quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Cartas de Lisboa | Tetzaveh



Tetzaveh


A parsha desta semana discute as vestimentas especiais do Cohen Gadol, o Sumo-sacerdote, usadas durante o seu serviço no Templo Sagrado, as quais deveriam ser usadas consistentemente a todo o momento.




Depois de descrever o fino tecido necessário para o robe do Cohen Gadol, o verso descreve um mecanismo singular ligado à parte de baixo desta peça de vestuário “Nas suas orlas deverão fazer romãs … um sino de ouro e uma romã à sua roda” (Shemot 28:32-35)




Estes detalhes não são meramente ornamentais. O verso diz-nos que o sino faria ruído à medida que o Sumo-sacerdote caminhava, servindo assim como anúncio constante da sua aproximação.



Ao comentar este verso, o Tzror Hamor retira uma importante lição deste aspecto tão singular do vestuário. A Torá, diz ele, está a ensinar-nos algo básico em termos de boas maneiras. Quando entramos numa sala ou numa casa, devemos sempre ter a certeza que anunciamos a nossa chegada e não entrarmos subitamente e sem aviso prévio. 



Ainda que esta seja certamente uma ideia muito válida, por que é que a Torá decide enfatizar este ponto específico no meio de algo que parece ser absolutamente não relacionado?



Aqui reside, diz o Tzror Hamor, a real profundidade desta lição, sendo aqui mesmo que a Torá decide introduzir este conceito. O Cohen Gadol veste-se com o vestuário mais bonito e mais espiritual envolvido numa aura de santidade. Mesmo neste contexto, os elementos mais básicos de Derech Eretz - cortesia, devem ser enfatizados e nunca esquecidos. 



O Rebe de Lubavitch retira ainda uma outra lição do ruído vindo dos sinos do Cohen Gadol. No nosso mundo barulhento, cheio de movimentos e tendências, os Judeus podem, ainda assim, confiante e abertamente seguir a sua herança ancestral. Dito de outro modo: 


Os Mitzvot devem ser seguidos de alta voz e com orgulho!

Cortesia de
Rabino Eli Rosenfeld


Shabat Shalom!
chabadportugal.com



Outras fontes:


A terceira pintura a contar de cima é de Richard Weisberg, todos os outros não consegui apurar a quem pertencem, sendo que o segundo é uma representação do Sumo-Sacerdote Eli.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Hoje vamos dar um passeio até à cidade de Guimarães





GUIMARÃES


Cidade portuguesa da região do Minho e com uma população de 52.200 habitantes. 


É uma cidade histórica, com um papel crucial na formação de Portugal, e que conta já com mais de um milénio desde a sua fundação, altura em que era designada como Vimaranes. Podendo este topónimo ter tido origem em Vímara Peres, nos meados do século IX, quando fez deste local o seu principal centro governativo do condado Portucalense que tinha conquistado para o Reino da Galiza e onde veio a falecer.

Guimarães é muitas vezes designada como "Cidade Berço", devido ao facto aí ter sido estabelecido o centro administrativo do Condado Portucalense por D. Henrique de Borgonha, pelo seu filho D. Afonso Henriques poder ter nascido nesta cidade e fundamentalmente pela importância histórica que a Batalha de São Mamede, travada na periferia da cidade em 24 de Junho de 1128, teve para a formação da nacionalidade portuguesa. 



Contudo, as necessidades da Reconquista e de protecção de territórios a sul levou esse mesmo centro para Coimbra em 1129.


Possivelmente na altura de 1096 recebeu o primeiro foral português pelo Conde D. Henrique de Borgonha, escolhida ainda como capital do Condado Portucalense.



Localização da Judiaria de Guimarães


A comunidade hebraica de Guimarães habitou na Judiaria, numa rua central da cidade, logo após a expulsão dos judeus foi baptizada como Rua do Espírito Santo, e actualmente é a R. Dr. António da Mota Prego.



Rua da Judiaria de Guimarães


A Judiaria de Guimarães foi fundada em 1370, quando os Judeus foram confinados a um "gueto" com sinagoga e forno privativo. Aqui, como noutras localidades pela mesma época, o bairro judeu possui características rectilíneas e organizadoras de todo o espaço envolvente.



Rua da Judiaria de Guimarães


Acompanhando um processo de rejeição e de "branqueamento" da memória judaica logo a seguir do édito de expulsão de 1496, o nome da Rua da Judiaria de Guimarães viria a sacralizar-se, neste caso, baptizado de Espírito Santo.

Como exemplos da permanência de Judeus convertidos ao cristianismo após a sua expulsão que tiveram de mudar de apelido, existe o caso de "Riqua e ora se chama clara goncaluez" ou o registo, em 1508, dum Mestre António, cristão-novo como mordomo da Confraria do Serviço de Santa Maria, que poderá ser o mesmo cristão-novo, físico e cirurgião, natural e morador de Guimarães que escreveu um curioso manuscrito datado de 1512, denominado por:




Ecfetivamente, se assim for, não seria de estranhar que o mordomo da confraria sendo físico e cirurgião pudesse prestar alguns cuidados de saúde no hospital da confraria.

Talvez como reflexo da exclusão forçada dos moradores da rua da Judiaria, a inquirição da propriedade e dos encargos pelo contador foi feita com referência ao passado, usando expressões como “pelas casas que trazia”, ou “vivia”, ou “morou”, sempre associadas a nomes judeus, muito provavelmente já ausentes.

No interior da igreja de S. Miguel do Castelo, situada junto ao Castelo de Guimarães (freguesia de Oliveira do Castelo) está gravado um hexagrama (Estrela de David).



Este templo românico serviu de capela real e igreja paroquial. Segundo a tradição, neste local foi batizado D. Afonso Henriques.



Igreja de S. Miguel do Castelo


Fontes:
GoogleEarth

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Judeus e Judiaria de Belmonte - Os que nunca partiram!

  
BELMONTE


Vila portuguesa localizada junto da Serra da Estrela, região da Beira, 
com cerca de 3.100 habitantes.


Belmonte destaca-se pela sua excepcional posição estratégica, não só pela sua altitude, mas também como ponto de convergência de importantes vias antigas e outros elementos (riqueza mineral, recursos hídricos,…) que contribuíram para que, desde tempos imemoriais, populações se tenham estabelecido nesta vila.

Por todo o município registam-se vestígios pré e proto-históricos, romanos e medievais, que provam a preferência das comunidades primitivas em se estabelecerem neste espaço. Os Judeus também não devem ter ficado indiferentes a estas condições, pelo que a sua presença em Belmonte deve recuar bastante no tempo.

Apesar dos escassos conhecimentos acerca da primitiva presença judaica em Belmonte, o contributo desta comunidade para a história da Vila é indiscutível, pela sua presença ainda na actualidade e pelos vestígios deixados pelas comunidades anteriores.

Devido à escassez de referências documentais e de vestígios, não se conhece a data exacta do estabelecimento dos Judeus em Belmonte, no entanto, os mesmos, são citados no foral outorgado por D. Sancho I em 1199, o que poderá ser já um sinal da sua presença. É de referir que a passagem onde se menciona a palavra “Judeus” repete-se noutros forais atribuídos na época, em vários locais da Beira Baixa, adaptados do foral de Ávila; “ testemunhamos e para sempre confirmamos que todo o que penhorar mercadores ou viajantes cristãos, judeus ou mouros, a não ser que seja fiador ou devedor, todo o que isto fizer, pague ao Bispo 60 soldos e dará em dobro o gado que tomar ao seu dono”. Não se sabe se este trecho comprova a existência, já no final do século XII, de Judeus em Belmonte, no entanto, por essa altura, sabe-se da existência de populações judaicas na Covilhã, Guarda, Gouveia, Trancoso e outras terras da Beira. Por isso, é provável que Belmonte tivesse já a sua comunidade de Judeus.

Após a concessão do foral e o reconhecimento da entrega do senhorio da Vila ao Bispado de Coimbra, fomentou-se o crescimento do primitivo núcleo urbano de Belmonte, procedendo-se também à construção do castelo. A Vila, aproveitando a disposição topográfica do espaço, expande-se para poente, em torno da actual Rua Direita, e para nascente, em torno da Igreja de S. Tiago e de Sta. Maria (hoje desaparecida).




Castelo de Belmonte


Em 1910, aquando da demolição da Igreja de S. Francisco (antiga Igreja do Espírito Santo e Misericórdia), no actual Largo António José de Almeida, Francisco Tavares Proença Júnior identificou uma lápide com caracteres hebraicos inscritos, com a seguinte legenda;

“E Adonai está no seu templo sagrado, emudece perante Ele toda a sua terra”


(Livro de Hababuc, 2.20), que possivelmente pertenceria à torça da porta principal da primitiva sinagoga e cuja datação remonta a 1297.

O facto de haver já uma sinagoga nessa altura, reflecte a permanência em Belmonte de uma comunidade judaica numerosa, bem estabelecida e organizada.

Portanto é ponto assente que não teriam sido os Judeus expulsos de Espanha em 1492 que fundaram a comunidade judaica de Belmonte, embora, pela proximidade da fronteira, a tivessem reforçado.

Relativamente à localização da judiaria, apesar de não haver certezas, devido à escassez de fontes histórico-arqueológicas, é a toponímia, com nomes como Rua da Judiaria, Bairro de Marrocos, que auxilia na sua localização espacial. A Judiaria de Belmonte poderia situar-se em torno das atuais Rua Direita (antiga Rua Direita de Marrocos) e Rua da Fonte da Rosa (antes Rua da Judiaria e Rua de Marrocos), no interior do espaço urbano amuralhado.




Local onde estaria situada a primeira sinagoga, em 1297


A área compreendida por entre estas ruas e pela Rua da Sé (que dá acesso hoje à Igreja Matriz) é identificada como a zona Medieval da vila. A norte da Rua Direita existe uma antiga praça que mantém basicamente a estrutura que de velho tinha, com casinhas feitas em granito e cruciformes nas ombreiras. A comunicação entre estas artérias principais faz-se ainda por pequenas vielas e guetos onde teriam vivido outrora Judeus, mouros e homiziados.



Casa na Judiaria de Belmonte. Foto: UM JEITO MANSO



A localização da possível sinagoga é ainda desconhecida, pois a referida situar-se-ia demasiado longe da primitiva judiaria, e num local que somente foi ocupado a partir do séc. XV. Com o Édito de Expulsão de 1496 a Sinagoga de Belmonte foi transformada em templo religioso (na Igreja do Espírito Santo, culto bastante frequente na época). Alguns elementos arquitectónicos manuelinos provenientes da Igreja, como uma pia baptismal, reforçam a ideia da transformação da sinagoga em templo religioso por essa altura.

A sinagoga era o centro da comunidade judaica, funcionando como templo, tribunal e escola. Os açougues, fornos, lagares, entre outros equipamentos, eram também indispensáveis numa judiaria. Quanto ao cemitério, desconhece-se a sua localização, mas seria, com certeza, fora do limite amuralhado.

É nos séculos XIV e XV, devido ao crescimento económico, demográfico e urbano, que Belmonte começa a ampliar o seu espaço urbano para poente, estruturando-se em torno do Largo Afonso Costa, Praça da República, Rua 1º de Maio, Rua do Inverno, Rua Nossa Senhora de Esperança, Rua Pedro Álvares Cabral, e Largo António José de Almeida, local conhecido como Devesa, onde se realizariam as feiras e mercados.

De facto, o espaço situado entre o Largo Afonso Costa e o Largo António José de Almeida era um espaço de grande atividade comercial e artesanal, a que os Judeus não teriam sido alheios, estabelecendo aqui um segundo núcleo habitacional. Além disso, a comunidade local de Belmonte, por esta altura, deve ter sido engrossada por Judeus vindos de Espanha, após o Édito de Expulsão espanhol de 1492. Nesta altura, teria mais lógica, a fundação de uma sinagoga no Largo António José de Almeida, pois estava mais perto dum novo centro de presença judaica.

No entanto, estes locais nom estariam totalmente demarcados, havendo seguramente uma espécie de coabitação dos habitantes de Belmonte. Apesar de poder haver arruamentos estabelecidos e pré-definidos, os Judeus poderiam, provavelmente, fixar-se de forma espontânea e livre entre a população cristã.

Em dezembro de 1496 é assinado o decreto de expulsão dos Judeus em Portugal por D. Manuel que irá mudar radicalmente a situação da comunidade judaica. Assim, todos os Judeus são obrigados a abandonar Portugal num prazo de 10 meses, no entanto, D. Manuel não estava interessado na partida dos Judeus, por isso, o prazo alargado da expulsão e as conversões à força. Os Judeus exerciam bastante influência em diversos campos: económico, político, social e cultural, destacando-se pelas atividades mercantis, artesanais, usurárias e, por isso, a inconveniência na sua partida.


Em Belmonte, o pagamento da judenga, em 1496, confirma que os Judeus continuavam a viver na localidade, mas com o decreto de expulsão de D. Manuel e o estabelecimento da Inquisição em 1536 muitos Judeus devem ter fugido. Os que ficaram praticavam a sua religião em segredo. Assim, Belmonte nunca terá sofrido um abandono total dos Judeus.





Na década de 1920 Samuel Schwarz, um engenheiro de origem judaico-polaca que realizava trabalhos na zona, detectou a existência de judeus em Belmonte; “uma comunidade bastante demarcada da comunidade católica, conservando práticas, usos e costumes muito característicos que teimam em manter-se”.



Depois de séculos de resistência e de organização judaica em segredo, findas as perseguições da época da inquisição e terminados os processos de integração católica que diluíram a totalidade das muitas comunidades existentes na sociedade católica portuguesa, veio a descobrir-se que em Belmonte estavam vivas as tradições, a organização e a estrutura religiosa dos últimos Judeus secretos de Portugal, que continuaram a casar-se apenas entre si durante séculos e expulsando da comunidade quem quebrasse esta norma.

Logo depois da "descoberta", para dar conta do seu encontro com os cripto judeus de Belmonte Schwarz escreveu em 1925 "Cristãos-Novos em Portugal no século XX", publicada como separata da revista "Arqueologia e História" da Associação de Arqueólogos Portugueses. Ele fez esforços para que os cripto judeus de Belmonte regressassem oficialmente ao Judaísmo. 

Algumas organizações judaicas, entre as quais a Alliance Israélite Universelle e pessoas individuais como Cecil Roth e Lucien Wolf uniram-se a esses esforços com entusiasmo.



Símbolo da Alliance Israélite Universelle



Cecil Roth e Lucien Wolf


Os Judeus de Belmonte constituem a última comunidade peninsular de origem cripto judaica a sobreviver enquanto tal e subsistir ainda hoje com unidade, possuindo sinagoga, rabino e cemitério próprio. Tem igualmente uma direcção comunitária.

Depois de tempos de ocultação religiosa, a actual comunidade judaica de Belmonte une esforços no seu resgate, na sua reconversão de cristãos-novos ou marranos ao judaísmo puro, visto que anos de convívio com os cristãos corromperam algumas das suas práticas judaicas. Este regresso apenas teve lugar na década de 1970, depois da comunidade estabelecer contacto com os Judeus de Israel.

A comunidade de Belmonte cumpre hoje os principais ritos religiosos, alguns dos quais desapareceram da memória colectiva belmontense. Outros foram secularmente cumpridos, embora por vezes fortemente deturpados. É necessário entender que esta comunidade se tornou secreta durante séculos sem qualquer tipo de contacto com o judaísmo exterior.

Assim, actualmente o ciclo litúrgico anual dos Judeus de Belmonte compreende o Dia do Perdão (Yom Kippur), a Festa dos Tabernáculos (Sukot), a Alegria da Lei (Simchat Torah), a celebração da Rainha Ester (Purim), a Santa Festa (Pessach) e a Festa das Colheitas (Shavuot). Para compreender as transfigurações tornadas evidentes polo isolamento secular está o caso da Hanukah. Esquecida há séculos, foi substituída pela cerimónia do Natalinho. Interrogados sobre o seu significado, os Judeus belmontenses diziam que se celebrava o nascimento do Santo Moisés. Nas últimas décadas a festa acabava por coincidir com o Natal dos cristãos. Curiosos relatos como este podem ser analisados no livro de Maria Antonieta Garcia intitulado "Os Judeus de Belmonte - Os Caminhos da Memória".

Já que as fontes documentais e os vestígios são escassos, sobram os motivos cruciformes ainda visíveis, que podem fornecer algumas informações acerca da ocupação espacial judaica em Belmonte. No decurso do levantamento dos elementos patrimoniais efectuado pelo Gabinete Técnico Local (GTL), que elaborou o Plano de Salvaguarda da Vila, foi dada especial atenção às cruzes presentes nalgumas ombreiras de casas, pelo que foi feito o seu inventário, assim como o seu decalque e registo fotográfico. 



Cruciforme de Belmonte. Foto: Rafael Baptista


Numa primeira análise os motivos cruciformes identificados não são muito abundantes, porque alguns foram destruídos e outros poderão estar encobertos pelos revestimentos modernos das casas. Além dos motivos cruciformes, registam-se ainda algumas datas e observa-se também a presença de casas com portas duplas e outros vestígios que reflectem o secretismo dos cultos.

No núcleo mais antigo os motivos cruciformes são ainda visíveis nos nº96, 108 do Largo da Rua Direita, nos números 468, 470, 484 e 455 da Rua Fonte da Rosa e no nº137 da Travessa da Fonte da Rosa.

No segundo núcleo observam-se motivos cruciformes no nº31 do Largo de Santarém (nº31), no nº51 da Rua do Inverno (muitas vezes chamada depreciativamente como Rua do Inferno quando nela habitavam membros da comunidade judaica), nº56 da Rua 1º de Maio, nº90 da Travessa do Correio e nº140 da Rua 25 de Abril.

As cruzes são geralmente simples, apresentando algumas hastes nas pontas. O seu tamanho varia entre os 6 e os 25,5 cm. O traço da gravação é geralmente muito irregular e tosco, variando dos 0,4 aos 2,5 cm. Cabe referir também que muitas destas cruzes aparecem associadas a portas biseladas, assim como a casas com características comerciais.

Existem também referências à existência de outros motivos cruciformes nas casas n.º 97 e n.º 107 (Rua Direita), assim como no n.º 483 e 486 (Rua Fonte da Rosa). O conjunto de casas formado pelos nºs 106, 107, 108 e 109 teriam ligação interna entre si, de modo a poderem servir de escapatória, caso fossem detectados nas suas práticas. As casas n.º 102 e 103 e também o n.º 138 também teriam ligação interna entre si. Nas traseiras do edifício n.º 138 é possível observar uma porta entaipada que daria com outro edifício, hoje em ruínas. Na Rua Pedro Álvares Cabral são também referidas cruzes em alguns edifícios.



Cruciforme identificado em Belmonte. Foto: UM JEITO MANSO


Em Belmonte registaram-se também cruzes em afloramentos rochosos, talvez com a intenção de demarcar espaços e no Lagar da Fontinha, aí em razoável quantidade.

De referir, no entanto, que a existência de estes motivos cruciformes, que podem estar associados a datas e outros anagramas, gravados nas ombreiras de habitações e outros espaços públicos (fontes, moinhos, etc), deve ser compreendida como um elemento de cristianização do local. Nem sempre a gravação dum elemento cruciforme deve ser entendida como a marcação de um espaço de ocupação judaica. Assim como não se deve entender todas as portas biseladas e habitações com portas destinadas a local de comércio de judeus.

Todos estes elementos constituem vestígios de vivências, pelo que a sua protecção é indispensável para a preservação da memória colectiva. Ameaçados pela erosão, abandono, reconstruções do edificado e por acções humanas, os vestígios da judiaria de Belmonte já são escassos.


Em 1989 a Comunidade Judaica de Belmonte é reconhecida oficialmente e em 1996 inaugura a Sinagoga “Beit Eliahu” (Filho de Elias) precisamente na Rua Fonte Rosa, uma das ruas da antiga judiaria. Também o cemitério judaico foi aberto em 2001.



Sinagoga Beit Eliahu de Belmonte


Desde 2005 está igualmente aberto ao público o Museu Judaico (único em Portugal) e Centro de Estudos Judaicos Adriano Vasco Rodrigues que retrata a história da presença sefardita em Portugal, usos, costumes e que integra um memorial sobre as últimas notícias da inquisição.




Fontes:

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Judiaria de Óbidos!


Óbidos  
Um pequeno passeio pelo passado!



Cidade amuralhada foi tomada aos Mouros em 1148 e recebeu a primeira carta foral em 1195, sob o reinado de D. Sancho I.

A Judiaria de Óbidos, na zona ocupada por mercadores, artistas e cientistas, achava-se no centro da vila, muito perto da Rua Direita e da Igreja de Santa Maria.



Rua Direita e Igreja de Santa Maria


Anteriormente ao desenvolvimento da malha urbana da Vila para Sul, dando origem à abertura da Rua Direita, esta artéria de circulação, designada por Rua Nova, era a mais importante, permitindo a comunicação entre a Estrada Real, o arrabalde, a almedina e judiaria, e a Porta de São Tiago.




Após a tomada de Óbidos aos mouros rapidamente a almedina começa a perder a sua população eminentemente islâmica, talvez porque parte dela se converteu ou porque foram banidos da vila. Esta rua passa, então, a ser o centro de vida dos judeus, persistindo neste espaço até ao século XVI (altura em que foram expulsos de toda a península). A Rua Nova deve este nome ao facto de, no século XVI, ter sido redesenhada em função de diversos abalos sísmicos que deverão ter destruído bastantes casas, tanto mais por serem as mais antigas e frágeis. Contudo ela assenta quase certamente sobre uma rua de traçado semelhante, que seria uma das mais movimentadas e prósperas durante todo o período final da Idade Média. Aqui se concentravam os negócios das principais famílias judias, com as lojas e oficinas.

Tendo em conta a localização da judiaria e de acordo com a tradição, uma das casas da Rua Nova, hoje em completa ruína, foi o templo de oração hebraica, datando, possivelmente do séc. XIV ou XV.



Possível Sinagoga de Óbidos


Desde que passou a ser propriedade dos reis de Portugal, Óbidos sempre desfrutou de uma especial protecção por parte da corte real, chegando mesmo a contar com uma escola de arte e ciências. Os efeitos deste ambiente cultural são evidentes no património artístico existente, mormente no palácio manuelino construído dentro dos muros do castelo.



Fontes:


I Ciclo de Cinema Judaico - Belmonte



A associação de Jovens Judeus de Belmonte,


Apresenta:


No auditório do museu judaico de Belmonte:

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Por vezes a vida é abstracta...


...Mas nem por isso menos bela! J


ShavuTov!


Pintura de Malka Tsentsiper 

A Judiaria de Aveiro



"Veneza Portuguesa"



Aveiro, conhecida como a "Veneza Portuguesa", é uma cidade portuguesa, do Distrito de Aveiro, na Região Centro e pertencente à sub-região do Baixo Vouga, com cerca de 55 291 habitantes.


A sua magnífica situação geográfica propiciou desde muito cedo a fixação da população, sendo a salinagem, as pescas e o comércio marítimo fatores determinantes do seu desenvolvimento, o que pode ter atraído os Judeus.



No séc. XIII Aveiro foi elevada à categoria de vila. Em 1434 D. Duarte concedeu-lhe o privilégio de realizar uma feira franca anual que chegou aos nossos dias.

Segundo a documentação existente, já no século XV a comuna da Judiaria de Aveiro atingia o número suficiente de pessoas para lhe ser imposta a segregação.

A Judiaria de Aveiro localizava-se no terreno em que, mais tarde, se constituiu a cerca e dependências do Convento das Carmelitas.



Igreja das Carmelitas
Situa-se na praça de Marquês de Pombal e faz parte do antigo convento de S. João Evangelista, popularmente conhecido como convento das Carmelitas.



Planta de Aveiro do séc. XVII indicando o local onde se encontrava a antiga Judiaria.


Porém, na primeira década do século XX essa cerca e dependências foram derrubadas para a abertura da Praça do Marquês de Pombal.



Projecto de 1905


Projecto apresentado pela Câmara Municipal, em 1905, para abertura de um novo arruamento, que viria a ser a Praça Marquês de Pombal. Como se pode ver, a concretização do mesmo sacrificou uma grande parte dos edifícios conventuais.


Fontes:

(Fonte: Alice Nogueira Alves, "Ramalho Ortigão e o Culto dos Monumentos Nacionais no Século XIX")