istambul). À frente dos destinos do município estava um muçulmano, assessorado por conselheiros representantes das várias comunidades religiosas, incluindo representantes dos ashkenazim e dos sefarditas. De salientar que neste período de meados do século XIX, as comunidades cristãs e judaicas foram beneficiadas, ao contrário dos muçulmanos, que não contaram com apoio diplomático ou filantrópico. Ademais, a concessão de direitos a não-muçulmanos provocou um decréscimo de autoridade legal e de rendimentos dos clérigos muçulmanos, que durante séculos foram favorecidos com as taxas especiais impostas a judeus e cristãos.
“Jerusalém, a Muralha onde os Judeus vão chorar”, 1875. Fotógrafo: Felix Bonfils. GADCOLLECTION
Jerusalém. O Bairro Judeu visto do Monte do Templo. Matson Photograph Collection, 1898-1914. Library of Congress, Washington, D. C.
O rápido crescimento da população judaica em Jerusalém, aliado ao facto de os residentes judeus serem pobres, provocou uma grave crise de habitação. A par da sobrelotação, havia também a questão de um sistema sanitário obsoleto, que em muito contribuía para as frequentes epidemias que assolavam a cidade. Em 1850 a família Rothschild, de forma a aliviar as duras condições em que os seus correligionários viviam, construiu um conjunto de apartamentos — Batei Mahaseh —, solução que se revelou temporária.
As primeiras casas e o moinho-de-vento em Mishkenot Sha’ananim
Por essa altura Sir Moses Montefiore (genro dos Rothschild) visitou a cidade. Dando-se conta do estado deplorável em que os judeus viviam, tentou, debalde, adquirir habitações para resolver o problema. Surpreendentemente, recebeu uma generosa oferta do governador turco de Jerusalém: um lote de terreno numa colina a oeste da cidade. Em 1857, Montefiore importou um moinho-de-vento da Cantuária, Inglaterra, que instalou naquele terreno, de modo a providenciar farinha mais barata aos judeus pobres de Jerusalém.
A resposta para aliviar a crise habitacional de Jerusalém chegaria três anos mais tarde, quando Montefiore, com fundos de Judah Touro, um magnata de Nova Orleãs, construiu perto do moinho-de-vento o primeiro bairro residencial fora das muralhas de Jerusalém — Mishkenot Sha’ananim. Nos vinte cinco anos que se seguiram seriam construídos mais sete bairros judeus, constituindo o núcleo da Cidade Nova.
Jerusalém. A Piscina de Ezequias. Matson Photograph Collection, 1898-1914. Library of Congress, Washington, D. C.
A água que se encontrava à disposição do povo de Jerusalém estava repulsivamente contaminada com toda a sorte de detritos, criando condições favoráveis à cólera que, todos os anos, cobrava um elevado preço em vidas humanas. Em 1864 foi formada a Sociedade de Ajuda à Água de Jerusalém, sob o patrocínio dos Montefiore, dos Rothschild e de membros do clero e da nobreza de Inglaterra. Em 1865, um grupo de distintos académicos britânicos e membros do clero anglicano fundaram o Fundo para a Exploração da Palestina (The Palestine Exploration Fund). Entre os membros da nobreza que patrocinavam o projecto estava a baronesa Angela Burdett-Coutts, a segunda mulher mais rica do mundo, depois da rainha Vitória.
Jerusalém. A Porta de Jafa, “Jerusalem Tour”, 1895-1904, Underwood & Underwood, Londres
Graças ao entusiasmo de estudiosos da Geografia e da Arqueologia Bíblica, cuja motivação era tão espiritual como científica, e da acção de filantropos judeus e cristãos, o progresso fez-se sentir na então arruinada Palestina. Sem esquecer a abertura do Canal do Suez, em 1869, que acelerou o comércio entre os três continentes, foram dados passos fundamentais para o desenvolvimento da região, de Jerusalém em particular. Por exemplo: a instalação do correio postal e do telégrafo; a realização de carreiras regulares de navios a vapor entre a Europa e a Terra Santa; a construção da primeira estrada e da linha férrea que ligou Jerusalém à cidade portuária de Jafa, etc.
Départ de Jérusalem en chemin de
fer, 1896, Alexandre Promio
Lançado pelos irmãos Lumière em 1897,
Départ de Jésusalem en Chemin de Fer é um de nove filmes realizados em
Jerusalém, por Alexandre Promio. Mostra a despedida de transeuntes no cais da
estação de caminhos de ferro em Jerusalém.
Sala de Aula, Orfanato Feminino
Chabashim St., Jerusalém, 1912. Fotógrafo: Tzadok Bassan
Durante a segunda metade do século XIX
Jerusalém conheceu uma oferta muito variada de oportunidades na área da
educação, tanto para rapazes, como para raparigas. Membros do Movimento
Iluminista Judaico e filantropos da Diáspora, através de organizações como a
Alliance Israelite Universelle ou a Hilfsverein Deutschen Juden, fundaram
escolas modernas para judeus, que juntavam aos seus currículos matérias
seculares e algumas o ensino da língua hebraica. A princípio estas escolas contaram com uma
oposição feroz das escolas tradicionais judaicas — Haredim (estritamente
religiosas).
Outra contribuição importantíssima foi a
de missionários estrangeiros. Fundaram
diferentes tipos de escolas que tiveram um papel relevante, especialmente na
educação dos cristãos, sendo que na parte final do século as autoridades
otomanas tenham admitido a inclusão de estudantes muçulmanos. Em 1891 o Governo
abriu uma escola muçulmana para raparigas.
Número de estudantes das escolas
de Jerusalém, em 1882, por tipo de escola e por género dos estudantes
Academia Bezalel, Jerusalém.
Aula de Pintura do Professor Abel Pann, 1912. Fotógrafo:
Yaacov Ben-Dov
As oportunidades,
tanto educativas, quanto intelectuais, proporcionadas por estas escolas,
primeiro, incrementaram o número de pessoas educadas em Jerusalém; segundo, os
estudantes, para além do hebraico, do árabe e do turco, foram educados noutras
línguas, como o francês, o inglês, o alemão, o grego, o latim ou o russo. Estes
conhecimentos, não só lhes abriram novas perspectivas, como os prepararam para
trabalhos na área da diplomacia, das missões estrangeiras, como professores,
tradutores, intérpretes, etc. Terceiro, estes quadros diferenciados reuniram
condições para prestar serviço no governo otomano, um grupo mais tarde
mobilizado para a administração do Mandato Britânico. Quarto, estes novos
projectos educativos permitiram aos estudantes o acesso a outras estruturas de
ensino mais especializado, para continuarem os seus estudos.
Porta de Jafa (lado oriental),
Alexandre Promio, Jerusalém, 1897
Nos finais do
século XIX Jerusalém contava com 17 hospitais, 54 escolas e um número
significativo de periódicos, impressos nas mais variadas línguas. Jerusalém era
uma cidade multicultural, onde as três religiões abraâmicas com as suas
diferentes etnias conviviam cordialmente. Mas o fim do Império Otomano, cujo
desmembramento estava em curso desde o século XVIII, traria mudanças profundas.
Em 1917 os Britânicos entraram em Jerusalém, pondo termo a 400 anos de domínio
turco na Palestina.
Este
artigo é da autoria de:
Sónia Craveiro
Muito
obrigada J
Fontes:
SCHAMA,
Simon, A História dos Judeus – 1000 AC – 1492 DC, Círculo de Leitores