A Casa da Memória Judaica em Castelo Branco vai ser inaugurada dia 11 de Novembro de 2016 pelo
ministro da Cultura. O novo espaço permite uma forte interacção com os
visitantes.
"A Casa da Memória da Presença Judaica em Castelo
Branco pretende contar a história de uma comunidade que em muito contribuiu
para o desenvolvimento da cidade no período quinhentista”.
Este pequeno artigo mais não é do que um modesto apontamento sobre uma das cantigas mais bonitas do riquíssimo Cancioneiro Sefardita - La Rosa Enflorece (A Rosa Floresce), também conhecida como Los Bilbilicos Cantan (Os Rouxinóis Cantam).
Esta cantiga de origem medieval, em estilo andaluz e composta a partir de um tetracorde denominado Al-Hijaz (nome de uma região da Península Arábica), canta a rosa, uma flor que simboliza a paixão, a nostalgia de um amor longínquo, e diz assim:
La rosa enfloresce en el mez de Mayo/mi alma s’escurece, sufriendo de amor.
Los bilbilicos cantan, sospiran de amor.
Y la pasion me mata, muchigua mi dolor.
Mas presto ven palomba, mas presto ven a mi/mas presto tu mi alma, que yo me vo morir.
La rosa enfloresce en el mez de Mayo/mi alma s’escurece, sufriendo de amor.
Vamos ouvi-la numa interpretação lindíssima, pela cantora Samantha Balzani.
Sephardic Romance - La Rosa Enflorece
O SÍMBOLO DA ROSA NA IDADE MÉDIA
Cântico dos Cânticos, um menestrel toca para
Salomão, Rothschild Mahzor, séc. XV
Na riquíssima simbologia medieval, a Rosa tem um papel de primeiro plano. Os seus significados podem ser esotéricos ou populares, religiosos ou literários e interpretados consoante a forma, a cor, o perfume, o número de pétalas ou a presença de espinhos. Na tradição hebraica, a Rosa exprime a espiritualidade de Israel, lugar da presença Divina no mundo, como a Rosa de Sharon no “Cântico dos Cânticos”:
2 1Eu sou a rosa de Sharon, o lírio dos vales!2 (D’us) Como o lírio entre os espinhos, assim é a Minha amiga entre as filhas! (Israel)
Rosácea da Catedral de Chartres, séc. XIII
A Cristandade vê na forma circular da Rosa e na disposição das suas pétalas, a representação de uma ideia de perfeição e de infinito. Numa das Cantigas de Santa Maria, de Afonso X, o Sábio (séc. XIII), a Virgem Maria é invocada como “Rosa das Rosas”.
Rosas das rosas e Fror das frores,
Dona das donas, Sennor das sennores.
Rosas das rosas e Fror das frores,
Dona das donas, Sennor das sennores.
A iconografia mostra-nos uma flor amada, representada na pureza celestial e humana perfeição da Virgem Maria, no amor cortês, ou como recurso da higiene e da medicina (com as suas pétalas purificava-se o ar e desinfectava-se o vestuário).
O Amor, Códice Manesse,
meados de séc. XIV
Bel accueil, Le Roman de la
Rose, Bruges, c. 1490
A Rosa, Tacuinum Sanitatis,
Viena, séc. XIV
Maomé visita o Paraíso, Miraj Nama,
Pérsia, séc. XV
O Islão também contribuiu para a elevação mística da Rosa; para os muçulmanos o Jardim das Rosas simbolizava o jardim da contemplação…”Rosa prenhe do seu perfume, o segredo de tudo”. Por volta do ano mil, um poeta persa recitava: “Se tiveres duas moedas, com uma compra pão, com a outra compra uma rosa para o teu espírito”.
Abençoando as velas de Shabat,
Minhagim, Amsterdam, 1707
Mais recentemente, La Flor Enflorece emprestou a sua melodia a uma oração – Tzur Mishelo. Tzur Mishelo é uma oração habitualmente cantada em Shabat, como introdução à oração de graças recitada após as refeições (Birkat HaMazzon), na maioria das comunidades judaicas. Pensa-se que esta oração (Piyut) foi escrita no Norte de França, na segunda metade do século XIV. É com ela que terminamos este artigo, que esperamos seja do vosso agrado.
Cabeça em mármore de Alexandre, encontrada na Acrópole de Atenas, c. 338-330 AEC,
Museu da Acrópole, Atenas
Alexandre, o Grande (Macedónia, 356 AEC-Babilónia, 323 AEC), educado por Aristóteles, conquistou uma grande parte do que era então considerado o mundo civilizado, criando um dos maiores impérios da Antiguidade. No seu apogeu, o império estendia-se da Grécia ao noroeste da Índia. Em 333 AEC, Alexandre derrotou Dario III, rei dos persas, na batalha de Isso (derrota que seria confirmada em 331 AEC, na batalha de Gaugamela, provocando a queda definitiva da Pérsia a favor dos Macedónios) e em 332 AEC empreendeu a conquista da Síria e do Egipto, onde ainda hoje se ergue a grande cidade de Alexandria, fundada por Alexandre em 331 AEC. É em 332 AEC, o ano das campanhas no Médio Oriente e no Egipto que, segundo o historiador judeu do século I, Flávio Josefo (Yoseph ben Mattityahu), se dá o encontro de Alexandre com os habitantes de Jerusalém.
Alexandre, mosaico em Pompeia, século I AEC (cópia de pintura do século IV AEC),
Museu Arqueológico de Nápoles
Os judeus de Jerusalém foram leais ao Império Persa até ao momento final da sua queda. Mas que atitude tomar perante os novos senhores? Afinal, após a difícil conquista de Tiro, os seus habitantes foram massacrados e os sobreviventes vendidos como escravos. Os judeus de Jerusalém temiam uma terrível vingança dos Macedónios. É aqui que a narrativa de Josefo toma contornos, de alguma forma, fantásticos, parecendo desviar-se da autenticidade dos factos.
Alexandre pagando tributo ao sumo sacerdote Jadua, atribuído a
Jacopo Amigoni (1675-1752)
Musée de l’Hospice Saint-Roche d’ Issoudun, França
Conta ele que Jadua, o sumo sacerdote de Jerusalém, num sonho fora instruído para «ter coragem, enfeitar a cidade e abrir os portões». As pessoas deviam aparecer diante de Alexandre vestidas com o branco da humildade, enquanto Jadua e os sacerdotes do Templo deviam vestir-se sumptuosamente, como era próprio do seu estatuto religioso. A marcha triunfal do monarca macedónio deteve-se num local chamado Sapha (“panorama”), donde se avistavam as muralhas do Templo na encosta da cidade; vitorioso, Alexandre foi ao encontro de uma multidão vestida de branco, encabeçada pelo sumo sacerdote, que usava uma tiara com um painel em ouro onde estava inscrito o tetragrama do nome de Deus. Trocadas as saudações da praxe, Alexandre terá dito que “adorava” o Deus dos israelitas, acrescentando que também tinha tido uma visão em que o sumo sacerdote, vestido exactamente daquela maneira, o abençoaria pela sua vitória sobre os Persas. Depois, Alexandre fez um sacrifício a YHWH no Templo «de acordo com a indicação do sumo sacerdote».
Alexandre, o Grande, no Templo de Jerusalém, Sebastiano Conca (1680-1764),
Museu do Prado, Madrid
No dia seguinte, os judeus de Jerusalém apresentam-lhe o Livro de Daniel que supostamente profetizava a sua vitória sobre os Persas, quando se refere a um poderoso rei «ele governará com poder absoluto e satisfará todas as suas vontades» (Daniel 11:3). Alexandre, retribuindo o gesto de confiança, permite que os Judeus se governem conforme as suas leis, renuncia ao tributo no ano sabático e promete que aqueles que se juntarem ao seu exército poderão viver segundo os seus costumes, sem constrangimentos.
A Carta de Arísteas/A Septuaginta
Arte Greco-Budista, Buda de Gandhara (Paquistão, antiga Índia), I-II século EC,
Museu Nacional de Tóquio
Alexandre praticou sempre a opção de, por um lado, tolerar as religiões locais dos territórios conquistados e, por outro, introduzir nesses territórios a cultura helénica. Tornou assim possível um cruzamento de culturas que resultou na fusão entre a tradição grega e as tradições das terras que efemeramente dominou — a Cultura Helenística. É neste admirável mundo de Alexandre, concretamente em Alexandria, uma das grandes cidades da história judaica, que ocorre um dos maiores acontecimentos interculturais de todos os tempos: a tradução da Bíblia Hebraica para o grego, cujo manuscrito original sobreviveu até ao início da era cristã e que ficou para a posteridade como o texto definitivo do que seria designado por «Antigo Testamento».
Sarcófago de Alexandre (detalhe), séc. IV AEC, Museu Arqueológico de Istambul
Com a morte de Alexandre, as disputas políticas entre os seus principais generais provocam o desmembramento do império. Para o assunto que nos interessa, vamos mencionar apenas dois sucessores: Seleuco I, que governou a Síria e a Mesopotâmia, e Ptolomeu Lagos, que ficou com o Egipto. Os Ptolomeus e os Selêucidas competiam pela fidelidade da população da Judeia (estrategicamente situada entre os dois reinos), que ao longo do século III AEC é governada pelos Ptolomeus, e no início do século II AEC, passa para o domínio do rei selêucida Antíoco III.
A história da tradução da Bíblia Hebraica para o grego, conhecida por Septuaginta, é contada na Carta de Arísteas, sobre a qual Flávio Josefo inclui uma versão resumida nas suas Antiguidades Judaicas. Escrita no século II AEC, apresenta-se sob a forma de relato de um alto conselheiro de Ptolomeu II Filadelfo — Arísteas.
Especialistas contemporâneos consideram que o verdadeiro Arísteas terá sido completamente alheio à Carta. Muito provavelmente, o seu autor foi um judeu familiarizado com a linguagem dos cortesãos e dos estudiosos e que pretendia estabelecer um diálogo entre a Torah e a filosofia grega.
Jean Baptiste de Champaigne, Ptolomeu II conversando com alguns dos 72 sábios judeus sobre a Bíblia na Biblioteca de Alexandria, 1672, Palácio de Versalhes
Segundo a Carta, Ptolomeu II (reinou de 285-246 AEC) envia uma missão exploratória a Jerusalém, com o objectivo de persuadir o sumo sacerdote a deslocar-se a Alexandria, juntamente com os seus escribas, para fazerem a tradução da Torah (Pentateuco — os cinco primeiros livros da Bíblia) para o grego. Eleazar e setenta e dois escribas, seis por cada uma das doze tribos de Israel, viajam para a capital egípcia, onde começam a trabalhar na tradução, destinada a integrar o acervo da recém-criada Biblioteca de Alexandria. O grupo de tradutores finaliza o seu trabalho em setenta e dois dias e é honrado pelo rei, que se ajoelha sete vezes diante do Livro.
A Carta de Arísteas, ficcionada, ou não, é ilustrativa de uma interacção cultural entre judaísmo e helenismo que terá, de algum modo, sido experienciada em Alexandria, onde gregos e judeus conversaram e meditaram sobre a sabedoria. Na Carta o rei faz perguntas respeitosas sobre a melhor maneira de viver e reinar, e o sumo sacerdote Eleazar dá-lhe respostas muito judaicas:
REI: O que é uma vida boa?
ELEAZAR: Conhecer Deus.
REI: Como nos libertamos do medo?
ELEAZAR: Quando a mente está consciente de que não procedeu mal.
REI: Qual é a forma mais grosseira de negligência?
ELEAZAR: Que um homem não cuide dos seus filhos ou que não dedique todos os seus esforços à sua educação.
Há também perguntas sobre educação política, como Aristóteles ensinara a Alexandre:
REI: Qual é o bem mais precioso que um soberano pode ter?
ELEAZAR: O amor dos seus súbditos.
Terminamos este breve artigo com um convite à música: a Oratória “O Banquete de Alexandre”, de Händel.
Oratória “O Banquete de
Alexandre”, de Händel.
Artigo elaborado e oferecido por,
Sónia Craveiro
Muito obrigada
Notas
1.A tradução dos restantes livros
da Bíblia Hebraica para o grego foi realizada nos séculos II e I AEC, por uma
escola de tradutores, em Alexandria; o Eclesiastes, no século I EC,
provavelmente na Palestina.
2.As autoridades rabínicas fixaram
o cânone judaico — Bíblia Hebraica ou Tanakh em 24 livros, os mesmos usados em
muitas Bíblias da Reforma Protestante. A Versão dos Setenta (Septuaginta)
inclui livros que não constam do Tanakh; alguns destes livros fazem parte do
cânone católico e as Igrejas Ortodoxas usam todos os livros conforme a
Septuaginta.
Fontes:
SCHAMA, Simon, A História dos Judeus – Judeus Clássicos?,
Temas e Debates – Círculo dos Leitores
Bíblia Hebraica, Editora e Livraria Sêfer Ltda, São Paulo,
Brasil
Fabio Gorodski é graduado em composição musical (UNESP),
mestre em composição eletroacústica (Conservatório Superior de Colónia) e
doutor em estética, ciências e tecnologias das artes (Universidade Paris 8).
Teve o prazer de trabalhar, colaborar e aprender com Beat Furrer, Edson
Zampronha, Flo Menezes, Hans-Ulrich Humpert, Horacio Vaggione, José Manuel
López López, e Luciano Berio, entre outros.
Teve suas obras instrumentais e
eletroacústicas executadas em inúmeros concertos no Brasil e na Europa, sendo agraciado
com vários prémios. Fez incursões pelas artes visuais – com a concepção e
realização de dois videos experimentais apresentados no 'One Minute film &
Video Festival' (Suiça) – e pela educação e sensibilização artística – com a
participação no projeto multidisciplinar Homenagem a Calder (Conservatório do
Pays de Montbéliard, França).
Seu poema "Coda" ganhou adaptação em
curta-metragem no Projeto Cine(Poe)mas 2014, e no mesmo ano o presente livro de
contos recebeu a menção honrosa no Concurso de Literatura Cidade de Belo
Horizonte.