O Tálmude (Berachot 26b) diz-nos, que as três orações
diárias, Shacharit, Minchá e Maariv, tiveram a sua origem com os Patriarcas.
O Tálmude liga cada uma das orações a um indivíduo
específico. Na nossa Parsha, a Torá descreve o momento em que Rivka chegou para
se encontrar com o seu futuro marido Yitschak. "Yitscak saiu para rezar
nos campos quase ao chegar da noite." (Bereshit 24:63)
Encontro de Rivca/Isaac
Diz o Tálmude, que esta oração é a oração Mincha que
fazemos hoje em dia, quase ao chegar da noite - antes de anoitecer.
Minchá
Dom Abarbanel, no seu comentário sobre a Parsha, aborda uma
questão simples:
Por que é que foram escolhidos estes momentos específicos?
Não seria qualquer altura boa altura para a oração?
Explica Dom Abarbanel, estes precisos momentos durante o
dia foram escolhidos por uma razão.
Num ambiente onde o sol, a lua e as diferentes constelações
eram objectos de culto, a família de Avraham queria mostrar ao mundo a falácia
dessas crenças.
Ao fazer isso, eles escolheram as alturas do dia em que
grandes mudanças ocorrem. O nascer do sol na parte da manhã, ou quando o dia
escurece e se torna noite; apresentam extrema mudança e flutuação.
Noite - Maariv
À medida que estes corpos celestiais seguem nas suas
orbitas e os seus efeitos sobre a Terra mudam, é essa a altura que os nossos
antepassados escolheram para orar; ensinando ao mundo que apesar de que tudo o
mais está em movimento, a fé e confiança em D’us essas são constantes.
Na imagem acima podemos
observar a Introdução à Misnhé Torá de Maimónides. Os fólios pertencem a um
manuscrito sefardita produzido em Lisboa, no século XV. O fólio 11v (direito)
com duas citações do Deuteronómio – 1:5 «Além do Jordão na terra de Moab,
começou Moisés a explicação desta Lei», e 4:44 «E esta é a Lei que Moisés pôs
diante dos filhos de Israel»; o fólio 12 (esquerdo) com a Introdução
propriamente dita.
Mishné Torá (Repetição da Torá)
refere-se normalmente ao nome originalmente usado para o Livro de Devarim
(Deuteronómio, o quinto livro do Pentateuco). Também se designa por Mishné Torá
o código da Lei Judaica compilado por Maimónides, que conta com centenas de
capítulos que descrevem todas as leis mencionadas na Torá.
Escultura de Moisés ben Maimon, Antiga Judiaria de Córdova
Moisés ben Maimon (Córdova, 1135-Cairo, 1204), mais
conhecido por Maimónides, ou RaMBaM, o acrónimo hebraico para “Rabi Moshe ben
Maimon”, foi a figura mais importante do judaísmo andaluz e uma das mais
relevantes do judaísmo medieval. As suas obras sobre medicina, direito,
teologia e filosofia, a maioria escrita em árabe e traduzida para o hebraico, o
latim e outros idiomas, influenciaram tanto o mundo judeu como o não judeu.
Mishné Torá, Secção dedicada às leis sobre a idolatria (Maimonides, De Idolatria), traduzida
para o latim por Dionysius Voss, Amsterdão, 1641, Library of Congress,
Washington
De 1159 a 1164 Maimónides viveu em Fez, Marrocos, onde se
refugiou com a família devido às perseguições religiosas dos fundamentalistas
Almóadas, que haviam conquistado Córdova. Foi durante este período de cinco
anos que realizou grande parte do trabalho para o seu comentário da Mishná.
Novamente em fuga para escapar à perseguição religiosa, saiu de Fez, passou
pela Terra Santa, estabelecendo-se posteriormente no Cairo, no ano de 1166,
onde viveu até ao final da vida. Lá veio a ser Rabino-Mor da comunidade judaica
e médico respeitado, chegando a servir como médico pessoal do Grão-Vizir al-Fadil.
Mishné Torá, Livro do Conhecimento (Sefer Hamadá), Espanha, 1400
Biblioteca Nacional de Israel, Jerusalém
Maimónides concluiu
a Mishné Torá por volta de 1180. A obra é uma síntese magistral dos dois
Talmudes (da Babilónia e de Jerusalém). Nela o autor considera todas as
opiniões conhecidas até sua à época sobre a Halachá (Lei Judaica). Redigida em
língua hebraica, descreve de forma muito clara todos os preceitos da vida
judaica e está organizada em catorze livros. Por este motivo também é chamada “Yad
Hachazacá” (“A Mão Forte”), sendo que a palavra yad significa “mão” e tem o valor numérico de catorze.
Mishné Torá, Livro do
Amor (Sefer Ahavá), Espanha, 1400
Sefer Ahavá (detalhe)
O primeiro livro – Livro do Conhecimento (Sefer Hamadá), versa sobre os
conhecimentos básicos da Torá, relacionados com a fé judaica. O segundo – Livro
do Amor (Sefer Ahavá), é sobre as
leis referentes à obrigação de amar D’us.
Mishné Torá, Livro dos Tempos (Sefer Zemanim),Norte de Itália, 1475,
Biblioteca Apostolica Vaticana, Roma
As duas iluminuras
anteriores pertencem a um Mishné Torá produzido em Itália, entre 1451 e 1475. A
segunda faz parte do Livro dos Tempos (Sefer
Zemanim), que trata das festividades. À direita, um grupo de convivas
celebra a Festa de Purim (estão fantasiados e dançam); à esquerda, celebra-se a
Festa das Cabanas (Sukkot).
Mishné Torá, Livro dos Juízes (Sefer Shoftim), Norte de Itália, c. 1457,
Museu de Israel, Jerusalém
O último livro, Livro dos Juízes (Sefer Shoftim), é sobre os direitos e os deveres dos magistrados,
do Sinédrio e dos reis. A iluminura anterior, de um manuscrito em escrita
asquenazita, apresenta a palavra Shoftim
(Juízes) em letras douradas sobre fundo azul. Por baixo está um homem (o réu), ladeado
de dois guardas, de frente para quatro juízes sentados.
Mishné Torá de Maimónides. Fólio 434v, cólofon do escriba, Escola de Iluminuras de Lisboa, 1472. Bristish Library, Londres.
O Talmude diz-nos
que a Torá contém 613 mandamentos (248 positivos e 365 negativos), mas não
providencia uma lista dos mesmos. Maimónides, à imagem de outros sábios antes
dele, ordenou uma lista completa dos 613 mandamentos, que constam da sua Mishné
Torá. Destes, o RaMBaM considerou treze fundamentais: são os “Treze Princípios
da Fé Judaica”, hoje aceites por todos os judeus, que estabelecem os principais
pontos de afirmação e crença no D’us único e na Sua revelação a Moisés, o
profeta. Versões abreviadas dos “Treze Princípios da Fé Judaica” fazem parte da
maioria dos livros de oração judaicos. Propomos agora a audição de uma melodia sefardita para Yigdal, um hino religioso que partilha com Adon Olam, de Shelomo ibn Gabirol (Málaga, 1020-1059), um lugar de honra no início do ofício da manhã e no final do ofício da noite. Yigdal – D’us é Grande, é baseado nos treze artigos de fé (13 Credos) formulados por Maimónides; os artigos foram versificados pelo juiz Daniel ben Yehudah Dayan, que os elaborou ao longo de oito anos, tendo-os terminado em 1404, na cidade de Roma.
Avraham Perrera - YİGDAL
Mishné Torá, Rambam, 1574, Veneza, Chabad Library
São várias as correntes judaicas que estudam
a Mishné Torá, destacando-se as do ramo Chabad que realizam um ciclo anual de
estudos da obra.
Em Tiberíades, o caminho que conduz ao túmulo
de Maimónides é ladeado por 14 colunas, 7 de cada lado, onde estão inscritos os
14 capítulos da Mishné Torá.
Entre os judeus o
respeito infundido por Maimónides é tão grande, que sobre o grande pensador circula
a máxima: «De Moisés a Moisés não houve outro como Moisés».
Mishné Torá, fol. 11v, barra inferior com dragão (direita),
pavão (centro) e leão (esquerda), Lisboa, 1472
E
resta-me agradecer mais uma vez por este artigo elaborado na integra por:
A
história de Sodoma, a malvada metrópole que acabou por ser destruída, é contada
na Parsha desta semana.
Antes de D-us destruir
Sodoma, os planos iminentes para a sua destruição são confidenciados a Abraão. O que se segue é um diálogo fascinante, a
par e passo de uma negociação, na qual Abraão implora a D-us que volte com a
sua palavra atrás.
Na Parsha da semana passada, há uma
outra conversa em que D-us prediz a Abraão os seus planos futuros, o exílio e o
caminho futuro do povo judeu, descendente de Abraão.
No
entanto, ao contrário da nossa Parsha, nesse caso há apenas o silêncio.
Dom Abarbanel, bem como outros
comentaristas, levantam uma questão gritante:
- Por que é que Abraão só rogou a D-us
pelo bem-estar da população de Sodoma?
Por que não pedir a D-us que
reconsiderasse no caso das dificuldades que a sua própria família teria de
enfrentar?
Explica Dom Abravanel, que a família de
Abraão era uma família com uma missão. Uma tarefa e um objectivo englobando
elementos espirituais e físicos.
Para que os seus filhos se tornassem no
povo judeu, o foco teria de ser não só em questões de ideias físicas e
materiais, mas muito mais ainda, em assuntos do foro espiritual.
Com isso em mente, as ações de Abraão
são mais fáceis de compreender. Quando falou sobre Sodoma, e o castigo que
receberiam, Abraão imediatamente fala abertamente.
Ao ouvir sobre o exílio e tribulações
dos seus filhos no entanto, Abraão entende que esse não é mais que o plano de
D-us. Para uma nação voltada para o corpo e o espírito como uma unidade, os
desafios temporários (físicos), não o iriam levar ao desânimo.
Mogadouro é uma vila portuguesa,
pertencente ao Distrito de Bragança, Região Norte e sub-região do Alto
Trás-os-Montes, com cerca de 3 500 habitantes. O concelho recebeu foral de D. Afonso III em 27 de Dezembro de 1272.
Nesta região, além do português,
fala-se sua própria língua: a língua mirandesa.
Ruinas do Castelo de
Mogadouro
Na vila do Mogadouro, existiu uma enorme
comunidade judaica. A Professora Maria José Pimenta Ferro faz registo a esta
comunidade do século XIV.
A Judiaria de Mogadouro situava-se nas
proximidades do Castelo (fotografia acima), incluindo o sítio da Pracinha, junto à Cadeia e à Rua
Nova, pois era aí que se situavam as casas dos vários cristãos-novos.
Actual Largo da Trindade
Esta comunidade foi aumentando com a
expulsão dos Judeus dos reinos de Espanha, foi-se desenvolvendo, acabando por
ter uma enorme influência em todo o Trás-os-Montes. Era uma comunidade judaica
era muito bem estruturada.
Após a
expulsão dos Judeus de Portugal em 1496, a comunidade judaica de Mogadouro foi
alvo da famigerada Inquisição, como testemunham os processos sofridos pela
família Lopes Pereira.