terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Garcia de Orta



Garcia de Orta (c1500-1568)







Garcia Abraão de Orta nasceu por volta de 1500 em Castelo de Vide. Era filho de Fernando Isaac de Orta e de Leonor Gomes, judeus de ascendência castelhana que vieram fugidos para Portugal, aquando da expulsão de mouros e judeus de Espanha, em 1492, pelos Reis Católicos. Estudou nas Universidades de Salamanca e Alcalá de Henares, diplomando-se em Artes, Filosofia Natural e Medicina.

Em 1523 regressou a Portugal, recebendo autorização para exercer medicina e em 1530 assumiu a cadeira de Lógica na Universidade de Coimbra.

A partir de 1531 ensinou Filosofia Natural na Universidade de Lisboa, acumulando o professorado com o exercício da medicina e em 1534 embarcou para Goa, na armada capitaneada por Martim Afonso de Sousa.


Já em Goa, continuou a exercer medicina e foi aí físico-mor, sendo muito requisitado por algumas cortes hindus para prestar assistência a Reis e grandes senhores. Interessou-se por estudar a medicina indiana e árabe, com destaque para o uso das plantas medicinais e seus fins terapêuticos. Trabalhou igualmente no comércio das drogas orientais e pedras preciosas.


Em 1563 publicou a obra «Colóquio dos Simples e Coisas medicinais da Índia», com informações fundamentais para a medicina, botânica, química, farmacologia e biologia. «Colóquio dos Simples e Coisas medicinais da Índia» é o primeiro registo científico de plantas do Oriente feito por um europeu, escrito em português e não em latim, como era costume na época, chegando assim a um público não erudito.

Em 1543, Orta participou da primeira autópsia realizada em Goa, por ocasião de uma epidemia de cólera, tendo aliás feito a primeira descrição (europeia) da cólera-asiática.


A edição original indo-portuguesa teve uma circulação muito limitada e praticamente desapareceu graças à intervenção do Santo Ofício. Em 1564, o botânico flamengo Charles de L'Escluse ou Carolus Clusius, de visita a Portugal, adquiriu o livro, traduziu-o para latim e publicou-o em 1567 numa versão que foi amplamente divulgada por toda a Europa. Em Portugal, a obra de Orta foi reeditada em português no séc. XIX pelo Conde de Ficalho.


Os últimos anos de vida de Garcia de Orta foram difíceis. Enfrentou dificuldades financeiras e assistiu à perseguição feroz da sua família por parte da Inquisição. A sua irmã Catarina foi acusada de judaísmo e condenada à fogueira. Garcia de Orta faleceu em 1568. Em 1580 foi condenado post-mortem pelo Tribunal do Santo Ofício pelo “crime de judaísmo” e os seus ossos desenterrados e queimados.


Este trabalho foi oferecido para este Blogue por,

Sónia Craveiro.


Muito obrigada
Fonte:
Garcia de Orta, Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Publicações Alfa; http://dererummundi.blogspot.com/2007/05/garcia-da-orta.html

E foi assim que aconteceu...




segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Emuná





Pintura de Myriam Yugoslavia


Quando se ama não é preciso entender o que acontece lá fora, porque tudo passa a acontecer dentro de nós.



Yehuda Amichai




Yehuda Amichai (1924-2000), poeta israelita.

                                                                                                  
                         

Um Homem e a Sua Vida.
 
 
Um homem não tem tempo na sua vida
para ter tempo para tudo.
Não tem momentos que cheguem para ter
momentos para todos os propósitos. Eclesiastes
está enganado acerca disto.
Um homem precisa de amar e odiar no mesmo instante,
de rir e chorar com os mesmos olhos,
com as mesmas mãos atirar e juntar pedras,
de fazer amor durante a guerra e guerra durante o amor.
E de odiar e perdoar e lembrar e esquecer,
de planear e confundir, de comer e digerir
que história
leva anos e anos a fazer.
Um homem não tem tempo.
Quando perde procura, quando encontra
esquece, quando esquece ama, quando ama
começa a esquecer.
E a sua alma é erudita, a sua alma
é profissional.
Só o seu corpo permanece sempre
um amador. Tenta e falha,
fica confuso, não aprende nada,
embriagado e cego nos seus prazeres
e nas suas mágoas.
Morrerá como um figo morre no Outono,
Enrugado e cheio de si e doce,
as folhas secando no chão,
os ramos nus apontando para o lugar
onde há tempo para tudo.



Fonte:
 
 
(Tradução de Shlomit Keren Stein e Nuno Guerreiro)

Salomão Nunes Carvalho (1815-1897)




Salomão Nunes de Carvalho



Os Nunes Carvalho -  daguerreotipias sefarditas



A 22 de Agosto de 1853, o americano Salomão Nunes Carvalho (1815-1897), judeu sefardita de origem portuguesa, pintor e fotógrafo, com atelier inaugurado a 1 de Junho de 1849 em Baltimore, encontrou-se com o coronel John Charles Frémont (1813-1890), astrónomo, geógrafo e expedicionário de prestígio, que fora incumbido de organizar uma expedição que fizesse o levantamento orográfico para a execução do futuro traçado da primeira linha de caminho-de-ferro transcontinental que atravessaria o Kansas, as montanhas rochosas do Colorado, Utah até Los Angeles, entre o rio Mississípi e a Costa do Pacífico. Frémont procurava um desenhador e fotógrafo para acompanhá-lo na expedição. Salomão Nunes Carvalho aceitou de imediato o convite e assim juntou-se à expedição como desenhador e fotógrafo oficial. Teve apenas dez dias para preparar todo o material fotográfico necessário para esta viagem arrojada, que lhe apresentava problemas acrescidos pela necessidade de cumprir com as orações da religião que professava e com regras muito especificas quanto aos alimentos kosher, e ainda, as adversidades climatéricas de um Inverno impiedoso, que se imporia no cume das montanhas com temperaturas que chegariam a rondar os 30 graus negativos e que previa fizessem alterar todo o processo comum das aplicações correntes para a preparação, revelação e posterior conservação de todas as chapas de daguerreótipos.

As suspeitas de S. N. Carvalho quanto à morosidade do processo fotográfico naquelas circunstâncias climatéricas viriam a concretizar-se. O fotógrafo fez-se valer dos seus conhecimentos em química e estudos sobre a incidência da luz, dedicando-se diariamente à preparação de todo o material fotográfico e obrigando à paragem da expedição por um período de 12 horas em cada local, onde eram efetuadas as tomadas de vista, para que efetivamente se tivesse a certeza que as imagens haviam sido bem captadas e resistiriam às vicissitudes das intempéries. Isto contribuiu para uma sucessão de atrasos na expedição, o que veio a revelar-se desastroso pois para além de ter trazido um maior desgaste físico ao grupo fez com que este chegasse às Montanhas Rochosas do Colorado numa altura em que o clima era mais severo.

A Expedição viria a revelar-se um desastre. Salomão Nunes Carvalho, depois de ter suportado o frio e a neve, a fome e a doença, enfrentado índios e animais selvagens, ter quebrado as regras rígidas da alimentação da religião judia (Kashrut), numa aventura em que nem todos chegaram ao fim e que para muitos o preço foi a morte; em Utha, o fotógrafo sefardita viu-se obrigado a abandonar a expedição por motivos de saúde.

Salomão Nunes Carvalho regressa desta aventura com 300 daguerreótipos tornando-se o primeiro daguerreotipia a fotografar o Kansas. Segundo Robert Faft “...As mais antigas fotografias feitas no Kansas que eu tenha conhecimento e que sejam mencionadas são atribuídas a Salomão Nunes Carvalho – durante a expedição Frémont em 1853/54” in A Photographic Históry of Early Kansas. Antes da expedição ao Far Weste, Salomão Nunes de Carvalho trabalhou na Broadway em New York City para Mathew Brady (1823-1896) e também para o atelier fotográfico de Jeremiah Gurney (1812-1886), provavelmente, na mesma altura em que aí se encontrava o fotógrafo português Joaquim José Pacheco (Joaquim Insley Pacheco), ver Registo Daguerreian de Craig (Pesquisa sobre os fotógrafos americanos entre 1839-1860), John S. Craig atualização de 2003. Acrescento agora, ao que aqui tenho vindo a escrever, o comentário de Carlos Miguel Fernandes do blog No Mundo http://no-mundo.weblog.com.pt/, e ao qual aproveito para agradecer:

 "There was another young newcomer to Broadway's photography row within the next few months. Brady undoubtedly saw him, S.N. Carvalho, a brisk young man with a short black beard, probably the first American to penetrate America's Wild West with a camera. “
In Mathew Brady - Historian with a Camera, Bonanza Books, New York, 1955.




Em 1856, Salomão Nunes Carvalho descreve as suas experiências durante a expedição, num livro intitulado “Incidents of Travel and Adventure in the Far West”, publicado por Derby e Jackson, Nova Iorque 1859. 

http://www.jewish-history.com/WildWest/Carvalho/index.html. 


Nestes testemunhos, é mencionado que as primeiras vistas foram captadas perto de Westport a 17 ou 18 de Setembro de 1853.



Desta expedição que ficou para a história norte americana como um feito para a época, onde Salomão Nunes Carvalho viu reconhecida a sua habilidade e mestria profissional e John Charles Frémont alicerçou condições para se lançar na corrida ao Senado, não foi feito relatório escrito e a memória da expedição registada por S. N. Carvalho, assim como as cópias feitas pelo conhecido fotógrafo norte-americano Mathew B. Brady, perdeu-se para sempre aquando de um incêndio em Nova Iorque em 1881, num armazém onde estavam guardados os daguerreótipos desta epopeia e grande parte das cópias de Brady. Ao que se sabe, de 300 daguerreótipos restaram apenas 3 que estão conservados e preservados pela Biblioteca do Congresso, em Washington. Conhece-se ainda 34 gravuras que haviam sido abertas a partir dos daguerreótipos feitos durante a expedição.



Fonte:

Blogue Grand Monde

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Dr. Aristides Sousa Mendes

 
 
O relato do Rabino Kruger
 
 
Na Polónia já estou acostumado ao anti-semitismo e não me espanta que, no outro lado, na Alemanha, Hitler tome o poder. Pelas ruas de Berlim judeus são perseguidos, espancados e mortos - é que nos escrevem, é que nos dizem, é o que lemos, oi gewalt. O meu nome é Chaim Kruger e sou rabino numa klein statle, num pequeno povoado. “A guerra é inevitável”, prevejo, “e em breve os nazis estarão aqui”. Não é fácil mas, com economias feitas penosamente, com a minha mulher e as nossas seis crianças, em 1938 conseguimos escapar de Varsóvia para Bruxelas.
 
Em 1939 os alemães invadem a Polónia e, logo a seguir, os Países Baixos. Com a minha família, outra vez estamos em fuga. Chegamos a Paris mas logo abalamos para sudoeste porque os alemães já estão a invadir a França. Milhares, dezenas de milhares de refugiados, judeus e outras minorias, pejam os caminhos; são antinazis franceses e belgas e holandeses e checos e alemães, também algumas famílias ciganas. Uma, ou duas vezes por dia, caças alemães mergulham em voo picado sobre as estradas e metralham os caminhantes. Há dezenas de mortos nas bermas, todos eles ensanguentados. Ainda ouço os gritos, choros, lamentações, oi wais mir. Quis Deus que eu, e os meus, tenhamos escapado sempre ilesos, graças a Deus, dank main Got.
Para fugir à hecatombe, agora a nossa esperança é chegar à fronteira, atravessar a Espanha, entrar em Portugal e dali embarcar para América, onde parentes nossos esperam por nós.
 
Chegamos a Bordéus em Maio de 1940 e a cidade está repleta de fugitivos. Procuro o Consulado espanhol para obter o visto no passaporte da minha família mas um funcionário diz-me que sem antes obter o visto português não conseguirei o espanhol. Saio meio atordoado com a informação, não entendo o que se passa. Cá fora um francês, também ele refugiado e, ao que suponho, comunista, explica-me:
 
- Rabi, Franco foi ajudado pelos nazis durante a guerra civil espanhola. É por isso que não quer no seu território fugitivos do nazismo. Só os deixa passar se forem rumo a Portugal. Salazar, o primeiro ministro português, está entalado. Portugal tem uma aliança antiquíssima com a Inglaterra e um pacto recente com a Espanha. Se hoje pender para os Aliados, será invadido pelos alemães através de Espanha. Se pender para os alemães, a Inglaterra desembarcará tropas em Portugal. É claro que a simpatia do fascista Salazar vai para Hitler. Mas tem que fingir uma estrita neutralidade para evitar a intervenção quer do Eixo, quer dos Aliados. Por isso estou em crer que Salazar lava as mãos e vai impedir a entrada de refugiados em Portugal. Aliás o Dr. Mendes já me disse que tem enviado centenas de telegramas para Lisboa, pedindo autorização para dar vistos e até agora não obteve qualquer resposta.
 
- Quem é o Dr. Mendes?
 
 
- É o Cônsul de Portugal em Bordéus, Dr. Aristides de Sousa Mendes.
 
Mendes, Mendes... O nome bate-me nos ouvidos, reconheço-o, é marrano, é judeu. Tenho que falar com o Dr. Mendes.
Dirijo-me ao Consulado de Portugal. O jardim e as ruas vizinhas estão repletas de refugiados, todos a aguardar vistos para seguirem viagem, são milhares em desespero. Identifico-me, peço para falar com o Dr. Mendes. Três horas depois sou recebido. É um cavalheiro muito distinto, porém com feições angustiadas. Deve estar a viver uma grande tragédia, bem posso imaginar qual seja ela. Apresento-lhe a minha mulher e os meus filhos, conto-lhe do nosso êxodo de Varsóvia até Bordéus. Entende o meu sofrimento porque também ele tem muitos filhos, acho que doze. Convida-nos a pousar em sua casa para darmos algum descanso às crianças. Aceito, agradeço e pergunto-lhe se também ele é judeu. Sorrindo, esclarece:
 
- Rabi, não se iluda com o meu apelido Mendes. Até onde eu posso rastear, a minha família, há pelo menos cinco gerações, é de católicos fervorosos. Se, por acaso, tivemos um ancestral judeu, não é nada que nos desmereça, mas disso não temos conhecimento.
 
Errei o alvo, main mazle, má sorte a minha,... Não sei como continuar a conversa. Engasgo-me. Depois ouso perguntar-lhe quando podemos contar com os vistos para seguir viagem para Portugal. Acabrunhado, diz-me que nada pode garantir, ainda não tem a necessária autorização do seu Governo.
 
- Então, Dr. Mendes, vamos ficar aqui em Bordéus à espera da matança?
 
Levanta-se. Amargurado, segura-me o braço.
- Rabi, tenha fé, nem tudo está perdido, confie na Divina Providência.
Conduz-nos a sua casa, que fica no Quai Louis XVIII, por trás do Consulado. Apresenta-nos à sua esposa, D. Angelina, e a três dos seus filhos mais velhos. Indica os aposentos que nos destina. Deseja-nos um bom descanso. Apesar de gentio, apesar de goi, este Dr. Mendes is a Mensche, é realmente um Homem.



É um espanto, este Dr. Mendes. Na manhã do dia 17 de Junho de 1940 avisa-me:


- Rabi, sossegue, vou passar vistos a toda gente.

Nos dias 17, 18 e 19, ele e dois dos seus filhos mais velhos trabalham sem parar, nem sequer para almoçar ou jantar, exaustão. Passam milhares e milhares de vistos, os refugiados já organizados em filas. Os passaportes são colectivos, familiares. No meu constam oito nomes, o meu, o da minha mulher e os dos meus filhos. Assim acontecendo com quase todos, calculo que o Dr. Mendes, nesses três dias, tenha passado uns 30 mil vistos, dos quais 10 mil a judeus, pelo menos.

Não se dá por contente. Obedecendo às instruções que recebera de Lisboa, o Cônsul de Portugal em Bayonne recusa-se a passar vistos aos refugiados de guerra. Porém o Dr. Mendes é seu superior. Desloca-se a Bayonne, que fica junto da fronteira franco-espanhola, e é ele-mesmo quem, mais uma vez, passa milhares de vistos.
 

O mesmo acontece com o Consulado de Portugal em Hendaye. Também aí o Dr. Mendes passa milhares de vistos.
 

No dia 24 de Junho o Dr. Mendes mostra-me e traduz-me um telegrama que acabara de receber. É chamado imediatamente a Lisboa e acusado por Salazar, o Primeiro Ministro português, de “concessão abusiva de vistos em passaportes de estrangeiros". Depois de 32 anos de serviço, o Dr. Mendes vai ser demitido sem receber qualquer reforma ou indemnização, e 12 filhos tem ele para criar. Já teve 14, mas morreram 2, o segundo e o último, se não estou em erro. Cuidar de 12 filhos é obra! Eu que o diga, que só tenho 6 e bem sei como custa criá-los. Compadeço-me, voz embargada, ihre mazle, má sorte a sua. Mas é ele quem atalha, quem me anima:

- Rabi, se tantos judeus sofrem por causa de um demónio não-judeu, também um cristão pode sofrer com o sofrimento de tantos judeus.
 
 
 
A grosse Mensche, um grande Homem!

 


Ver mais em:


Bahr Yousseff





“O mar de José”



Bahr Youssef, que traduzido do árabe quer dizer literalmente “caminho de água de José”, é um canal que liga o rio Nilo ao lago Moeris, que fica no oásis el-Fayoum, a 80km a sudoeste do Cairo, no Egito.

 Nos tempos pré-históricos era um ramo natural do Nilo, que durante as cheias criava um lago. Nos inícios da 12ª dinastia, há cerca de 2300 anos antes da era comum, o “caminho de água” foi escavado, alargado e aprofundado; o oásis el-Fayoum foi desenvolvido e o lago ficou maior, servindo de reservatório de água para ser usada em períodos de seca.





Esta gigantesca obra de engenharia permitiu controlar os recursos de água do Egito e teve um impacto importantíssimo na economia do país. Foram igualmente criados sistemas de irrigação, através de uma rede de canais subsidiários que duplicaram a extensão de terra arável, o que naturalmente potenciou o desenvolvimento da agricultura no Egito.


Barh Youssef, paralelo ao Nilo, como um gémeo do grande rio, ainda existe, continuando a alimentar de água o lago Moeris, hoje mais pequeno e que dá pelo nome de Birket el-Qarun, ou Lago Karoum.
O egiptólogo Samuel Kurinsky, apoiado nas investigações do linguista e académico especializado em assuntos bíblicos Zaccariah Sitchin, defende que historiadores árabes, não só, atribuem o projeto ao patriarca José, como reportam as circunstâncias em que o mesmo foi realizado.
Os historiadores relatam que José, à época já com 100 anos de idade, mantinha uma posição ainda relevante na corte. Os outros vice-reis e demais oficiais da corte, invejando José, persuadiram o faraó de que José deveria demonstrar o seu valor, para continuar a beneficiar do estatuto de privilégio que mantinha. Quando o faraó concordou, os vice-reis propuseram um projeto impossível: converter o deserto numa área fértil.
“Inspirado por Deus”, José conseguiu em 1000 dias completar a obra, contrariando assim os seus detratores. As águas frescas que caem em cascata das montanhas da Etiópia e da Núbia, fluíram generosamente para o grande lago artificial – o lago Moeris. A tarefa de José tinha sido cumprida e o deserto floresceu.

Com os agradecimentos a Sónia Craveiro que me presenteou com este artigo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Herança judaica em Portugal



A nossa herança.


Biblia de Cervera, Armas de Castela e Leão


Muito já se escreveu sobre a herança de judeus na Península Ibérica. Depois de uma visita a 15 cidades portuguesas, incluindo as sinagogas e museus de Lisboa, Belmonte, Castelo de Vide e Tomar, pode-se concluir que a herança judaica foi muito forte e altamente representativa.

Expulsos da Espanha em 1496, os judeus encontraram abrigo no país vizinho, a que chegaram das mais diversas formas, incluindo caminhadas a pé e a utilização de carros de bois, sempre somente com a roupa do corpo. Diz a história que os primeiros judeus foram para Castelo de Vide ainda no período romano. A situação começou a se complicar a partir de 1497, quando o rei D. Manuel I determinou a conversão forçada que deu origem aos cristãos-novos e aos criptos judeus, estes com a característica de manter os postulados da sua crença de forma oculta. Muitos deles, por isso mesmo, vieram para o Brasil, em busca de liberdade religiosa.



Pintura de Alex Levin

É preciso entender que antes da Inquisição árabes e judeus viveram 400 anos em perfeita harmonia na Península Ibérica, onde floresceram lado a lado judiarias e mourarias que ainda hoje subsistem como locais históricos. Sendo ambos os povos originários do patriarca Abrahão, é difícil compreender as razões da posterior animosidade nessas relações.

O fato mais chocante da nossa viagem foi a revelação, nas sinagogas portuguesas, dos nomes dos cristãos-novos que foram queimados pela inquisição pelo simples fato de terem origem judaica. Um crime inominável que levou o presidente Mário Soares, em 17 de março de 1989, numa visita a Clive, a declarar enfaticamente: “Na paisagem alentejana e nesta tão bela terra, a judiaria ergue-se, desafiando os séculos como um símbolo que desejamos seja de tolerância, de fraternidade e de unidade essencial do gênero humano. Em nome de Portugal, peço perdão aos judeus pelas perseguições que sofreram em nossa terra”.

Um consolo é certo, para tanto sofrimento envolvendo nomes e sobrenomes que nos são extremamente familiares: Gonçalves Dias, Diogo Lopes, Ana Mendes, Jorge Nunes, Garcia da Orta, Leonor Rodrigues, Álvaro Pais, Cristóvão de Torres, Leonor Vaz, Filipa Mendes, entre outros. O caso de Garcia da Orta é emblemático: médico e pesquisador de plantas medicinais, amigo de Camões na Índia, morreu e foi enterrado como católico. A Inquisição desconfiou dele e mandou desenterrar o corpo, que foi exumado. Então se descobriu que era judeu: foi queimado depois de morto, em 1580, numa prova da barbárie desses tempos. O mesmo ocorreu com a sua irmã Catarina.

Assinala-se a presença judaica em Vide no extenso período de 1300 a 1600. Muitos deles eram cardadores que vendiam seus produtos nas feiras da Espanha (Cáceres, Safra, Córdova, Sevilha, etc.). Antes, em Belmonte, tínhamos tomado conhecimento da existência das famílias Vaz, Henriques, Rodrigues, Nunes, Morão, De Sousa, Mendes, Diogo, Cunha e Pereira. De notável, o sobrenome Gouveia, que era da mãe judia de Pedro Álvares Cabral, o que pode explicar a razão de ter ele selecionado para a viagem ao Brasil uma tripulação constituída basicamente de cristãos-novos.
Com a destruição do templo de Jerusalém, por parte dos romanos, no ano 70 a.e.C., os judeus dirigiram-se à península ibérica, no que a história denominou de Diáspora ou dispersão. De início na Espanha (Sefarad), onde foram bem acolhidos, deixaram fortes marcas culturais da sua passagem, de que talvez tenha sido o maior símbolo o médico e filósofo Maimônides, Rabi Moshe Ben Maimon, cuja codificação dos 613 mandamentos da Torá é até hoje lembrada.


Pintura de Jan Voerman

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Anedota



O Rabino e o Bispo



Um rabino e um bispo são convidados para um jantar. O rabino aceita com a condição de que a comida seja pura (“kosher”). Durante a refeição, o bispo olha de soslaio para os pratos do rabino, diferentes dos demais comensais e a certa altura não consegue deixar de perguntar com alguma indignação:

- Caro rabino, quando é que chegará o dia em que finalmente eu e o senhor poderemos comer da mesma comida?





E o rabino respondeu no mesmo tom:



- Se D'us quiser, senhor bispo, será no dia do seu casamento.



Curiosidades Sefarditas.



Família Lisbona




Abraham Lisbona e sua esposa em 1875 - cidade de Alexandria.


É fascinante verificar que até ao século XIX, existiam ainda em determinadas comunidades de judeus em Marrocos, Argélia e neste caso no Egipto, judeus com apelidos bem portugueses, muitos deles ligados às suas terras de origem.



Sinagoga de Alexandria - Egipto.

Ciência Judaica


Guematria


Escultura de Martina Lasry: Simbologia das las Letras 
Hebreas, século XX.


Ciência existente apenas no judaísmo e na língua hebraica, a "guematria" é a ciência judaica da codificação bíblica, é um método hermenêutico de análise das palavras bíblicas em hebraico, atribuindo-lhes um valor numérico definido a cada letra. Conhecida ainda pelo nome de "numerologia judaica" e está patente na Torá (Pentateuco) há mais de 3.300 anos.


Pelo valor numérico de cada letra, para os místicos cabalistas judeus, a Torá tem para além do seu sentido literal, um sentido místico escondido nos números de cada palavra, qual um código, fazendo diferentes conexões e extraindo da Palavra Divina uma revelação, ou um sentido mais aprofundado para os espiritualistas.





Fontes:


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

GRÁCIA NASI




A judia portuguesa do Século XVI que 
desafiou o seu próprio destino

Por Esther Mucznik



A história judaica tem mulheres extraordinárias. Da matriarca Sara à sionista Golda Meir, muitas mulheres judias fizeram história. Grácia Nasi foi uma delas. Com uma fé inquebrável e uma personalidade de ferro moldada pelas agruras da vida, esta mulher não teve medo de desafiar homens, papas, reis e o seu próprio destino.



 Nasceu em 1510 em Portugal no seio de uma família expulsa de Espanha. Contudo não seria em Lisboa que encontraria a tranquilidade desejada. Viúva aos 25 anos, herdeira de um império baseado no comércio da pimenta e das especiarias e de uma incalculável riqueza cobiçada por todos, revelou-se uma mulher de negócios excepcional, com o mesmo espírito pioneiro e empreendedor que caracterizava os sefarditas judeus/cristãos novos.





Grácia Nasi percorre o mapa da Europa, passando por cidades como Antuérpia e Veneza, até chegar ao Império Otomano, onde finalmente pode praticar a sua fé às claras, sem recear qualquer perseguição. Aí dedica-se a ajudar os seus correlegionários a escapar à Inquisição, apoia o estudo e o ensino religiosos, bem como a edição de traduções da Bíblia e estende a mão aos mais necessitados.



Esther Mucznik viveu em Israel e em Paris onde estudou, respectivamente, Língua e Cultura Hebraicas e Sociologia na Sorbonne. É membro da direcção da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) desde 1992 e sua vice-presidente desde 2000. Fundadora em 1994 da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos e desde então membro dos seus corpos dirigentes. É co-fundadora do Fórum Abraâmico de Portugal para o diálogo inter-religioso. Esther Mucznik é membro da Comissão de Liberdade Religiosa. É colunista desde 2002 do jornal Público e foi co-coordenadora do Dicionário do Judaísmo Português, publicado em 2009. Estudiosa das questões judaicas, tem coordenado cursos e seminários sobre história e cultura judaica, liberdade religiosa e diálogo inter-religioso,  sobre Israel e o Médio-Oriente, participado em inúmeros colóquios em Portugal e no estrangeiro,  publicado cerca de cinquenta trabalhos sobre estas temáticas.



Artigo enviado por Sónia Craveiro
Muito obrigada