sexta-feira, 4 de abril de 2014

No dia de hoje na história judaica - 4 Nissan 5774



Comboio do Hospital Hadassa é vítima 
de uma emboscada (1948)


Na manhã de 4 de Nissan, um comboio civil de médicos e enfermeiras que viajava para o Hospital Hadassa em Monte Scopus, foi atacado pelos árabes.



Dos dez veículos da caravana, cinco escaparam. 


Os outros cinco, porém, que incluíam dois autocarros e uma ambulância, foram atingidos por metralhadoras e incendiados de seguida. Ao todo 77 civis judeus foram massacrados naquele dia.


Memorial às vítimas que seguiam no comboio de veículos para o Hospital Universitário Hadassah, MT. Scopus, Israel.


Pouco tempo depois, o hospital foi fechado e mudado para a parte oeste de Jerusalém. O Hospital Monte Scopus somente reabriu depois que a parte leste de Jerusalém foi libertada por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Tendo basicamente um corpo clínico formado por médicos judeus, e é hoje o maior e mais bem equipado hospital na secção leste de Jerusalém.



Vista aérea do Hospital.



Uma placa com a história deste massacre está foi colocada no Hospital Universitário Hadassah, MT. Scopus.

Estas vítimas foram homenageadas em alguns outros pontos do país.


Ha Ayin-Het Street, named for the slain 78 of the convoy to Har HaTzofim.



Haim Yassky Street, named for doctor killed in the convoy to Har HaTzofim.



Fontes:



Para conhecer uma pouco mais sobre a história deste hospital: http://en.wikipedia.org/wiki/Hadassah_Medical_Center

quinta-feira, 3 de abril de 2014

A Senhora

Grácia Nasi 

Retrato de Gracia Nasi pintado por Cynthia Von Buhler



Uma abundante literatura permite-nos trazer de volta, envolta em seu mistério, esta Senhora do séc. XVI português.


 Nascida em Lisboa, no ano de 1510, veio a morrer em Istambul em 1569.


    Beatriz de Luna, nome cristão de Grácia Nasi, pertence a uma família originária de Castela que, após o decreto de Expulsão dos Judeus de Espanha em 1492[1], procurou, em Portugal, abrigo para a prática da sua religião, das suas tradições e festas. Abrigo para viver!

    No ano de 1510, data do seu nascimento, já não existem Judeus em Portugal. Chamam-nos agora de Cristãos-Novos. Convertidos no seu coração e na sua vontade, ou feitos Cristãos por aqueles de quem é o poder. Assim se distinguindo daqueles que sempre o haviam sido, os Cristãos-Velhos. Só muito mais tarde, o Marquês de Pombal virá a abolir esta distinção[2]. Da conversão forçada, fala Garcia Resende:


" Os Judeus vi cá tornados

todos num tempo cristãos..." [3]


    Com o nome de Beatriz de Luna, Grácia Nasi casa com Francisco Mendes, natural de Sória, também em Castela, filho da ilustre família Benveniste, chegada a Portugal em 1492. Semeah Benveniste é o seu nome hebraico. Em Lisboa, conhecem-no por Francisco Mendes "o grande marrano". O poderoso comerciante de pedras preciosas e de especiarias. O banqueiro. "Assim à data do seu casamento, Francisco e seu irmão Diogo, que entretanto se estabelecera em Antuérpia, já haviam construído um império que detinha a primazia do comércio em toda a Europa" [4]



Imagens do mundo da Dona Gracia Nasi. De cima: seu médico, Amatus Lusitanus; sua residência em Ferrara, medalha retrato de sua sobrinha; o novo vinho branco Dona Gracia; uma carta anunciando a sua morte (cortesia do Univesity of Zagreb); mapa de sua viagem; sentado com o sobrinho em seu ombro, em Veneza.


Casada aos 18 anos, viúva aos 25, Grácia vê-se pela morte do marido (1535) investida na função de gestora e responsável pelo mundo dos negócios e da finança que compartilha com o seu cunhado, Diogo Mendes, estabelecido em Antuérpia em 1512.

Sem medo, Grácia Mendes organiza os seus negócios e a sua fuga.


A Inquisição tinha sido introduzida em Portugal depois da morte do seu marido, em 1536, pela vontade de D. João III e decisão do Vaticano[2].

Num barco inglês fretado pelo seu cunhado, parte em 1537, deixando Lisboa, levando consigo sua filha Reyna, sua irmã Brianda e dois sobrinhos Bernardo e João Micas, filhos do seu irmão Agostinho Micas, médico da corte, já falecido.


Rumam e desembarcam em Inglaterra onde Grácia se inteira da rede de fuga dos Marranos e onde reafirma a vontade de continuar a obra de proteção iniciada por seu marido. Chega a Antuérpia em 1537.

De parceria com seu cunhado, dirige os negócios e as finanças da sua Casa Comercial e Bancária.

A família parece enraizar-se na Flandres. Brianda Nasi, a irmã de Grácia, casa com Diogo Mendes na catedral de Notre Dame, em Antuérpia, seguindo a tradição – tão frequente entre os Judeus – dos casamentos endogâmicos. Assim preservam a religião, os ritos, a família e o património.

Mas o perigo tece uma teia à volta da família Nasi-Benveniste. À volta da Casa Mendes.
O dote de Reyna, filha de Grácia e de Francisco, faz fervilhar a ambição de muitos que sendo poderosos não são Judeus. A partida de Antuérpia urge. Parte em 1545. Veneza é a cidade escolhida. Lá, onde os Judeus podem assumir a sua pertença religiosa, Grácia prefere continuar a assumir o cristianismo de fachada, guardando o Shabbat dentro das paredes de sua casa. Não habita o ghetto mas escolhe o centro da cidade, o Rialto, zona de comerciantes, viagens e negócios onde fácil é acolher e esconder os Marranos.

Surgem desentendimentos familiares com sua irmã, originados pela gestão do grande empório comercial que possuem, e que, agora por vontade expressa em testamento de Diogo Mendes, Grácia gere sozinha. Numa tentativa de afastar a irmã, Brianda acusa-a de judaizar e Grácia é presa.


Selo comemorativo

Destaca-se então como figura da maior importância dentro da família, João Micas, que se afirma como verdadeiro sucessor de Diogo Mendes, após a morte deste, em 1543, na gestão da Casa Mendes, como braço direito da tia.

É graças às suas estratégias que as duas irmãs são libertadas das masmorras venezianas. Brianda, a denunciante, tinha sido ela própria acusada do mesmo crime por um dos seus agentes que declarou que “também ela judaizava em segredo"[6] e encarcerada.

Uma vez mais Grácia parte. Um outro caminho se abre... Ferrara.

Já em 1538, um ano após a sua chegada a Antuérpia, Hércules II, Duque de Este, lhe havia feito o convite para viver nos seus domínios. Convite agora aceite, no ano de 1549.

Importante nos negócios, na finança, na ajuda solidária, é agora em Ferrara que Grácia Nasi se torna uma figura de vulto no mecenato.




O afeto que a une a Benvenida Abravanel, filha de Samuel Abravanel e sobrinha de Isaac Abravanel, não terá sido estranho a esta nova dimensão da sua vida.



Empenha-se na publicação de obras entre as quais avultam a “Bíblia de Ferrara” e “Consolação às Tribulações de Israel”.


Publicada em Ferrara, em 1533, por dois judeus sefarditas da primeira geração de convertidos – o “espanhol” Jerónimo de Vargas e o português Duarte Pinel, respetivamente Yob Tob Atias e Abraão Usque – a famosa Bíblia de Ferrara apresenta duas versões: uma destinada aos Cristãos, outra aos Judeus. A versão hebraica traz a data de 14 de Adar de 1513. É dedicada " À muito ilustríssima Dama, Dona Grácia Nasi", pelos seus autores.
Bíblia de Ferrara
Foto de Eva Amado Bacelar



A outra publicação tem a assinatura de Samuel Usque: a " Consolação às Tribulações de Israel", impressa na mesma cidade, em 1533, é também ela dedicada à " ilustríssima Senhora Dona Grácia Nas, coração da nação portuguesa...para vos testemunhar a minha gratidão pelos numerosos favores que recebi da vossa mão." Mas não é ainda em Ferrara que param os caminhos desta Senhora do Renascimento. Portuguesa e Judia.



Consolação às Tribulações de Israel


Istambul...

Talvez Francisco Mendes com o aproximar dos tempos que em 1536 trouxeram a Inquisição para Portugal, tivesse concebido o plano de partir para essa cidade, capital do Império Otomano.



O sultão Bejazet II (1492-1512) convidava todos os Judeus Sefarditas [7] a estabelecerem--se em suas terras. São lhe atribuídas as palavras: “Pode considerar-se sábio e inteligente um tal soberano D. Fernando que empobrece o seu país e enriquece o meu?"

O sultão Bejazet II



Parte em 1522. Deixa atrás de si a Europa dos negócios, da alta finança que tão bem conhece. É recebida em Istambul por tantos a quem o seu dinheiro, aliado ao poder de iniciativa, ao sentido de responsabilidade, à firmeza de decisão, tinham permitido deixar o país que para eles não tinha lugar.

Em Istanbul volta declaradamente ao Judaísmo. Retoma, publicamente, o seu nome. Grácia. Grácia Nasi. Aí vive 16 anos de 1553 a 1569, data da sua morte. Anos, enfim, de ser e mostrar quem é.




 Mais tarde, em 1554, chegam a Istambul Bernardo e João Micas, agora Samuel e Joseph Nasi. Através deste último, que rapidamente se torna figura proeminente do Império, amigo pessoal de Solimão II, o Magnífico, e de seu sucessor Selim II, de quem recebe o título de Duque de Naxos, a família conhece a cultura, o fausto, e também as intrigas, da cidade e do Império.

Gravura de Gracia e Joseph Nasi




Novos casamentos ocorrem na família, dentro dos ritos próprios do Judaísmo: Reyna casa com Joseph e Grácia a Jovem com Samuel.

Grácia Nasi morre em 1569 com 59 anos em Istambul. Com Tiberíades no coração. Essa cidade onde Grácia e Joseph tinham sonhado um espaço onde se pudessem fixar os Judeus que de outras terras tivessem sido expulsos.



Tal ambição não veio a concretizar-se, destruindo à esperança que os animava no ano de 1560, depois de haverem negociado e obtido do sultão Solimão I a concessão dessa cidade santa da Galileia.

O sultão Solimão I



Grácia Nasi, a Senhora que nos convida a melhor a estudarmos, para melhor a conhecermos a si e à sua época. A Mulher que suscita em nós muitas perguntas. Poucos dados dela temos. Nascimento e morte. A viagem entre 1510 e 1569 que foi a sua vida. Dos sentimentos da menina nascida em Lisboa, da adolescente, da mulher, não sabemos muito. Conhecemos o seu grande sentido da responsabilidade e da solidariedade. O seu incansável dinamismo. A coragem de decisão. A firmeza.

Nas palavras de Samuel Usque, "era a mão estendida que resgata os cansados. Alimenta os famintos. A fonte de coragem e do estímulo para os pobres e enfraquecidos”.


Biblioteca Geral relativa à mostra sobre Grácia Nasi 1510-1569 
e outros judeus portugueses



Em cada um de nós, Grácia Nasi, escreve a sua própria vida. Em cada leitura que dela fazemos. Em cada sala do seu museu, em Tiberíades, que visitamos... Em cada vez que nela pensamos.



Homenagem a Dona Grácia Nasi em Tiberíades 


[1] Decreto de Alhambra. Decreto régio promulgado pelos Reis Católicos, Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, em 31 de Maio de 1492,em Alhambra, Granada.
[2] Lei de 25 de Maio de 1773
[3] Resende, Garcia, Miscelânea, 1554
[4] Mucznik, Esther, Grácia Nasi, A Judia Portuguesa do século XVI que desafiou o seu próprio destino, Esfera dos Livros,2010
[5]Bula Cum ad nihil magis, publicada em Évora em 22 de Outubro de 1536.
[6]Birnbaum, Marianna, A longa viagem de Grácia Mendes, Lisboa, Edições 70, 2005

[7]Judeus originários da Península Ibérica.

Este artigo foi elaborado e uma cortesia de,
 Dora Caeiro
A quem agradeço o carinho desta partilha. J

Bibliografia consultada:

AZEVEDO, J. Lúcio, História dos Cristãos Novos Portugueses, Lisboa, Clássica Editora, 3ª Edição, 1989.
BIRNBAUM, Marianna, A longa viagem de Gracia Mendes, Lisboa, Edições 70, 2005
BROOKS, André Aelion, The  Woman Who Defied Kings: the life and times of Doña Garcia Nasi.  A Jewish leader during the Rennaissance, St. Paul, Minnesota, Paragon House, 2002.
CLÉMENT, Catherine, A Senhora, Porto, Edições Asa, 1994.
Mercadores e Gente de Trato in Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses, Lisboa, Campo da     Comunicação,2010
Dicionário do Judaísmo Português, Lisboa, Editorial Presença, 2009
FERNAND–HALFEN, Alice, Gracia Mendesia-Nasi, Une Grande Dame Juive de la Rennaissance, Paris 1929.
FERRI, Edgarda, Gracia Nasi, a Judia, Lisboa, Quetzal Editores, 2002
KAYSERLING, Mayer, História dos Judeus em Portugal, São Paulo, Editora Perspectiva S. A, 2009
MARCOCCI, Giuseppe, História da Inquisição Portuguesa desde 1536-1821, Lisboa, A esfera dos Livros, 2013
MARTINS, Oliveira, História de Portugal (Tomo II), Lisboa, Livraria, Bertrand, 1882
MUCZNIK, Esther, Grácia Nasi, A Judia Portuguesa do séc. XVI que desafiou o seu próprio destino, Lisboa , A Esfera dos Livros, 2010
PAMUK, Orhan, Istanbul, Memórias de Uma Cidade, Lisboa, Editorial Presença, 2008
RAGEN, Naomi, O Fantasma de Hannah Mendes (Romance Histórico), Lisboa, Replicação, 2005
REMÉDIOS, J. Mendes dos, Os Judeus de Portugal, Volumes I e II, Edição Fac-Simile,  Lisboa, Alcalá             2005
RESENDE, Garcia de, Miscellnea, Évora, 1554
 SARAIVA, António José, Inquisição e Cristãos Novos, Lisboa, Estampa, 1985.
TAVARES, Maria José Pimenta Ferro, Judaísmo e Inquisição, Lisboa, Editorial Presença, 1987
WILKE, Carsten L., História dos Judeus Portugueses, Lisboa, Edições 70, 2009

Imagens:

quarta-feira, 2 de abril de 2014

2 Nissan - A Primeira Novilha Vermelha é preparada.



Moisés e a Novilha Vermelha
(1312 AEC)


No dia 2 de Nissan, um dia após a inauguração do Tabernáculo, Moisés preparou a primeira Novilha Vermelha, a fim de purificar a nação judaica em preparação para a oferenda do cordeiro pascal no recém-erigido Santuário.



Fonte:

terça-feira, 1 de abril de 2014

Dois importantes acontecimentos no dia 01 de Nissan:




O Mishcan é inaugurado

(1312 AEC)


Pintura de Jeremy Sams

No oitavo dia após um período de 7 dias de treino e iniciação, o Mishcan portátil (Tabernáculo ou Santuário) construído pelos Filhos de Israel no deserto do Sinai foi erigido. Aharon e seus filhos começaram a servir como sacerdotes, e a Divina Presença veio habitar o Mishcan; oferendas especiais foram levadas, incluindo uma série de presentes por Nashshon ben Aminadav, Príncipe da Tribo de Yehuda (oferendas semelhantes foram levadas nos 12 dias seguintes pelas outras tribos de Israel).


Pintura das 12 tribos de Israel, na parede da antiga sinagoga Dura Europos



A Morte de Nadav e Avihu
(1312AEC)


Illustration of the sin of Nadab and Abihu, 
from a 1907 Bible card.

No dia em que o Mishcan foi inaugurado, “Nadav e Avihu, filhos de Aharon, pegaram cada um no seu incensador, colocaram incenso nele, acenderam-no e ofereceram um estranho fogo perante D’us, o que Ele ordenou que não o fizessem. Assim, chegou até eles um fogo vindo de D’us, e os consumiu, e eles morreram perante D’us” (Vayicrá 10:1-2).


Gravura de Reb Jeff


Autor desconhecido



Fontes:


Criação do homem (em pensamento) (3761 AEC)



Dia 01 de Nissan 5774


O Talmud (Rosh Hashaná 10b-11a) cita duas opiniões quanto à data da criação do universo, uma, e segundo o Rabi Eliezer: 


“O mundo foi criado em Tishrei”,


 e o sexto dia da Criação – no qual Adam e Eva foram criados – foi 1º de Tishrei, celebrado a cada ano como Rosh Hashaná).


E a outra, segundo Rabi Yehoshua, 

 “O mundo foi criado em Nissan.”


Conforme a interpretação dos cabalistas e mestres chassídicos, o significado mais profundo destas duas opiniões é que o mundo físico foi criado em Tishrei, ao passo que o “pensamento” ou ideia da Criação foi no mês de Nissan.




Fontes:
Ilustrações de Michal Meron