quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A Bíblia Kennicott




Uma Bíblia Sefardita 
da Galiza


O Leão de Judah guardando a menorah do Santuário, fólio 120


    A famosa Bíblia Kennicott é um códice medieval escrito em estilo sefardita, profusamente iluminado, que combina motivos da religião hebraica, arte abstracta de influência islâmica e popular. Compreende os livros da Bíblia Hebraica (Tanach) – a Torah, Profetas e Escritos -, a massorah (exame crítico do texto da Bíblia, com notas sobre a escrita, vocabulário, pronúncia e outros comentários) e um tratado gramatical do Tanach (Sefer Mikhol), do século XII, do rabino da Provença, David Kimchi (RaDaK). 




Iluminura em estilo islâmico




Página do tratado gramatical (Sefer Mikhol) de RaDaK, fólio 7b


     Este manuscrito hebraico é conhecido por Bíblia Kennicott, por ter sido adquirido por Benjamin Kennicott (1718-1783), um destacado membro do clero anglicano e prestigiado especialista na Bíblia Hebraica, que dedicou a sua vida a estudar e a comparar variantes de texto em centenas de manuscritos hebraicos, vindo a publicar o resultado das suas investigações na obra Dissertatio Generalis



Primeira página do Livro de Génesis, fólio 9


     A Bíblia Kennicott possuiu cólofon detalhado do escriba, Moisés Ibn Zabara, bem como do iluminador, Joseph Ibn Hayyim.



Cólofon do escriba, fólio 438


    O escriba Moisés Ibn Zabara escreve no seu cólofon que o manuscrito foi encomendado por Isaac, filho de Dom Salomão de Braga, tendo terminado a obra na cidade da Corunha, província da Galiza, numa 4ª feira, no terceiro dia do mês de Av, no ano da criação de 5236 (24 de Julho de 1476). Declara ainda, que foi o responsável pelo texto de todos os vinte e dois livros da Bíblia, notas massoréticas e respectiva correcção. 





Exemplos de elementos decorativos das Parashiot




O Profeta Bilam, Números 22


     A ilustração acima pertence à Parashat Balak, do Livro de Bamidbar (Números 22-24). Representa Bilam, o profeta gentio ao serviço do rei Balak de Moav, que tentou amaldiçoar o Povo de Israel. Joseph Ibn Hayyim apresenta-o segurando um astrolábio, o mais simbólico dos instrumentos astronómicos medievais. Na Idade Média, o astrolábio estava associado ao poder e ao luxo das cortes muçulmanas e cristãs, onde os astrólogos (frequentemente judeus) o usavam para prever o futuro do rei e do reino. 



A Bíblia Kennicott, painel


     Desconhece-se o percurso desta obra notável, entre 1492, data da expulsão dos judeus de Espanha, e o século XVIII. Poder-se-á especular que Isaac de Braga, que devia ter família e relações comerciais com Portugal, terá primeiro fugido para Portugal antes de partir para outra parte da Europa. Certamente não se desfez da sua preciosa Bíblia, pois de outra forma ela não teria sobrevivido ao édito do rei D. Manuel I, que ordenou a destruição de todos os livros hebraicos do seu reino. Não se sabe para onde fugiu Isaac de Braga, nem se os seus herdeiros foram obrigados a vender a Bíblia para sobreviverem. Esta parte da história permanece um mistério. Sabe-se, apenas, que em 1771 foi parar às mãos de Benjamin Kennicott, fazendo actualmente parte do acervo da Bodleian Library, em Oxford. 



A mais requintada de todas as bíblias hebraicas, escrita e iluminada na Espanha medieval, apenas 16 anos antes da Expulsão.



Este belíssimo artigo foi elaborado e oferecido pela minha amiga

Sónia Craveiro

Muito obrigada
Beijinhos



 Fontes:


terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

E continuamos por Portugal - Na Rota das Judiarias.




LAMEGO


Antiquíssima cidade portuguesa situada na sub-região do Douro fazendo parte da tradicional província de Trás-os-Montes e Alto Douro.


De origem romana, esteve sob domínio mouro, sendo "reconquistada" em 1057. A sua importância é atestada já em 1139 por aqui terem decorrido as famosas Cortes de Lamego, reunidas na igreja de S. Maria Almacave, onde D. Afonso Henriques foi aclamado como rei de Portugal e se estabeleceram as "Regras de Sucessão ao Trono". A própria diocese da cidade é mesmo anterior pois existe desde o ano 570 (S. Martinho de Dume) e trata-se da única diocese portuguesa que não corresponde a uma capital de distrito.



Vista da cidade 


A presença judaica parece também ter sido bastante forte e importante em Lamego, mesmo desde o período árabe.

As menções mais antigas à presença judaica em Lamego remontam aos finais do século XIV e referem duas judiarias: a mais remota, a judiaria velha e a judiaria nova.




Rua da Cruz



A “Judiaria Velha” ou “Do Fundo da Cidade” localizava-se junto da Porta do Sol (na atual rua da Cruz) e sendo a mais antiga, poderia já ser o “habitat” da comunidade judaica durante o domínio árabe.

Porta do Sol 


Desde 1388 os judeus assentaram-se para o Campo do Tavolado e junto do adro da igreja de Santa Maria Almacave, dando origem a outra judiaria, chamada “Judiaria Nova” ou "Judiaria Grande". Nesta Judiaria Nova, situada junto da Porta dos Figos, o comércio era animado na Rua Nova e continha a Rua da Cruz de Pedra e a Rua da Esnoga ou Sinagoga, o que permite identificar também a própria localização do templo judaico.



Rua junto ao adro da igreja de Santa Maria Almacave


Desde o séc. XIV que os judeus da então importante cidade de Lamego ocupavam a área entre o castelo e a igreja de Stª. Maria de Almacave. No séc. seguinte os bairros judeus eram já dois; o mais antigo (judiaria da velha), localizava-se junto à Porta do Sol, o que correspondia à judiaria nova ou do fundo junto do adro da igreja citada.



A cidade de Lamego também é uma das povoações da Beira onde impera o maior número de profissionais artesãos, tais como tecelões e alfaiates, e mesmo gibiteiros. Intercalando depois com estas profissões temos os mercadores demonstrando que também aqui é muito importante a área das transacções comerciais. Encontramos ainda profissões ligadas à saúde, como físicos e cirurgiões, aqui com um sublinhado na especialidade de oftalmologia. No sector da religião chegou a haver três rabis. Também nos deparamos com muitas profissões administrativas; assim encontram-se um procurador, um tabelião, um servidor do rei, um recebedor de pedidos, ou mesmo um almotacé ou um vereador e ouvidor. No que diz respeito às questões agrícolas só se tem conhecimento de um rendeiro.


Destarte, no séc. XV os bairros judeus eram já dois; o mais antigo: a Judiaria Velha e a Judiaria Nova. Em 1436, eram mais de 400 os habitantes judeus nas duas zonas, vivendo em judiarias completamente abertas e desfrutando do permanente contacto social com a comunidade cristã. Apesar da importância religiosa católica de Lamego, a percentagem deste número é de extremo significado. 



A partir do reinado de D. Duarte decretou-se que os dois bairros fossem encerrados à noite através de portas colocadas para esse efeito. Estas localizavam-se respetivamente na rua que abria para a Praça (do Comércio) e na que abria para o adro da igreja de Almacave.

A atual Rua Nova correspondia ao primeiro caso (mais a Rua Travessa da Fonte Velha, Rua da Seara e Rua da Cruz) e inclusivamente chegavam a ocupar a Rua do Almacave. Na Rua Nova (antiga judiaria nova) pode ver-se um característico portal ogival, granítico (agora com inscrição cristã). Pode ter sido aqui a antiga Sinagoga. 



José de Lamego, sapateiro judeu, foi quem recebeu de Pêro da Covilhã na cidade do Cairo as informações que de seguida permitiram a D. João II conhecer todos os dados referentes às costas leste africana, arábica e índia que lançou a viagem de Vasco da Gama.
Pêro da Covilhã



Ao lado da cidade existe a povoação de Penajóia, cuja designação arcaica era Peñajuía, o que significaria Penha Judia, indiciando também aí a presença de uma comunidade judaica. 



Brasão de Penajóia



Fontes:


(Rede de Judiarias de Portugal)


(com foto de Rafael Baptista)


Curiosidades Judaicas | Borba, Alentejo.




BORBA


Cidade portuguesa no Alentejo, com 4.500 habitantes.





No contexto da Reconquista cristã da península, Borba foi tomada por D. Afonso II aos Mouros em 1217. Para o seu povoamento e defesa, o soberano doou estes domínios à Ordem de São Bento de Avis, determinando a construção do castelo.




Compreendida no território lindeiro disputado com Castela, sob o reinado de D. Dinis (1279-1325), Borba passou de vez para a posse de Portugal em virtude da assinatura do Tratado de Alcanises (1297). Devido à sua importância estratégica, este soberano concedeu-lhe foral (1302), época em que lhe ordenou o reforço das defesas (foral confirmado no séc. XVI por D. Manuel I).

O crescimento da vila nos séculos XIV e XV, proporcionado pela feira franca e pelo comércio de capitais e produtos, atraiu uma comunidade de Judeus. Esta comunidade era constituída por indivíduos que se instalou no centro urbano, vivendo do câmbio, do empréstimo a juros e dos ofícios, tal como sapateiros, ferreiros, correeiros, oleiros, etc., distinguindo-se assim da maioria da população cristã que se dedicava à agricultura. Sobre a comunidade judaica de Borba pouco ou nada se sabe para além da sua existência documentada.

A localização da judiaria surge, à luz dos dados actualmente conhecidos, bastante problemática. Partindo do pressuposto que a comunidade judaica se instalou após o século XIV atraída pelo comércio proporcionado pela feira franca então é aceitável que a Judiaria de Borba estaria fora do perímetro urbano da época. Esta hipótese é atestada por um documento datado de Agosto de 1448 em que se apreenderam:


"as casas de morada do dicto Judas Pemço e de Samuel Pemço seu padre e fiador aas dictas sysas quessom no arravalde da dicta villa de Borba na judiaria que foram avalhadas em dous mill rreaaesbramcos".


Isto permitira localizar a judiaria no arrabalde da vila e fora do perímetro urbano da época. Porém um outro documento, datado de Setembro de 1442, localiza a Judiaria de Borba junto de uma porta da muralha:


 

"huumas casas na Judiariade Borba, jumto com a Porta, de Samuell Peemço, em dous mill rreaees".




Assim sendo, seguindo o modelo da Judiaria de Portel, a Judiaria de Borba situar-se-ia no lado oposto à malha urbana que se desenvolveu em direcção a Estremoz, ou seja, junto do alçado Sudeste da muralha. 


Nesse lado existia um único arruamento, a Estrada de Vila Viçosa, próxima da actual Rua de São Sebastião, denominada desta forma devido à Ermida com a mesma evocação construída no século XVII (chamada "das Flores" antes da construção da referida ermida). Este seria o local da judiaria.



A Judiaria de Borba foi abandonada no século XVI e arrasada no XVIII com o plano urbanístico da vila que reformou o seu lado oriental.


A existência da Sinagoga de Borba é referida no século XV, nas confiscações que D. Afonso V fez aos Judeus para pagar as suas dívidas e na doação, datada de Fevereiro de 1482, feita a Gomes de Figueiredo dos direitos reais da Judiaria de Borba.


Fontes:

http://questomjudaica.blogspot.com.es/2013/11/borba.html
http://www.visitalentejo.pt/en/alentejo/experience/serra-d-ossa-and-the-zone-of-marble/
http://retratosdeportugal.blogspot.pt/2011/09/borba-porta-de-estremoz-e-muralhas-do.html
http://www.igogo.pt/igreja-de-sao-sebastiao-3/
http://www.portugalio.com/borba/rua-sao-francisco/
http://www.cmborba.pt/pt/conteudos/o%20concelho/historia/muralhas%20do%20castelo/muralhas%20castelo.htm
http://www.visitalentejo.pt/pt/catalogo/o-que-fazer/museus-e-locais-a-visitar/castelo-de-borba/
http://castelosdeportugal.com.sapo.pt/castelos/borba.htm

Beja - À descoberta dos nossos antepassados!



BEJA


Cidade de Beja (1850) por Francisco da Paula Graça 


Beja é uma cidade portuguesa, na região do Alentejo, com aproximadamente 25.100 habitantes. É sede de um dos maiores municípios de Portugal (em área geográfica), com 1 146,44 km² de área e 35 854 habitantes (2011),1 subdividido em 12 freguesias. O município é limitado a norte pelos municípios de Cuba e Vidigueira, a leste por Serpa, a sul por Mértola e Castro Verde e a oeste por Aljustrel e Ferreira do Alentejo.

No século V, depois dum breve período em que sediou a tribo dos Alanos, os Suevos apoderaram-se da cidade, sucedendo-lhes os Visigodos. Do século VIII ao ano 1162 esteve sob posse dos Mouros, que alteraram o seu nome para Beja, a semelhança do nome de uma outra cidade na Tunísia.



Vista aérea da actual cidade de Beja


Quando se fundou o Reino de Portugal no século XII, os Judeus alegam ter vivido em Beja desde o período de dominação muçulmana. Na carta foral concedida à cidade no século XIII, existem até nove cláusulas respeitantes aos Judeus, quer residentes, quer não-residentes, sobre o local de uso estabelecido. 

Uma lápide encontrada no castelo de Beja tem um fragmento de uma inscrição em hebraico referindo-se à morte de R. Judá. Uma outra lápide de Beja foi encontrada no século XVIII e foi trazida para Évora em 1868.



Castelo de Beja


Após a expulsão dos Judeus de Portugal em 1496-97, Beja tornou-se um centro do criptojudaísmo e muitos nativos da cidade sofreram com o auto-de-fé ou escaparam para o exterior.

 Nos primeiros anos do século XVIII, um médico chamado Francisco de Sá e Mesquita denunciou maldosamente várias pessoas de Beja (66 numa ocasião e 92 noutra) que, segundo ele, se reuniram para observar os ritos judaicos.

O nome de Beja foi comum entre os sefarditas do Oriente. Por exemplo, ayyim Beja (c. 1810-1870) de Salónica, que posteriormente se tornou rabino de Tyria, na Ásia Menor, bem como o estudioso-pregador Isaac (nascido Moisés Beja).



Outra vista do Castelo de Beja




Fontes:

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Vila Flor na Rota do Judaísmo - (Trás-os-Montes)




VILA FLOR


Arco de D. Dinis em Vila Flor



Vila Flor é uma vila portuguesa, pertencente à Região Norte e sub-região do Alto Trás-os-Montes, com cerca de 2 200 habitantes. É sede de um município com 265,52 km² de área e 6 697 habitantes (2011) , subdividido em 20 freguesias. O município é limitado a nordeste pelo município de Macedo de Cavaleiros, a leste por Alfândega da Fé, a sueste por Torre de Moncorvo, a sudoeste por Carrazeda de Ansiães e a noroeste por Mirandela.




Embora a comuna hebraica já estivesse presente nesta povoação desde o século XIII, recebeu especial impulso com o acolhimento de famílias judias que fugiram das perseguições europeias e que aqui foram desenvolvendo a agricultura, o comércio e as suas artes e ofícios, como as indústrias de curtumes e ourivesaria.






A antiga judiaria de Vila Flor (Trás-os-Montes) situa-se entre a Rua Nova e a Travessa da Rua Nova, muito próximo do "Arco de D. Dinis", abrangendo a Travessa da Fonte Romana, Ruas D. Dinis, do Saco e da Portela.



Localização da Judiaria de Vila Flor




sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Ancient Synagogue in Saffed



Shabat Shalom!


Pintura de Shmuel Katz

No dia de hoje da história judaica – 7 Adar II do ano 5774



Nascimento e falecimento de Moisés 
(1393 e 1273 AEC)



Moisés nasceu no Egito no dia 7 de Adar do ano 2368 da criação. De acordo com algumas opiniões, o ano em que Moisés nasceu era um ano embolísmico tendo nascido no primeiro dos dois meses de Adar. 


Pintura de Nicolas Poussin

Moisés faleceu aos 120 anos nesta mesma data, no ano judaico de 2488.


Pintura de Alexandre Cabanel
(The Death of Moses)


Não foi pela sua vida ter sido demasiado curta que Moisés não chegou a Canaã, mas por ser a vida de um homem.


Frase de Franz Kafka
Diário Intimo,
     (19 Outubro1921)       


Fontes: