segunda-feira, 24 de março de 2014

Judiaria de Castelo Rodrigo


Castelo Rodrigo


Vista de Castelo Rodrigo


A vila de Castelo Rodrigo é hoje uma freguesia de 500 habitantes pertencente ao concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. Situado numa elevação de 820 metros, da que se pode vislumbrar a Serra da Marofa, a vila de Figueira e paisagens que se estendem até Espanha.




Serra da Marofa


Castelo Rodrigo teve importância no século XIII em consequência do progresso da Reconquista. Conquistada por Afonso Henriques, em 1161 o rei galego Fernando II mandou repovoar a região. Poucos anos depois, em 1209 Afonso VIII da Galiza concede-lhe foral, visitando-a em várias ocasiões. A última visita, em 1230, quando se dirigia para Compostela para cumprir a promessa que contraíra em agradecimento pela tomada das cidades de Mérida, Cáceres e Badajoz. O monarca não conseguiu chegar a Compostela porque caiu doente e morreu perto de Sárria.



Pela sua localização geoestratégica, Castelo Rodrigo, que passou a domínio português em 1297 pelo Tratado de Alcanices, teve importância nas guerras de libertação de Portugal contra Castela. Foi o rei Dom Dinis quem mandou edificar as grossas muralhas reforçadas por cubos semicirculares que protegiam o casario.

A 7 de Julho de 1664 travou-se nesta vila a famosa batalha de Castelo Rodrigo, onde as tropas portuguesas comandadas por Pedro Jacques de Magalhães derrotaram o exército espanhol do Duque de Osuna.



Legenda do Painel da batalha de Castelo Rodrigo


Situada sobre um outeiro, hoje constitui um notável testemunho para estudar a realidade de uma pequena cidade dos séculos XV e XVI, já que com o seu declínio, ao perder importância como praça militar e fortaleza, os seus habitantes, a partir do século XVI, foram abandonando o recinto murado na procura de uma maior comodidade e foram-se assentando no que seria a nova cidade, localizada na encosta da colina: Figueira de Castelo Rodrigo. Isto fez com que a velha cidade amuralhada tenha permanecido praticamente congelada desde então.



Muralhas de Castelo Rodrigo


Castelo Rodrigo teve, em relação ao seu tamanho, uma importante colónia judia e, quando os Reis católicos expulsaram os Judeus dos seus domínios, o rei português Dom João II - (foto à esquerda) assinalou Castelo Rodrigo como um dos cinco pontos para permitir a sua entrada em Portugal, juntamente com Olivença, Arronches, Bragança e Melgaço, devendo pagar cada judeu oito cruzados. Nessa altura a população de Castelo Rodrigo andava por volta das 300 pessoas.



Milhares de Judeus súbditos dos reinos de Espanha refugiaram-se em Portugal, assentando muitos deles nas principais judiarias da zona: Castelo Rodrigo, Guarda, Trancoso e Sabugal. Em consequência, a próspera comunidade judaica de Castelo Rodrigo, viu-se incrementada. Porém, muitos dos seus membros converter-se-iam em cristãos-novos por causa da expulsão decretada pelo rei português Dom Manuel I em 1496 e que deu lugar aos chamados "baptizados em pé". D. Manuel I concedeu um novo foral à cidade em 1508 e reedificou o castelo. A fasquia da cidade de então foi recolhida nos desenhos de Duarte de Armas no seu "Livro das Fortalezas".



Desenho de Duarte de Armas


Os Judeus de Castelo Rodrigo, como em outras judiarias, desenvolveram múltiplas actividades. Enquanto os mais formados exerciam as profissões de escrivães ou doutores, outros dedicavam-se a ofícios de artesanato, tais como alfaiates, sapateiros, curtidores, ferreiros e uns outros dedicavam-se ao comércio como arrieiros e transportadores comerciando com tecidos, vinho, óleo e outras mercadorias.

Alguns Judeus eram penhoristas, actividade muito ligada à prosperidade financeira de alguns membros da comunidade, o que promoveu invejas e queixas por parte da população cristã, que quando pedia dinheiro emprestado aos Judeus, não aceitavam que estes cobrassem juros tão altos. Uma das queixas aconteceu em 1321 onde o concelho de Castelo Rodrigo se queixou ao rei D. Dinis, de que os juros praticados pelos judeus arruinavam os moradores da vila e de aldeias vizinhas. Além disso, também havia os que se dedicavam à agricultura ou gadaria, actividade que alguns realizavam como complemento das suas ocupações habituais.



Brasão de Castelo Rodrigo


No ponto mais elevado da colina em que se implanta a vila, localiza-se o castelo de planta trapezoidal com diversas torres. A povoação era protegida por um muro de cerca com torreões redondos adossados, actualmente muitos deles arruinadas ou então ocultos sob construções mais modernas. A cerca tinha duas portas: a de Alverca, orientada a Oeste, e a do Sol, virada a Nascente. Existia ainda um postigo do lado Norte. 



Porta da Nascente – de fora para dentro e vice-versa.


O traçado urbano no interior da cerca mostra um plano ortogonal que se adapta à configuração do terreno e se desdobra em dois blocos. Registam-se no início do séc. XIV três igrejas paroquiais: Santa Maria (Senhora de Rocamador) e S. João, ambas intramuros, e S. Bartolomeu, no exterior, já desaparecida, situada onde está hoje o cemitério paroquial.



Mapa do traçado urbano.


A antiga judiaria de Castelo Rodrigo localizava-se por volta das actuais Rua da Cadeia, Rua do Relógio e a Rua da Sinagoga que desemboca frente o prédio que ainda se conserva em relativo bom estado a sua mikvé, onde os judeus efectuavam os banhos rituais.



Planta de Castelo Rodrigo


Um dos vestígios da presença hebraica em Castelo Rodrigo está no Poço-Cisterna, construção que apresenta duas estruturas arquitectónicas distintas, uma ao estilo gótico, a outra com arco em ferradura, denotando uma influência islâmica que, supostamente terá sido edificada ainda no século XIII. Segundo a tradição local, poderá ter pertencido à cisterna/mikvé existente na sinagoga desta povoação.



Cisterna de Castelo Rodrigo


Castelo Rodrigo conserva um grande número de prédios, cujos muros exteriores, acima de tudo na sua parte correspondente aos pisos baixos com os seus ocos de portas e janelas, são originais da Idade Média, mormente dos séculos XV e XVI. É por todo isso que se trata de um bom local onde levar a cabo a identificação das possíveis habitações de Judeus ou conversos.



R. da Cadeia de Castelo Rodrigo


Várias casas mostram nos seus muros gravadas cruzes de conversos, mas sem edificações com a concavidade para a mezuzá. Um outro número significativo de habitações possuem uma pequena concavidade polida na altura da ombreira onde estaria colocada a mezuzá. Por exemplo, o número 32 da Rua da Cadeia.



Casa da R. da Cadeia nº 32

Na porta do número 36 desta rua existe o mesmo tipo de concavidade na ombreira esquerda, com uma cruz de converso na mesma pedra. A habitação do número 25 apresenta a concavidade na pedra central da ombreira direita da porta.



Casa da R. Cadeia nº 36



Casa da R. Cadeia nº 25


O número 14 da Rua do Relógio mostra uma cruz e uma concavidade na pedra da ombreira direita.



Casa da R. Relógio nº 14


Na Rua da Sinagoga é singular uma porta parcialmente enterrada abaixo o nível actual da rua que apresenta concavidades nas suas ombreiras, com duas cruzes gravadas no lado esquerdo e uma cruz de três braços horizontais e a concavidade para a menorá no lado direito.



Casa da R. Sinagoga de Castelo Rodrigo


Mais casas de Castelo Rodrigo mostram concavidades nas suas portas ou cruciformes gravados ou as duas situações.



Fontes:
http://questomjudaica.blogspot.com.es/2013/11/castelo-rodrigo.html
(Por Caeiro)
http://www.feriasemportugal.pt/pt/galerias/aldeia-de-castelo-rodrigo/
http://tempocaminhado.blogspot.pt/2012/05/vila-nova-de-foz-coa-curso-de.html
http://paidobicho.blogspot.pt/2009_12_01_archive.html
http://www.sargacal.com/2009/11/14/castelo-rodrigo/
http://www.hospedariadoconvento.pt/c/regiao
http://pt.wikipedia.org/wiki/Figueira_de_Castelo_Rodrigo
Fotos: Google Maps
Fotos: Fonseca Moretón

domingo, 23 de março de 2014

Narbonne: A Lost Medieval Jewish Kingdom



Reis judeus reinaram desde o século VIII até ao século XIV no sul da França.








Vista panorâmica de Narbonne


Por Nadine Epstein


     As pessoas ficam surpreendidas quando eu menciono que Narbonne, uma pequena cidade na região de Languedoc, sul da França, a norte dos Pirenéus e a poucos quilómetros do interior do Mediterrâneo, foi lar de um "reino judeu" governada por uma dinastia que se diz ser descendente do Rei David. E por que não? Não é sempre que se ouve falar de reinos judeus fora de Israel.

     Localizada numa planície que liga a Europa à Península Ibérica, Narbonne era uma cidade importante nos primeiros séculos da Era Comum, disputada e controlada por diversas vezes pelos romanos, visigodos e entre 719-759, pelos sarracenos, como cristãos que naquela Era, eram chamados de muçulmanos. 

     Os judeus viviam lá em relativa paz desde pelo menos do século V em diante, altura em que operam negócios comerciais e pagam um tributo anual para a sua protecção. Mas, quando Pepino o Breve, Rei carolíngio, empurrou os muçulmanos de volta para os Pirinéus, um novo e fascinante capítulo judaico começou a desenrolar-se.



Tropas muçulmanas deixando Narbonne
por Pépin le Bref, no ano 759.
By Emile Bayard, 1880


     Existem muitas fontes históricas primárias que mencionam os romanos, cristãos e judeus de Narbonne. Apesar de muitas contradições nestes relatos, todos concordam que Pepin deu aos judeus um terço da cidade e o direito de possuir propriedade hereditária, tornando-lhes possível construir fortunas em imóveis, manufactura e indústria. As razões para esta benevolência variam de texto para texto: Uma das fontes diz que os judeus ajudaram a derrotar os sarracenos, outra que um judeu salvou o rei quando ele caiu do cavalo, e ainda uma outra que os judeus tinham convencido os sarracenos a aceitar tributo sem prejudicar o mensageiro. Alguns historiadores simplesmente atribuem o movimento de Pepino a uma estratégia inteligente: Uma poderosa comunidade judaica poderia facilitar o comércio mundial e funcionar como um tampão político entre terras cristãs e não-cristãs do sul.



Pépin le Bref, por Louis Félix Amiel, 1837.


     Mas o motivo não se prendia apenas com esse facto; os reis francos queriam um judeu de sangue nobre para governar o seu reino judeu. (Mais uma vez, existem diferenças a respeito do porque é que a luta pela sucessão na comunidade judaica é uma das razões mencionadas.) Esse homem era o rabino Makhir, um estudioso babilónico que foi trazido para Narbonne para gerir uma escola de estudos talmúdicos. Conta a história que Makhir era um príncipe (em hebraico, nasi) de ascendência do Rei David e, como membro da família real judaica, era elegível a ocupar o cargo honorário de governante dos judeus exilados na Babilónia. Após a sua chegada a Narbonne, foram cedidos a Makhir grandes territórios fora da cidade que tinham sido reconquistados aos muçulmanos. 



Selo do nasi de Narbonne.


     Makhir dirigiu os assuntos da comunidade judaica e gerou uma dinastia. Ele e seus descendentes não eram Reis soberanos, mas sim, "Rei dos judeus", (rex Judaeorum -latim), diz Norman Golb, professor emérito de história e civilização judaica na Universidade de Chicago.

"Alguns estudiosos gozam desta figura. Mas as fontes históricas são absolutamente inequívocas sobre a presença em Narbonne de um rex Judaeorum. "

    Enquanto os Reis judeus não se pronunciaram sobre os cristãos, receberam tratamento preferencial. Não só podiam ter criados cristãos, diz Nina Caputo, professora de história na Universidade da Florida em Gainesville, como também gozavam de privilégios a que os cristãos não tinham direito, como por exemplo, o direito de portar armas. Os cristãos ficaram chocados e irritados com esse comportamento "escandaloso". 




Santo Agobardo expulsando os judeus de Lyon.


     "Você já ouviu falar de Agobard de Lyon?" -  Pergunta Nina Caputo -  "Ele foi um bispo que entrou num conflito com o rei Luís, o Piedoso [filho de Carlos Magno] no século IX. Louis tinha dado aos judeus uma incrível liberdade de vida e comércio, e Agobard escreve uma carta de reclamação dizendo que os judeus estão recebendo mais privilégios do que os cristãos e que o rei está ameaçando a cristandade. "



Rei Luís, O Piedoso.


      Narbonne neste momento era uma grande potência entre uma teia regional complexa de principados. "É bem acima dos Pirenéus, mesmo no limite da autoridade cristã”, diz Caputo.

     "Era um local de batalhas importantes. Era um local de comércio importante e de política local, "Narbonne era também um lugar de aprendizagem talmúdica. O Rabino Makhir e os seus descendentes eram famosos pela sua enorme capacidade de interpretar a lei talmúdica e pela sua influência espiritual realizada sobre os judeus em toda a região e não só. 



 Narbonne


    Benjamin de Tudela, o grande viajante judeu da Idade Média, que passou por Narbonne na sua viagem para o Oriente, no século XII, descreveu Narbonne como "dona da lei hebraica," com os judeus lá de e "a raça de David" que possuem, terão "grandes bens" sob a protecção dos príncipes do país.



Benjamin de Tudela.


    Eram tempos voláteis, e os judeus, como todos os outros, poderiam estar sujeitos à violência. Há um registo de um tal surto em 1236, e que foi este mesmo registo que me levou a fazer este artigo, e que conta o seguinte:

     No decorrer de uma luta com um pescador cristão, um judeu desferiu-lhe um golpe que o levou à morte. Os enfurecidos cristãos de Narbonne, França, começaram um tumulto e ataques à comunidade judaica. O governador de Narbonne, Don Aymeric, interveio rapidamente e despachou um grupo de soldados para proteger a comunidade judaica. A rebelião foi contida e todos os despojos que tinham sido roubados durante os conflitos foram devolvidos aos judeus. O 21 de Adar ficou registado como “Purim Narbonne”, um dia no qual a comunidade celebra anualmente este evento histórico.


No dia de hoje na história judaica, dia 21 de Adar do ano 5774, acontecia o Purim Narbonne.


Celebração do Purim de Narbonne, na sinagoga em Amestardão.


Eventualmente foi a prosperidade da comunidade judaica que o levou à sua morte. Viscondes de Narbonne beneficiaram de impostos judeus, assim como os Reis franceses, cheios de dívidas, começaram a ficar de olho nas propriedades judaicas, como uma forma de enriquecer os seus cofres. Em 1306, o rei Filipe, o Belo confiscou as mesmas dos judeus e expulsou-os, apesar dos esforços das autoridades locais para os proteger.

Algumas décadas mais tarde, a peste irrompeu em Narbonne, e uma enxurrada mudou o curso do rio Aude, impedindo os navios de atingir a cidade. Narbonne entrou em declínio e nunca se recuperou a sua proeminência. Embora os descendentes de Rabbi Makhir já não governassem nenhum reino, eles continuaram a casar-se com as famílias nobres da Europa, tanto judaicas como cristãs, espalhando assim, a pretensão de ascendência davídica. É difícil separar o fato da lenda, mas algumas genealogias fazem a ligação entre os Reis judeus de Narbonne com os grandes monarcas da Europa, como por exemplo; os fundadores dos Illuminati e até mesmo o Rei Artur.



Fontes:


sexta-feira, 21 de março de 2014

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Shabat Shalom!


Pintura de Adela Camille Sutton



Cartas de Lisboa | Shemini


Shemini


Muitas das leis de kashrut são-nos ensinadas na parsha de Shemini.


Um animal kasher é definido como tendo "um casco rachado que é completamente dividido em dois cascos", e ao mesmo tempo que “regurgita a sua ruminação” (Vayikra 11:3)


Exemplo: Vaca, Cabra e Ovelha


Do mesmo modo, peixe kasher é reconhecível por duas marcas de identificação, já que a Torá nos diz que todos os peixes kasher têm “guelras e escamas". (Vayikra 11:12)


No que toca a aves, contudo, a coisa é mais complicada. Em vez de nos dar os indicadores do kashrut das aves, a Torá dá-nos uma lista. "De entre as aves, considerem os seguintes … que não poderão ser comidos." (Vayikra 11:13)

A Torá continua listando todos as aves que não são kasher deixando as restantes, aquelas que não estavam na lista, como sendo kasher.

Dom Abarbanel questiona esta abordagem. "Porque é que a Torá não nos dá as marcas de kashrut para as aves como faz para os peixes e animais?”

De facto, Dom Abarbanel cita o Talmude (Chulin 59a) onde se descrevem certas características das aves kasher. Não são aves de rapina diz o Talmude, e as aves kasher têm uma parte do seu sistema digestivo a moela com uma fina camada superficial que pode ser retirada e tem um dedo do pé extra.



Se este é o caso, porque é que a Torá decide não menciona estes sinais e nos deixa simplesmente usar uma lista?


Dom Abarbanel reconhece que talvez a Torá quisesse apenas usar marcas que fossem obviamente visíveis em contraste com as aves kasher que requerem análise de comportamento e diferenças internas.

O Rebbe Lubavitcher oferece uma abordagem diferente em relação à necessidade de usar uma lista e das razões porque a Torá identifica as aves kasher deste modo.

Ao contrário de marcas óbvias que podem ser sempre identificadas, uma lista requer que a tradição desta informação seja passada de geração em geração.

Para se saber quais são as aves kasher e as que não são kasher é necessário aprender e ensinar esta lista. Na realidade, diferentes comunidades em pontos diferentes do mundo, têm listas de aves que são diferentes dependendo das suas tradições.

Ainda que independentemente, o conhecimento e o estudo sejam vitais, a continuidade do Judaísmo depende também da transmissão da tradição oral de uma geração para a outra.


Ao  nos dar a lista, a Torá recorda-nos a importância da tradição e da ligação de tudo o que fazemos para a manter, tal como fizeram os nossos líderes e mestres de todos os tempos; de geração em geração.


Shabat Shalom!

Cortesia do Rabino
Eli Rosenfeld


chabadportugal.com




Fontes das Imagens: