quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Piratas Judeus





Apesar do estereótipo dos judeus como mercadores e intelectuais, muitos de eles levaram uma vida de intrépidos aventureiros. Depois de tudo, os judeus têm sido perseguidos por escuras razões em todas as sociedades durante milhares de anos. Consequentemente, alguns deles ter-se-iam tornado agressivos como resposta.

O grande atrativo do livro de Edward Kritzler, “Piratas judeus do Caribe”(2008) não é o tratamento dos piratas judeus, senão a saga da sua perseguição, especialmente em Espanha, e os seus contactos com o próprio Cristóvão Colombo.







Centrado nos séculos XVI, XVII e XVIII, o livro ilustra numerosas anedotas desconhecidas, provavelmente, tanto para os não-judeus como para os próprios judeus. A odisseia intelectual de Kritzler plasmado no livro começou muito tempo atrás: em 1967, trás trasladar-se de Nova Iorque a Jamaica.








Mentres estudava a história da ilha na biblioteca nacional, achou uma entrada num diário de piratas britânicos de 1642. William Jackson escrevia como achara a capital deserta agás por “uma série de portugueses de ascendência hebraica que se aproximaram a nós na procura de asilo, e que prometeram nos revelar o paradeiro onde os espanhóis escondiam os seus tesouros”.

Kritzler sabia que os primeiros exploradores do Novo Mundo procediam de Espanha e Portugal, mas dava por suposto que eram “devotos católicos portadores da Cruz”. Assim que se perguntou: “Que estavam a fazer os judeus portugueses numa ilha espanhola, solicitando asilo dum pirata britânico?”.


Continuando a sua investigação, Kritzler descobriu que antes que o Império Britânico conquistar Jamaica em 1655, a ilha tinha sido propriedade de descendentes de Cristóvão Colombo, e que esses descendentes “proporcionaram um refúgio aos judeus, que estavam proscritos também no Novo Mundo”. 

Alguns dos judeus jamaicanos que Kritzler estudou durante a sua investigação trataram de persuadi-lo de que o próprio Colon fora judeu. Isto teria permanecido oculto, determina Kritzler, devido a que os judeus que navegaram com Colon, e outros, tinham que esconder a sua identidade religiosa para poder fugir da persecução europeia durante a época da Inquisição.

Os que governavam longe de Europa – em América do Sul, do Norte e nas ilhas do Caribe- não queriam ter judeus arredores. Mas muitos de eles deixaram a um lado os seus prejuízos religiosos na medida em que os judeus resultavam muito úteis, estabelecendo linhas de comércio para além dos oceanos com produtos como o açúcar, café, tê, cereais, e metais como o oiro e a prata. Uma vez que estas rotas de comércio ficaram estabelecidas, porém, os governantes às vezes volviam-se contra os judeus. Como assinala Kritzler:

“Em México e Peru, onde os mercadores judeus controlavam o comércio de prata, a Santa Inquisição empreendeu o seu agir de purificação: os dirigentes judeus foram queimados, a sua riqueza confiscada, e os cristãos fizeram-se carregar do fabuloso próspero comércio da prata”.


Na procura desesperada de refúgio, os judeus de Holanda – a maioria em Amsterdão- acharam uma sociedade tolerante, dirigida por governantes que consideravam a Espanha e Portugal inimigos [nota: ver ao respeito, entre outras, a interessantíssima obra de Gabriel Albiac, “La Sinagoga vacía” e “A anomalia selvagem” de Toni Negri]. Os holandeses não desanimaram aos judeus de Amsterdam para que viajassem às Índias Ocidentais e se convertessem em bucaneiros que combatessem às nações que se converteram nos seus perseguidores. 


Situados neste contexto, Kritzler analisa várias sagas de judeus que se lançaram ao mar como piratas, ou que realizavam missões próprias de corsários desde terra. A narração às vezes é algo descabeçada, mas o material é tão rico que o livro só assim resulta.


Fonte:
De STEVE WEINBERG
"simonbarkochba.blogspot.com"

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Inveja segundo José Gil


O Medo de Existir
 
 


O ressentimento e o ódio alimentavam o queixume, num discurso recorrente até à exaustão: «este país é uma merda», «está entregue aos bichos», etc. E, de cada vez, o sujeito da enunciação excluía-se do conjunto nomeado, como se não lhe pertencesse. Era uma maneira (um gesto linguístico mágico) de se separar, de se diferenciar de todo aquele mal detestado em que se encontrava mergulhado. Por outro lado, nomeava-se assim o inominável: o mal, a doença metastásica que atacara o país.




É neste contexto de forque se deve situar a inveja.
 
 
Forças poderosas de ressentimento resultantes do esmagamento das forças de vida e da sua transformação em forças de morte. Com uma semi-reviravolta: não se voltaram inteiramente contra si mesmo, encolheram-se, comprimiram, adaptaram-se à escala da humilhação – e puseram-se a circular enclausuradas, sob as formas várias do ressentimento, da abjeção, da inveja.

Formou-se deste modo uma sociedade paradoxal, em que um dos aspetos importantes dos laços de sociabilidade consistia em recusar esse mesmo aspeto da relação política. Em guerra espiritual e verbal contra o país, os indivíduos juntavam-se como cidadãos para conspurcar o país. E assim mantinham a comunidade nacional cada vez mais coesa. Tubo de escape perverso que dava a volta para se conectar de novo com o motor, alimentando-o com os seus gases venenosos. (Complementar, inverso e simétrico deste, um outro fenómeno se desenvolveu ao mesmo tempo, nas camadas cultas da população: a crença na genialidade pessoal, com as mais diversas expressões megalómanas. O número de artistas, escritores, pintores, estudantes, intelectuais que se julgavam génios durante o salazarismo era incontável. Fenómeno de compensação imaginária, habitual em todas aa ditaduras, ao que parece: nos países de Leste, recentemente libertados, os génios imaginários pululam, como ainda hoje em Portugal.)

Situar a inveja neste contexto significa considerá-la dentro de um meio em que todas essas forças (de ressabiamento, de queixume, de ódio) se contaminaram umas às outras. É dentro de um banho de ressentimento que melhor se desenvolve a inveja. É no queixume implícito de se achar a si mesmo pequeno que se inveja alguém que pretende ser maior. Na «democracia afetiva» do salazarismo, o nivelamento fazia-se sempre por baixo: o sentimentalismo definia o ser humano reduzido, pequeno, infantilizado. Compreende-se assim que o 25 de Abril tenha aberto uma panela de pressão de invejas e ressentimentos subitamente prontos a cultivar-se e aplicar-se sem entraves. O salto brusco do estatuto social, sem passar pelas etapas intermédias habituais, que as revoluções ou mudanças profundas de regime político permitem, ia lançar toda uma série de gente na corrida aos postos superiores, aos «tachos», aos privilégios de toda a ordem; e atrás dela, como flechas certeiras, seguiam milhares de invejas.
Mais precisamente, a generalidade da ação da inveja em Portugal é tão vasta que, tal como o medo, constitui um sistema. Não se trata, pois, de uma relação a dois (que pode também ocorrer e ser decisiva), mas de uma relação coletiva implicando, de cada vez, um número variável de indivíduos pu de grupos. Os efeitos do sistema das invejas não são visíveis: ora paralisante, ora desacelarador de uma dinâmica, ora descarrilador, provocando acidentes em catadupa, adiamentos sucessivos, etc.
 
 
 
Como é que a inveja pode ganhar uma força tão grande que chega a entravar o trabalho de um grupo?
 
 
 
Note-se, antes de mais, que a inveja implica uma relação de forças. Joga-se, na inveja, uma luta pelo poder de que sairá um dominante e um dominado. Por isso a inveja entra na categoria das «relações de influência».

Uma condição prévia deve existir para que a inveja seja eficaz: que a futura vítima se encontre em estado de recetividade inconsciente, quer dizer, de vulnerabilidade particular (o que a terminologia da feitiçaria portuguesa designa por «ter o corpo aberto»). Como se diz comummente, o indivíduo «não sabe o que quer», ou «não tem uma personalidade firme». Ou ainda: o seu poder sobre si é frágil, pouco definido; o seu poder de afirmação não se manifesta: a sua vontade de poder é débil, etc. Resumindo, é alguém facilmente influenciável.
(o autor discorre sobre condições propícias ao desenvolvimento da inveja. Aqui vou apenas apontar uma situação que se prende com a inveja no grupo).
Primeira condição, o fechamento do grupo. Voltado para si próprio, sem «fora», o seu ar estagna e a sua atmosfera homogeneiza os comportamentos latentes, prontos para o ressentimento e a agressividade. A diversidade, o imprevisto e o acaso desaparecem. O grupo ganha uma atmosfera específica (com as características próprias de densidade, viscosidade, velocidade de partículas, vetores de fluxos) que permite denominá-lo grupo de invejas. Existindo na atmosfera, agora a inveja subsiste por si, ataca por si. Como um vírus.

Como sair deste sistema? Como fazer para começar a fazer? A uma questão semelhante que lhe punha um bailarino (que queria saber como realizar tal gesto aparentemente impossível), o coreógrafo americano Merce Cunningham respondeu apenas: «Fazendo».



Não há outra resposta. Há sim, também, a construção das melhores condições para que o fazer se faça, para que nasça o desejo irreprimível de fazer, deixando de falar inutilmente da necessidade de ação. Cabe aos que nos governam essa tarefa – já que eles têm por imperativo decidir -, desde obrigar ao cumprimento da lei à criação de tudo o que possa contribuir para que, na comunidade, um encontro seja uma ocasião de alegria.

In Portugal Hoje: O Medo de Existir

Artigo enviado pela minha querida amiga Sónia Craveiro




A mulher no Judaismo



Preconceitos e mitos


Gostaria de saber: qual é o papel da mulher no judaísmo, além de criar os filhos segundo a orientação da Torá? Como o judaísmo vê a mulher? O que fez de Débora juíza sobre o nosso povo em uma época em que a mulher não podia ocupar nenhum cargo de liderança?

Primeiramente, gostaria de fazer algumas perguntas: por que é que a Torá louvaria e descreveria histórias de várias mulheres que lideraram e foram exemplo no povo judeu, como Miriam, Débora e Yael, se sua função fosse apenas criar filhos? Se seu papel fosse apenas em casa, porque seria mencionado um "mau exemplo" de envolvimento com a comunidade?



"E D'us criou a Mulher..."    




Porque é que no judaísmo, mesmo os homens mais elevados são considerados incompletos até que não se casem e unam-se a uma mulher?
Porque há tantas leis na Torá referentes ao casamento que considerem a mulher, entre as quais a de que o consentimento da mulher é imprescindível para que possa haver uma união, e a que obriga um homem a conceder o divórcio a sua esposa, caso seja essa a vontade dela?

A resposta para estas e muitas outras perguntas é: o judaísmo é igualitário, tanto os homens quanto as mulheres têm a mesma importância e são imprescindíveis para nosso povo. O que existe é o preconceito do preconceito.



Infelizmente é comum ouvir por aí que no judaísmo existe um preconceito contra as mulheres. Muita gente acha, que o facto das mulheres se sentarem na sinagoga atrás de uma mechitsá (elemento físico utilizado como divisória em um ambiente que serve para separar os homens das mulheres), e de não cumprirem certas mitsvot, as torna "segunda categoria". Se descobrissem e pesquisassem os verdadeiros motivos, certamente mudariam completamente de opinião.

Estes são os argumentos de quem olha de fora, superficialmente. Porém, pergunte a uma mulher religiosa, e ela responderá: não é nada disto! O judaísmo é uma construção, precisa de arquitectos, pedreiros, pintores, decoradores. Todos são igualmente imprescindíveis. Cada um tem sua função, e se não for ele, ninguém a fará. Não adianta colocar um pincel na mão de um pedreiro, ou uma pedra na mão do pintor. Da mesma forma, o homem e a mulher receberam as mitsvot e funções necessárias para efetuar sua parte na construção e se completarem nesta tarefa.

Mitsvot são meios de chegar a D'us. Uma mulher não precisa ser chamada na Torá ou ser chazan, porque, neste aspeto, já está próxima a D'us. Já o homem necessita destas mitsvot para alcançar a proximidade que lhe falta.

A mulher é chamada de "Akeret Habayit" - a fundação do lar. É ela que tem a capacidade e as características de segurar uma casa. Devemos estar conscientes do grande mérito que é esta função, já que, analisando bem, toda a base da sociedade e de cada indivíduo está em sua casa. Seu principal investimento é na sua família, sim, mas não pelo falso argumento dela ser inferior ou incapaz de fazer outra coisa.

É justamente pela importância e delicadeza desta "mini empresa", que exige a astúcia e o toque de uma mulher. Porém, tendo em mente a importância e a proporção certa das coisas, nada impede que uma mulher exerça também outras funções, que esteja envolvida com a sociedade. E mais, se possui talentos e dons, estes lhe foram dados para usá-los. Se D'us os deu, porque deveria abrir mão de suas habilidades?

Nenhum rabino dirá que a mulher é apenas uma reprodutora e deve ficar trancada em casa. Talvez quem diga isto seja um grupo de pessoas preconceituosas, discursos e filmes que deturpam o sentido do judaísmo e danificam a sua imagem.


Devemos sempre procurar o verdadeiro porque e como das coisas com quem realmente lida com elas, e livrarmos-mos dos preconceitos que acabam por penetrar na nossa maneira de pensar e de ver as coisas.



Pintura de Jacob Pichhadze


Fonte:

domingo, 12 de fevereiro de 2012

“LICENÇA DE PARTO”


A ORIGEM DO CONCEITO


Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.
    Uma professora de Nova Iorque foi despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
    Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso a tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o globo: a licença de parto. Esta professora, uma sefardita de ascendência portuguesa e membro da comunidade de judeus nova-iorquinos, chamava-se Bridget Peixotto e foi pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres.
    Finalmente, em Janeiro de 1915, Bridget Peixotto foi reabilitada nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, tornou-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atingiu a idade limite de 70 anos.
    Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 94 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era “responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país e pelo mundo.” O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.”

Artigo enviado pela minha querida amiga Sónia Craveiro.




Adaptado de:
 

Fig.1: Bridget Peixotto com a filha Helen Esther Peixotto

sábado, 11 de fevereiro de 2012

À procura de Sefarad em Portugal

 
 

Apesar de não abundar a literatura sobre o judaísmo português, é já possível construir uma pequena biblioteca sobre os trajectos do sefardismo e do marranismo. Destacam-se alguns títulos, sem preocupação exaustiva.
 

Dois dicionários condensam nomes, biografias e temas: "Dicionário do Judaísmo Português" (coordenado por Lúcia Liba Mucznik e outros) e "Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses - Mercadores e Gente de Trato" (dirigido por A.A. Marques de Almeida).
Jorge Martins publicou em três volumes a obra "Portugal e os Judeus", que depois sintetizou na "Breve História dos Judeus em Portugal". No mesmo registo, pode ler-se o texto fundamental de Carsten L. Wilke, "História dos Judeus Portugueses".
 

Ainda no domínio da história do judaísmo português, podem ler-se "A Herança Judaica em Portugal" e "As Judiarias de Portugal", ambos de Maria José Ferro Tavares.
Sobre trajectos mais específicos, foi agora reeditada a obra já clássica de Samuel Schwarz sobre os judeus de Belmonte, "Os Cristãos-Novos em Portugal no Século XX". Maria Antonieta Garcia estudou o "Judaísmo no Feminino" e "Os Judeus de Belmonte", também investigados por David Augusto Canelo em "Os Últimos Criptojudeus em Portugal". António Carlos Carvalho contou a história d' 2Os Judeus do Desterro de Portugal", Avraham Milgram publicou um ensaio sobre "Portugal, Salazar e os Judeus" e Fátima Sequeira Dias estudou os judeus dos Açores nos séculos XIX e XX em "Indiferentes à Diferença". Em tempo de centenário republicano, Jorge Martins estudou ainda as relações mútuas entre "A República e os Judeus".
 
 
Não sendo judeu, Aristides de Sousa Mendes salvou milhares de vidas de hebreus e o seu retrato foi escrito por Rui Afonso em "Um Homem Bom". Outros perfis biográficos são os de "Gracia Nasi", a mais importante judia sefardita portuguesa, contada por Esther Mucznik, e "Jacob de Castro Sarmento", de António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães. Estes mesmos autores recuperaram uma saga familiar em "A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa". Elvira de Azevedo Mea e Inácio Steinhardt contam a história do capitão Barros Basto, ou Ben Rosh, que procurou resgatar do esquecimento os marranos de Belmonte. E João Vila-Chã conta, em inglês, a vida e obra de Judah Abravanel: "Amor Intellectualis? Judah Abravanel and the Intelligibility of Love".
 

Texto clássico de um judeu português, a "Consolação às Tribulações de Israel", de Samuel Usque, está também disponível. E Ana Bela Santos cruza registos históricos com a ficção em "Fala Yael Castelo de Vide, os Judeus e a Inquisição".
 
 

Retirado do site:

Tesouro hebraico descoberto em Sinagoga





Historiador descobre património sobre comunidade judaica que se estabeleceu no País. Entre o material encontrado há documentos impressos e manuscritos.
 
O historiador José de Almeida Mello descobriu um conjunto de objetos e documentos hebraicos na Sinagoga de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, Açores, que podem estabelecer o património judaico deste templo como um dos mais antigos e ricos de Portugal.
 
Ao despejar o conteúdo de uma velha arca guardada naquela sinagoga, José Mello encontrou uma vasta panóplia de objetos. Entre os achados estão documentos impressos e manuscritos, pergaminhos cuidadosamente enrolados, pequenos livros de bolso, uma mão em madeira, saquetas tendo no seu interior fitas de cabedal e tábuas da lei, pequenos documentos colocados no interior de tubos de vidro selados e ainda tecidos utilizados no culto religioso.
 
"Estaremos perante um legado com peças que podem ser anteriores ao século XIX e que remontam aos primeiros tempos dos judeus nos Açores", explicou, informando que o verdadeiro significado do achado será estudado por técnicos oriundos da comunidade israelita de Lisboa.
 
O que encontrou foi como entrar na "máquina do tempo e recuar" alguns séculos, conta o historiador guardião da Sinagoga de Ponta Delgada, fundada em 1836.
 
A primeira comunidade judaica em Ponta Delgada surgiu após o regresso a Portugal dos judeus, expulsos pelo rei D. Manuel em 1497 - os que não saíram do País foram convertidos à força ao catolicismo. Os que regressaram trouxeram consigo textos sagrados e documentos manuscritos que terão ficado como legado dos judeus entretanto radicados em São Miguel, de 1819 por diante.
 
 
Por Paulo Faustino

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Shabat Shalom Lekulam




E porque Shabat sem salmos, musica e muita alegria, não é um
verdadeiro Shabat...
 
Ofereço-vos o Mizmor Ledavid.
 


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Música Sefardita




Oração



SALMO 95



 Vinde e ergamos nossas canções para o Eterno; aclamemos a Rocha da nossa salvação.

Com acção de graças nos apresentaremos perante Ele e em Seu louvor entoaremos salmos. Pois o Eterno é D’us e Rei majestoso, acima de todos os poderosos.

A Ele pertence toda a terra, dos abismos mais profundos ao cume das montanhas mais elevadas.

Seus são os mares e os continentes, pois tudo é obra de Suas mãos.

Vinde, pois, adoremos e prostremos-nos em reverência ante o Eterno, nosso Criador, pois Ele é nosso Deus e nós somos Seu povo. Ele é nosso Pastor e nós somos o rebanho que Ele nos guia neste mundo, desde que à Sua voz obedeçamos.

Que nossos corações e nossas mentes saibam compreender Sua exortação. Não permitais que se endureçam vossos corações como em Merivá, como aconteceu em Massá, no deserto, quando vossos pais, mesmo tendo presenciado Meus feitos, duvidaram de Mim.

Por quarenta anos Meu desgosto fez aquela geração vagar pelo deserto, pois Eu lhes disse: “Sois um povo de coração desnorteado, incapaz de trilhar Meus caminhos.”

Em Minha ira, então, jurei não deixá-lo entrar na terra de Meu repouso.

SEFARDITAS





A ODISSEIA DOS JUDEUS PORTUGUESES

Por: Manuel Luciano da Silva






…Os gregos -- há mais de cinco mil anos -- deram à península que hoje compreende a Espanha e Portugal o nome de Península Ibérica, ou IBEROS, que quer dizer, "MAIS OCIDENTAL ou "POR DO SOL". A seguir vieram os Judeus, considerado o "Povo da Diáspora", e estabeleceram-se -- há mais de quatro mil anos -- na Península Ibérica e passaram a ser denominados por SEFARDICOS, que quer dizer igualmente "MAIS OCIDENTAL" ou "POR DO SOL". E finalmente vieram os mouros que conquistaram a península e passaram a chamar ao nosso território ALGARVE, que quer dizer também "MAIS OCIDENTAL" ou "POR DO SOL". Os Romanos chamaram à nossa terra natal "LUSITÂNIA, que quer dizer TERRA DE LUZ. Isso é verdade porque ainda hoje Portugal é de todos os países da Europa que tem maior número de horas-sol durante todo o ano. O conceito de se denominar a parte mais ocidental do Mar Mediterrâneo "Ocidental" - iberos, sefardi e algarve - pode ainda hoje ser verificado pelos topónimos que existem na parte mais norte e ocidental de Espanha que tem o nome de "Finis Terra". O mesmo se passa na ponta mais ocidental da Ilha Britânica ou Inglaterra que se chama "Land's End". Todavia com tanta variedade de nomes, os portugueses preferiram criar o seu nome próprio: Portus + Cale, que deu origem a PORTUGAL. (Portus da cidade do Porto e Cale de Gaia).



INQUISIÇÃO

Com o casamento do Rei D. Manuel I e a filha dos Reis Católicos de Espanha, em 1496, a Inquisição que tinha começado em Espanha em 1492, iniciou-se em Portugal em 1497. Com esta medida trágica começaram a sair de Portugal todos os judeu que eram ricos e que tinham meios para o fazer. Até o famoso Abraão Zacuto foi forçado a sair de Portugal! A lei da Inquisição mandava que todos os judeus se convertessem ao catolicismo ou então estavam sujeitos a serem queimados em Auto-de-Fé.

Por esta razão muitos do judeus sefardis portugueses fugiram para as montanhas das Beiras Alta e da Beira Baixa tornando-se cripto-judeus. Os que se converteram ao cristianismo passaram a ser chamados "marranos" (de porcos) ou "conversos", ou cristãos novos.

O auto-de-fé na praça que é hoje a Praça do Comércio em Lisboa é sem dúvida a página mais negra da História de Portugal!

O médico mais célebre do século XVI foi o judeu sefardi Garcia de Orta que foi um brilhante professor e escritor na Escola Médica de Goa. Mesmo depois de morto os inquisidores desenterraram-no para queimar o seu esqueleto num auto-de-fé!



EXPULSÃO DOS JUDEUS

Terrível perda de valores intelectuais e que até à data não se conseguiu recuperar desse 'desesperatum'... (desespero). Portugal perdeu muito com a Inquisição, mas as outras nações ganharam com a inteligência e qualidades profissionais dos judeus sefarditas portugueses. É depois da Inquisição que passamos a ver nomes famosos de médicos sefarditas portugueses em todos os países da Europa, não só como professores das faculdades de medicina, mas até médicos privados dos chefes do governo, Reis e rainhas.


Os judeus sefardis portugueses foram para o norte de Africa, para a Turquia, Holanda, Itália, França, Alemanha e Inglaterra. Foram os judeus sefardis portugueses que ensinaram os ingleses a fritar peixe, porque levaram com eles o azeite português! Foi a Rainha Catarina de Bragança que ensinou os ingleses a beberem o "chá das cinco" e levou também com ela o uso do garfo para a Casa Real Inglesa, e até as tangerinas!
Foi esta Rainha que deu o nome ao maior Bairro da Cidade de Nova Iorque que se chama hoje "Queens" em sua honra! Não tive acanhamento nenhum em afirmar na minha conferência que a Primeira Rainha de Bristol era 100 % Portuguesa porque no primeiro mapa das ruas de Bristol (1680) aparecem ruas com o nome de "King" (em honra de Carlos II) de "Queen" (em honra da Rainha Catarina de Bragança) e ainda outra rua que dá seguimento a esta que tem o nome de "Catarine Street".

Os judeus sefardis portugueses emigraram também para os Açores, Madeira, Cabo Verde, Guiné e Brasil, envolvendo-se na indústria (do açúcar) e nas outras profissões incluindo a medicina. Mesmo da Holanda deram o salto para Recife no norte do Brasil, porque os holandeses tinham roubado a Portugal este território. Seguiram depois para Curaçao e Nova Amsterdão que mais tarde mudou o nome para Nova Iorque, quando os ingleses a conquistaram.
Com a expulsão dos médicos sefarditas portugueses assim como dos vários eruditos judaicos, Portugal sofreu uma enorme perda.


Mas os judeus sefardis portugueses andavam sempre a procurar um lugar onde houvesse liberdade religiosa, vieram para Newport porque o fundador do Estado de Rhode Island, Roger Williams, garantia liberdade completa de religião. Foi em Newport, R. I. que os judeus sefardis construíram a Sinagoga Touro, a mais antiga dos Estados Unidos e que se encontra presentemente em ótimas condições e que é uma cópia em ponto pequeno da grande sinagoga de Amsterdão, na Holanda. Notar que o nome é Touro à portuguesa e não Toro à espanhola. O Presidente da Comissão e um dos fundadores da construção da Sinagoga de Touro foi Aaran Lopez, nascido em Lisboa, Portugal e foi também eleito o primeiro Presidente da Sinagoga Touro!

Foi nesta sinagoga de Newport que o Dr. Mário Soares, como Presidente da Republica Portuguesa, há dez anos, pediu desculpa aos judeus sefardis portugueses, pelas atrocidades que os seus antepassados foram vítimas da perseguição religiosa devido à terrível Inquisição em Portugal.

Existe ainda um cemitério judaico de Newport onde vemos os nomes de Abraham Touro, Judah Touro, Aaron Lopez, Moses Levy, Moses Seixas, Jacob Rodrigues Rivera e Meyer Benjamin, todos judeus sefardis portugueses!

Os judeus sefardis portugueses de Newport tornaram-se comerciantes: importadores e exportadores e correspondiam-se em português como podemos verificar pelas suas cartas escritas em português correto e que estão arquivadas na Sociedade Histórica de Newport! Muitos judeus sefardis portugueses tornaram-se famosos na América: Bernard Mannes Baruch, conselheiro de oito presidentes americanos, Moses Seixas fundador do Banco de Rhode Island, Dr. Samuel Nunez que chegou a ser médico do Rei João V em Portugal e Moses Michael Hays foi fundador do Banco de Boston e muitos outros.

Uma coisa é certa: os judeus sefardis portugueses sempre honraram o seu nome e tradições portuguesas em todos os países onde viveram! Basta isto para lhes prestarmos as nossas homenagens! Devemos juntar à lista dos famosos judeus sefardis portugueses, Pedro Nunes, grande matemático e inventor do nónio, assim como Baruch Espinoza, eminente filósofo do século XVII. Podemos juntar ainda os nomes de Gil Vicente, poeta, Fernão Mendes Pinto, viajador até à China e autor da "Perigrinação" assim como o grande Luís Vaz de Camões, autor de "Os Lusíadas", por quem os pais dele emigraram de Espanha para Portugal, sugerindo também ser judeus sefardis.



ESTÁTUA DA LIBERDADE


Sabia que na base desta famosa estátua, a maior do mundo, existe uma placa de bronze (1903) com um poema (de 14 versos) com o título " O Novo Colosso" escrito por uma poetisa de nome Emma Lazarus, que era uma judia sefardita portuguesa, sobrinha do célebre Juiz do Supremo Tribunal Americano de nome Benjamim Cardoso, também judeu sefardi português!




"The New Colossus"
Poem by Emma Lazarus
was inscribed on a tablet in the pedestal in 1903.


Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset, gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning , and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-side welcome; her mild eyes command.
The air-bridged harbor that twin cities frame.

"Keep ancient lands, your storied pomp!" cries she
with silent lips. "Give me your tired, your poor
Your huddled masses yearning to breath free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tost to me,
I lift my lamp beside the golden door!"

Casa do Castelo - Sabugal



Vestígios Históricos



Quando esta a casa foi comprada já se encontrava em ruínas.


Com a demolição do telhado e da parede interior foi surgindo a necessidade de demolir as paredes exteriores, devido à insegurança que apresentavam. O mau estado era patente nas argamassas que não passavam de pó e não davam estabilidade a uma estrutura que tinha séculos e que terá sido muito descuidada ao longo desse tempo. A demolição efectuada pelo construtor foi acompanhada pelo arqueólogo do município e a sua equipa de trabalho.

Numa parede exterior foi encontrada uma "ara romana", objecto de vários estudos e muito valorizada devido à raridade dos seus motivos.



Ara romana


Na parede interior, outrora parede exterior, limite da casa, com 90 cm de largura e com um portado feito com enormes pedras de granito, encontrámos um armário fora do comum. Estava protegido com uma armação de madeira que suportava duas portas que davam acesso aos dois compartimentos. Após a retirada das madeiras apareceu uma construção única que se via estar fora do contexto, que não pertencia à parede nem à casa como a estávamos a encontrar: tinha a frontaria trabalhada e a esquina interior cortada, tinha na divisão inferior dois círculos do mesmo tamanho e um mais pequeno cavados no granito. As interrogações com este achado começaram muito antes da demolição, mas foi com a retirada de todas as madeiras que apareceu em toda a sua grandeza. Estava implantado 1 mt acima do nível da sala e a parte superior estava coberta pela divisória do sótão; só foi possível apreciá-lo na, na sua totalidade, já na fase de demolição. 

Formam um conjunto de 9 pedras que se suportam umas às outras; quando a parte cimeira é colocada, esta dá estabilidade às subjacentes. Numa fase anterior às obras a casa é motivo de curiosidade e é visitada por dois arqueólogos, o arq. Machado Lopes e esposa, que concluem tratar-se de um "altar" do culto judaico e emitem um parecer nesse sentido. Tratava-se de um "aron ha kodesh", "armário da Lei", lugar para guarda da "Torah" (Livro da Lei). Após a retirada das divisões de madeira verificámos que estava situado no meio da parede, orientado para o centro da sala.



Este achado vem dar outra interpretação histórica à presença judaica no Sabugal, onde não havia qualquer referência a esta presença.


Ao considerar esta referência judaica os especialistas são levados a concluir que a sua origem é do período de convivência pacífica entre os seguidores do judaísmo e do cristianismo, possivelmente século XIV, porque no largo do castelo existia a igreja de Santa Maria, que foi destruída em 1910, pelos republicanos.

A posteriori podemos concluir que esta casa seria das mais antigas existentes na vila, que terá resistido às sucessivas destruições. Na demolição encontramos diversas quotas de piso que poderiam ter diversas interpretações e um estudo mais aprofundado. Quem conhecia a casa sabia que para nela entrar tinha de subir 4 ou 5 degraus que davam acesso à varanda/marquise e ao quarto entre paredes (à entrada) e que para entrar na sala, após a segunda parede, tinha de descer 3 (três) degraus. 

No espaço entre paredes encontramos uma quota do antigo morro do castelo, mais alta que o actual largo.

A casa original possuía grandes dimensões e neste momento pertence a dois proprietários, tendo duas entradas (norte e sul) e um quintal/pátio virado para sul.

Na parede exterior, do século XV, virada a norte, também encontramos uma marca de cristãos-novos, marca singular e única da qual ainda não vimos reprodução.

No nosso entender é compreensível a presença judaica no Sabugal porque estamos numa zona de fronteira e também de passagem. Com a perseguição exercida pelos reis católicos sobre os judeus de Espanha, estes tiveram de fugir e o mais fácil foi passar a fronteira porque em Portugal eram bem recebidos. No lado de Portugal, depararam com uma zona possivelmente desertificada que apresentava condições propícias à sua instalação, senão de forma permanente, pelo menos de forma provisória. Este é um assunto que será objecto de estudo por alguns entendidos na matéria.




Fonte:
Natália Bispo


Salvador Dali