O dia de ontem
na história judaica – 20 de Kislev 5774
Discurso de Ezra
(347 AEC)
Pintura de Gustave Doré
Ezra, líder do Sanhedrin e do povo judeu na
época da construção do Segundo Templo, fez um discurso histórico a uma assembleia
de judeus que durou três dias, em Jerusalém, exortando-os a aderirem aos
ensinamentos da Torá e a dissolverem seus casamentos mistos (o povo judeu
estava à beira da completa assimilação naquela época, após o exílio de 70 anos
na Babilónia).
Ezra de
Guillaume Rouillé 's
Promptuarii Iconum Insigniorum
Ezra (ɛ z r ə, hebraico: עזרא, Ezra; 480-440 a e c), também chamado de Esdras, o Escriba
( hebraico : עזראהסופר, Ezra ha-Sofer ) e Esdras, o sacerdote no Livro de Esdras.
De acordo com a Bíblia hebraica que ele voltou do exílio babilónico e
reintroduziu a Torá em Jerusalém (Esdras 7-10 e Neemias 8).
O dia de ontem na história
judaica - 20 de Kislev 5774
O Tanya
é publicado
(1796)
Rª
Schneur Zalman of Liadi. Spher Likulei Amarim “Tanya” First Edition. Slavula,
1/96: Sold 24 February, $95,000.
A primeira edição do Tanya é publicada – obra magna de Rabi Shneur
Zalman de Liadi, fundador do Movimento Chabad-Lubavitch.
O livro de Tanya lida com espiritualidade,
psicologia e teologia judaica a partir do ponto de vista da filosofia hassídica
e das suas explicações internas da Cabala (misticismo judaico). Ele oferece
conselhos para cada indivíduo sobre a forma de servir a D’us na sua vida diária.
The Tanya, the fundamental work of Chabad philosophy,
in its second
printing in Zalkevo, 1799. Foto: Chabad Library
O Tanya (תניא) foi publicado pela 1ª vez em 1797. Seu título
formal é Likkutei Amarim (ליקוטיאמרים,
hebraico, "colecção de instruções"), mas é mais conhecido pela sua
palavra de abertura, Tanya, que significa "que foi ensinado num
beraita". É composto por cinco secções que definem a psicologia mística
hassídica e teologia como um manual para a vida espiritual diária em
observância judaica.
Por que chamamos ao Chanucá a
Festa das Luzes? Por que não a Comemoração do Azeite ou o Milagre dos Oito
Dias? O radical da palavra Chanucá é chinuch, que significa educação. Chanucá é
um processo espiritual cumulativo no qual a totalidade de trinta e seis luzes
que são acesas cresce para revelar a luz da Criação.
A luz é vista geralmente como
uma metáfora para a sabedoria. O símbolo universal para a compreensão num
desenho ou ilustração gráfica é uma luz ou um raio.
Pessoas de todas as
culturas, quando entendem um conceito que está sendo explicado, usam, em vários
idiomas, o mesmo verbo; ‘ver’.“Agora eu vejo”, dizemos, quando finalmente
chegamos ao entendimento de algo.
Maimonides escreve que um
profeta pode experimentar um raio de luz, de radiância, que ilumina seu
caminho. “Luz” é bastante usada na Torá para significar conhecimento ou
sabedoria. Com as palavras “Que haja luz”, a Criação do Mundo emergiu.
O Talmud
explica que esta luz iluminou Adam e Chava durante trinta e seis horas, do
meio-dia da sexta-feira até o final do dia do Shabat, quando “Adam pôde ver de
um canto ao outro do mundo”. Durante este tempo, a Luz Primordial, a sabedoria
interior de propósito e verdade, foi exibida à humanidade.
Mas para que o propósito da
Criação seja concretizado e a ordem de vencer a escuridão seja manifestada,
esta luz intensa foi ocultada do universo, armazenada para um tempo que ainda
vai chegar. Desde então, ansiamos por aquela luz, procuramos por ela e a buscamos
na prece, no estudo e na meditação. Porém, mesmo em nossas horas mais sombrias,
podemos aceder a esta lembrança nascida das 36 horas nas quais nós, a
humanidade como um todo, vivemos nessa luz. “Onde seria ocultada esta luz?”
pergunta o Midrash. “Na Torá.” Em sua radiância vivênciamos a sabedoria, o
propósito e o objectivo da Criação.
Em todas as gerações há 36
almas elevadas presentes que sustentam, nutrem e guardam esta luz. Ocultas,
discretas, e praticamente desconhecidas, estas 36 pessoas justas são as centelhas
daquela Luz Oculta. Por meio da sua consciência refinada, a luz da Torá permeia
o mundo presente e futuro.
Durante os oito dias de Chanucá, o nosso mundo fica luminoso com esta
luz gloriosa. Diferente das velas do Shabat, as luzes de Chanucá não podem ser
usadas para o prazer pessoal. “Estas luzes são sagradas, podemos apenas
contemplá-las.” Pois embora a nossa percepção possa ser menos sensivel, nós
fomos, e somos, donos da visão. De fato, as luzes de Chanucá são colocadas na
janela como um farol a todos aqueles que passam e as vêem, anunciando que as
trevas podem ser dispersas com sabedoria, a obscuridade pode ser iluminada com
a verdade. Por mais que o Chanucá comemore o passado, celebra também o presente
e o futuro.
Pois embora Chanucá festeje o
milagre de uma única ânfora de azeite ardendo durante oito dias, também imbui o
mundo com a esperança da Redenção, quando a luz triunfará sobre a negatividade.
Isso é tanto passado quanto futuro, e “não haverá fome nem guerra, nenhuma
inveja ou rivalidade. Pois o bem será abundante, e todas as iguarias tão comuns
como a poeira. A ocupação do mundo será somente conhecer a D’us. ‘Pois a terra
estará repleta com o conhecimento de D’us, como as águas cobrem o oceano’
(Maimonides).”
Rabi Avraham Maimuni HaNagid foi o único filho
de Maimônides (o famoso talmudista, codificador da lei Judaica, filósofo,
médico e estadista, Rabi Moshê ben Maimon, 1135-1204). Nascido em 1185, Rabi
Avraham sucedeu seu pai como líder da comunidade judaica em Fostat (antiga
cidade do Cairo), no Egito, aos 19 anos. Escreveu muitas responsas e
comentários explicando e defendendo os escritos do pai e as leis haláchicas.
Rabi Avraham faleceu a 18 de Kislêv do ano 4998 da Criação (1237). Foto do seu pai - Maimonides
Abraham ben Moses ben Maimon (אברהםבןרמב"ם, também conhecido como Rabbeinu Avraham
ben ha-Rambam, e Avraham Maimuni) (1186 - 07 de dezembro de 1237) foi o filho
de Maimonides, que sucedeu seu pai como Nagid da comunidade judaica egípcia.
Avraham nasceu em Fostat,
Egipto - seu pai, Maimonides, tinha 51 anos de idade. O menino foi
"modesto e altamente refinado e extraordinariamente boa índole", ele
também era conhecido pelo seu brilhante intelecto e ainda na juventude tornou-se
conhecido como um grande estudioso. Quando seu pai morreu em 1204, com a idade
de sessenta e nove anos, Avraham tinha apenas dezanove anos, Avraham foi
reconhecido como o maior estudioso em sua comunidade. Assim, ele conseguiu o
lugar de Rambam como Nagid (chefe dos judeus do Egito), bem como no escritório
do médico da corte, com a idade de apenas dezoito anos. (O escritório de nagid pertenceu
à família de Maimonides por quatro gerações sucessivas até o final do século
14). Rabbi Avraham honrava muito a memória de seu pai, e defendeu os seus
escritos e obras contra todos os críticos. Graças à sua influência, uma grande
comunidade egípcia Caraíta voltou ao redil do judaísmo rabínico.
O trabalho mais conhecido de
Avraham Maimuni é a sua Milhamoth ha- Shem ("O Livro das Guerras de
Deus"), na qual ele responde aos críticos das doutrinas filosóficas de seu
pai expressas no Guia para os Perplexos. Inicialmente ele evitou entrar na polémica
sobre os escritos de seu pai, no entanto, quando soube da suposta queima de
livros do mesmo, em Montpellier, em 1235, ele compilou Milchamot. A sua
principal obra é escrita originalmente em árabe-judeu e intitulado "כתאבכפיאאלעאבדין"
Kitāb
kifayah al- Abidin. No livro, Maimuni evidencia um grande apreço e afinidade
com o sufismo (misticismo islâmico). Foto: Cairo Genizah Fragment by Abraham ben Maimon.
Outros dos seus trabalhos
incluem um comentário sobre a Torá em que apenas os comentários sobre Gênesis e
Êxodo ainda existem, bem como comentários sobre partes do trabalho de seu pai,
Mishnê Torah e em diversos tratados do Talmud. Ele também escreveu uma obra
sobre Halachá (lei judaica), combinada com a filosofia e ética. Seu
"Discurso sobre os provérbios dos Rabinos" - discutindo Aggadah - é
frequentemente citado. Ele também foi autor de várias
obras médicas.
Hoje trago-vos aqui a este
espaço, algumas obras desta pintora extraordinária. Mas hoje o que vos dou é
pouco, muito pouco e serve apenas para vos apurar o desejo de conhecerem os
tantos e belíssimos trabalhos que esta artista tem para nos oferecer.
Liliana Lucki mima-nos e anima-nos diariamente, sempre com o que nos dá de si mesma em cada tela com que nos presenteia.
Eu por hoje e com a intenção de vos desejar
Laila Tov,
deixo-vos com estes dois clips, mas não desliguem sem primeiro espreitarem a página e o blog da Liliana…e tenham sonhos mágicos e coloridos.
Rabino Yossef Karo (1488-1575), o gigante
espiritual, faz uma pergunta interessante sobre Chanucá. Como o pote encontrado
tinha azeite para uma noite e o milagre foi ter durado oito noites? Então
deveríamos acender nossas velas apenas por sete noites, pois a primeira noite
não foi um milagre. O próprio sábio, e outros nos séculos que se seguiram,
ofereceram muitas respostas.
Talvez possamos acrescentar
algo mais e ainda bem atual. Após as suas vitórias heróicas e milagrosas, os
macabeus entraram no Templo Sagrado para purificá-lo e acender novamente o
candelabro, assim manifestando sua gratidão a D’us. Infelizmente não
encontraram azeite suficiente, e levaria oito dias para conseguir um novo lote.
Provavelmente entre os próprios macabeus surgiram realistas dizendo:
“Para que começar algo que amanhã não terá
continuidade. Já esperamos vários anos sem acender a menorá, esperemos mais
oito dias (a distância até o local onde fabricavam azeite) e então começaremos
para nunca mais parar. A lei da natureza está contra nós”.
Estas são palavras que ouvimos
em muitos lugares até nos dias actuais. Porém os dedicados macabeus rejeitaram
este argumento e imediatamente acenderam o candelabro.
Essa manifestação tão profunda
de fé e coragem, sabendo que logicamente no dia seguinte não haveria uma
continuação, já é um milagre por si mesma. O acto de acender a chanukiá foi um
milagre tão grande quanto o milagre que veio a seguir.
Esta é a inspiração que devemos
captar em Chanucá. Ainda há pessoas que acham que o autêntico Judaísmo não é
algo para os dias actuais. Porém muitas entidades no mundo inteiro, já
mostraram que é totalmente possível.
Esta é a grande lição que
Chanucá transmite aos nossos tempos. Como os antigos macabeus, devemos ser
acendedores de lampiões, e a luz da Torá brilhará forte- mente iluminando
nossas vidas, aquecendo nossos corações e lares, levando-nos para um futuro
seguro e significativo.
Qual é o significado da lavagem ritual das mãos
antes das refeições? Era alguma antiga versão de higiene judaica?
Resposta:
Uma das leis da lavagem ritual das mãos é que
as mãos devem estar completamente limpas antes de você as lavar. Primeiro você
limpa as mãos de qualquer sujidade, e só então derrama água de uma caneca três
vezes sobre cada mão.
Vamos ver como se faz:
Isso é ridículo: o pré-requisito para lavar as
mãos é que elas estejam limpas? A lavagem ritual das mãos não tem efeito
visível. Aparentemente, nada faz. Então por que o cumprimos? A lavagem das mãos
antes das refeições não tem nada a ver com higiene.
Não se trata de
limpeza; É sobre santidade.
A limpeza é um estado físico. Ao remover a sujidade
você fica limpo. Porém a santidade é um conceito puramente espiritual.
Santidade significa um senso de algo mais além, mais elevado, algo com um
propósito mais alto. Você pode estar completamente limpo, mas isso não
significa que está sagrado.
Pode haver duas pessoas trabalhando lado a
lado. Ambas são honestas e boas. As duas estão limpas. Não há diferença visível
entre elas. E apesar disso uma usa sua riqueza para ajudar os pobres e
necessitados, enquanto a outra acumula riqueza puramente para si e para sua
família. Este último também está limpo. Não é um homem mau. Porém não é
sagrado.
Jerusalém Velha -
Bairro Judeu - pia para yadayim netilat - ao lado da sinagoga Ramban
(Crédito da
foto Wikipedia)
Você pode ter dois pratos de comida. Ambos são
compostos de ingredientes saudáveis e preparados segundo os mais altos padrões
de higiene. Não há diferença visível entre eles. E apesar disso num prato há
comida casher, no outro não. A comida casher não é mais saudável ou mais limpa.
É sagrada. É preparada segundo os padrões Divinos com um propósito mais elevado
em mente.
A
santidade significa conectar-se com algo mais elevado. Significa viver com a
percepção de que nem toda a sujidade é visível, e nem sempre vemos o efeito das
nossas acções. Portanto, antes de iniciar uma actividade física, antes de
consumir o fruto do nosso trabalho, lavamos as nossas mãos.
Talvez elas já
estejam limpas, mas devemos assegurar que elas também estejam puras e sagradas.
Cecília Meireles (Rio de Janeiro, 1901-Rio de Janeiro, 1964)
Cecília Meireles foi uma poetisa, professora, jornalista e pintora brasileira. Cecília conviveu desde muito cedo com a morte, sendo a única sobrevivente dos quatro filhos de Carlos Alberto de Carvalho Meireles e de Matilde Benevides Meireles. O pai viria a morrer, tinha Cecília três meses, e ainda não tinha completado três anos de idade quando perdeu a mãe. A partir de então ficaria a cargo da avó materna, Jacinta Garcia Benevides, uma senhora açoriana da ilha de São Miguel.
Cecília escreveria mais tarde: "Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno. (...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade. (...)”
Cecília Meireles, por Arpad Szènes
Em 1939 Cecília Meireles perde o marido, o artista plástico português Fernando Correia Dias. Mais uma vez a morte marca a sua vida, e esse sentimento de transitoriedade de que a poetisa fala, reflete-se nos poemas que escreve, como em “Motivo”.
Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,/não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias/no vento.
Se desmorono ou se edifico,/se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico/ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo./tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo: — mais nada.
in Viagem (1939)
A musicalidade deste poema transporta-nos à poesia da música de Mozart. Proponho então que ouçamos, deste compositor, o sublime II Andamento – Andante - do Concerto nº 21, para piano e orquestra.
O Barco Desaparecido, Souza Pinto (Açores, 1856-Bretanha, 1939)
No poema “Mar Absoluto”, Cecília Meireles expressa as suas raízes açorianas, certamente cultivadas pela avó micaelense que a criou.
Mar Absoluto
(excerto)
Foi desde sempre o mar,/e multidões passadas me empurravam,
como o barco esquecido.
Agora recordo que falavam/da revolta dos ventos,
de linhos , de cordas, de ferros,/de sereias dadas à costa.
E o rosto dos meus avós estava caído/pelos mares do Oriente, com seus corais e pérolas,/e pelos mares do Norte, duros de gelo.
Então, é comigo que falam,/sou eu que devo ir.
Porque não há ninguém,/tão decidido a amar e a obedecer a seus mortos.
E tenho de procurar meus tios remotos afogados.
Tenho de levar-lhes rezas,/campos convertidos em velas,
Retrato de Fernanda de Castro, 1922, Tarsila do Amaral
Depois da morte de Cecília Meireles, a poetisa portuguesa Fernanda de Castro (1900-1994) dedica-lhe o poema que se segue:
Quem pudera, Cecília!
Tenho fome de campo e de verdura,/De terra bem lavrada,
E sede, muita sede de água pura.
Quero pegar no cabo de uma enxada,/Quero cheirar os troncos e as raízes,
Pisar descalça, a terra ainda molhada,/Ver, nas noites, o rasto das perdizes.
Já Cecília Meireles o dizia,/Com imenso carinho:
“Portugal não tem campo, tem campinho.”/E ria, ria,
Rasgando as mãos nas silvas,/Comendo amoras, colhendo malmequeres, madressilvas.
Tinhas razão Cecília./Em Portugal, as estações são festas,
São festas de família,/Enfiadas, colares de alegrias;
Na Primavera as flores;/Os frutos no Verão, e as romarias;
No Outono o vinho novo e o ritual/Profano das vindimas;
No Inverno,/A mística alegria do Natal,
As portas bem fechadas,/A lenha a crepitar/E as rabanadas.
Quem pudera, Cecília, quem pudera,
Mandar-te para lá, para onde estás,
Um raminho da nossa Primavera.
Fernanda de Castro
Fernanda de Castro (Lisboa, 1900-Lisboa, 1994)
Fernanda de Castro, para além de poetisa, foi romancista, dramaturga e tradutora. Fernando Assis Pacheco, em edição do suplemento “O Jornal”, nº683 (1988), disse dela: “Imobilizada pela doença, Fernanda de Castro cultiva em alto grau a arte de conviver, desfiando histórias atrás de histórias que são uma imagem viva do século. O pai ensinou-lhe a fazer nós de marinheiro, mas a Maria Rapaz, desengonçada e senhora do seu nariz, acabou por casar (com António Ferro que teve nas mãos o Marketing do antigo regime) e correr mundo, fulminando legiões de admiradores – Pessoa entre eles, ao que se diz – com uns olhos belíssimos e uma verve inigualável. (…)”
Será agora altura de voltarmos a Mozart, com o III Andamento – Finale - do Concerto nº 21, para piano e orquestra.
Mozart Piano Concerto no.21, Finale
Depois do brilhantismo deste Finale de Mozart, regressamos a Fernanda de Castro, com o poema “Alegria”.
Figura em Azul, Tarsila do Amaral (Capivari, 1886-São Paulo, 1973)
Alegria
De passadas tristezas, desenganos/amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,/de pequenas traições/que achei no caminho…
de cada injusto mal, de cada espinho,
que me deixou no peito a nódoa escura
duma nova amargura…
De cada crueldade/que pôs de luto a minha mocidade…
De cada injusta pena/que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte…
De cada morte/que anda a viver comigo, a minha vida,
De cada cicatriz, eu fiz/nem tristeza, nem dor, nem nostalgia/mas heroica alegria.
Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal/pode vencer.
Doido prazer/de respirar!
Volúpia de encontrar/a terra honesta sob os pés descalços.
Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,/de respirar
honestamente e sem caprichos,/como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar/frutos e de cheirar rosas.
Alegria brutal e primitiva/de estar viva,
feliz ou infeliz/mas bem presa à raiz.
Volúpia de sentir a vida na minha mão,/a côdea do pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte/é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir/o tédio,
Esse estranho cilício,/e de entregar-me à vida como a/um vício.
Alegria!
Alegria!
Volúpia de sentir-me cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!
in “D’Aquém e D’Além Alma” (1935)
Para terminar, propomos a audição deste belíssimo poema na voz consagrada declamadora espanhola Carmen Feito Maeso.