sábado, 23 de novembro de 2013

Im Eshkachech


Shavua Tov!


Pintura de Alexander Sorsher


Esdras - O escriba


O dia de ontem na história judaica – 20 de Kislev 5774



Discurso de Ezra 
(347 AEC)


Pintura de Gustave Doré


Ezra, líder do Sanhedrin e do povo judeu na época da construção do Segundo Templo, fez um discurso histórico a uma assembleia de judeus que durou três dias, em Jerusalém, exortando-os a aderirem aos ensinamentos da Torá e a dissolverem seus casamentos mistos (o povo judeu estava à beira da completa assimilação naquela época, após o exílio de 70 anos na Babilónia).



Ezra de Guillaume Rouillé 's 
Promptuarii Iconum Insigniorum


Ezra (ɛ z r ə, hebraico: עזרא, Ezra; 480-440 a e c), também chamado de Esdras, o Escriba ( hebraico : עזרא הסופר, Ezra ha-Sofer ) e Esdras, o sacerdote no Livro de Esdras. De acordo com a Bíblia hebraica que ele voltou do exílio babilónico e reintroduziu a Torá em Jerusalém (Esdras 7-10 e Neemias 8).



Ler mais sobre Ezra:



Fontes:


Likkutei Amarim (ליקוטי אמרים)



O dia de ontem na história judaica -  20 de Kislev 
5774

O Tanya é publicado
(1796)


Rª Schneur Zalman of Liadi. Spher Likulei Amarim “Tanya” First Edition. Slavula, 1/96: Sold 24 February, $95,000.





A primeira edição do Tanya é publicada – obra magna de Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador do Movimento Chabad-Lubavitch.





O livro de Tanya lida com espiritualidade, psicologia e teologia judaica a partir do ponto de vista da filosofia hassídica e das suas explicações internas da Cabala (misticismo judaico). Ele oferece conselhos para cada indivíduo sobre a forma de servir a D’us na sua vida diária.



The Tanya, the fundamental work of Chabad philosophy, 
in its second printing in Zalkevo, 1799. Foto: Chabad Library



O Tanya (תניא) foi publicado pela 1ª vez em 1797. Seu título formal é Likkutei Amarim (ליקוטי אמרים, hebraico, "colecção de instruções"), mas é mais conhecido pela sua palavra de abertura, Tanya, que significa "que foi ensinado num beraita". É composto por cinco secções que definem a psicologia mística hassídica e teologia como um manual para a vida espiritual diária em observância judaica.



Fontes:


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A Luz e o Chanuká!


O que é que a Luz tem a ver com o Chanuká?



Por que chamamos ao Chanucá a Festa das Luzes? Por que não a Comemoração do Azeite ou o Milagre dos Oito Dias? O radical da palavra Chanucá é chinuch, que significa educação. Chanucá é um processo espiritual cumulativo no qual a totalidade de trinta e seis luzes que são acesas cresce para revelar a luz da Criação.

A luz é vista geralmente como uma metáfora para a sabedoria. O símbolo universal para a compreensão num desenho ou ilustração gráfica é uma luz ou um raio. 



Pessoas de todas as culturas, quando entendem um conceito que está sendo explicado, usam, em vários idiomas, o mesmo verbo; ‘ver’.“Agora eu vejo”, dizemos, quando finalmente chegamos ao entendimento de algo.




Maimonides escreve que um profeta pode experimentar um raio de luz, de radiância, que ilumina seu caminho. “Luz” é bastante usada na Torá para significar conhecimento ou sabedoria. Com as palavras “Que haja luz”, a Criação do Mundo emergiu. 



O Talmud explica que esta luz iluminou Adam e Chava durante trinta e seis horas, do meio-dia da sexta-feira até o final do dia do Shabat, quando “Adam pôde ver de um canto ao outro do mundo”. Durante este tempo, a Luz Primordial, a sabedoria interior de propósito e verdade, foi exibida à humanidade.




Mas para que o propósito da Criação seja concretizado e a ordem de vencer a escuridão seja manifestada, esta luz intensa foi ocultada do universo, armazenada para um tempo que ainda vai chegar. Desde então, ansiamos por aquela luz, procuramos por ela e a buscamos na prece, no estudo e na meditação. Porém, mesmo em nossas horas mais sombrias, podemos aceder a esta lembrança nascida das 36 horas nas quais nós, a humanidade como um todo, vivemos nessa luz. “Onde seria ocultada esta luz?” pergunta o Midrash. “Na Torá.” Em sua radiância vivênciamos a sabedoria, o propósito e o objectivo da Criação. 


Em todas as gerações há 36 almas elevadas presentes que sustentam, nutrem e guardam esta luz. Ocultas, discretas, e praticamente desconhecidas, estas 36 pessoas justas são as centelhas daquela Luz Oculta. Por meio da sua consciência refinada, a luz da Torá permeia o mundo presente e futuro.


Durante os oito dias de Chanucá, o nosso mundo fica luminoso com esta luz gloriosa. Diferente das velas do Shabat, as luzes de Chanucá não podem ser usadas para o prazer pessoal. “Estas luzes são sagradas, podemos apenas contemplá-las.” Pois embora a nossa percepção possa ser menos sensivel, nós fomos, e somos, donos da visão. De fato, as luzes de Chanucá são colocadas na janela como um farol a todos aqueles que passam e as vêem, anunciando que as trevas podem ser dispersas com sabedoria, a obscuridade pode ser iluminada com a verdade. Por mais que o Chanucá comemore o passado, celebra também o presente e o futuro. 


Pois embora Chanucá festeje o milagre de uma única ânfora de azeite ardendo durante oito dias, também imbui o mundo com a esperança da Redenção, quando a luz triunfará sobre a negatividade. Isso é tanto passado quanto futuro, e “não haverá fome nem guerra, nenhuma inveja ou rivalidade. Pois o bem será abundante, e todas as iguarias tão comuns como a poeira. A ocupação do mundo será somente conhecer a D’us. ‘Pois a terra estará repleta com o conhecimento de D’us, como as águas cobrem o oceano’ (Maimonides).”



Fontes:

Falecimento de Avraham ben HaRambam (1237)




Rabi Avraham Maimuni HaNagid foi o único filho de Maimônides (o famoso talmudista, codificador da lei Judaica, filósofo, médico e estadista, Rabi Moshê ben Maimon, 1135-1204). Nascido em 1185, Rabi Avraham sucedeu seu pai como líder da comunidade judaica em Fostat (antiga cidade do Cairo), no Egito, aos 19 anos. Escreveu muitas responsas e comentários explicando e defendendo os escritos do pai e as leis haláchicas. Rabi Avraham faleceu a 18 de Kislêv do ano 4998 da Criação (1237). Foto do seu pai - Maimonides


Abraham ben Moses ben Maimon (אברהם בן רמב"ם, também conhecido como Rabbeinu Avraham ben ha-Rambam, e Avraham Maimuni) (1186 - 07 de dezembro de 1237) foi o filho de Maimonides, que sucedeu seu pai como Nagid da comunidade judaica egípcia.


Avraham nasceu em Fostat, Egipto - seu pai, Maimonides, tinha 51 anos de idade. O menino foi "modesto e altamente refinado e extraordinariamente boa índole", ele também era conhecido pelo seu brilhante intelecto e ainda na juventude tornou-se conhecido como um grande estudioso. Quando seu pai morreu em 1204, com a idade de sessenta e nove anos, Avraham tinha apenas dezanove anos, Avraham foi reconhecido como o maior estudioso em sua comunidade. Assim, ele conseguiu o lugar de Rambam como Nagid (chefe dos judeus do Egito), bem como no escritório do médico da corte, com a idade de apenas dezoito anos. (O escritório de nagid pertenceu à família de Maimonides por quatro gerações sucessivas até o final do século 14). Rabbi Avraham honrava muito a memória de seu pai, e defendeu os seus escritos e obras contra todos os críticos. Graças à sua influência, uma grande comunidade egípcia Caraíta voltou ao redil do judaísmo rabínico.


O trabalho mais conhecido de Avraham Maimuni é a sua Milhamoth ha- Shem ("O Livro das Guerras de Deus"), na qual ele responde aos críticos das doutrinas filosóficas de seu pai expressas no Guia para os Perplexos. Inicialmente ele evitou entrar na polémica sobre os escritos de seu pai, no entanto, quando soube da suposta queima de livros do mesmo, em Montpellier, em 1235, ele compilou Milchamot. A sua principal obra é escrita originalmente em árabe-judeu e intitulado "כתאב כפיא אלעאבדין" Kitāb kifayah al- Abidin. No livro, Maimuni evidencia um grande apreço e afinidade com o sufismo (misticismo islâmico). Foto: Cairo Genizah Fragment by Abraham ben Maimon.


Outros dos seus trabalhos incluem um comentário sobre a Torá em que apenas os comentários sobre Gênesis e Êxodo ainda existem, bem como comentários sobre partes do trabalho de seu pai, Mishnê Torah e em diversos tratados do Talmud. Ele também escreveu uma obra sobre Halachá (lei judaica), combinada com a filosofia e ética. Seu "Discurso sobre os provérbios dos Rabinos" - discutindo Aggadah - é frequentemente citado. Ele também foi autor de várias obras médicas.



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Liliana Lucki - Uma pintora Argentina






Liliana Lucki
Hoje trago-vos aqui a este espaço, algumas obras desta pintora extraordinária. Mas hoje o que vos dou é pouco, muito pouco e serve apenas para vos apurar o desejo de conhecerem os tantos e belíssimos trabalhos que esta artista tem para nos oferecer. 





Liliana Lucki mima-nos e anima-nos diariamente, sempre com o que nos dá de si mesma em cada tela com que nos presenteia.



Eu por hoje e com a intenção de vos desejar 
Laila Tov
deixo-vos com estes dois clips, mas não desliguem sem primeiro espreitarem a página e o blog da Liliana…e tenham sonhos mágicos e coloridos. 
ZD J

"They Can See US", 
80cm x 100cm - (Oil in canvas)


Fontes:

Por Rabino Shabsi Alpern:



A Iniciativa do Óleo




Rabino Yossef Karo (1488-1575), o gigante espiritual, faz uma pergunta interessante sobre Chanucá. Como o pote encontrado tinha azeite para uma noite e o milagre foi ter durado oito noites? Então deveríamos acender nossas velas apenas por sete noites, pois a primeira noite não foi um milagre. O próprio sábio, e outros nos séculos que se seguiram, ofereceram muitas respostas.

Talvez possamos acrescentar algo mais e ainda bem atual. Após as suas vitórias heróicas e milagrosas, os macabeus entraram no Templo Sagrado para purificá-lo e acender novamente o candelabro, assim manifestando sua gratidão a D’us. Infelizmente não encontraram azeite suficiente, e levaria oito dias para conseguir um novo lote. Provavelmente entre os próprios macabeus surgiram realistas dizendo: 



“Para que começar algo que amanhã não terá continuidade. Já esperamos vários anos sem acender a menorá, esperemos mais oito dias (a distância até o local onde fabricavam azeite) e então começaremos para nunca mais parar. A lei da natureza está contra nós”.





Estas são palavras que ouvimos em muitos lugares até nos dias actuais. Porém os dedicados macabeus rejeitaram este argumento e imediatamente acenderam o candelabro.





Essa manifestação tão profunda de fé e coragem, sabendo que logicamente no dia seguinte não haveria uma continuação, já é um milagre por si mesma. O acto de acender a chanukiá foi um milagre tão grande quanto o milagre que veio a seguir.


Esta é a inspiração que devemos captar em Chanucá. Ainda há pessoas que acham que o autêntico Judaísmo não é algo para os dias actuais. Porém muitas entidades no mundo inteiro, já mostraram que é totalmente possível.

Esta é a grande lição que Chanucá transmite aos nossos tempos. Como os antigos macabeus, devemos ser acendedores de lampiões, e a luz da Torá brilhará forte- mente iluminando nossas vidas, aquecendo nossos corações e lares, levando-nos para um futuro seguro e significativo.



Fonte:

terça-feira, 19 de novembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

Lavagem ou purificação das mãos?



Netilat Yadayim



Pergunta:

Qual é o significado da lavagem ritual das mãos antes das refeições? Era alguma antiga versão de higiene judaica?


Resposta:
 
Uma das leis da lavagem ritual das mãos é que as mãos devem estar completamente limpas antes de você as lavar. Primeiro você limpa as mãos de qualquer sujidade, e só então derrama água de uma caneca três vezes sobre cada mão.





Vamos ver como se faz:




Isso é ridículo: o pré-requisito para lavar as mãos é que elas estejam limpas? A lavagem ritual das mãos não tem efeito visível. Aparentemente, nada faz. Então por que o cumprimos? A lavagem das mãos antes das refeições não tem nada a ver com higiene.

Não se trata de limpeza; É sobre santidade.


A limpeza é um estado físico. Ao remover a sujidade você fica limpo. Porém a santidade é um conceito puramente espiritual. Santidade significa um senso de algo mais além, mais elevado, algo com um propósito mais alto. Você pode estar completamente limpo, mas isso não significa que está sagrado.

Pode haver duas pessoas trabalhando lado a lado. Ambas são honestas e boas. As duas estão limpas. Não há diferença visível entre elas. E apesar disso uma usa sua riqueza para ajudar os pobres e necessitados, enquanto a outra acumula riqueza puramente para si e para sua família. Este último também está limpo. Não é um homem mau. Porém não é sagrado.



Jerusalém Velha - Bairro Judeu - pia para yadayim netilat - ao lado da sinagoga Ramban 
(Crédito da foto Wikipedia)



Você pode ter dois pratos de comida. Ambos são compostos de ingredientes saudáveis e preparados segundo os mais altos padrões de higiene. Não há diferença visível entre eles. E apesar disso num prato há comida casher, no outro não. A comida casher não é mais saudável ou mais limpa. É sagrada. É preparada segundo os padrões Divinos com um propósito mais elevado em mente.


A santidade significa conectar-se com algo mais elevado. Significa viver com a percepção de que nem toda a sujidade é visível, e nem sempre vemos o efeito das nossas acções. Portanto, antes de iniciar uma actividade física, antes de consumir o fruto do nosso trabalho, lavamos as nossas mãos.



Talvez elas já estejam limpas, mas devemos assegurar que elas também estejam puras e sagradas.



Fontes:

Duas Poetisas!



Momento com Cecília Meireles e Fernanda de Castro


Alguns Poemas e um pouco de Mozart



Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 1901-Rio de Janeiro, 1964)


   Cecília Meireles foi uma poetisa, professora, jornalista e pintora brasileira. Cecília conviveu desde muito cedo com a morte, sendo a única sobrevivente dos quatro filhos de Carlos Alberto de Carvalho Meireles e de Matilde Benevides Meireles. O pai viria a morrer, tinha Cecília três meses, e ainda não tinha completado três anos de idade quando perdeu a mãe. A partir de então ficaria a cargo da avó materna, Jacinta Garcia Benevides, uma senhora açoriana da ilha de São Miguel. 

     Cecília escreveria mais tarde: "Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno. (...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade. (...)”




Cecília Meireles, por Arpad Szènes


     Em 1939 Cecília Meireles perde o marido, o artista plástico português Fernando Correia Dias. Mais uma vez a morte marca a sua vida, e esse sentimento de transitoriedade de que a poetisa fala, reflete-se nos poemas que escreve, como em “Motivo”.


 Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,/não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias/no vento.

Se desmorono ou se edifico,/se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico/ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo./tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.

in Viagem (1939)


     A musicalidade deste poema transporta-nos à poesia da música de Mozart. Proponho então que ouçamos, deste compositor, o sublime II Andamento – Andante - do Concerto nº 21, para piano e orquestra.






O Barco Desaparecido, Souza Pinto (Açores, 1856-Bretanha, 1939)


   No poema “Mar Absoluto”, Cecília Meireles expressa as suas raízes açorianas, certamente cultivadas pela avó micaelense que a criou.


Mar Absoluto
(excerto)

Foi desde sempre o mar,/e multidões passadas me empurravam,
como o barco esquecido.
Agora recordo que falavam/da revolta dos ventos,
de linhos , de cordas, de ferros,/de sereias dadas à costa.
E o rosto dos meus avós estava caído/pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,/e pelos mares do Norte, duros de gelo.
Então, é comigo que falam,/sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,/tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes rezas,/campos convertidos em velas,
barcas sobrenaturais/com peixes mensageiros/e cantos náuticos.
(…)



Retrato de Fernanda de Castro, 1922, Tarsila do Amaral


     Depois da morte de Cecília Meireles, a poetisa portuguesa Fernanda de Castro (1900-1994) dedica-lhe o poema que se segue:


Quem pudera, Cecília!

Tenho fome de campo e de verdura,/De terra bem lavrada,
E sede, muita sede de água pura.
Quero pegar no cabo de uma enxada,/Quero cheirar os troncos e as raízes,
Pisar descalça, a terra ainda molhada,/Ver, nas noites, o rasto das perdizes.
Já Cecília Meireles o dizia,/Com imenso carinho:
“Portugal não tem campo, tem campinho.”/E ria, ria,
Rasgando as mãos nas silvas,/Comendo amoras, colhendo malmequeres, madressilvas.
Tinhas razão Cecília./Em Portugal, as estações são festas,
São festas de família,/Enfiadas, colares de alegrias;
Na Primavera as flores;/Os frutos no Verão, e as romarias;
No Outono o vinho novo e o ritual/Profano das vindimas;
No Inverno,/A mística alegria do Natal,
As portas bem fechadas,/A lenha a crepitar/E as rabanadas.
Quem pudera, Cecília, quem pudera,
Mandar-te para lá, para onde estás,
Um raminho da nossa Primavera.
Fernanda de Castro



Fernanda de Castro (Lisboa, 1900-Lisboa, 1994)


Fernanda de Castro, para além de poetisa, foi romancista, dramaturga e tradutora. Fernando Assis Pacheco, em edição do suplemento “O Jornal”, nº683 (1988), disse dela: “Imobilizada pela doença, Fernanda de Castro cultiva em alto grau a arte de conviver, desfiando histórias atrás de histórias que são uma imagem viva do século. O pai ensinou-lhe a fazer nós de marinheiro, mas a Maria Rapaz, desengonçada e senhora do seu nariz, acabou por casar (com António Ferro que teve nas mãos o Marketing do antigo regime) e correr mundo, fulminando legiões de admiradores – Pessoa entre eles, ao que se diz – com uns olhos belíssimos e uma verve inigualável. (…)”


     Será agora altura de voltarmos a Mozart, com o III Andamento – Finale - do Concerto nº 21, para piano e orquestra.



 Mozart Piano Concerto no.21, Finale


    Depois do brilhantismo deste Finale de Mozart, regressamos a Fernanda de Castro, com o poema “Alegria”. 



Figura em Azul, Tarsila do Amaral (Capivari, 1886-São Paulo, 1973)


Alegria


De passadas tristezas, desenganos/amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,/de pequenas traições/que achei no caminho…
de cada injusto mal, de cada espinho,
que me deixou no peito a nódoa escura
duma nova amargura…
De cada crueldade/que pôs de luto a minha mocidade…
De cada injusta pena/que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte…
De cada morte/que anda a viver comigo, a minha vida,
De cada cicatriz, eu fiz/nem tristeza, nem dor, nem nostalgia/mas heroica alegria.
Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal/pode vencer.
Doido prazer/de respirar!
Volúpia de encontrar/a terra honesta sob os pés descalços.
Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,/de respirar
honestamente e sem caprichos,/como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar/frutos e de cheirar rosas.
Alegria brutal e primitiva/de estar viva,
feliz ou infeliz/mas bem presa à raiz.
Volúpia de sentir a vida na minha mão,/a côdea do pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte/é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir/o tédio,
Esse estranho cilício,/e de entregar-me à vida como a/um vício.
Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!
in “D’Aquém e D’Além Alma” (1935)

      Para terminar, propomos a audição deste belíssimo poema na voz consagrada declamadora espanhola Carmen Feito Maeso.




Este belíssimo artigo foi elaborado por
Sónia Craveiro
A quem desde já agradeço,

Muito obrigada
 Beijinhos

Fontes: