domingo, 19 de fevereiro de 2012

Bahr Yousseff





“O mar de José”



Bahr Youssef, que traduzido do árabe quer dizer literalmente “caminho de água de José”, é um canal que liga o rio Nilo ao lago Moeris, que fica no oásis el-Fayoum, a 80km a sudoeste do Cairo, no Egito.

 Nos tempos pré-históricos era um ramo natural do Nilo, que durante as cheias criava um lago. Nos inícios da 12ª dinastia, há cerca de 2300 anos antes da era comum, o “caminho de água” foi escavado, alargado e aprofundado; o oásis el-Fayoum foi desenvolvido e o lago ficou maior, servindo de reservatório de água para ser usada em períodos de seca.





Esta gigantesca obra de engenharia permitiu controlar os recursos de água do Egito e teve um impacto importantíssimo na economia do país. Foram igualmente criados sistemas de irrigação, através de uma rede de canais subsidiários que duplicaram a extensão de terra arável, o que naturalmente potenciou o desenvolvimento da agricultura no Egito.


Barh Youssef, paralelo ao Nilo, como um gémeo do grande rio, ainda existe, continuando a alimentar de água o lago Moeris, hoje mais pequeno e que dá pelo nome de Birket el-Qarun, ou Lago Karoum.
O egiptólogo Samuel Kurinsky, apoiado nas investigações do linguista e académico especializado em assuntos bíblicos Zaccariah Sitchin, defende que historiadores árabes, não só, atribuem o projeto ao patriarca José, como reportam as circunstâncias em que o mesmo foi realizado.
Os historiadores relatam que José, à época já com 100 anos de idade, mantinha uma posição ainda relevante na corte. Os outros vice-reis e demais oficiais da corte, invejando José, persuadiram o faraó de que José deveria demonstrar o seu valor, para continuar a beneficiar do estatuto de privilégio que mantinha. Quando o faraó concordou, os vice-reis propuseram um projeto impossível: converter o deserto numa área fértil.
“Inspirado por Deus”, José conseguiu em 1000 dias completar a obra, contrariando assim os seus detratores. As águas frescas que caem em cascata das montanhas da Etiópia e da Núbia, fluíram generosamente para o grande lago artificial – o lago Moeris. A tarefa de José tinha sido cumprida e o deserto floresceu.

Com os agradecimentos a Sónia Craveiro que me presenteou com este artigo.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Herança judaica em Portugal



A nossa herança.


Biblia de Cervera, Armas de Castela e Leão


Muito já se escreveu sobre a herança de judeus na Península Ibérica. Depois de uma visita a 15 cidades portuguesas, incluindo as sinagogas e museus de Lisboa, Belmonte, Castelo de Vide e Tomar, pode-se concluir que a herança judaica foi muito forte e altamente representativa.

Expulsos da Espanha em 1496, os judeus encontraram abrigo no país vizinho, a que chegaram das mais diversas formas, incluindo caminhadas a pé e a utilização de carros de bois, sempre somente com a roupa do corpo. Diz a história que os primeiros judeus foram para Castelo de Vide ainda no período romano. A situação começou a se complicar a partir de 1497, quando o rei D. Manuel I determinou a conversão forçada que deu origem aos cristãos-novos e aos criptos judeus, estes com a característica de manter os postulados da sua crença de forma oculta. Muitos deles, por isso mesmo, vieram para o Brasil, em busca de liberdade religiosa.



Pintura de Alex Levin

É preciso entender que antes da Inquisição árabes e judeus viveram 400 anos em perfeita harmonia na Península Ibérica, onde floresceram lado a lado judiarias e mourarias que ainda hoje subsistem como locais históricos. Sendo ambos os povos originários do patriarca Abrahão, é difícil compreender as razões da posterior animosidade nessas relações.

O fato mais chocante da nossa viagem foi a revelação, nas sinagogas portuguesas, dos nomes dos cristãos-novos que foram queimados pela inquisição pelo simples fato de terem origem judaica. Um crime inominável que levou o presidente Mário Soares, em 17 de março de 1989, numa visita a Clive, a declarar enfaticamente: “Na paisagem alentejana e nesta tão bela terra, a judiaria ergue-se, desafiando os séculos como um símbolo que desejamos seja de tolerância, de fraternidade e de unidade essencial do gênero humano. Em nome de Portugal, peço perdão aos judeus pelas perseguições que sofreram em nossa terra”.

Um consolo é certo, para tanto sofrimento envolvendo nomes e sobrenomes que nos são extremamente familiares: Gonçalves Dias, Diogo Lopes, Ana Mendes, Jorge Nunes, Garcia da Orta, Leonor Rodrigues, Álvaro Pais, Cristóvão de Torres, Leonor Vaz, Filipa Mendes, entre outros. O caso de Garcia da Orta é emblemático: médico e pesquisador de plantas medicinais, amigo de Camões na Índia, morreu e foi enterrado como católico. A Inquisição desconfiou dele e mandou desenterrar o corpo, que foi exumado. Então se descobriu que era judeu: foi queimado depois de morto, em 1580, numa prova da barbárie desses tempos. O mesmo ocorreu com a sua irmã Catarina.

Assinala-se a presença judaica em Vide no extenso período de 1300 a 1600. Muitos deles eram cardadores que vendiam seus produtos nas feiras da Espanha (Cáceres, Safra, Córdova, Sevilha, etc.). Antes, em Belmonte, tínhamos tomado conhecimento da existência das famílias Vaz, Henriques, Rodrigues, Nunes, Morão, De Sousa, Mendes, Diogo, Cunha e Pereira. De notável, o sobrenome Gouveia, que era da mãe judia de Pedro Álvares Cabral, o que pode explicar a razão de ter ele selecionado para a viagem ao Brasil uma tripulação constituída basicamente de cristãos-novos.
Com a destruição do templo de Jerusalém, por parte dos romanos, no ano 70 a.e.C., os judeus dirigiram-se à península ibérica, no que a história denominou de Diáspora ou dispersão. De início na Espanha (Sefarad), onde foram bem acolhidos, deixaram fortes marcas culturais da sua passagem, de que talvez tenha sido o maior símbolo o médico e filósofo Maimônides, Rabi Moshe Ben Maimon, cuja codificação dos 613 mandamentos da Torá é até hoje lembrada.


Pintura de Jan Voerman

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Anedota



O Rabino e o Bispo



Um rabino e um bispo são convidados para um jantar. O rabino aceita com a condição de que a comida seja pura (“kosher”). Durante a refeição, o bispo olha de soslaio para os pratos do rabino, diferentes dos demais comensais e a certa altura não consegue deixar de perguntar com alguma indignação:

- Caro rabino, quando é que chegará o dia em que finalmente eu e o senhor poderemos comer da mesma comida?





E o rabino respondeu no mesmo tom:



- Se D'us quiser, senhor bispo, será no dia do seu casamento.



Curiosidades Sefarditas.



Família Lisbona




Abraham Lisbona e sua esposa em 1875 - cidade de Alexandria.


É fascinante verificar que até ao século XIX, existiam ainda em determinadas comunidades de judeus em Marrocos, Argélia e neste caso no Egipto, judeus com apelidos bem portugueses, muitos deles ligados às suas terras de origem.



Sinagoga de Alexandria - Egipto.

Ciência Judaica


Guematria


Escultura de Martina Lasry: Simbologia das las Letras 
Hebreas, século XX.


Ciência existente apenas no judaísmo e na língua hebraica, a "guematria" é a ciência judaica da codificação bíblica, é um método hermenêutico de análise das palavras bíblicas em hebraico, atribuindo-lhes um valor numérico definido a cada letra. Conhecida ainda pelo nome de "numerologia judaica" e está patente na Torá (Pentateuco) há mais de 3.300 anos.


Pelo valor numérico de cada letra, para os místicos cabalistas judeus, a Torá tem para além do seu sentido literal, um sentido místico escondido nos números de cada palavra, qual um código, fazendo diferentes conexões e extraindo da Palavra Divina uma revelação, ou um sentido mais aprofundado para os espiritualistas.





Fontes:


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

GRÁCIA NASI




A judia portuguesa do Século XVI que 
desafiou o seu próprio destino

Por Esther Mucznik



A história judaica tem mulheres extraordinárias. Da matriarca Sara à sionista Golda Meir, muitas mulheres judias fizeram história. Grácia Nasi foi uma delas. Com uma fé inquebrável e uma personalidade de ferro moldada pelas agruras da vida, esta mulher não teve medo de desafiar homens, papas, reis e o seu próprio destino.



 Nasceu em 1510 em Portugal no seio de uma família expulsa de Espanha. Contudo não seria em Lisboa que encontraria a tranquilidade desejada. Viúva aos 25 anos, herdeira de um império baseado no comércio da pimenta e das especiarias e de uma incalculável riqueza cobiçada por todos, revelou-se uma mulher de negócios excepcional, com o mesmo espírito pioneiro e empreendedor que caracterizava os sefarditas judeus/cristãos novos.





Grácia Nasi percorre o mapa da Europa, passando por cidades como Antuérpia e Veneza, até chegar ao Império Otomano, onde finalmente pode praticar a sua fé às claras, sem recear qualquer perseguição. Aí dedica-se a ajudar os seus correlegionários a escapar à Inquisição, apoia o estudo e o ensino religiosos, bem como a edição de traduções da Bíblia e estende a mão aos mais necessitados.



Esther Mucznik viveu em Israel e em Paris onde estudou, respectivamente, Língua e Cultura Hebraicas e Sociologia na Sorbonne. É membro da direcção da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) desde 1992 e sua vice-presidente desde 2000. Fundadora em 1994 da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos e desde então membro dos seus corpos dirigentes. É co-fundadora do Fórum Abraâmico de Portugal para o diálogo inter-religioso. Esther Mucznik é membro da Comissão de Liberdade Religiosa. É colunista desde 2002 do jornal Público e foi co-coordenadora do Dicionário do Judaísmo Português, publicado em 2009. Estudiosa das questões judaicas, tem coordenado cursos e seminários sobre história e cultura judaica, liberdade religiosa e diálogo inter-religioso,  sobre Israel e o Médio-Oriente, participado em inúmeros colóquios em Portugal e no estrangeiro,  publicado cerca de cinquenta trabalhos sobre estas temáticas.



Artigo enviado por Sónia Craveiro
Muito obrigada

Piratas Judeus





Apesar do estereótipo dos judeus como mercadores e intelectuais, muitos de eles levaram uma vida de intrépidos aventureiros. Depois de tudo, os judeus têm sido perseguidos por escuras razões em todas as sociedades durante milhares de anos. Consequentemente, alguns deles ter-se-iam tornado agressivos como resposta.

O grande atrativo do livro de Edward Kritzler, “Piratas judeus do Caribe”(2008) não é o tratamento dos piratas judeus, senão a saga da sua perseguição, especialmente em Espanha, e os seus contactos com o próprio Cristóvão Colombo.







Centrado nos séculos XVI, XVII e XVIII, o livro ilustra numerosas anedotas desconhecidas, provavelmente, tanto para os não-judeus como para os próprios judeus. A odisseia intelectual de Kritzler plasmado no livro começou muito tempo atrás: em 1967, trás trasladar-se de Nova Iorque a Jamaica.








Mentres estudava a história da ilha na biblioteca nacional, achou uma entrada num diário de piratas britânicos de 1642. William Jackson escrevia como achara a capital deserta agás por “uma série de portugueses de ascendência hebraica que se aproximaram a nós na procura de asilo, e que prometeram nos revelar o paradeiro onde os espanhóis escondiam os seus tesouros”.

Kritzler sabia que os primeiros exploradores do Novo Mundo procediam de Espanha e Portugal, mas dava por suposto que eram “devotos católicos portadores da Cruz”. Assim que se perguntou: “Que estavam a fazer os judeus portugueses numa ilha espanhola, solicitando asilo dum pirata britânico?”.


Continuando a sua investigação, Kritzler descobriu que antes que o Império Britânico conquistar Jamaica em 1655, a ilha tinha sido propriedade de descendentes de Cristóvão Colombo, e que esses descendentes “proporcionaram um refúgio aos judeus, que estavam proscritos também no Novo Mundo”. 

Alguns dos judeus jamaicanos que Kritzler estudou durante a sua investigação trataram de persuadi-lo de que o próprio Colon fora judeu. Isto teria permanecido oculto, determina Kritzler, devido a que os judeus que navegaram com Colon, e outros, tinham que esconder a sua identidade religiosa para poder fugir da persecução europeia durante a época da Inquisição.

Os que governavam longe de Europa – em América do Sul, do Norte e nas ilhas do Caribe- não queriam ter judeus arredores. Mas muitos de eles deixaram a um lado os seus prejuízos religiosos na medida em que os judeus resultavam muito úteis, estabelecendo linhas de comércio para além dos oceanos com produtos como o açúcar, café, tê, cereais, e metais como o oiro e a prata. Uma vez que estas rotas de comércio ficaram estabelecidas, porém, os governantes às vezes volviam-se contra os judeus. Como assinala Kritzler:

“Em México e Peru, onde os mercadores judeus controlavam o comércio de prata, a Santa Inquisição empreendeu o seu agir de purificação: os dirigentes judeus foram queimados, a sua riqueza confiscada, e os cristãos fizeram-se carregar do fabuloso próspero comércio da prata”.


Na procura desesperada de refúgio, os judeus de Holanda – a maioria em Amsterdão- acharam uma sociedade tolerante, dirigida por governantes que consideravam a Espanha e Portugal inimigos [nota: ver ao respeito, entre outras, a interessantíssima obra de Gabriel Albiac, “La Sinagoga vacía” e “A anomalia selvagem” de Toni Negri]. Os holandeses não desanimaram aos judeus de Amsterdam para que viajassem às Índias Ocidentais e se convertessem em bucaneiros que combatessem às nações que se converteram nos seus perseguidores. 


Situados neste contexto, Kritzler analisa várias sagas de judeus que se lançaram ao mar como piratas, ou que realizavam missões próprias de corsários desde terra. A narração às vezes é algo descabeçada, mas o material é tão rico que o livro só assim resulta.


Fonte:
De STEVE WEINBERG
"simonbarkochba.blogspot.com"

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A Inveja segundo José Gil


O Medo de Existir
 
 


O ressentimento e o ódio alimentavam o queixume, num discurso recorrente até à exaustão: «este país é uma merda», «está entregue aos bichos», etc. E, de cada vez, o sujeito da enunciação excluía-se do conjunto nomeado, como se não lhe pertencesse. Era uma maneira (um gesto linguístico mágico) de se separar, de se diferenciar de todo aquele mal detestado em que se encontrava mergulhado. Por outro lado, nomeava-se assim o inominável: o mal, a doença metastásica que atacara o país.




É neste contexto de forque se deve situar a inveja.
 
 
Forças poderosas de ressentimento resultantes do esmagamento das forças de vida e da sua transformação em forças de morte. Com uma semi-reviravolta: não se voltaram inteiramente contra si mesmo, encolheram-se, comprimiram, adaptaram-se à escala da humilhação – e puseram-se a circular enclausuradas, sob as formas várias do ressentimento, da abjeção, da inveja.

Formou-se deste modo uma sociedade paradoxal, em que um dos aspetos importantes dos laços de sociabilidade consistia em recusar esse mesmo aspeto da relação política. Em guerra espiritual e verbal contra o país, os indivíduos juntavam-se como cidadãos para conspurcar o país. E assim mantinham a comunidade nacional cada vez mais coesa. Tubo de escape perverso que dava a volta para se conectar de novo com o motor, alimentando-o com os seus gases venenosos. (Complementar, inverso e simétrico deste, um outro fenómeno se desenvolveu ao mesmo tempo, nas camadas cultas da população: a crença na genialidade pessoal, com as mais diversas expressões megalómanas. O número de artistas, escritores, pintores, estudantes, intelectuais que se julgavam génios durante o salazarismo era incontável. Fenómeno de compensação imaginária, habitual em todas aa ditaduras, ao que parece: nos países de Leste, recentemente libertados, os génios imaginários pululam, como ainda hoje em Portugal.)

Situar a inveja neste contexto significa considerá-la dentro de um meio em que todas essas forças (de ressabiamento, de queixume, de ódio) se contaminaram umas às outras. É dentro de um banho de ressentimento que melhor se desenvolve a inveja. É no queixume implícito de se achar a si mesmo pequeno que se inveja alguém que pretende ser maior. Na «democracia afetiva» do salazarismo, o nivelamento fazia-se sempre por baixo: o sentimentalismo definia o ser humano reduzido, pequeno, infantilizado. Compreende-se assim que o 25 de Abril tenha aberto uma panela de pressão de invejas e ressentimentos subitamente prontos a cultivar-se e aplicar-se sem entraves. O salto brusco do estatuto social, sem passar pelas etapas intermédias habituais, que as revoluções ou mudanças profundas de regime político permitem, ia lançar toda uma série de gente na corrida aos postos superiores, aos «tachos», aos privilégios de toda a ordem; e atrás dela, como flechas certeiras, seguiam milhares de invejas.
Mais precisamente, a generalidade da ação da inveja em Portugal é tão vasta que, tal como o medo, constitui um sistema. Não se trata, pois, de uma relação a dois (que pode também ocorrer e ser decisiva), mas de uma relação coletiva implicando, de cada vez, um número variável de indivíduos pu de grupos. Os efeitos do sistema das invejas não são visíveis: ora paralisante, ora desacelarador de uma dinâmica, ora descarrilador, provocando acidentes em catadupa, adiamentos sucessivos, etc.
 
 
 
Como é que a inveja pode ganhar uma força tão grande que chega a entravar o trabalho de um grupo?
 
 
 
Note-se, antes de mais, que a inveja implica uma relação de forças. Joga-se, na inveja, uma luta pelo poder de que sairá um dominante e um dominado. Por isso a inveja entra na categoria das «relações de influência».

Uma condição prévia deve existir para que a inveja seja eficaz: que a futura vítima se encontre em estado de recetividade inconsciente, quer dizer, de vulnerabilidade particular (o que a terminologia da feitiçaria portuguesa designa por «ter o corpo aberto»). Como se diz comummente, o indivíduo «não sabe o que quer», ou «não tem uma personalidade firme». Ou ainda: o seu poder sobre si é frágil, pouco definido; o seu poder de afirmação não se manifesta: a sua vontade de poder é débil, etc. Resumindo, é alguém facilmente influenciável.
(o autor discorre sobre condições propícias ao desenvolvimento da inveja. Aqui vou apenas apontar uma situação que se prende com a inveja no grupo).
Primeira condição, o fechamento do grupo. Voltado para si próprio, sem «fora», o seu ar estagna e a sua atmosfera homogeneiza os comportamentos latentes, prontos para o ressentimento e a agressividade. A diversidade, o imprevisto e o acaso desaparecem. O grupo ganha uma atmosfera específica (com as características próprias de densidade, viscosidade, velocidade de partículas, vetores de fluxos) que permite denominá-lo grupo de invejas. Existindo na atmosfera, agora a inveja subsiste por si, ataca por si. Como um vírus.

Como sair deste sistema? Como fazer para começar a fazer? A uma questão semelhante que lhe punha um bailarino (que queria saber como realizar tal gesto aparentemente impossível), o coreógrafo americano Merce Cunningham respondeu apenas: «Fazendo».



Não há outra resposta. Há sim, também, a construção das melhores condições para que o fazer se faça, para que nasça o desejo irreprimível de fazer, deixando de falar inutilmente da necessidade de ação. Cabe aos que nos governam essa tarefa – já que eles têm por imperativo decidir -, desde obrigar ao cumprimento da lei à criação de tudo o que possa contribuir para que, na comunidade, um encontro seja uma ocasião de alegria.

In Portugal Hoje: O Medo de Existir

Artigo enviado pela minha querida amiga Sónia Craveiro




A mulher no Judaismo



Preconceitos e mitos


Gostaria de saber: qual é o papel da mulher no judaísmo, além de criar os filhos segundo a orientação da Torá? Como o judaísmo vê a mulher? O que fez de Débora juíza sobre o nosso povo em uma época em que a mulher não podia ocupar nenhum cargo de liderança?

Primeiramente, gostaria de fazer algumas perguntas: por que é que a Torá louvaria e descreveria histórias de várias mulheres que lideraram e foram exemplo no povo judeu, como Miriam, Débora e Yael, se sua função fosse apenas criar filhos? Se seu papel fosse apenas em casa, porque seria mencionado um "mau exemplo" de envolvimento com a comunidade?



"E D'us criou a Mulher..."    




Porque é que no judaísmo, mesmo os homens mais elevados são considerados incompletos até que não se casem e unam-se a uma mulher?
Porque há tantas leis na Torá referentes ao casamento que considerem a mulher, entre as quais a de que o consentimento da mulher é imprescindível para que possa haver uma união, e a que obriga um homem a conceder o divórcio a sua esposa, caso seja essa a vontade dela?

A resposta para estas e muitas outras perguntas é: o judaísmo é igualitário, tanto os homens quanto as mulheres têm a mesma importância e são imprescindíveis para nosso povo. O que existe é o preconceito do preconceito.



Infelizmente é comum ouvir por aí que no judaísmo existe um preconceito contra as mulheres. Muita gente acha, que o facto das mulheres se sentarem na sinagoga atrás de uma mechitsá (elemento físico utilizado como divisória em um ambiente que serve para separar os homens das mulheres), e de não cumprirem certas mitsvot, as torna "segunda categoria". Se descobrissem e pesquisassem os verdadeiros motivos, certamente mudariam completamente de opinião.

Estes são os argumentos de quem olha de fora, superficialmente. Porém, pergunte a uma mulher religiosa, e ela responderá: não é nada disto! O judaísmo é uma construção, precisa de arquitectos, pedreiros, pintores, decoradores. Todos são igualmente imprescindíveis. Cada um tem sua função, e se não for ele, ninguém a fará. Não adianta colocar um pincel na mão de um pedreiro, ou uma pedra na mão do pintor. Da mesma forma, o homem e a mulher receberam as mitsvot e funções necessárias para efetuar sua parte na construção e se completarem nesta tarefa.

Mitsvot são meios de chegar a D'us. Uma mulher não precisa ser chamada na Torá ou ser chazan, porque, neste aspeto, já está próxima a D'us. Já o homem necessita destas mitsvot para alcançar a proximidade que lhe falta.

A mulher é chamada de "Akeret Habayit" - a fundação do lar. É ela que tem a capacidade e as características de segurar uma casa. Devemos estar conscientes do grande mérito que é esta função, já que, analisando bem, toda a base da sociedade e de cada indivíduo está em sua casa. Seu principal investimento é na sua família, sim, mas não pelo falso argumento dela ser inferior ou incapaz de fazer outra coisa.

É justamente pela importância e delicadeza desta "mini empresa", que exige a astúcia e o toque de uma mulher. Porém, tendo em mente a importância e a proporção certa das coisas, nada impede que uma mulher exerça também outras funções, que esteja envolvida com a sociedade. E mais, se possui talentos e dons, estes lhe foram dados para usá-los. Se D'us os deu, porque deveria abrir mão de suas habilidades?

Nenhum rabino dirá que a mulher é apenas uma reprodutora e deve ficar trancada em casa. Talvez quem diga isto seja um grupo de pessoas preconceituosas, discursos e filmes que deturpam o sentido do judaísmo e danificam a sua imagem.


Devemos sempre procurar o verdadeiro porque e como das coisas com quem realmente lida com elas, e livrarmos-mos dos preconceitos que acabam por penetrar na nossa maneira de pensar e de ver as coisas.



Pintura de Jacob Pichhadze


Fonte:

domingo, 12 de fevereiro de 2012

“LICENÇA DE PARTO”


A ORIGEM DO CONCEITO


Num período de dois anos, entre 1913 e 1915, a América seguiu atentamente uma dura batalha judicial que haveria de mudar radicalmente a forma como as mulheres eram encaradas nos locais de trabalho.
    Uma professora de Nova Iorque foi despedida a 22 de Abril de 1913 por estar grávida, com as autoridades escolares a defenderem o despedimento com base em “negligência do dever com o propósito de dar à luz”.
    Numa atitude rara para a época, a professora não aceitou a decisão dos seus superiores e levou o caso a tribunal. Dois anos depois, o processo acabaria por instituir as bases de um direito que alastraria por todo o globo: a licença de parto. Esta professora, uma sefardita de ascendência portuguesa e membro da comunidade de judeus nova-iorquinos, chamava-se Bridget Peixotto e foi pioneira na luta pelos direitos laborais das mulheres.
    Finalmente, em Janeiro de 1915, Bridget Peixotto foi reabilitada nas suas funções prévias com salário pago por completo. Três anos depois, em 1918, tornou-se directora da escola, mantendo-se no magistério primário em Nova Iorque até se reformar, em 1948, quando atingiu a idade limite de 70 anos.
    Bridget Peixotto faleceu a 10 de Abril de 1972, em Nova Iorque, aos 94 anos de idade, deixando um legado invejável. No obituário que lhe dedicou dois dias após o seu falecimento, o New York Times afirmava que ela era “responsável pela institucionalização da licença de parto por todo o país e pelo mundo.” O seu caso permitiu que largos milhares de mulheres pudessem tirar uma licença para dar à luz. A decisão motivou também alterações no sistema do sector privado, fazendo com que hoje seja perfeitamente normal que uma mulher possa manter o emprego quando fica grávida.”

Artigo enviado pela minha querida amiga Sónia Craveiro.




Adaptado de:
 

Fig.1: Bridget Peixotto com a filha Helen Esther Peixotto

sábado, 11 de fevereiro de 2012

À procura de Sefarad em Portugal

 
 

Apesar de não abundar a literatura sobre o judaísmo português, é já possível construir uma pequena biblioteca sobre os trajectos do sefardismo e do marranismo. Destacam-se alguns títulos, sem preocupação exaustiva.
 

Dois dicionários condensam nomes, biografias e temas: "Dicionário do Judaísmo Português" (coordenado por Lúcia Liba Mucznik e outros) e "Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses - Mercadores e Gente de Trato" (dirigido por A.A. Marques de Almeida).
Jorge Martins publicou em três volumes a obra "Portugal e os Judeus", que depois sintetizou na "Breve História dos Judeus em Portugal". No mesmo registo, pode ler-se o texto fundamental de Carsten L. Wilke, "História dos Judeus Portugueses".
 

Ainda no domínio da história do judaísmo português, podem ler-se "A Herança Judaica em Portugal" e "As Judiarias de Portugal", ambos de Maria José Ferro Tavares.
Sobre trajectos mais específicos, foi agora reeditada a obra já clássica de Samuel Schwarz sobre os judeus de Belmonte, "Os Cristãos-Novos em Portugal no Século XX". Maria Antonieta Garcia estudou o "Judaísmo no Feminino" e "Os Judeus de Belmonte", também investigados por David Augusto Canelo em "Os Últimos Criptojudeus em Portugal". António Carlos Carvalho contou a história d' 2Os Judeus do Desterro de Portugal", Avraham Milgram publicou um ensaio sobre "Portugal, Salazar e os Judeus" e Fátima Sequeira Dias estudou os judeus dos Açores nos séculos XIX e XX em "Indiferentes à Diferença". Em tempo de centenário republicano, Jorge Martins estudou ainda as relações mútuas entre "A República e os Judeus".
 
 
Não sendo judeu, Aristides de Sousa Mendes salvou milhares de vidas de hebreus e o seu retrato foi escrito por Rui Afonso em "Um Homem Bom". Outros perfis biográficos são os de "Gracia Nasi", a mais importante judia sefardita portuguesa, contada por Esther Mucznik, e "Jacob de Castro Sarmento", de António Júlio de Andrade e Maria Fernanda Guimarães. Estes mesmos autores recuperaram uma saga familiar em "A Tormenta dos Mogadouro na Inquisição de Lisboa". Elvira de Azevedo Mea e Inácio Steinhardt contam a história do capitão Barros Basto, ou Ben Rosh, que procurou resgatar do esquecimento os marranos de Belmonte. E João Vila-Chã conta, em inglês, a vida e obra de Judah Abravanel: "Amor Intellectualis? Judah Abravanel and the Intelligibility of Love".
 

Texto clássico de um judeu português, a "Consolação às Tribulações de Israel", de Samuel Usque, está também disponível. E Ana Bela Santos cruza registos históricos com a ficção em "Fala Yael Castelo de Vide, os Judeus e a Inquisição".
 
 

Retirado do site: