quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A Sinagoga Touro



“A Sinagoga Touro não só é a mais antiga sinagoga da América, mas também um dos seus mais antigos símbolos de liberdade. Não há melhor tradição do que a história das contribuições da Sinagoga Touro para os objectivos de liberdade e justiça para todos.”

John F. Kennedy, Presidente dos Estados Unidos,15 de Setembro de 1963


Ostentando o nome de uma família judaica luso-americana com raízes em Tomar, a Sinagoga Touro, de Newport, Rhode Island, foi dedicada a 7 de Dezembro de 1763, no primeiro dia de Hanuká, e permanece hoje como a mais antiga sinagoga dos Estados Unidos — a única do período colonial que ainda sobrevive e se mantém em actividade. A congregação foi fundada em 1658 (apenas 4 anos após a chegada dos primeiros judeus portugueses a Nova Iorque) por judeus sefarditas, na sua maioria marranos e descendentes de marranos que inicialmente tinham fugido da Inquisição portuguesa e que escapavam agora de perseguições sofridas nas Caraíbas às mãos dos espanhóis. 



Entre os fundadores da comunidade contavam-se Mordecai Campanal, Moisés Israel Pacheco, Simão Mendes e Abraão Burgos. O líder religioso chamava-se Isaac Touro — e um dos seus filhos, Judah Touro ficaria para a história como um dos maiores beneméritos norte-americanos do século XIX. (…)


Judah Touro, de Newport, Rhode Island, viajou para Nova Orleães, na véspera da compra de Louisiana. Ele fez uma enorme fortuna como comerciante, metade da qual ele deu a várias causas e instituições de caridade. Embora ele tenha feito contribuições significativas para instituições religiosas judaicas e instituições de caridade, ele também doou generosamente a pessoas e instituições afiliadas com outras religiões. Quando o reverendo Theodore Clapp foi expulso da Igreja Presbiteriana em 1832, Touro entrou em cena e pagou a hipoteca da igreja de Clapps, permitindo-lhe continuar o seu ministério, sem interrupção.


Inicialmente impossibilitados de construir uma sinagoga própria, a comunidade de judeus portugueses de Newport reunia-se em casas particulares nas noites de sexta-feira e nas manhãs de sábado.

Durante o seu primeiro século de permanência em Rhode Island (a primeira colónia das 13 colónias originais americanas a declarar independência da Grã-Bretanha), os judeus portugueses prosperaram, tornando-se artesão e mercadores respeitados na colónia esmagadoramente protestante. O seu sucesso atraiu um influxo migratória de judeus sefarditas e asquenazim (judeus da Europa Oriental, com raiz na palavra hebraica Asquenaz, que significa Alemanha), que se juntaram à comunidade inicial, adoptando em conjunto os rituais religiosos tradicionais dos judeus de Portugal e Espanha. 

Com o crescimento da comunidade veio a necessidade de encontrar um local permanente para a realização dos serviços religiosos, e para isso voltaram-se para outras comunidades de judeus portugueses. A primeira resposta veio da congregação Shearith Israel, de Nova Iorque, a mais antiga do país, que enviou uma generosa contribuição de £149.060. Outras congregações de judeus portugueses — nomeadamente da Jamaica, Curaçao, Suriname e Londres — contribuíram também com ajuda financeira para a construção da sinagoga.



Peter Harrison, o mais famoso arquitecto americano do século XVIII, ofereceu-se para fazer o projecto do edifício, que demorou quatro anos a construir, sendo dedicado a 2 de Dezembro de 1763 pelo rabino da congregação, o luso-americano Isaac Touro.






A cerimónia de dedicação do edifício contou com a presença de muitos notáveis entre a elite protestante de Newport. A sinagoga Touro é considerada uma das mais emblemáticas obras de Peter Harrison, entre as quais se incluem a Kings Chapel, de Boston, e a Igreja de Cristo, em Cambridge, ambas no estado de Massachussetts.


Com a sinagoga, e um cemitério adquirido anos antes, a congregação portuguesa podia agora cumprir três das funções essenciais da vida comunitária judaica — os rituais religiosos propriamente ditos, a educação das crianças e os funerais. A congregação de judeus portugueses de Newport escolheu para si o nome de Yeshuat Israel (Salvação de Israel).

Durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos, e por causa do bloqueio britânico ao porto da cidade, grande parte da comunidade escapou para Nova Iorque. Findo o conflito, a vitalidade da congregação reacendeu-se. Pelo facto de durante a guerra muitos dos edifícios públicos da cidade terem ficado danificados, a Sinagoga Touro foi utilizada também para reuniões da Assembleia Geral de Rhode Island e do Supremo Tribunal estadual.

Em 1790, a convite do rabino Moisés Seixas, o Presidente George Washington visita esta sinagoga de judeus portugueses e dias depois lhes envia uma carta que ficaria para a história, reafirmando os princípios de igualdade e tolerância religiosa que norteavam a Constituição americana: “(…) Porque felizmente, o governo dos Estados Unidos, que não confere sanção à intolerância, nem à perseguição assistência (…)”. Estas palavras eram escritas um ano antes da Declaração de Direitos, que mesmo assim apenas se aplicava ao governo federal.


A par da Sinagoga Touro, o cemitério da congregação de judeus sefarditas de Newport é outro testemunho da dimensão e peso da comunidade de Newport. No Verão de 1852, o poeta Henry Wadsworth Longfellow ficou tão impressionado com o cemitério sefardita que o imortalizou num dos seus mais reconhecidos poemas, publicado na Putnam’s Monthly Magazine, em Julho de 1854:


Henry Wadsworth Longfellow


The Jewish Cemetery at Newport

How strange it seems! These Hebrews in their graves,
Close by the street of this fair seaport town,
Silent beside the never-silent waves,
At rest in all this moving up and down!

The trees are white with dust, that o’er their sleep
Wave their broad curtains in the south-wind’s breath,
While underneath these leafy tents they keep
The long, mysterious Exodus of Death. 

(...)

But ah! what once has been shall be no more!

The groaning earth in travail and in pain
Brings forth its races, but does not restore,
And the dead nations never rise again.


No seu bloco de notas, enquanto caminhava entre as campas, Longfellow foi escrevendo os nomes dos judeus portugueses ali sepultados. Professor de Românicas e Línguas Modernas em Harvard, o poeta ficou fascinado com a conjugação dos sobrenomes portugueses aos nomes próprios hebraicos que ele se habituara a encontrar na Bíblia.


Escrevendo como um observador externo, Longfellow seria ainda indirectamente responsável por outra ligação dos judeus portugueses de Newport à poesia novecentista americana. Inspirada no poema de Henry Wadsworth Longfellow, Emma Lazarus — ela própria descendente de judeus portugueses — visita Newport em 1867 e, com apenas 18 anos de idade, escreve um poema sobre a Sinagoga Touro fazendo-o, desta vez, do lado de dentro da comunidade judaica sefardita dos Estados Unidos:


In the Jewish Synagogue at Newport

Here, where the noises of the busy town,
The ocean’s plunge and roar can enter not,
We stand and gaze around with fearful awe,
And muse upon the consecrated spot.

No signs of life are here: the very prayers,
Inscribed around are in a language dead,
The light of the “perpetual lamp” is spent
That an undying radiance was to shed.

(…)

And still the shrine is holy yet,
With its lone floors where reverent feet once trod.
Take off your shoes as by the burning bush,
Before the mystery of death and God.


Fontes:






Washington reage aos judeus de Newport (1790)



No dia de hoje na história judaica - 8 de Elul 5773

George Washington


O zelador da Congregação Hebraica de Newport, Rhode Island, escreveu uma calorosa carta a George Washington, em nome da comunidade judaica, dando as boas-vindas ao Presidente em sua visita a Newport. Na carta, ele expressava uma visão de um governo americano que permitiria a todas as religiões conviverem lado a lado em harmonia, dando a todos os cidadãos a liberdade de praticar sua religião. Em 18 de Agosto de 1790, o Presidente Washington respondeu:



Fonte:


domingo, 11 de agosto de 2013

Yoram Rannan





Yoram Raanan, graduou-se na Universidade de Artes de Filadélfia (BFA 1975). Ele viajou e estudou de forma independente em toda a Europa e no Médio Oriente. Em 1977, estabeleceu-se em Israel e abrindo seu primeiro estúdio no bairro Bukharim em Jerusalém. 





Desde 1994, que ele vem criando arte na sua fazenda nas montanhas da Judeia do Corredor de Jerusalém. Ele é casado e tem quatro filhos.


As pinturas de Raanan são uma expressão moderna da consciência judaica coletiva. Caracterizada pela intuição e imaginação, há uma forte sensação de luz, cor e espiritualidade. Ele é inspirado pela Bíblia, pela natureza e pela Terra de Israel.





"A sensação de criar é um processo dinâmico e emocionante, e é especialmente bom porque eu posso compartilhar com os outros. Eles podem ver o que eu fiz e desfrutar de uma experiência vicária."


O dia de hoje na história judaica - 5 de Elul 5773



Primeira aliyá chassídica
(1777)



A primeira aliyá ("ascensão" – imigração à Terra Santa) chassídica, liderada por Rabi Menachem Mendel de Vitebsk, Rabi Abraham de Kalisk e Rabi Yisroel de Polotzk, chegaram à Terra Santa a 5 de Elul do ano 5537 (1777 EC). Eles todos eram discípulos do segundo líder do Movimento Chassídico, Rabi DovBer, o "Maguid de Mezeritch" (que falecera cinco anos antes) e colegas de Rabi Shneur Zalman de Liadi, fundador de Chabad.



A princípio, Rabi Shneur Zalman fazia parte do grupo; porém quando a caravana chegou à cidade de Moholiev no Rio Dnester, Rabi Menachem Mendel – a quem Rabi Shneur Zalman considerava como mestre e mentor após o falecimento do Maguid – instruiu-o a permanecer ali para servir como líder da comunidade chassídica na Rússia Branca e na Lituânia. Rabi Shneur Zalman conservou os laços com os colonos na Terra de Israel e trabalhou no sentido de angariar fundos para o sustento deles.



Fontes:
Pintura de Gustave Bauernfeind

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Propostas de visitas para hoje!



Shabat Shalom!
He Makes Peace (Szeged)

Casale Monferatto

Love of Torah, Mad

Shutters, Cochin

Magen David, Bombay


Aron Kodesh, Altneushul

Torah scrolls, Izmir



Rabi Abraham Isaac Kook


O dia de hoje na história judaica – 3 de Elul 5773

Rabbi A. I. Kook (1935)


Dia 3 de Elul é o yahrtzeit do primeiro Rabino Chefe ashkenazita (dos tempos modernos) da comunidade Religiosa Judaica Sionista na Terra Santa, Rabi Abraham Isaac Kook, que assumiu este cargo com a formação do Mandato Britânico em 1920. Notável filósofo e místico, Rabi Kook escreveu muitos livros e cartas, sendo fundador do Movimento “Sionista Religioso”.


Judeus ortodoxos no serviço memorial anual, do rabino Abraham Isaac Kook no Monte das Oliveiras.




Fonte:


Ver toda a história aqui:

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Miriam!



MIRIAM

UMA HEROÍNA DA TORÁ

A mãe de Moisés, Simeon Solomon, 1860


     Nesta pintura a óleo de Simeon Solomon (1840-1905), o pintor descreve-nos uma cena familiar cheia de ternura: Moisés ao colo da mãe (Joquebede), que lhe segura amorosamente na mãozinha minúscula, e ao lado, delicadamente inclinada sobre os dois, está Miriam, a irmã mais velha. Miriam segura a cesta que há-de transportar Moisés nas águas das margens do Nilo, salvando-o do édito do Faraó que decretava a morte a todos os recém-nascidos israelitas do sexo masculino.


A mãe de Moisés, Alexey Tyranov (1808-1859)


   Segundo o Talmude (Sotá 12a), Amram, o pai de Miriam e líder espiritual da sua geração, na sequência do decreto faraónico de matar todo o menino recém-nascido israelita, decidiu divorciar-se de Joquebede para evitar a possibilidade do nascimento de mais filhos. Miriam, então uma menina de seis anos de idade, terá argumentado com o pai, defendendo que tal atitude era mais cruel que a do Faraó: enquanto que o Faraó decretara o fim de todos os meninos, ele, Amram, cujo comportamento poderia ser imitado por outros judeus, estaria a condenar também as meninas, pondo em risco a continuidade do povo judeu. 

  Amram ouviu a filha e casou em segundas núpcias com a sua ex-mulher, gerando o futuro redentor de Israel.


Descobrindo Moisés, Edwin Long, 1886


“E ficou de longe sua irmã, para ver o que lhe aconteceria. E a filha do Faraó havia descido para se banhar no Nilo (…), e viu a arca dentro do canavial e mandou que a sua criada lhe pegasse”
Êxodo, 2:4-5


  Miriam, escondida no canavial, vigiava o seu pequeno irmão, vendo-o ser recolhido das águas do Nilo por uma serva da filha do Faraó. Percebendo que a filha do Faraó precisava de uma ama-de-leite para amamentar o bebé, intervém, perguntando: «Queres que vá chamar para ti uma mulher, ama das hebreias, e que amamente o menino por ti?» (Êx. 2:7). Com a concordância da princesa, Miriam escolheu uma ama, a própria mãe, Joquebede, que amamentou e cuidou de Moisés. 


“Os Israelitas deixando o Egipto”, 1828, David Roberts



   Segundo os sábios, Miriam terá recebido este nome [onde a palavra mar (amargura) está embebida], por ter nascido no período mais penoso do cativeiro: «E (os egípcios) amarguraram as suas vidas (dos israelitas) com serviço penoso…» (Êx. 1:14). Mas este foi também o período que daria início ao longo processo de redenção do povo de Israel, que Miriam ainda criança, já dotada de dons proféticos, terá anunciado: «Minha mãe terá um filho que será o libertador de Israel.» (Sotá, 12b). 


“Pois te fiz sair da terra do Egipto, te redimi da casa da escravidão e enviei diante de ti Moisés, Aarão e Miriam”
Miqueias, 6:4


   As palavras do profeta Miqueias colocam os três irmãos – Moisés, Aarão e Miriam-, lado a lado na extraordinária saga que conduz o povo de Israel da libertação da escravidão do Egipto rumo à Terra Prometida. É por intermédio de Moisés que D’us outorga a Torá aos israelitas; é pelo mérito de Aarão que a “Nuvem de Glória” protege os filhos de Israel durante a sua conturbada travessia de 40 anos no deserto, mas é graças a Miriam que a água fluía em abundância. A “Fonte de Miriam” (Be’er Miriam) acompanha o povo hebreu na sua longa caminhada no deserto, só deixando de jorrar água quando a profetisa morre (Núm. 20:1). 




   Após a travessia milagrosa do Mar Vermelho, Moisés e Aarão lideram os homens de Israel num cântico de louvor a D’us (Êx. 15:1).Os israelitas tinham sido libertos da escravidão do Egipto.

     Miriam, com um tamborim nas mãos, entoa também um hino de louvor ao Senhor: «E tomou Miriam, a profetisa, irmã de Aarão, o tambor na sua mão, e saíram todas as mulheres atrás dela, com adufes e com danças.» (Êx. 15:20). É justamente nesta passagem que a Torá se refere a Miriam como Ha-naNaviá – a profetisa. 





Hagadá Kaufman, Catalunha, séc. XIV



   A magnífica iluminura acima apresentada ilustra os versículos da Torá acima mencionados; nela podemos observar, do lado direito, três mulheres tocando instrumentos musicais: da direita para a esquerda, um órgão portátil, um alaúde e Miriam com o adufe. Em frente a elas, mas em baixo, vemos três mulheres de véu e cinco raparigas que dançam de mãos dadas. Do lado esquerdo, Moisés e Aarão com um grupo de israelitas com as mãos elevadas, louvando o Eterno.


     Três mil anos depois, a travessia do Mar Vermelho continua a ser motivo de agradecimento e exultação para os judeus do mundo inteiro. Para Miriam, que ainda criança havia profetizado que sua mãe teria um filho que libertaria os hebreus do cativeiro do Egipto, que se empenhou na salvação e bem-estar do irmão, o momento não podia ser de maior alegria e reconhecimento ao Eterno. É este sentimento que a profetisa, que contribuiu de forma tão significativa para a sobrevivência do povo de Israel, expressa quando entoa o Hino de Louvor: «Cantemos ao Senhor, pois triunfou gloriosamente. Cavalo e seu cavaleiro lançou ao mar.» (Êx. 15:21). 


O Hino de Louvor de Miriam, Wilhelm Hensel, 1836



   O pintor alemão Wilhelm Hensel (1794-1861) retratou de forma admirável o episódio de Êxodo, 15: 20-21. O modelo da figura de Miriam foi a sua mulher, a compositora Fanny Mendelssohn, irmã do célebre compositor Felix Mendelssohn. Miriam também é glorificada na canção “Miriam’s Song” de Debbie Friedman. É com esta canção que terminamos esta singela homenagem a Miriam, a profetisa. 




And the women dancing with their timbrels,/Followed Miriam as she sang her song,/Sing a song to the One whom we’ve exalted,/Miriam and the women danced and danced the whole night long.


Este artigo foi mais uma relíquia elaborada por
Sónia Craveiro,
Muito obrigada
Um grande beijinho




Fontes: 

http://www.morasha.com.br/conteudo/ed32/miriam.htm

A Lei de Moisés – Torá, Êxodo, editora &livraria Sêfer; 

http://www.goblenart.com/unique/miriams-song-of-praise/

http://kaufmann.mtak.hu/en/ms422/ms422-003v.htm

http://www.youtube.com/watch?v=QZdSEsZ8bMo

Última pintura de: Vie Dunn-Harr

O dia de hoje na história judaica - 2 Elul 5773



O Shulchan Aruch é publicado (1555)


A primeira edição do Shulchan Aruch (Código da Lei Judaica), escrito por Rabi Joseph Caro (1488-1575) foi completado na Terra Santa nesta data, em 1555.


O rabino Yosef ben Ephraim Caro é considerado o maior codificador da Lei Judaica, a Halakhá. Nasceu em Portugal em 1488, e ainda criança, na sequência do decreto de Expulsão de 1497 de D. Manuel I, emigrou com a sua família para a Turquia. Já adulto, fixou-se em Safed, onde viria a falecer em 1575.

Sinagoga de Yosef Caro em Safed

Fontes: