sábado, 9 de novembro de 2013

Mensagem para esta semana...




Qual a diferença entre um Rabino e um Rebe?


      Por Aron Moss






Pergunta:


Qual é a diferença entre um rabino e um Rebe? Tenho lido sobre o falecido Rabi Menachem Mendel Schneerson e ele foi obviamente um homem notável. Mas o que fez dele um Rebe e não um rabino comum?






Resposta:

Há muitas diferenças, diferenças demais para relacionar aqui, mas uma é esta: Um rabino responde a perguntas, um Rebe responde às pessoas. Um rabino ouve o que você diz com sua boca, um Rebe escuta aquilo que você está dizendo com sua alma.

Vou explicar o que quero dizer.

Certa vez um adolescente perguntou ao Rebe: “Acredita em reencarnação?”

A resposta do Rebe foi curta e enigmática.

“Sim, acreditamos em reencarnação. Mas não esperamos até então.”

Esta resposta parece intrigante. Esperar até quando? O garoto fez uma pergunta simples, que poderia ser respondida com um sim ou não. O que quis o Rebe dizer com “não esperamos até então?”


 
Creio que o Rebe estava respondendo a algo mais que a pergunta técnica. O Rebe sabia como responder à pessoa, não à pergunta. A maioria de nós responde a uma pergunta que nos é feita. O Rebe respondia à pessoa por trás da pergunta. Com essa percepção ele identificava de onde a pergunta estava vindo, e se dirigia ao tema subjacente em vez de apenas àquele apresentado.

Quando o garoto perguntou sobre reencarnação, ele não estava perguntando sobre o conceito teológico abstrato. Ele queria saber se esta vida é tudo que existe, ou se há algo mais. A possibilidade de reencarnação muda a maneira de olharmos a vida. Estivemos aqui antes, e portanto alguns dos eventos que nos acontecem agora podem ser reminiscências de uma vida anterior. E podemos viver novamente, o que significa que temos outra chance de completar assuntos inacabados desta vida na próxima.

Parece ser isso o que o Rebe estava advertindo ao rapaz. A reencarnação não significa procrastinação. Não a use como desculpa para adiar o que você precisa fazer nesta vida na próxima.

Na verdade acreditamos na reincorporação da alma, o que significa que acreditamos em segundas chances. Mas; talvez esta vida seja a segunda chance. Não deixe para depois.

Este é o poder de um Rebe. Um rabino comum, quando lhe é feita uma pergunta assim, poderia começar citando fontes místicas e explicando doutrinas complexas. Mas o Rebe, numa resposta de dez segundos a um adolescente, ensinou um ponto de vista abrangente e prático. 

Viva esta vida como se fosse a sua última chance. Você pode ter tido vidas passadas, e talvez tenha vidas futuras, mas não espere por elas. 

Faça o que tem de fazer agora.


Shavua Tov!


E faça o favor de ser feliz! ZD



Fontes:

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Cartas de Lisboa | Vayetsê


Vayetsê

O início da porção da Torá desta semana apresenta o poderoso imaginário do sonho de Jacó. Uma escada celestial transporta anjos para cima e para baixo e subitamente D-us aparece a Jacó.


Pintura de Bartolomé Esteban Murillo


D-us abençoa Jacó nos versos que se seguem “Os teus descendentes serão como o pó da terra e expandir-te-ás para oeste, este, norte e sul.” (Bereishit 28:14)

À primeira vista esta bênção parece ser de significado óbvio. Os descendentes de Jacó serão tão numerosos como a poeira e espalhar-se-ao por todo o mundo.

Dom Abarbanel, contudo, questiona a forma e a estrutura desta bênção.

"Porque é que a Torá se refere a Jacó como quem se vai expandir ao passo que a comparação anterior com a poeira se refere explicitamente aos seus filhos?

"Porque não poderia a Torá simplesmente dizer que os teus filhos serão numerosos como a poeira e espalhar-se-ao por todo o mundo?”


Dom Abrabanel explica que a Torá tem o cuidado de nos dar uma mensagem muito importante para Jacó e para nós; os seus descendentes:

Povo Judaico.


Pintura da porção Vayetsê de: Philippe Doneton


O que D-us está a dizer a Jacó é que ainda que o Povo Judaico seja muito numeroso e eventualmente se encontrará disperso por todo o mundo, ele continuará a manter o seu nome.

Ainda que nos possamos encontrar através dos tempos em todos os locais e sociedades, é como se Jacó, ele próprio pessoalmente estivesse lá connosco.

Por isso o verso usa a expressão “tu expandir-te-ás”, não só serão apenas os teus descendentes numerosos e presentes em toda a parte do mundo, como também serão sempre reconhecidos como teus descendentes, reflectindo os teus ensinamentos e valores morais.


Cortesia de:

Rabbi Eli Rosenfeld
chabadportugal.com
Shabat Shalom!

Bôi Chala, Shabat Malketá!



Shabat Shalom!


Serigrafia de Gregory Kohelet



quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Tzippori - Uma Vila encantadora com muita história!


Galileia -Tzippori 


ציפורי


De acordo com o Talmude Babilônico (Meguilá 6) Zippori tem este nome porque fica no alto de uma montanha, como um pássaro (Sefor). Subindo apenas 115 metros acima do fértil vale Bet Netofa para Norte, as inúmeras nascentes na área e sua localização estratégica central, permite uma visão de pássaro sobre o ambiente rural.                                     Vale Bet Netofa


A antiga Zippori é mencionada pela primeira vez por “ Flávio Josefo " descrição do reinado de Hasmoneano do rei Alexandre Janeu. Algumas décadas mais tarde, Zippori tornou-se a cidade mais importante da Galileia. Em 38 a.e.c., Herodes tomou Zippori sem uma única batalha durante uma tempestade de neve rara, e lá estocou armas. Depois da morte de Herodes, no Séc. IV  d.e.c., os cidadãos começaram um motim (conhecido como a Guerra Varus); eventualmente, os soldados sob governador romano Varus capturaram Zippori. "Ele tomou a cidade de Séforis queimou-a e fez dos seus habitantes escravos " (Guerra 2:68). 



Sefurieh


Alguns historiadores afirmam que os moradores de Zippori terão aprendido a lição com esta experiência, e que é por este motivo, que mais tarde se recusam a tomar partido na Guerra dos judeus contra os romanos. Herodes Antipas, que herdou a Galileia de seu pai encontra assim, nesta capital uma ruína deserta. Mas Herodes fez um bom trabalho de restauração e embelezamento da cidade, e que Josefo a denomina como: "glória de toda a Galileia”. 



Mona Lisa da Galileia


Quando o famoso rabino Judá Hanasi se mudou para Zippori de Bet Shean, ele trouxe com ele o Sinédrio (assembleia de 71 estudiosos ordenados e que serviu tanto como legislatura, como Supremo Tribunal Federal). Rabino Judá Hanasi colocou o toque final na Mishna em Zippori (220 CE). Os estudiosos que viviam em Zippori também participaram escrevendo o Talmud de Jerusalém, terminado no quarto século. 



Traditional burial place of rabino Judá Hanasi on National Park



Uma presença cristã em Séforis não é atestada até o início do século IV, quando um certo José de Tiberíades, um convertido ao judaísmo, foi obrigado pelo imperador Constantino (306-337) a construir lá uma igreja. 
Church of St. Anna


Tal como todos os moradores da Galileia, durante o século IV as pessoas de Zippori sofreram muito sob o domínio romano. No ano 351, os judeus revoltaram-se contra Gallus César: Eles atacaram a guarnição local, mataram os soldados, e confiscaram as suas armas. Esta rebelião foi firmemente vincada. Há relatos que afirmam que Zippori foi destruída na revolta, mas não há nenhuma evidência arqueológica para apoiar esta afirmação. No entanto, os arqueólogos encontraram provas de que a cidade foi destruída no ano 363 mas vítima de um terremoto. 

Desde o século V em diante, tanto judeus como cristãos habitavam Zippori. Durante a Idade Média, Zippori ainda tinha uma pequena comunidade judaica, como é evidenciado por uma carta escrita no século X, descoberta no Cairo, no Genizah (arquivo judeu). A sua localização ficava numa importante encruzilhada da rota de peregrinação do Acre (Akko) a Nazaré e levou à construção de um cruzado forte, mas parece que esta cidade não teve um significado real. 


A sinagoga tem um piso de mosaico ricamente colorido retratando uma abundância de símbolos judaicos, cenas bíblicas e inscrições dedicatórias em aramaico e grego. 



Chão da grande sinagoga de Séforis, século V


Os locais de interesse no Parque Nacional Zippori incluem o teatro romano de 4.500 lugares, construído na encosta com vista para o vale de Bet Netofa e para as montanhas da Alta Galileia , onde apenas alguns dos assentos tiveram que ser  reconstruídos. 



Teatro


A vila construída no início do século III, com ilustrações da vida de Dionísio, o deus grego do vinho, a cidade romana do período menor com a sua cuidada série de ruas paralelas e perpendiculares.




Mosaico do edifício Nilo, do século V, uma estrutura com um piso de mosaico ornamentado representando o festival realizado quando o nível do rio Nilo atingiu o seu ponto mais alto,  e uma sinagoga completa datada do início do século V d.e.c. 



Mosaico do Edifício Nilo


A distribuição de água subterrânea é gigante, construída no primeiro século e em operação até o sétimo. Os 250 metros de comprimento do reservatório poderiam manter 5.000 metros cúbicos de água. O Centro de Orientação Zippori oferece uma série de passeios e programas especiais sobre a história da área de Zippori.











E termino este artigo com um  convite:


Fontes:

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Canções e Poemas – Parte II



Do Amor e do Enamoramento


Pássaros, que namorados
pareceis no que cantais,
não ameis que, se amais,
de vós sereis desamados.
Em meus olhos agravados
vereis se tenho rezão,
pois que vela o coração.
Crisfal, est. 66


   Na Écloga Crisfal ou Trovas de Crisfal, é contada a história de amor dos jovens pastores Maria Brandão e Crisfal. Nos versos acima (est. 66) o poeta faz da Natureza confidente, utilizando uma linguagem requintada, mas cheia de candura. A obra, atribuída a Cristóvão Falcão, mas que alguns académicos defendem ser da autoria de Bernardim Ribeiro, foi publicada anonimamente em 1543-1546; será mais tarde publicada em 1554, em Ferrara, juntamente com obras de Bernardim Ribeiro, na tipografia de Abraham Usque (nome adoptado por Duarte Pinel, um latinista de Lisboa). 



Menina com Dama de Companhia, 1670, Bartolomé Esteban Murillo


     Em “Menina estás à janela”, música e poema apelam a um amor puro e cheio de ternura. A cantiga, uma das mais bonitas do Cancioneiro Popular Português, é da região do Alentejo, como Vitorino Salomé que a recolheu e adaptou. Vamos ouvi-la numa interpretação de Vitorino e do Grupo Musical *Opus Ensemble, com direcção musical de Alejandro Erlich Oliva. 


Menina estás à janela/com o teu cabelo à lua
Não me vou daqui embora/Sem levar uma prenda tua

Sem levar uma prenda tua/sem levar uma prenda dela
Com o teu cabelo à lua/menina estás à janela

Os olhos requerem olhos/e os corações, corações
E os meus requerem os teus/em todas as ocasiões



Menina estás à janela - Vitorino & Opus Ensemble




A Festa no Barco, Livro de Horas de Da Costa, Simon Bening, c. 1515


   Non ha’lciel cotanti lumi (“Não há céu com tantas estrelas”) é uma canção de amor do compositor italiano Giuglio Caccini (1551-1618). O poema da canção, de autoria incerta, é de índole galante, cuja função primordial é justamente a de dirigir um galanteio a uma senhora. Caccini (co-fundador da Camerata Fiorentina e fundador do género conhecido por Ópera) foi um dos compositores mais influentes do seu tempo; foi também cantor na Corte dos Medici. 


Non ha’l ciel cotanti lumi/Tante still’e mari fiumi
Non l’April gigli e viole,/Tanti raggi non ha il Sole,
Quant’ha doglie e pen’ogni hora/Com gentil che s’innamora.

Não há no céu tantas estrelas,/nem tantas gotas nos mares e nos rios,
nem tem o Abril tantos lírios e violetas,/nem tantos raios tem o Sol,
como dores e penas a toda a hora/tem o amante que se apaixona.
(…)
Sei bem que só morrendo/posso pôr fim à minha dor,
Não é a vós que culpo/do meu estado sombrio e cru:
Apenas o Amor, o tirano, acuso,/esses belos olhos e vós escuso. 



Giulio Caccini - Non ha'l ciel



Sábado à tarde na Judiaria (Marrocos), 1883, Lacomte du Nouÿ


    Depois da expulsão de Espanha, em 1492, muitos judeus encontraram refúgio no Norte de África. As suas canções, cantadas em Ladino, conservaram características medievais do tempo de Al-Andaluz. A canção que vamos ouvir é disso mesmo exemplo: Avrix mi Galanica (“Deixa-me entrar”).

     A canção fala-nos de um galante que diz à sua amada não conseguir dormir à noite, por só pensar nela, pretendendo com este argumento entrar em sua casa. Num diálogo atrevido, a rapariga diz-lhe que não o pode deixar entrar em casa, porque o pai está lendo e pode ouvi-los – mi padre stá meldando, mos oyerá, ao que o galante replica: «Amatalde la luzezica’si se dormirá» – «Apaga a luz, assim ele vai dormir». A jovem continua a invocar impedimentos: a mãe está costurando – mi madre stá cuziendo, e o irmão está escrevendo – mi hermano stá scriviendo; o jovem sugere então à rapariga, que ela esconda as agulhas à mãe, ou a caneta ao irmão, de modo a que todos vão dormir e ele possa finalmente entrar. 

Avrix mi galanica que ya va amanecer
La noche yo no durmo pensando en ti
(…)



Música Sefardí "Avrix mi galanica" – Interpretação de Ensemble Accentus



Senhora com Máscara, Reynaldo Fonseca (Recife, 1925)


    Há no poema *“Do Amoroso Esquecimento” uma ironia subtil, muito ao gosto de Mário Quintana (Alegrete, 1906-Porto Alegre, 1994), o “poeta das coisas simples”, que apresentamos já de seguida: 


“Do Amoroso Esquecimento”

Eu, agora, - que desfecho!
Já nem penso em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mário Quintana



Bay mir bist du sheyn
Uma canção yiddish



    Bay mir bist du sheyn (“To Me You’re Beautiful”) é uma canção de 1932, do compositor Sholom Secunda, com letra de Jacob Jacobs, para uma comédia musical yiddish – Men Ken Lebn Nor Men lost Nisht (“I Would if I Could”). A canção, na versão original em forma de diálogo entre dois amantes, seria traduzida para inglês, mantendo no entanto o título original em yiddish, tornando-se um êxito. É com ela que terminamos este breve apontamento sobre canções e poemas de amor. 


Bei mir bist du schoen
(versão de Ella Fitzgerald)

Of all the boys I’ve known and I’ve known some
Until I first met you I was lonesome
And when you came in sight, dear my heart grew light
And this al’ world seemed new to me

You’re really swell, I have to admit you
These are the expressions that really fit you
And so I’ve racked my brain, hoping to explain
All the things that you do to me.
(…)



Bei mir bist du shejn – versão “original” yiddish – Interpretação da Banda Klezmer de Budapeste


*(poema do livro Espelho Mágico, 2ª edição, São Paulo: Globo, 2005, pág. 49)



Com os meus sinceros agradecimentos à responsável por este artigo:

Sónia Craveiro

Muito obrigada


 Beijinhos


Fontes:
SARAIVA, António José, Poesia e DramaEnsaio sobre a poesia de Bernardim Ribeiro, PÚBLICO/Gradiva;
O Ultimo quadro é de Zou Chuan Na