E é exatamente disso que trata Chanucá. Há cerca de
2.100 anos o sevivon coletivo de nossa nação sofreu uma parada brusca, e as
letras divinas que animam e dirigem toda a criação ficaram à mostra. Durante
oito dias, o brilho da Menorá do Templo iluminou uma realidade que os gregos
tinham tentado obscurecer: há uma mão que controla todo evento e
ocorrência.
Chanucá contém uma mensagem universal para todos os
povos de todas as fés - uma mensagem de liberdade, da vitória do bem sobre o
mal, da luz sobre as trevas.
Sou pura, e mantenho minha pureza onde quer que eu vá.
Os raios que penetram uma masmorra imunda são tão puros quanto aqueles que
inundam um palácio de mármore branco.
Os Macabeus lutaram por aqueles ideais e valores que
tornaram o judaísmo "único" – amor e louvor a D’us, santidade e humildade, amor
ao próximo, busca da justiça.
QuebrarRecordes Por Rabino David
AzulayEm resumo, superar os limites da alma não é tarefa
simples, mas é nosso desafio diário. Aliás, foi esta a grande vitória alcançada
pelos macabeus contra os helênicos, que cultuavam o corpo, na história de
Chanucá.
Chanucá nos lembra que o maior perigo na vida judaica
não é a ameaça de sua supressão ou de sua extinção completa, mas antes, a
tendência de profaná-la alimentando sua Menorá com óleo impuro.
Em 21 de Kislev do ano 3448 da Criação (313 AEC)
ocorreu o encontro histórico entre Shimon HaTsadic e Alexandre o Grande da
macedônia.
Os samaritanos, inimigos dos judeus, tinham convencido
Alexandre que a recusa dos judeus em colocar sua imagem no Templo era um sinal
de rebelião contra sua soberania, e que o Templo Sagrado devia ser destruído. O
Cohen Gadol (Sumo Sacerdote) da época era Shimon HaTsadic, o último dos “Homens
da Grande Assembleia” que reconstruiu o Templo Sagrado e revitalizou o Judaísmo
sob Ezra.
Em 21 de Kislev Alexandre marchou para Jerusalém como
chefe do seu exército; Shimon, vestido com as roupas de Sumo Sacerdote e
acompanhado por uma delegação de dignitários judeus, foi cumprimentá-lo. Os
dois grupos caminharam um na direção do outro durante toda a noite;
encontraram-se ao romper do dia.
Quando Alexandre contemplou a visão do Sumo-sacerdote,
desmontou do cavalo e inclinou-se respeitosamente; explicou aos seus homens que
com frequência tinha visões de um homem semelhante liderando-o em batalhas.
Shimon HaTsadic levou o imperador ao Templo Sagrado e explicou que o Judaísmo
proíbe que se exponha qualquer imagem’ ele ofereceu-se para dar o nome de
Alexandre a todos os filhos meninos que nascessem aos sacerdotes naquele ano
como demonstração de lealdade ao imperador (por isso Alexandre tornou-se um
nome comum entre os judeus). A trama da samaritana foi desmantelada, e 21 de
Kislev declarado um feriado. (Talmud Yoma 69 a) Segundo uma versão alternativa,
este episódio ocorreu em 25 de Tevet.
ENTRE
A QUEDA DO IMPÉRIO E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
A
Baía de Salónica
Como já vimos, o império otomano
começou a corroer-se por dentro ao longo do século XVIII. Em finais do século
XIX começou a desmoronar-se. Salónica, conhecida por “A Jerusalém dos Balcãs”, parece
alheia a tudo isto. Edgar Morin no seu livro “Vidal e os seus” (que trata da
biografia de seu pai, um sefardita de Salónica), diz-nos que em 1852 chega ao porto
o primeiro navio a vapor; de 1877 a 1888 uma rede de caminho-de-ferro uniu
Salónica a Skopje, primeiro, depois à rede sérvia e ao Ocidente. O Expresso do Oriente passou a ligar
Londres, Paris, Viena, Belgrado, Salónica e Istambul. Em 1890 começa a
instalação de gás de cidade; em 1893, a das linhas de tramways e em 1896, a da distribuição de água potável.
Judeus
sefarditas, Salónica, 1917
Com a melhoria das condições de
vida, Salónica passa de 50000 habitantes em 1865, para 170000 em 1912. As
proporções são de 56% de sefarditas, com 12 escolas e 32 sinagogas, 20% de
turcos, 20% de gregos, 4% de búlgaros e outros.
Salónica é como uma pequena pátria para os
sefarditas. Toda a cidade vive ao ritmo da sua maioria sefardita que impõe o
feriado ao sábado.
1912,
a Grécia vence os Turcos em Salónica
Mas a Revolução dos Jovens
Turcos, a desintegração do Império Otomano e finalmente a conquista da cidade pela
Grécia, vão desagregar a pequena cidade-pátria salonicense. Em 1931, depois dos
motins antissemitas, muitos judeus emigram para a Palestina, França e Estados
Unidos da América.
Jovem
judeu detido pelas forças nazis, Salónica, 1942
(Deutsches
Bundesarchiv)
O último golpe, e o mais duro,
acontece em plena Segunda Guerra Mundial. Em 1941 a Alemanha nazi ocupa a
Grécia e posteriormente começa a deportar os judeus para campos de extermínio.
Serão assassinados cerca de 60000, sendo a maioria de Salónica. Dos 42830
judeus de Salónica, quase todos deportados para Auschwitz-Birkenau,
sobreviveram 1950. A Grécia construiu um pequeno memorial público aos judeus
gregos, 54 anos após a guerra e depois de dez anos de negociações.
Família
Touriel, 1924, Ilha de Rodes
Desde 1923 e de acordo com o
Tratado de Lausanne (que veio ratificar o de Sèvres), que a Ilha de Rodes se encontrava
sob administração italiana. Em 1936, o governador fascista Mario de Vecchi
implementou um conjunto de leis antijudaicas, chegando ao ponto de usar cem
lápides de túmulos do cemitério judaico para a construção da sua nova
residência. Em 1939, umas centenas de judeus conseguiram embarcar num navio que
fazia o transporte ilegal de judeus para a Palestina. Em 1942, o novo
governador da ilha, almirante Campione, tentou proteger os judeus, revogando
várias medidas antissemitas. No entanto, e apesar da queda de Mussolini em
1943, os alemães nazis ocuparam a ilha em 1944, iniciando a deportação da
comunidade judaica.
Tanques
nazis na Ilha de Rodes, 1944
Dois dias depois de os alemães
ocuparem a ilha, o cônsul geral da Turquia, Selahhatin Ülkϋmen, intercedeu
corajosamente pelos judeus turcos, conseguindo salvar 42. Os restantes 1676
foram deportados para Auschwitz. Sobreviveram 151.
Muito haveria ainda a dizer sobre o
trágico destino das comunidades judaicas da antiga Jugoslávia, Bulgária, ou
Roménia. Lembremos que em 1940 viviam nos países balcânicos cerca de 253 mil
judeus. Destes, 228 mil, ou seja, 90% pereceram na Shoá.
“Que
a tua lembrança seja amor -
A
História de Ovadia Baruch”
O filme “Que a tua lembrança
seja amor – A História de Ovadia Baruch” (um judeu sefardita de Salónica, que
sobreviveu a Auschwitz) faz parte do projeto “Testemunhos e Educação”, uma
produção conjunta do Instituto para o Estudo do Holocausto no Yad Vashem e o
Centro de Multimédia da Universidade Hebraica de Jerusalém. Propomos a
visualização de dois pequenos excertos deste filme:
Ovadia Baruch - No Museu Judaico e na Sinagoga em Salónica
Ovadia Baruch - Chegada a Auschwitz
“Vamos a
murir avlando nuestra lingua”
Placa em ladino,
Auschwitz-Birkenau
Em Março de 2003, no aniversário dos 60
anos da chegada dos primeiros deportados de Salónica, foi colocada uma placa em
ladino, que reza assim:
KE ESTE LUGAR, ANDE LOS
NAZIS EKSTERMINARON UN MILYON/ I MEDYO DE OMBRES, DE MUJERES I DE KRIATURAS/ LA
MAS PARTE DJUDYOS/ DE VARYOS PAYIZES DE LA EVROPA/ SEA PARA SEMPRE, PARA LA
UMANIDAD/ UN GRITO DE DEZESPERO I UNAS SINYALES.
AUSCHWITZ-BIRKENAU
1940-1945.
Os
sefarditas organizaram várias sublevações em Auschwitz. Salvador Santa Puche,
investigador do percurso dos sefarditas no Holocausto, recolheu o seguinte
testemunho de uma sobrevivente daquele campo: «Si mos van a matar a todos (…) vamos a murir avlando nuestra lingua. Es
la sola koza ke nos keda i no mos lo van a tomar!» De facto, os sefarditas
usaram a sua língua ancestral, o ladino ou judeo-espanhol, como arma de
resistência. “Arvores yoran por luvyas” é uma cantiga sefardita medieval,
transformada em hino contra os verdugos alemães. Na imagem em baixo, vemos a
cantora Flory Jagoda, cantando “Arvores yoran por luvyas”, na cerimónia da
dedicação da placa em judeo-espanhol, que teve lugar em Auschwitz em Março de
2003.
Flory Jagoda em
Auschwitz cantando “Arvores yoran por luvyas”
Lembrar a tragédia de milhões de seres
humanos vítimas de perseguições, é uma obrigação. Mas viver cada dia das nossas
vidas com a convicção de que “a terra prometida está dentro de nós”, é com
certeza uma maneira de honrar a memória daqueles que pereceram vítimas do
preconceito antissemita. Flory Jagoda é disso um exemplo.
Flory Jagoda é uma compositora e
intérprete norte-americana, que tem pautado a sua vida e carreira musical em
defesa da música sefardita e da língua da sua infância – o judeo-espanhol ou
ladino. Nasceu em Sarajevo, na Bósnia e Herzegovina, no ano de 1925. Cresceu na
pequena cidade de Vlacenice, rodeada dos avós, tios, tias, primos e primas – a
família Altaras -, uma família sefardita de tradição musical. Durante a Segunda
Guerra Mundial esteve internada num campo da ilha de Korčula, na Dalmácia. De
lá conseguiu fugir com os pais para Itália, onde conheceu Harry Jagoda, então
militar dos EUA, com quem veio a casar. Após a guerra, regressou à sua cidade
natal para saber da família. As poucas provas encontradas indicam que a família
Altaras, 42 pessoas, foi sumariamente fuzilada na quinta onde vivia.
Flory Jagoda encontrou na música um
caminho para homenagear a família que perdeu, cantando as cantigas que aprendeu
com a sua avó – Nona Luna -, e compondo outras ao estilo sefardita.
Em 2002 recebeu dois prestigiados prémios
– National Heritage Fellowship e National Endowment for the Arts -, pela
sua dedicação à música sefardita e à defesa do ladino ou judeo-espanhol.
Chanucá está a aproximar-se e bem a
propósito, propomos uma cantiga alusiva a esta festividade, da autoria de Flory
Jagoda: “Ocho Kandelikas”.
Los
Desterrados cover Flory Jagoda’s lovely Chanuhah song in their own inimitable fashion
1 - Chanukah linda
esta aki, ocho kandelas para mi,
Chanukah linda esta aki,
ocho kandelas para mi.
Refrão - Una
kandelika, dos kandelikas, tres kandelikas,
kuatro kandelikas, sinko
kandelikas,
seis kandelikas, siete
kandelikas,
ocho kandelas para mi.
2
- Muchas fiestas vo fazer, com alegrias i
plazer
Muchas fiestas vo fazer, com
alegrias i plazer
3
- Los pastelikos vo comer, com
almendrikas i la miel
Los pastelikos vo comer, com
almendrikas i la miel
Nota:link para um artigo
da revista eSefarad sobre Flory
Jagoda
Documentário
revela os fantasmas que rondam descendentes dos nazis.
RODRIGO SALEM
DE SÃO PAULO
A ideia da brasileira Claudia Ehrlich Sobral era simples.
Tirar dois dias de descanso do seu trabalho como pesquisadora numa produtora de
documentários em Roma para assistir a um jogo do Brasil na Copa da Alemanha, em
Junho de 2006.
Mas, assim que chegou a Berlim, os seus planos mudaram
radicalmente.
"Eu senti-me muito mal. Fiquei surpresa com meus
sentimentos. Olhava para as pessoas e pensava o que os pais e os avôs delas
tinham feito durante a Segunda Guerra. Mudei a passagem e voltei logo depois do
jogo", lembra Sobral, judia descendente de segunda geração de
sobreviventes do Holocausto.
"Precisei lidar com os meus próprios fantasmas",
diz.
O oficial nazi
Arthur Wollschlaeger, condecorado pelo próprio Hitler, escondia o passado do
filho Bernd.
A maneira que ela encontrou para exorcizar essas
"assombrações" foi escrever e dirigir um filme sobre descendentes de
oficiais nazistas e a maneira como eles lidam com essa herança.
O resultado é "Os Fantasmas do Terceiro Reich", um
documentário média-metragem feito para a TV que é um dos destaques do 16º
Festival de Cinema Judaico de São Paulo, que tem início amanhã e acontece até
domingo (12/8).
O filme mostra um ponto de vista incomum sobre o legado da
Segunda Guerra.
Há, sim, uma obrigatória aula sobre o cenário de guerra
entre 1939 e 1945, mas o foco aqui repousa em três poderosos personagens: o
filho de um oficial nazi que foi viver para Israel e converteu-se ao judaísmo,
a sobrinha-neta de um dos oficiais da elite de Hitler e a neta do criador de
uma técnica de tortura praticada nos campos de concentração.
"Eu queria três pessoas com experiências diferentes.
Após 70 anos, é impressionante como o legado nazi ainda está presente na vida
das pessoas. Fiquei surpresa", conta a cineasta, que dirige seu primeiro
filme em parceria com o italiano Tommaso Valente.
Bernd
Wollschlaeger, filho de Arthur Wollschlaeger.
Essa herança maldita atingiu o trio em diferentes
proporções. Bernd Wollschlaeger, filho de um oficial condecorado por suas
incursões no comando de um tanque de guerra, descobriu que o pai fez parte do
exército nazi e revoltou-se. Foi morar em Israel, converteu-se ao judaísmo e
escreveu o livro "A Vida de um Alemão", publicado no Brasil pela editora
Imago.
Bettina
Göring, é sobrinha-neta de Hermann Göring.
Bettina Göring é a sobrinha-neta de Hermann Göring,
arquiteto da Gestapo e da "solução final aos judeus" e sucessor de
Hitler.
Um dos momentos mais impressionantes do filme mostra uma
entrevista de Hermann Göring, que suicidou-se às vésperas de sua execução, em
1946, dizendo:
"Hereditariedade é mais importante que o ambiente. Crianças
podem lembrar mais seus avós que os próprios pais".
Ela e o irmão, não retratado no documentário fizeram
operações para não terem filhos. "Eles cortaram a linha de sangue",
ressalta Claudia.
Wilhlem Boger
A terceira personagem, Ursula Böger, é a mais abalada. Ela
sempre soube que seu avô esteve em Auschwitz, mas descobriu adulta que ele foi responsável
por uma versão mais cruel do "pau de arara", chamada de "Tortura
Boger".
"Ursula foi a mais difícil de entrevistar. A família
dela era contra, não conversa sobre o assunto e foi a única que não cedeu
fotos. Fiz várias viagens para convencê-la a falar", conta Sobral, que
entrevista ainda Samson Munn, um parente de vítimas do Holocausto que organiza
encontros anuais com o "outro lado".
"Queria mostrar que esse conflito não é nosso. Nós não
somos vítimas e eles não são vilões", diz a cineasta, que, depois do
filme, conseguiu voltar a Berlim com outro sentimento: "Foi
tranquilo".
“Não me apetece”, “está frio”, “está a chover”, “dói-me
aqui e ali”, “fizeram-me isto e aquilo”.
Por:
“Estou vivo”, “obrigado por mais um dia”, “vou ter tempo
para realizar mais um sonho”, “hoje vou aprender”, “vou poder estar com quem
gosto”, “vou poder abraçar e beijar”, “ouvir música e ler”, “ver um filme ou
viajar”.