terça-feira, 5 de novembro de 2013

Canções e Poemas – Parte I



Do Amor e do Enamoramento


O encontro de Jacob e Raquel, 1853, William Dyce


    Em Vayetze (E Ele Saiu), a 7ª porção do ciclo anual de leitura da Torá (Génesis 28:10-32:2), é narrada a viagem do nosso patriarca Jacob para Charan, onde vivia a família da mãe, Rebeca. Lá encontra sua prima Raquel, junto a uma fonte, por quem se apaixona perdidamente. Faz pois um acordo com o pai de Raquel, Labão, comprometendo-se a trabalhar durante sete anos para se casar com a sua amada. Mas Labão engana Jacob, substituindo Raquel pela irmã mais velha, Lea. Jacob então oferece-se para trabalhar outros sete anos para se casar também com Raquel; sobre este episódio, Camões escreveu o lindíssimo soneto “Sete anos de pastor Jacob servia”. Diz assim:


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: — Mais servira, se não fora
Pera tão longo amor tão curta a vida!


   Deste sentimento vago e imensurável que é o amor, nos fala também a canção “Yo m’enamori d’un aire”, uma canção muito popular nas comunidades sefarditas da Turquia, da Grécia e dos Balcãs, que compara a mulher amada a uma brisa. Vamos ouvi-la na voz de Arianna Savall. 


 Yo m’enamori d’un aire,
D’un aire y d’una mujer,
D’una mujer mui hermosa,
Linda de mi corazon.
(…)




     O amor pode ter uma natureza contraditória, entre o amar e o querer, que provoca o sofrimento dos amantes, conduzindo-os a uma espécie de enfermidade da alma. Pensamos que é sobre esses efeitos do amor, esse sofrimento, que nos fala Camões no seu soneto “Amor é fogo que arde sem se ver”. O mesmo espírito de amante sofredor parece transparecer na canção renascentista “Venid a sospirar al verde prado”.



Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói e não se sente,
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer
E solitário andar por entre a gente,
É um não contentar-se de contente,
É cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade,
É servir a quem vence o vencedor,
É um ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode o seu favor,
Nos mortais corações conformidade,
Sendo a si tão contrário o mesmo amor?


“Venid a sospirar al verde prado”
(Anónimo, séc. XVI)
Cancioneiro Musical de Belém


Venid a sospirar al verde prado
Comigo zagaleja* y vos pastores
Pues muero sin morir de mal d’amores

(…)



Interpretação dos Segréis de Lisboa, com direcção de Manuel Morais


“Scarborough Fair”
Uma balada inglesa


Emília no jardim (Escola Francesa), “La Teseida”, 1340-41, Giovanni Boccaccio


  A canção tradicional inglesa “Scarborough Fair” trata de um desencontro amoroso. Conta-nos a história de um jovem que confidencia a um ouvinte a sua desdita amorosa, rogando-lhe que peça à sua antiga amada que realize uma série de tarefas impossíveis, tais como confeccionar uma camisa sem costuras e depois lavá-la num poço sem água; completadas as tarefas, acrescenta o jovem apaixonado, poderá enfim receber a sua amada de volta. Muitas vezes a canção é cantada na forma de um dueto masculino/feminino, pedindo a mulher ao seu amado que execute igualmente uma série de tarefas impossíveis, prometendo-lhe a camisa sem costuras, assim que ele tiver cumprido a sua parte. 


Are you going to Scarborough Fair?
Parsley, sage, rosemary, and thyme;
Remember me to one who lives there,
For once she was a true lover of mine.

Tell her to make me a cambric shirt,
Parsley, sage, rosemary, and thyme;
Without a seam or needlework,
Then she shall be a true lover of mine.

Tell her to wash it in yonder well,
Parsley, sage, rosemary, and thyme;
Where never spring water or rain ever fell,
And she shall be a true lover of mine.


   A canção conheceu várias versões ao longo dos tempos, sendo a referência à feira inglesa “Scarborough Fair” (uma das mais importantes da Idade Média), bem como o refrão “parsley, sage, rosemary and thyme” (salsa, sálvia, alecrim e tomilho), datadas do século XIX. Muito se tem especulado sobre o significado do refrão, que segundo a etnomusicóloga Märta Ramstem aparece em forma semelhante em várias canções europeias. A académica pensa que “parsley, sage, rosemary and thyme” pode referir-se à crença pagã, segundo a qual um certo conjunto de ervas aromáticas funciona como um amuleto amoroso.
     Terminamos com a interpretação de “Scarborough Fair” pelo duo Paul Simon e Art Garfunkel, que tornou esta balada inglesa famosa. 



Simon & Garfunkel - Scarborough Fair


Notas:
Retrato de Camões - reprodução de um original de Fernão Gomes (1548-1612), desenhado em vida de Camões, de Luís José Pereira de Rezende (séc. XIX), actualmente nos Arquivos da Torre do Tombo.
*Zagaleja – pastor jovem, subordinado a outro pastor mais velho. 



Com os meus sinceros agradecimentos à responsável por este artigo:

Sónia Craveiro

Muito obrigada


Beijinhos


Fontes:

MORAIS, Manuel, Cancioneiro Musical de Belém, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988;
Ultimo quadro do artigo do pintor Cornelius de Beet

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Poema!



Pintura de Jonathan M Fields


Ri, ri de todos os meus sonhos!
O que sonho será realidade!
Ri por eu acreditar nos homens,
E por acreditar em ti.

Minha alma pede ainda uma liberdade,
Que não se troca por bezerros de ouro.
Porque ainda acredito nos homens,
E no seu espírito forte e corajoso.

E no futuro acredito
Que ainda distante, ele virá
Quando nações abençoem outras
E paz por fim a terra encherá.


Poema de:


Shaul
Tchernichovsky



Fontes:
http://ruadajudiaria.com

O Mês de Kislev!



Inverno!


Segundo o Talmud, o mês de Kislêv assinala o início do inverno na Terra Santa e é o terceiro mês da "Estação das Chuvas".

Fonte:

sábado, 2 de novembro de 2013

Ontem cheirámos as flores, hoje temos que regá-las!


Shavua Tov!

Pintura de Ann Arbor
“Jerusalem Garden”

O dia de ontem na história judaica – 29 Cheshvan 5774


Ataques de Terror em Mumbai 
(2008)



A cidade de Mombai, na India, foi atingida por uma série de ataques terroristas, começando na noite da quarta-feira, 29 de Cheshvan de 5769, que deixou quase 200 mortos e muitos feridos.

Um dos alvos escolhidos pelos terroristas foi o Beit Chabad local, conhecido como “Casa Nariman”, dirigida pelos emissários Chabad-Lubavitch Rabino Gavriel Nôach (Gabi) e Rivkah (Rivki) Holtzberg.

Na sequência dos ataques, que continuaram até à tarde da sexta-feira, Gabi e Rivkii e outros judeus no Beit Chabad – Rabinos Bentzion Chroman e Leibish Teitelbaum, Norma Schwartzblatt-Rabinowitz e Yocheved Orpaz – foram assassinados a sangue frio. Que D'us vingue as suas mortes.


Milagrosamente, o filho de dois anos dos Holtzberg, Moshê, foi salvo pela ama.



Fontes:



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Shabat Rosh Chodesh



Shabat Shalom!

Pintura de Eduard Grossman 


Cartas de Lisboa | Toledot


Toledot

Esau Selling His Birthright (painting circa 1627 by Hendrick ter Brugghen)


Qual é a virtude de chegar em último lugar? Por que é que alguém iria ter orgulho em ficar para trás? No entanto, é isso que nos é dito esta semana na Parashat e que foi assim que Yaakov adquiriu o seu nome. Yaakov nasceu agarrando o calcanhar do seu irmão Esaú, e por isso foi nomeado Yaakov, que deriva da palavra Aikev - calcanhar.





Por que alguém tão especial como Yaakov recebeu tal nome?







O Tzror Hamor retrata esta questão no seu comentário da Parashat e oferece uma explicação fascinante sobre " a vida em camara lenta. "

Em "Olam Hazeh ", no mundo material em que vivemos, Essav está sempre à frente. Não apenas na ordem de nascimento, mas na prosperidade física e força bruta. "Yaakov" tal como todo o povo judeu, sofreu uma turbulência constante.


É por isso que o nome "Yaakov" faz sentido. Enquanto o " de Essav " está zunindo, e é preciso lembrarmos sempre de proceder como planeado. Também nós devemos usar a Torá e as Mitzvot como nosso guia, porque o sucesso não se mede pelo que recebemos na linha de chegada em primeiro lugar.



Reconciliação entre os dois irmãos aqui retratado nesta pintura de Rubens


Na verdade, essa ideia parece ser debatida por Yaacov e Essav na próxima Parashat. Após o confronto épico, onde Essav "cumprimenta" Yaakov com quatrocentos homens, em que os dois acabam apenas por trocar palavras de irmãos.

"Deixe-me ir junto e ajudá-lo", diz Essav, oferecendo-se para viajar com a família de Yaakov. Mas Yaakov recusa a oferta, respondendo: "Eu vou viajar lentamente"As palavras de Yaakov contêm uma mensagem muito profunda, encarnada pelo significado do seu próprio nome.




Pintura de Francesco Hayez


A nossa missão na vida não é ser o mais rápido, o mais forte, ou o melhor, mas sim percorrer o caminho da Torá e mitsvot, fazendo o que é certo, não importa "o ritmo".


Cortesia do
Rabbi Eli Rosenfeld
Shabat Shalom!

E por fim deixo-vos com um pequeno vídeo, para crianças e adultos com um resumo muito simples da Parashat:



Fontes das imagens e vídeo:




O Terramoto e a Inquisição



1 de Novembro de 1755

O Terramoto e a Inquisição


Lisboa antes e depois do terramoto de 1755 (Jan Kozak Collection)


    A 1 de Novembro de 1755, Lisboa foi assolada por uma série de três violentos abalos sísmicos, seguidos de um gigantesco maremoto, a que se sucederam múltiplos incêndios. O terramoto, que se fez sentir em grande parte da costa do Algarve, foi considerado um dos mais violentos da História, destruindo quase por completo a cidade de Lisboa. Milhares de pessoas perderam a vida nos escombros da capital portuguesa.



As Ruínas de Lisboa, 1755 (Jan Kozak Collection)


    Impressionados com a catástrofe de Lisboa, o compositor alemão Georg Philipp Telemann e o filósofo francês Voltaire prestaram homenagem às vítimas do cataclismo. Telemann compôs a Cantata “Die Donner Ode” (1756), da qual vamos ouvir uma Ária de grande efeito dramático, para dois Baixos e orquestra; a interpretação está a cargo dos solistas Stephen Roberts e Michael George e do Ensemble Collegium Musicum 90, com direcção de Richard Hickox. 



G.P.Telemann – Die Donner Ode


Voltaire escreveu o “Poème sur le Désastre de Lisbonne” (1756), do qual passamos um excerto.


«Poema sobre o desastre de Lisboa»

(excerto)


Ó infelizes mortais! Ó deplorável terra!
Ó agregado horrendo que a todos os mortais encerra!
Exercício eterno que inúteis dores mártires!
Filósofos iludidos que bradais «Tudo está bem»;
Acorrei, contemplai estas ruínas malfadas,
Estes escombros, estes despojos, estas cinzas desgraçadas,
Estas mulheres, estes infantes uns nos outros amontoados
Estes membros dispersos sob estes mármores quebrados
Cem mil desafortunados que a terra devorou,
Os quais, sangrando, despedaçados e palpitantes embora,
Enterrados com seus tectos terminaram sem assistência!
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,
Ao espectáculo medonho de suas cinzas pungentes,
Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento»,
Que de um Deus livre e bom requer discernimento?»
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
«Deus vingou-se, a morte deles é o preço dos seus crimes?»
Que crime, que falta cometeram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?
Lisboa, que não é mais, teve ela mais vícios
Que Londres, que Paris, mergulhadas nas delícias?
Lisboa está arruinada, e dança-se em Paris.



François Marie Arouet, pseudónimo Voltaire (1694-1778)


   Por razões de ordem religiosa ou outras mais pragmáticas, foram muitas as vozes que pela Europa fora não hesitaram em associar o terramoto à Inquisição. O filósofo iluminista Voltaire, por exemplo, numa carta datada de 24 de Novembro de 1755, dirigida a M. Tronchin de Lyons, escrevia: «(…) Que dirão os pregadores – especialmente se o Palácio da Inquisição ainda ficar de pé! Agrada-me a ideia de que os reverendos padres, os da Inquisição, terão sido esmagados tal como as outras pessoas. Servirá isto para ensinar que homens não devem perseguir outros homens: porque, enquanto beatos hipócritas queimam uns quantos na fogueira, a terra abre-se e engole a todos sem distinção.» 

   No romance burlesco Candide, publicado em 1759, o filósofo francês volta a escrever sobre o terramoto e a Inquisição, nomeadamente no capítulo VI quando se refere a padres da Universidade de Coimbra, que declaram: «o espectáculo de queimar vivas umas quantas pessoas em fogo lento, e numa grande cerimónia, é um segredo infalível para prevenir que a terra trema». Voltaire conclui no final do capítulo que no mesmo dia em que se realizou o grandioso auto-de-fé, “a terra tremeria de novo com um furor implacável.” 



Auto-de-Fé no Terreiro do Paço, séc. XVIII


    Para o escritor português Francisco Xavier de Oliveira (Lisboa, 1702-Hackney, Inglaterra, 1783) – Cavaleiro de Oliveira -, exilado em Inglaterra e entretanto convertido ao Protestantismo, Deus castigara os portugueses com o terramoto, por estes terem um comportamento contrário à Santa Lei. Cavaleiro de Oliveira acusa os portugueses de uma conduta supersticiosa e idólatra, vergonhosamente manifesta no culto dos santos, que em nada se distingue do culto que os pagãos dedicam aos seus ídolos. O escritor aponta ainda outra razão que terá despoletado a ira divina: a perseguição desumana e a prática de sacrifícios horríveis, exercida pela Inquisição sobre grande parte dos portugueses, especialmente dos judeus.



Gravura britânica (Jan Kozak Collection)


  Numa perspectiva igualmente religiosa, tanto teólogos protestantes, como líderes de judeus portugueses, viam no Grande Terramoto de Lisboa um “castigo divino” como resposta aos crimes cometidos pela Inquisição. Na gravura acima, publicada em Londres em 1756, podemos observar em fundo uma Lisboa em ruínas, com o rei português D. José I, que pergunta a um sacerdote anglicano quais as causas do terramoto; este mostra-lhe uma imagem com um auto-de-fé, afirmando que «queimar pessoas provoca a ira divina».



Panfleto da congregação sefardita de Hamburgo, 1756


   No panfleto acima, de 11 de Março de 1756 (9 de Adar II de 5516), as autoridades da congregação sefardita portuguesa e espanhola de Hamburgo convocam os fiéis para um dia de “jejum geral”, para “orar e suplicar à Divina Majestade” pela memória das vítimas do terramoto de Lisboa e para pedir protecção divina para todos os filhos de Israel, em qualquer lugar e de todos os tempos, numa clara alusão às perseguições movidas contra os judeus, como as da Inquisição. 

Horden de Rogativa y Peticion, para orar y rogar, al Senhor, para tiempo de teramoto, o temblor de tierra, y segun se há oydo, la indignacion de Ds. se experimentó, em Varios lugares, y en diferentes partes, tembló la tierra, por lo que se ajuntaran los Senhores Parnassim, y con la aprovacion del Sr. HH, decretaran um ayuno general, para jueves, siendo 9 del mez de Adar segundo deste anho, para orar e suplicar ala Divina magestad, por nós y por todo Israel nuestros Hermanos los proximos y los remotos, El todo poderozo apiade sobre nós, y sobre todos os lugares de nuestras moradas, y ampare por nos, Amen. (…)



Retrato do Marquês de Pombal (detalhe), 1766, Louis Michel van Loo


     Um dos casos mais absurdos da Inquisição ocorre justamente no governo do Marquês de Pombal: o caso do padre jesuíta Malagrida, garrotado e queimado num auto-de-fé, em Lisboa, em 1761.

   O Marquês de Pombal, enquanto iluminista, naturalmente defendeu que o terramoto de 1755 se deveu a causas naturais. O padre Malagrida reclamava a catástrofe como um “castigo divino”, exortando o povo a realizar procissões e exercícios espirituais. Como se sabe, o Marquês não era simpatizante dos jesuítas, o padre Malagrida era íntimo dos Távora, que por sua vez não eram benquistos do Marquês, o Inquisidor Geral era Paulo de Carvalho e Mendonça (irmão do Marquês)...Tudo junto, levou à condenação do padre Malagrida como herege, no âmbito do processo dos Távora. Parafraseando Voltaire em Candide "(...) ao excesso de absurdo, juntou-se o excesso de horror".


E desta vez no calendário gregoriano e enviado pela nossa amiga

Sónia Craveiro
 
Muito obrigada

Beijinhos



Fontes: