domingo, 15 de fevereiro de 2015

O dia de hoje na história judaica | 26 Shevat 5775





Rav David ben Shmuel HaLevi,
The "Taz"


Dia 26 de Shevat é o yahrtzeit (aniversário de falecimento) de Rabi David ben Shmuel Halevi (1586-1667), uma autoridade haláchica fundamental, conhecido como Taz pela sua obra Turei Zahav (“Fileiras de Ouro) – um comentário sobre o Shulchan Aruch (Código da Lei Judaica) de Rabi Yossef Caro.



Turei Zahav
(“Fileiras de Ouro)

Fontes:

http://www.pt.chabad.org/calendar/view/day.asp?tdate=2/15/2015&id=908251

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Antigas profissões e a origem dos seus nomes | Alfaiates


Alfaiates




Anonymous (Details of artist on Google Art Project)
Title Painting; oil on canvas - Interior of a Tailor's Shop – Date – 1780



O alfaiate é um profissional que confecciona roupas masculinas. O nome tem origem na palavra árabe alkhayyát. O verbo Kháta significa coser.




Sculptor Mark Matveevich Antokolsky
In 1864, MM Antokolsky was awarded the silver medal for the high relief "A Jewish tailor."



A costureira diferencia-se do alfaiate por confeccionar as roupas femininas provindo o nome da palavra latina consustura.


“The Seamstress” by Joseph Decamp



O termo latino para alfaiate é sartor que, em Português, deu origem ao verbo sarcir, o qual significa coser, e às palavras sarcir, que se refere à técnica de remendar um tecido roto com um pedaço de tecido do mesmo padrão, e de o coser de tal modo que não se perceba o remendo, e sarcideira, a mulher que usa essa técnica.



Sapir Gelman Artwork 'Jewish Tailor', 2009



Contrasta com fundilhar, ou seja, pôr fundilhos, que consiste em tapar o roto ou reforçar o tecido, normalmente de calças ou de casacos de trabalho, com pano igual ou diferente, geralmente mais forte que o original.



“The Jewish Tailor” by Arthur Markowitz



Era uma arte importante que conferia um estatuto, diremos que confortável e bem remunerado, ao respectivo artesão. Tanto assim que os judeus, durante a Idade Média, fizeram dela a principal atividade:

“Foi a profissão de alfaiate a que mais professaram (os judeus) na Idade Média, durante os séculos XIV e XV. (…). Esse ofício era, então, o que em Lisboa ocupava o maior número de judeus. (…) O alfaiate de D. Afonso V era um hebreu – mestre Latão –, e o de D. João II era outro – Mestre Abraão.”



 “At the house of Tailor” by Boris Dubrov ; “The Tailor” by Elena Flerova



Os alfaiates eram artesãos altamente especializados sujeitos a rigorosos exames e anos de prática para obterem a carteira profissional. Tinham que saber talhar, alinhavar, chulear, casear, coser e fazer todos os acabamentos necessários e exigidos pelo cliente na confecção de calças, casacos, coletes …


 Curiosidades:

Alfaiates de Nova Iorque


Estátua de um alfaiate judeu em Old Garment, na cidade de Nova Iorque.



De longe, o maior grupo de trabalhadores qualificados foram os alfaiates, eles representavam 36,6 por cento. Em Nova Iorque, em 1890, mais de 90 por cento das fábricas de vestuário, ou associados, como por exemplo fábricas de chapéus, eram propriedade de judeus alemães. Em 1897, cerca de 60 por cento da força de trabalho judia de Nova Iorque foi empregada no trabalho do campo, porém, 75 por cento dos trabalhadores da indústria do vestuário eram judeus.


Este artigo é inteiramente dedicado ao meu avô,



Carlos António Rates




Jewish Tailor”, 1926 by Yehuda Pen

Fonte do texto:
http://blog.lusofonias.net/?p=21048
Adaptado de:
http://blog-dos-alfaiates.blogspot.pt/2009/05/museu-da-lourinha_23.html
__.,.___
Enviado à primeira fonte por:
 Margarida Castro
Fontes das imagens:
http://www.judaica-art.com/yehuda-pen/3205-jewish-tailor-1926-by-yehuda-pen-jewish-art-oil-painting-gallery.html

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Hoje é na sinagoga!




Shabat Shalom!


Pintura de Mayer July

Cartas de Lisboa | Mishpatim




Mishpatim


A parsha de Mishpatim contém muitos dos princípios fundamentais que compõem o direito civil judaico. Muitas das situações descritas na nossa porção da Torá são discutidas em profundidade como estudos específicos no Talmud.


Uma das mais famosas discussões talmúdicas têm a ver com as leis relacionadas com os quatro “shomrim", "custódios", pessoas encarregadas de tomar conta de um objeto pertencente a outra pessoa.

Como com todos os textos talmúdicos famosos em torno desses versos, o rabino Abraão Saba escolhe oferecer uma visão mística sobre o conceito de custódia.

Citando o Zohar, o rabino Saba fala-nos de um direito exclusivo, que entra em jogo quando tomamos conta de um objeto de outra pessoa.

Embora possamos ser credores de dinheiro, ou ter outras reclamações contra o proprietário do objeto, seria errado não devolver imediatamente o objeto que nos foi dado a guardar. Quando alguém nos pede para cuidar de algo, a nossa única prioridade deve ser devolvê-lo quando solicitado.

Isto é diferente de um cenário de empréstimo, onde se pode calcular e deduzir os fundos se existirem obrigações anteriormente existentes. O "shomer," o "custódio" deve devolver sempre o objeto em todas as circunstâncias, diz o rabino Saba.

É o cumprimento desta lei, diz "Tzror Hamor," o que pedimos a D-us cada noite antes de ir dormir.





"Beyadcha afkid ruchi ..." "Em tuas mãos entrego a minha Alma ..." É uma pequena oração que recitamos todas as noites depois do Shema.



Quando dormimos as nossas almas deixam parcialmente  o nosso corpo, ascendendo até D-us. Pedimos a Deus para por favor nos devolver a nossa alma, revigorada e fortalecida. A palavra que usamos para descrever esse fenómeno, é "afkid" a mesma palavra em hebraico que descreve o custódio na nossa parsha.

Embora possamos ter saldos anteriores com D-us, e podermos ser culpados de infracções puníveis, pedimos a Deus para cumprir a mesma lei que nos deu. Para ter fé em nós, para nos devolver as nossas almas ignorando as nossas iniquidades anteriores.

Para nos dar a oportunidade para um outro dia, onde podemos realizar o nosso potencial, guiados pela Torá e seus Mitzvot.


Shabat Shalom!
Cortesia do Rabino

Eli Rosenfeld
chabadportugal.com



Fontes das imagens:
http://www.mykosherhome.com/index.php?csstype=articlepublished&articleid=281&article=true
https://plus.google.com/100078492193826135534/posts/fxdUHiSnCxr?pid=5799714304467318642&oid=100078492193826135534

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Cartas de Lisboa | Shabat




Yitro


" Yitro" | Pintura de Silvia Rubinson



Na parsha desta semana iremos ler os Dez Mandamentos. Incluido nesta famosa lista está o Mandamento número quarto, o qual nos implora que nos lembremos do Shabat.

No Kiddush que recitamos cada sexta-feira á noite para inaugurar o Shabat, definimos do que é que estamos exatamente a recordar:


1) A Criação por D-us de todo o mundo em seis dias.


"O Jardim do Éden" |  Pintura de  Erastus Salisbury Field



2) A liberdade que nos foi dada através do Êxodo do Egito.


“Exodo”  | Pintura de Ernest Descals



Dom Abarbanel, no seu comentário, questiona esta premissa:

Não seria mais apropriado para lembrar os dias da Criação constantemente contar e marcar esses mesmos dias, ou seja, de domingo a sexta-feira?

Como é que o Shabat, o único dia em que D-us não criou, é o que nos faz lembrar da Criação?


Explica Dom Abarbanel, que o descanso de D-us no Shabat não foi uma pausa no seu envolvimento neste mundo, mas sim uma mudança no modo do seu envolvimento criativo.

Enquanto nos seis primeiros dias foi necessário criar de novo, (ou seja "algo do nada") a partir do Shabat a energia criativa de D-us começou a assumir uma nova forma. Não mais focada na criação de entidades que anteriormente não existiam, mas sim na canalização continuada da sua energia para os seres recém-criados.

Na realidade o Shabat não é o primeiro dia em que D-us não criou, mas sim realmente o primeiro dia deste "estilo" da criação, que é o que continua até hoje. Envolvimento recorrente constante de D-us na criação e sustentação do nosso mundo.



“Comemorando o Shabat” | Pintura de Steve Karro



Com isto em mente, Dom Abarbanel explica a nossa forma de descanso, a nossa observância do Shabat. Assim como D-us não deixou de criar no Shabat, apenas mudando a sua forma de criação, a nossa observância do Shabat deve ser semelhante.

Shabbat lembra-nos o Êxodo, pelo fato de que nós somos agora pessoas livres, com a opção de parar de trabalhar quando assim o decidirmos.

No entanto, diz Dom Abravanel, que este é apenas o primeiro passo. Enquanto é certo que o Shabat nos proporciona um dia de repouso do nosso trabalho regular, é o passo seguinte que é o coração e a alma do Shabat.



“Amidá” | Pintura de David Kessel


É uma oportunidade semanal para mudar o trabalho e o enfoque da nossa vida, um dia em que nos é proporcionado descansar de todas as coisas que nós normalmente chamamos de trabalho, e trabalhar tão duro quanto pudermos no nosso estudo e na nossa dedicação à nossa Torá.



“Shabat” | Pintura de Lili Fijalkowska


Shabat Shalom!
Cortesia do Rabino
Eli Rosenfeld


chabadportugal.com




Fonte das imagens:
http://womenofthebook.org/artists/silvia-rubinson/
http://fecomciencia.com.br/documentario-em-video-raizes-da-religiao/

"Musics" by David Kessel




Shabat Shalom!



Ver tudo sobre David Kessel aqui:
“Musics”
Pintura de David Kessel
36,5 x 29 polegadas

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Alexandre Herculano (1810-1877)




O primeiro grande historiador da Inquisição em Portugal



Lisboa, Palácio da Inquisição, Rossio (reedificado pelo arquitecto Carlos Mardel,
após o Terramoto de 1755). Gravura aguarelada do séc. XIX. Museu da Cidade, Lisboa



     «Liberal convicto, por cuja causa se exila (1831-1832), se faz militar, jornalista, deputado (1840-1841), é por vocação um poeta, escritor e historiador. A polémica causada pela sua História de Portugal, IV vols. (1846, 1847, 1850 e 1853) leva-o a dirigir a sua investigação histórica num sentido anticlerical e polemista, defendendo simultaneamente a legitimidade da crítica histórica e o próprio ideal do liberalismo, onde o papel da Igreja tinha uma dimensão diferente.» É assim que começa o texto dedicado a Alexandre Herculano no Dicionário do Judaísmo Português, e é a partir dele que vamos falar desta grande figura da nossa História.

     Herculano nasceu numa família de reputados carpinteiros e pedreiros. O avô materno, Jorge Rodrigues de Carvalho, foi mestre-de-obras da Casa Real, e deve-se-lhe, entre outras obras, a escadaria da Igreja de São Vicente de Fora, em Lisboa. Foi numa casa construída por este avô, perto do Palácio da Ajuda, que Herculano viveu a partir de 1839, quando o rei D. Fernando, marido de D. Maria II, o nomeou bibliotecário-mor das Reais Bibliotecas das Necessidades e da Ajuda.



Busto de Alexandre Herculano.
Escultura em terracota de Teixeira Lopes, 1877.



     De seu nome completo Alexandre Herculano Carvalho de Araújo, o futuro autor de Eurico, o Presbítero nasceu em Lisboa no dia 28 de Março de 1810 (a poucos meses do início da terceira invasão francesa), no Pátio do Gil, propriedade, entretanto desaparecida, que fora construída junto à Rua de S. Bento por um seu tio-avô, António Rodrigues Gil.
     Filho de um funcionário público de inclinações liberais, Teodoro Cândido de Araújo, recebedor da Junta dos Juros, Herculano viria a relembrar, quando gozava já de ampla reputação como escritor e historiador, que nascera numa “classe obscura e modesta” e que nela queria morrer. No entanto, ele e a sua irmã Maria da Assunção, dois anos mais velha, viveram uma infância e primeira adolescência sem dificuldades económicas, numa casa com uma pequena capela privada, jardim, árvores de fruto e horta. 


Alexandre Herculano. Litografia de Ferting. Séc. XIX.
Casa de Sarmento, Guimarães.



        Entre os 11 e os quinze anos, Herculano frequentou o Colégio dos Padres da Congregação do Oratório de S. Filipe de Néri, que lhe ensinaram latim, grego, francês e filosofia, mas que também o tornaram um cristão convicto e um profundo conhecedor da Bíblia. Os seus estudos de Humanidades, que visavam a frequência posterior da Universidade de Coimbra, foram abruptamente interrompidos em 1826. O pai cegara, deixando de poder trabalhar, e a família enfrentava agora graves dificuldades económicas. Herculano decide então frequentar a Aula de Comércio – um estabelecimento de ensino técnico profissional criado pelo Marquês de Pombal-, pensando conseguir o mais brevemente possível um lugar no funcionalismo público.




Alexandre Herculano. Gravura a buril de Louis Auguste Darodes.Séc. XIX.
Casa de Sarmento, Guimarães.



       Uma das disciplinas da Aula do Comércio, ministrada no próprio Arquivo Real da Torre do Tombo, era a Diplomática, na qual Herculano aprendeu a valorizar papéis antigos e se familiarizou com várias ciências auxiliares da história, da paleografia e da epigrafia à numismática ou ao estudo dos selos utilizados para autenticar documentos. É neste período que conhece João Pedro Ribeiro, professor da Universidade de Coimbra e um dos seus raros precursores na pesquisa, e na abordagem científica, das fontes documentais espalhadas pelos arquivos portugueses. O homem que iria revolucionar a historiografia portuguesa nunca chegou, portanto, a frequentar a universidade.




Marquesa de Alorna. Auto-retrato.

     Estes anos servem-lhe também para adquirir um conhecimento sólido de várias línguas estrangeiras – espanhol, italiano, inglês e alemão, além do francês – e para alargar a sua formação literária, que ficou muito a dever ao convívio com a poetisa pré-romântica Leonor de Almeida, marquesa de Alorna, casada com um aristocrata alemão e tradutora de Goethe e de poetas ingleses. 


Vista da praia do Arnosa de Pampelido, onde desembarcou D. Pedro à frente do exército libertador. Gravura publicada no Elogio Histórico do Rei D. Pedro IV, pelo Marquês de Resende. Palácio Nacional de Queluz.



      Com apenas 21 anos, participou na revolta de 21 de Agosto de 1831 contra o absolutismo miguelista, o que o obrigará, após o fracasso daquela revolta militar, a fugir para Inglaterra, passando daí para a França, onde frequentou a Biblioteca de Rennes (1831-1832). Fará parte dos “Bravos do Mindelo”, como ficaram conhecidos os membros da expedição comandada por D. Pedro IV, que desembarcou na praia de Arnosa de Pampelido, alguns quilómetros a norte do Porto, no dia 8 de Julho de 1832. 




O Senhor D. Pedro restituindo Sua Augusta Filha a Senhora D. Maria Segunda, e a Carta Constitucional aos Portugueses. Litografia de Nicolas-Eustache Maurin, 1832 (Pormenor). Museu Nacional Soares dos Reis, Porto.



     Em 1834, ainda durante o cerco do Porto, D. Pedro IV retira-o das trincheiras, ordenando-lhe que ajudasse o bibliotecário do Paço Episcopal a criar a futura biblioteca pública do Porto, que viria a ser formalmente instituída em Julho de 1833. Herculano foi nomeado segundo bibliotecário e, ao assumir a função, prestou juramento à Carta Constitucional, um voto que nunca trairá e que lhe irá trazer problemas a partir de 1836, com a ascensão da ala esquerda do movimento liberal e o triunfo do chamado Setembrismo.

     Em 1837 vem para Lisboa, onde assume a direcção da revista Panorama (1837-1868), um jornal ilustrado de carácter artístico e científico, patrocinado por D. Maria II. A publicação foi um êxito e terá chegado a atingir tiragens de quase cinco mil exemplares, num país cuja taxa de analfabetismo rondaria então os 90 por cento. É aqui que Herculano publica originalmente boa parte das suas obras de ficção histórica depois reunidas no volume Lendas e Narrativas, como O Bispo Negro ou A Dama do Pé de Cabra, e ainda parte de O Monge de Cister, que, com O Bobo e Eurico, o Presbítero, introduzem em Portugal o romance histórico.






     Em 1840 é eleito deputado, tendo proposto um plano de ensino popular. Desaprovando o golpe de Estado de Costa Cabral, desliga-se da actividade parlamentar, abandonando a vida política, para se dedicar às Bibliotecas Reais das Necessidades e da Ajuda, cuja direcção lhe tinha sido confiada por D. Fernando.




Domingos Sequeira, O Milagre de Ourique, 1793. Musée Louis-Philippe 
du château d’Eu, França



     Entre 1846 e 1853 publica os quatro volumes da História de Portugal, revelando um nível de investigação que, para além de lúcida, inteligente e rigorosa, foi revolucionária, fundando a historiografia científica em Portugal. Com a História de Portugal, Herculano inicia uma série de “provocações” com o Clero português por não admitir como verdade histórica o célebre Milagre de Ourique, segundo o qual Cristo aparecera a D. Afonso Henriques naquela batalha. Aos ataques do Clero, Herculano responde com a carta intitulada “Eu e o Clero” e com o opúsculo Solemnia Verba.


Apocalipse do Lorvão (1189). Abertura do sexto selo, fl. 115r
(Livro do Apocalipse 6:12). Torre do Tombo.



      A Academia das Ciências de Lisboa nomeou-o seu sócio efectivo em 1852 e encarregou-o do projecto de recolha dos Portugaliae Monumenta Historica, projecto que realizou em 1853 e 1854. Para tal percorreu o país, recolhendo enorme porção de documentos de todos os arquivos eclesiásticos e seculares. Desta empresa resultou a entrega de valiosa documentação à Torre do Tombo, entre a qual o Apocalipse do Mosteiro do Lorvão. 




João Pedroso, Retrato de Alexandre Herculano, 1877

     Os anos 50 marcam também uma última fase de intervenção mais directa na vida política. Envolvido na revolta militar de 1851, liderada pelo marechal Saldanha, que encerrou o ciclo do cabralismo e deu início à Regeneração, Herculano rapidamente se desiludiu com a política regeneradora e, em diversos jornais, atacou o novo governo. Em 1852, ainda foi eleito presidente da câmara do entretanto extinto concelho de Belém, mas a partir de meados da década deixou definitivamente a política activa. Nos anos seguintes, vai tornar-se célebre pelas sucessivas recusas de lugares políticos, cargos públicos e honrarias. 


Auto-de-Fé no Terreiro do Paço, em Lisboa.
Juan de Alvarez de Colmenar, Gravura de Les Delices d’Espagne & du Portugal, 1707



     Entre 1854 e 1859 publica História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal, III vols., com mais de uma dezena de reedições, tendo sido traduzida para inglês em 1926 por John C. Branner (Standford University Publications), reeditada em 1972 em Nova Iorque (com um prólogo de Yosef Hayim Yerushalmi, Ktav Publishing House).

     No prólogo da obra, Herculano esclarece o leitor acerca dos seus objectivos historiográficos e políticos, dizendo: «facto e época em que a tirania, o fanatismo, a hipocrisia e a corrupção nos aparecem na sua natural hediondez […] Podemos comparar isso tudo com os tempos modernos de liberdade». Do exemplo dado, conclui-se que a intenção do autor era ajudar os que ainda vacilavam nas crenças da liberdade política e da tolerância religiosa a decidirem entre o obscurantismo e a liberdade. 






    Em 1866 casa-se com Mariana Hermínia Meira, e retira-se para a quinta de Vale de Lobos, que adquirira em Azóia de Baixo, Santarém. Mas, enquanto vai aprimorando a sua produção de azeite (o premiado azeite Herculano), continua a exercer, nesses seus últimos anos, um contínuo magistério moral sobre o país. Em 1871, por exemplo, toma posição pública contra a supressão das Conferências do Casino, pesem embora as muitas divergências que tinha com Antero de Quental. A sua proibição, escreve, “é pior do que uma ilegalidade, porque é um despropósito”.
     Em 1877, querendo agradecer a visita que o imperador do Brasil, D. Pedro II, lhe fizera em Vale de Lobos, desloca-se a Lisboa, de onde regressa doente, vindo a morrer com uma pneumonia no dia 13 de Setembro. Ficou sepultado no adro da igreja de Azóia de Baixo até à sua trasladação para os Jerónimos, em 1988. 


Retrato de Alexandre Herculano, por José Leite. Torre do Tombo.

    Num folheto comemorativo do primeiro centenário do escritor, publicado no Porto em 1910, Guerra Junqueiro descreve o que a historiografia nacional deve a Herculano: «A História de Portugal era um enorme palácio desmantelado, com as janelas trancadas, as paredes fendidas pelos raios (…), e onde ninguém ousara penetrar com medo que desabassem aquelas podres escadarias monumentais, que contavam já setecentos anos de existência. Inspirava terror. Andavam lá dentro lobisomens, aparições lúgubres, fantasmas com sudários (…) Foi então que apareceu um homem extraordinário – Alexandre Herculano -, que abriu a porta desse pardieiro monumental, que andou lá dentro durante vinte anos consecutivos a levantar as escadas, a limpar os móveis, a abrir as gavetas, a consultar os livros, a erguer as paredes, os tectos, as colunas, e que, depois de um trabalho incalculável, sobre-humano (…), veio à rua dizer com simplicidade aos transeuntes estupefactos: “Podem entrar”».
     Como primeiro grande historiador da Inquisição e do Judaísmo, Herculano teve ainda o grande mérito de chamar a atenção para dois temas essenciais para a compreensão da História de Portugal. 




Este artigo foi elaborado na integra por:

 Sónia Craveiro


Muito obrigada

BeijinhosJ




Fonte:

Texto adaptado de “Os 200 do nascimento de Alexandre Herculano” de Luís Miguel Queirós, in Público de 27-3-2010.

Outras Fontes:

HERCULANO, Alexandre, Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, vol.1, Publicações Alfa;
HERCULANO, Alexandre, Dicionário do Judaísmo Português, Editorial Presença;