The book of Genesis written & Illustrated on an ostrich
egg featured at the Israel Museum
A
nossa parashá e com ela o Sefer Bereishit (Livro do Gênesis) conclui com a passagem
do falecimento de José, José o tzadik e o governante no Egito.
D. Isaac Abravanel – 1437-1508
Dom Abarbanel no seu
comentário a esta passagem centra-se na longevidade da nomeação de José. O
versículo diz-nos que José se apresentou perante o Faraó como um jovem de
trinta anos. Tendo vivido até a idade de cento e dez, ele ocupou a sua posição
como governante durante oitenta anos.
Nos anais da história,
seja em Roma ou em qualquer outro lugar, era inédito que um líder mantivesse numa
posição de liderança incontestada por tanto tempo. Este facto, diz Dom
Abarbanel, é um testemunho da grandeza de José.
Qual foi o segredo do
sucesso de José? Por que é que ele não foi vítima de ciúmes e inveja, como
tantas vezes acontece com um líder bem-sucedido? (O próprio Dom Abarbanel foi
vítima dessas circunstâncias, muitas vezes na sua vida).
Dom Abarbanel não aborda este
ponto nesta parashá, apenas e simplesmente revela o seu espanto com a mesma. No
entanto, num comentário anterior onde discute a nomeação inicial de José pelo
Faraó, ele aborda esta questão.
José e o Faraó
encontram-se pela primeira vez, na sequência dos sonhos do Faraó. Depois de
ouvir a interpretação, visão e sugestões de José, o Faraó ficou convencido de
que a sabedoria de José era divinamente inspirada.
Ele também estava profundamente ciente
de que promover um desconhecido estrangeiro inexperiente para a posição mais
elevada no país despertaria tremendos ciúmes. O Faraó pergunta portanto aos
seus conselheiros:
"Encontraríamos
alguém como este, um homem que tem nele o espírito de D'us ?"
(Bereshit
41:38)
Ele não promoveu José como sendo o mais
sábio ou inteligente, mas sim como tendo as sugestões e perspectivas verdadeiras
e corretas.
E foi assim, diz Dom Abarbanel, que os
conselheiros de Faraó, aceitaram este compromisso. Eles reconheceram que José não
foi escolhido por sua astúcia ou intelecto, mas sim pelo seu compromisso com
D'us e a sua fé.
Talvez esta seja também uma lição para
todos nós. Quando estamos orgulhosos e próximos da nossa fé e com confiança em
D'us, todos os desafios podem ser superados.
A nossa parashá
começa com os momentos finais de tensão antes de José finalmente revelar aos
seus irmãos a sua verdadeira identidade.
Tendo suportado tanta dor e sofrimento é
notável verificar que José vê todo o episódio de forma positiva. Ele está
focado em certificar-se de que os seus irmãos, que o tinham vendido, se
concentravam num futuro positivo em vez de num passado culpado.
E quanto a Benjamin, o irmão
mais novo de José? Quais foram os seus pensamentos sobre todo o episódio?
O texto em si não nos diz, no entanto,
muitos detalhes das histórias da Torá são registados para nós em textos
chamados Midrash. Essas tradições foram transmitidas através das gerações a
História Judaica.
Um desses repositórios de textos
midrashícos, são os escritos de Rabino Abraão Sabá. Usando a extensa biblioteca
que possuía enquanto vivia em Guimarães, partilha connosco muitas belas
anedotas e ideias que só são conhecidas hoje através de suas obras.
O Rabino Sabá fala-nos de uma conversa
particular que teve lugar entre José e Benjamim. Silenciosamente, José tinha
perguntado a Benjamin o que acontecera durante todos estes anos:
"O que é que disseram os
nossos irmãos ao nosso pai Jacó
sobre o meu desaparecimento?"
Benjamin então conta-lhe o episódio do casaco ensanguentado e como os
irmãos o tinham mostrado a Jacó, afirmando que "foi encontrado isto".
"Exactamente
o que aconteceu" diz José. "Uns estranhos raptaram-me, depois um
deles vestiu o meu belo casaco quando de repente um leão o atacou, matando o
homem e ensanguentando o casaco. Os outros sequestradores depois venderam-me
como escravo".
Conclui o Rabino Sabá, que é por isso
que José é conhecido como "Tzadik", o Justo. Nem mesmo perante o seu
irmão mais próximo, Benjamin, ele envergonharia os seus irmãos. O seu foco
estava no futuro, na criação de unidade e coesão.
Em
Tehilim, há um belo verso descrevendo o efeito que a Torá tem sobre nós,
usando
a analogia da luz:
"As suas palavras são uma lâmpada para o meu pé e a luz
para o meu caminho." (Tehilim 119: 105)
Apesar
das palavras em si mesmas serem muito bonitas, qual é a mensagem que pretendem
transmitir?
Rabi
Yosef Chayon, Rabino de Lisboa no século XV, explica este versículo de maneira
muito inspiradora:
O caminho mencionado é a
viagem pela vida. Ao caminhar ao longo da vida devemos sempre ter cuidado para
não tropeçar. No entanto, uma lâmpada só ilumina a vizinhança imediata, para
iluminar completamente todo o caminho é preciso uma luz adicional.
Diz o Rabino Chayon, que esta
é a garantia que estamos recebendo. A Torá e as Mitzvot que fazemos ajudam-nos em
todo o percurso da vida. Ao fazer uma Mitsvá, estamos imediatamente seguros de
que isso nos ajudará a permanecer na posição vertical iluminando o chão que
pisamos. No entanto, iluminar a nossa localização imediata é apenas o começo. À
medida que o versículo prossegue, alcançamos a luz e o brilho iluminando todo o
"caminho", mesmo a distâncias longas. Segurando firmemente a
nossa lâmpada da Torah e das Mitzvot, o nosso percurso na sua totalidade vai-se transformado da escuridão até à luz.
Nesta veia, o Rebe
ensinou-nos a aumentar sempre uma Mitsvá com outra Mitsvá, outra luz.
Especialmente durante Chanucá, estamos todos focados em trazer o calor e a luz
do Judaísmo para o mundo inteiro. Temos a certeza de que colectivamente podemos
fazer o mundo brilhar com a luz e a beleza da Torá e Mitzvot.
Junte-se a nós e vamos
todos juntos "iluminar" Lisboa e Cascais esta semana com as Velas de
Chanucá.
Caridosos
actos de dádiva e de bondade são parte do tecido da vida, da história e da lei
judaica. Desde as primeiras histórias dos nossos antepassados que lemos como
eles sempre se comprometeram em designar parte de suas posses para um propósito
mais elevado.
Na
nossa parashá, lemos as palavras de Jacó afirmando a D-us: "De tudo o que
Me der, eu darei um dízimo (dez por cento) para Ti". (Bereishit 28:22)
Para
além do costume e da obrigação da caridade, também encontramos palavras fortes
associadas ao seu mérito. No livro de Mishlei (Provérbios) encontramos as
famosas palavras "e a caridade salvará da morte" (Mishlei 10: 2)
Embora
a intenção do verso pareça clara, o uso especifico destas palavras requer
explicação. Por que é que a caridade salva da morte? A morte de quem?
O
Rabino Ya'akov Tzemach, um cabalista nascido no Portugal do século XVI, expõe
os elementos místicos e ocultos dessas palavras. "E a caridade salvará da
morte" no hebraico é "u'tzedakah tazil mimavet". As primeiras
letras destas palavras são, "Vav", "Tav" e "Mem".
Quando rearranjado, essas são as próprias letras que compõem a palavra
"mavet" - a morte.
Diz
o Rabino Tzemach, o verso realmente fala não de uma, mas duas mortes que estão
sendo evitadas.
Em
primeiro lugar, a vida daquele que recebe o ato de caridade. As necessidades da
sua vida, estão agora satisfeitas, enquanto que as necessidades e carências
inerentes à pobreza (que o Talmude diz serem semelhante à morte) são agora
evitadas. Esta vida que é salva está clara e aparente na menção da morte no
verso.
No
entanto, há realmente outra menção da morte, a que o versículo alude. Esta
menção é enigmática e não é claramente enunciada. Refere-se à segunda vida que
está sendo salva, a vida do doador.
O
sistema de recompensa da Torá é sempre, "midah k'neged midah", uma
medida precisa de justiça e de recompensa que se encaixa na acção específica que
teve lugar. Assim como o doador claramente salvou a vida dando e ajudando,
também a sua vida é salva. É-lhe assegurada a bênção da vida e a bondade que
ele próprio tinha dado a outrem.
O nascimento milagroso de Isaque é descrito na Parashá
desta semana. Sara que está muito além dos seus anos de vida fértil, dá à luz
uma criança saudável, que continuará o legado de seus pais.
Em comemoração deste importante
evento, lemos na Torá, que Abraão
"fez uma grande festa" (Bereshit
21: 8)
Os comentaristas têm diferentes opiniões sobre quando
exactamente ocorreu esta festa. Alguns entendem esta festa como fazendo parte da
celebração da Mitzvá de Brit Mila (circuncisão) e vêem isto como precursor da
maneira como tal evento é celebrado tradicionalmente.
No entanto, a leitura do verso, parece indicar algo
inteiramente diferente. O versículo descreve muito claramente, como esta festa
aconteceu "no dia em que Isaque foi desmamado".
Por que é que
Abraão escolheu este momento em particular para
comemorar publicamente?
Explica Dom Abarbanel, que esta celebração estava
directamente ligada a outro milagre especial, um milagre que D-us não tinha sequer
mencionado a Abraão.
O fato de que Sara em sua idade avançada tinha dado à luz,
era sem dúvida milagroso, mas havia um outro milagre especial. Não só Sara deu
à luz Isaque, como foi capaz de o amamentar e dele cuidar, com a saúde e a
força necessária para cuidar de um bebé tão jovem.
O nascimento de Isaque fora realmente milagroso e muito
público. No entanto, houve um outro milagre pelo qual Abraão e Sara ficaram
muito gratos: o de terem a força e a capacidade de criar este seu filho.
Receber este presente
inesperado e especial foi a razão para esta celebração, e constitui uma lição
importante para todos nós.
Que todos nós
aprendamos com Abraão e Sara a reconhecer e a ser gratos por tudo o que D-us
nos dá.
Shabbat Shalom!
Cortesia
do Rabino
Eli
Rosenfeld
chabadportugal.com
1ª Pintura - http://themaskery.com/art/paintings/
2ª Pintura
- When Abraham was 100 years old, Sarah gave birth to a son. (1984 illustration
by Jim Padgett, courtesy of Distant Shores Media/Sweet Publishing)
Leonard Cohen no Festival Internacional de Benicàsim (Valência, Espanha), 20 de Julho de 2008. Fotografia de Diego Tuson/AFP.
Humilde, de uma generosidade de espírito imensa, Leonard Cohen deixou-nos. E a sua partida deixou-nos uma grande saudade. Felizmente, uma saudade que podemos enganar ouvindo a sua música, a sua poesia. Melhor, graças à tecnologia podemos ouvir a sua voz quente, muito grave, quase mística.
Muito foi dito sobre este grande artista. Portanto, não vou alongar-me. Quero apenas prestar-lhe a minha homenagem, o meu profundo agradecimento por ter sido uma inspiração na minha vida.
Num artigo publicado neste blogue, no ano de 2013, por altura das Grandes Festas (Yamim Noraim), apresentei a versão de Leonard Cohen do poema litúrgico Unetaneh Tokef – Who by Fire. Em Who by Fire, composto em 1973 em resposta à Guerra do Yom Kippur, Cohen debate-se com a nossa mortalidade e com o conceito de Deus, a quem dirige, num misto de devoção e de fúria, estas palavras: «And who, shall I say is calling?».
No tema The Captain, de 1984, Cohen atreve-se a tocar num assunto tabu, quando diz: «Complain, complain, that’s all you’ve done ever since we lost. If it’s not the Crucifixion, then it’s the Holocaust. »
“The Captain”
Now the Captain called me to his bed
He fumbled for my hand
"Take these silver bars," he said
"I'm giving you command."
"Command of what, there's no one here
There's only you and me --
All the rest are dead or in retreat
Or with the enemy."
"Complain, complain, that's all you've done
Ever since we lost
If it's not the Crucifixion
Then it's the Holocaust."
"May Christ have mercy on your soul
For making such a joke
Amid these hearts that burn like coal
And the flesh that rose like smoke."
"I know that you have suffered, lad,
But suffer this awhile:
Whatever makes a soldier sad
Will make a killer smile."
"I'm leaving, Captain, I must go
There's blood upon your hand
But tell me, Captain, if you know
Of a decent place to stand."
"There is no decent place to stand
In a massacre;
But if a woman take your hand
Go and stand with her."
"I left a wife in Tennessee
And a baby in Saigon --
I risked my life, but not to hear
Some country-western song."
"Ah but if you cannot raise your love
To a very high degree,
Then you're just the man I've been thinking of --
So come and stand with me."
"Your standing days are done," I cried,
"You'll rally me no more.
I don't even know what side
We fought on, or what for."
"I'm on the side that's always lost
Against the side of Heaven
I'm on the side of Snake-eyes tossed
Against the side of Seven.
And I've read the Bill of Human Rights
And some of it was true
But there wasn't any burden left
So I'm laying it on you."
Now the Captain he was dying
But the Captain wasn't hurt
The silver bars were in my hand
I pinned them to my shirt.
Em Outubro de 2016, Leonard Cohen editou o seu último álbum. Intitulado You Want It Darker, afinal uma despedida, é uma longa reflexão sobre a sua própria mortalidade. O álbum, visto como um retorno de Cohen às suas raízes judaicas, apresenta o Cantor Gideon Zelermyer e o Coro da Sinagoga Shaar Hashomayim, da sua cidade natal, Montreal.
O tema You Want It Darker, que dá o nome ao álbum, inclui passagens da liturgia hebraica, como por exemplo versos do Kaddish - «Magnified and sanctified be Thy holy name»; Cohen, cita também, em hebraico e em inglês, passagens do Livro de Génesis, da história do Sacrifício de Isaac (Gen. 22:1 - E foi depois destas palavras que Deus experimentou a Abraão. E disse-lhe: «Abraão!» E disse: Eis-me aqui.) – «Hineni,